Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
Mudanças nas carteiras de valorização e as nuances do mercado
Após um início de ano bem complicado para o mercado de ações do Brasil, a bolsa “andou de lado” desde nosso último relatório. Ou seja, uma alta bem pequena. Vamos comentar sobre o que aconteceu neste ano até agora, bem como trazer uma pequena lição sobre nossa filosofia de investimentos. Por fim, nós ainda vamos apresentar algumas alterações em nossas carteiras de valorização para que ela fique totalmente de acordo com o ideal.
Começando com uma rápida pincelada no primeiro mês do ano. No cenário macro global, o mês de janeiro foi de ganhos nas bolsas americanas e europeias. Tanto o índice americano S&P500 quanto o europeu Stoxx600 encerraram o mês em alta, de 1,6% e 1,4% respectivamente. Contudo, ao contrário dos últimos meses, a alta desses índices não veio em conjunto com a melhora em outras classes de ativos, em especial os rendimentos dos Treasuries de 10 anos, que acabaram subindo 0,03%. Além disso, o DXY, que mede o desempenho do dólar americano frente a uma cesta de moedas fortes, subiu 1,9%.
A principal justificativa desses movimentos internacionais mistos é a reprecificação do mercado quanto ao início do ciclo de cortes de juros nas principais economias, com destaque para a economia americana. Enquanto no final do ano passado encontrávamos uma forte sensação de otimismo frente a uma possibilidade de cortes de juros americanos ainda no 1T24, hoje o clima é de um ajuste nas expectativas com as últimas divulgações de indicadores.
E o sentimento de ajuste se confirmou com a divulgação de dois dados importantíssimos nos EUA: o payroll e a inflação (que chamamos de CPI). O primeiro é o índice utilizado como uma proxy para medir a questão empregatícia nos EUA. Em bom português, ele mede a quantidade de vagas de emprego criadas no período. Se muitas vagas são criadas, isso é um sinal que a economia está aquecida (já que as empresas estão precisando de mais pessoas) e isso pode levar a uma alta na inflação (se todo mundo está empregado, vai ter mais pessoas gastando). O que aconteceu? Enquanto o consenso estimava uma geração de 185 mil vagas no mês de janeiro, o resultado efetivo foi de 353 mil postos de trabalho criados. Pelo lado da inflação, o CPI subiu 0,3% em janeiro, contra 0,2% que era esperado pelo mercado.
A “receita de bolo” da macroeconomia indica que se juntarmos empregos em alta com inflação acima da expectativa, precisamos ter uma taxa de juros mais alta para equilibrar o “sabor” e impedir uma “intoxicação inflacionária”. O Fed (que é o Bacen dos EUA) estava bem cauteloso com a redução da taxa de juros e Jerome Powell, presidente deste órgão, já indicava que a probabilidade de corte de juros em março era baixa. Com esses dados de fevereiro, as chances de corte no mês que vem são praticamente nulas. O mercado agora aposta que o primeiro corte será três meses depois, em junho.
Com um crescimento econômico forte e juros altos, é natural observarmos um fluxo de moeda estrangeira saindo de países emergentes e voltando à economia americana, como ocorrido no mês de janeiro. O racional é simples: é bem difícil recusar um investimento na maior economia do mundo a uma taxa mais alta que o normal.
Assim, para o Brasil, já começamos o ano “perdendo” dinheiro gringo. Outro destaque negativo fica para a divulgação dos resultados fiscais. O governo federal registrou um déficit primário de R$ 230 bilhões em 2023, que representa 2,1% do PIB. Desde 1997, esse resultado só perdia para o déficit registrado em 2020, ano no qual foram registrados gastos extraordinários com a pandemia da covid-19.
O valor ficou um pouco acima da projeção do Orçamento de 2023, que era de R$ 228 bilhões. Também superou a última projeção, de novembro, que previa R$ 177,4 bilhões. Além disso, também ficou acima da “meta informal” do governo. Em janeiro de 2023, o ministro da Fazenda havia estimado que o resultado ficaria abaixo de R$ 100 bilhões, representando em torno de 1% do PIB.
Segundo o Tesouro, o resultado foi impactado por um pagamento extraordinário de precatórios de R$ 92,4 bilhões. Em razão da PEC dos Precatórios, o STF determinou que a União quitasse a dívida acumulada em 2022. Desconsiderado esse pagamento, o déficit cairia para R$ 138,1 milhões ou 1,27% do PIB.
Outra influência não recorrente no resultado foi o acordo para compensação da União aos estados e ao Distrito Federal pela perda de arrecadação com o teto de ICMS sobre combustíveis, ocorrido em 2022. Excluindo esse efeito, o déficit seria de aproximadamente R$ 117,2 bilhões, ou 1,08% do PIB. Resultado que ficaria mais próximo à “meta informal” dada pelo governo.
Somado ao déficit acima do esperado, outro acontecimento que gerou muita preocupação no mercado foi o anúncio do programa Nova Indústria Brasil. Nele, o governo pretende disponibilizar R$ 300 bilhões em financiamentos destinados à nova política industrial até 2026. Os administradores desse montante seriam o BNDES, a Finep e a Embrapii. Com um cenário fiscal já prejudicado, a divulgação desse programa levantou novas dúvidas quanto ao compromisso do governo com a busca pelo déficit zero em 2024.
Por fim, a cereja do bolo: a inflação brasileira, medida pelo IPCA, fechou janeiro em uma alta de 0,42%, um valor acima dos 0,34% esperados pelo mercado.
Os acontecimentos acima mencionados, externos e internos, acabaram repercutindo negativamente em terras tupiniquins, o que ocasionou a saída de investidores estrangeiros e o Ibovespa acumulando uma queda de 3,73% em 2024 até a metade de fevereiro. Nem a única notícia boa, que foi o corte de 0,5 p.p. nos juros pelo Copom no dia 31/01, foi suficiente para manter aquele otimismo do fim do ano passado.
Ou seja, foi um prato cheio para os pessimistas… E também para quem sabe enxergar as oportunidades. Mas aí merece um breve textinho.
Afinal, o que é ser racional?
De acordo com Damodaran, o papa do valuation, o mercado de ações, assim como a luz, pode ter um comportamento dualístico: eficiente ou ineficiente (quase como a situação de onda-partícula).
“Se os mercados não forem eficientes, o preço de mercado pode desviar-se do valor real e o processo de valuation é direcionado para a obtenção de uma estimativa razoável desse valor. Aqueles que fizerem um bom valuation serão, portanto, capazes de obter retornos mais elevados do que outros investidores devido à sua capacidade de detectar empresas subvalorizadas e sobrevalorizadas. No entanto, para obter estes retornos mais elevados, os mercados têm de corrigir os seus erros (ou seja, precisam tornar-se eficientes) ao longo do tempo.” (Investment Valuation, de A. Damodaran)
Quando o mercado está com bastante ruído no curto prazo e o preço da ação é penalizado por conta disso, o mercado estaria no seu comportamento ineficiente. Apesar das variáveis econômicas afetarem a todos nós (inclusive o valuation), nossas projeções são de longo prazo. Caso a tese não mude e a economia não vá pelo ralo (como nos anos 80), essas quedas pontuais são como um ruído no preço.
Algo que nós costumamos falar é que não há nada pior que ganhar dinheiro sem saber o motivo, já que quando você começar a perder (pois o mercado tem momentos de baixa), também não saberá o motivo. Como ficamos meses analisando cada empresa que recomendamos, nós temos bastante “paz de espírito” para navegar no mercado da Bolsa de Valores. É como citamos ali em cima:
“Aqueles que fizerem um bom valuation serão, portanto, capazes de obter retornos mais elevados do que outros investidores devido à sua capacidade de detectar empresas subvalorizadas e sobrevalorizadas.”
Mas, novamente, os mercados precisam se tornar eficientes para ir em direção ao preço-alvo. Quando isso irá acontecer? Ninguém sabe! Nossa função aqui é achar os cases com maior assimetria e montar uma carteira que combine com a estratégia proposta.
No relatório de hoje vamos focar em ajustes necessários para as carteiras de valorização, visando torná-las mais eficientes dentro da nossa filosofia de investimentos. Nos próximos dias, postaremos também um relatório focado na Carteira de Renda, então, fique atento!
Carteira de Valorização
Sai Tegma, entra Fleury em todas as carteiras com patrimônio acima de R$ 10 mil
Estamos optando por tirar a Tegma de nossa Carteira de Valorização. Nesse caso em específico, ela perdeu o perfil para compor a carteira, pois viu uma valorização considerável de 2023 para cá, tanto é que chegou a ultrapassar o nosso preço-teto (R$ 25,50) brevemente e agora está gravitando ao redor desse valor. Por isso, acreditamos que o potencial de valorização da empresa caiu bastante, de forma que o retorno para quem carregar TGMA3 deve vir em forma de dividendos. Ou seja, o perfil mais adequado para TGMA3 seria um perfil de geração de renda.
Com a saída de Tegma da carteira, recomendamos a compra das ações de Fleury (FLRY3). O Fleury destaca-se como uma das principais empresas de medicina e diagnóstico do país. Além disso, recentemente completou o casamento com o Hermes Pardini. Essa fusão gerou uma companhia que se complementa e ganha valor pelo ponto de vista geográfico, perfil de receita e resolução de gargalos. Vamos contar um pouco mais sobre essa história.
O início
São Paulo, 1926. Foi nesse local e ano que o doutor Gastão Fleury abriu um pequeno laboratório de análises clínicas. Com um grande foco na inovação e na prestação de serviços de diagnóstico integrados, o pequeno laboratório prosperou.
Noventa e seis anos depois, o foco na inovação em soluções integradas de medicina diagnóstica continua, mas com uma escala infinitamente maior. O pequeno negócio de Gastão se transformou no Grupo Fleury, a segunda maior empresa de medicina diagnóstica do Brasil, com receita líquida de R$ 7 bilhões em 2022.
Foi em 2002 que o Grupo Fleury começou a comprar vários laboratórios espalhados pelo país, na tentativa de consolidar o setor, que era extremamente fragmentado. Para você ter ideia, apenas de 2002 a 2009, o Grupo adquiriu 24 marcas. Isso dá uma média de três empresas por ano!
Nesse mesmo tempo, o Grupo passou a aprimorar sua governança corporativa, visando a uma futura abertura de capital na Bolsa. O tão sonhado IPO veio em 2009, com o laboratório paulista entrando no Novo Mercado e levantando R$ 630 milhões pro caixa da empresa.
E adivinha para que foi usado esse dinheiro? Para comprar mais empresas, é claro!
No ano seguinte ao IPO, o Grupo Fleury acertou a compra de dois laboratórios: o paulista DI, focado em exames de imagem em hospitais, e a segunda maior do Grupo Fleury até 2023, o Labs D’Or, a antiga empresa da Rede D’Or, que está de saída da carteira.
Ao mesmo tempo que integrava as operações do Labs D’Or, o Grupo Fleury iniciou um processo de redução do número de marcas, transformando diversas das suas bandeiras espalhadas pelo Brasil em uma nova marca, a A+. Para fechar, o Grupo ainda começou a abrir várias unidades de atendimento (UA) justamente na recém-lançada marca.
O resultado foi uma perda forte de lucratividade, com a margem Ebit (que é o lucro operacional dividido pela receita total) caindo de 19,3% em 2010 para 12,5% em 2011. O fundo do poço foi em 2013: a margem Ebit chegou a 10,2%.
Com resultados bem fracos, o Grupo Fleury passou a trocar de CEO como os clubes de futebol trocam de técnico. Até que, em 2014, Carlos Marinelli, um administrador de empresas, passou a comandar a rede de laboratórios.
E foi nas mãos de Marinelli que os resultados do laboratório paulista voltaram a ficar bem saudáveis. O diagnóstico feito por Marinelli foi que as novas unidades e as adquiridas depois do IPO estavam performando muito mal.
Para virar esse jogo, Marinelli focou na melhoria em quatro pilares:
1 - Produtividade dos funcionários no atendimento;
2 - Produtividade na coleta de análises clínicas;
3 - Taxa de utilização de equipamentos como ressonância e tomografia;
4 - Nível de satisfação dos clientes.
O tratamento deu muito certo e a margem Ebit quase dobrou entre 2013 e 2017, passando de 10,2% para 20%, mesmo com o país enfrentando uma das maiores recessões de sua história nesse período.
Em 2018, o laboratório comandado por Marinelli começou a mudar sua estratégia, deixando de focar somente na medicina diagnóstica para tentar se transformar numa empresa de medicina de baixa complexidade. A ideia era entrar em novos segmentos, chamados de Novos Elos, para expandir a área de atuação do Grupo e seu mercado endereçável.
Os movimentos passaram a ser no sentido de uma série de aquisições, com empresas de gestão de saúde, hospitais de baixa complexidade, centro de infusões, centros oftalmológicos, e-commerce de testes genéticos e até mesmo um fundo de corporate venture capital para investir em startups do setor de saúde
E, ao final de 2020, Marinelli deu uma tacada muito importante. Lançou o Saúde iD, uma plataforma online com o objetivo de centralizar a jornada de saúde do paciente.
Em 2021, para surpresa de muitos, Carlos Marinelli saiu do cargo de CEO, sendo substituído por Jeane Tsutsui, médica que já fazia parte da diretoria do Grupo Fleury desde 2012.
Nas mãos de Jeane, o ritmo de aquisições se acelerou ainda mais. Houve a aquisição da Vita, uma rede de clínicas ortopédicas, abertura da clínica Fleury Fertilidade, voltada para medicina reprodutiva, e o lançamento do Pupilla, uma plataforma de ensino digital.
Em 2022, foi adquirida a Saha, um centro de infusão e hospital-dia, além de outras unidades, como a Retina Clinic, uma rede de centros oftalmológicos especializados em tratamentos de retina. Houve também a aquisição do laboratório mineiro Méthodos. É muita coisa!
Bom, se fosse só isso, já seria muito, mas houve mais uma bem importante.
Jeane abriu a carteira e comprou o laboratório mineiro Hermes Pardini (ex-PARD3), a terceira maior rede de laboratórios do Brasil, pagando R$ 2,2 bilhões pelas ações da empresa. Desse montante, mais ou menos 90% foram pagos em ações e 10% em caixa. A aquisição foi concluída no primeiro trimestre de 2023, criou um monstro com R$ 7,1 bilhões de receita e 520 unidades de atendimento espalhadas por 13 estados e o Distrito Federal.
A maior transação da história do setor de medicina diagnóstica no país tem alguns motivos.
O primeiro motivo é a geografia. O Hermes Pardini tem a maior parte de suas unidades de atendimento localizadas em Minas Gerais, estado onde o Grupo Fleury ainda não atuava. Outros estados em que o Pardini está, mas o laboratório paulista não tem UAs, são Goiás e Pará.
A outra forma como Fleury e Pardini se complementam é pelo perfil de receita. Enquanto o B2B representa em torno de 20% das vendas do laboratório paulista, seu rival mineiro tem aproximadamente 57% do seu faturamento vindos desse tipo de serviço.
Modelo de negócios
O Fleury divide suas operações em quatro segmentos principais: Medicina Diagnóstica B2C, Medicina Diagnóstica B2B, Novos Elos e Plataforma de Saúde.
B2C
Esse segmento é o que fez o Grupo Fleury ficar famoso. As unidades de atendimento (UAs) são aquelas lojas onde você vai ter o seu exame de sangue ou urina coletado e até realizar uma tomografia ou uma ressonância magnética.
Aliás, uma das principais maneiras de aumentar a produtividade de uma loja é exatamente essa: reunir, em um só lugar, todos os equipamentos necessários à realização de diversos tipos de exames. Esse conceito é chamado de one-stop shop e é bastante usado pelo Grupo Fleury em suas UAs.
Os exames realizados podem ser divididos em dois tipos principais: as análises clínicas, que são os exames mais básicos, como os de sangue e urina, mencionados ali em cima, e os de imagem, como a tomografia ou a ressonância magnética.
As 523 lojas do Grupo Fleury estão divididas em 17 marcas, que por sua vez são divididas em quatro grupos. Todas essas bandeiras são voltadas ao público premium e/ou intermediário (exceto pela marca Campana), seguindo a tradição do Grupo de oferecer serviços de qualidade para as camadas de maior poder aquisitivo da sociedade.
Fleury
A marca que dá nome ao Grupo não é só a mais famosa, mas também a mais importante, focada no segmento de maior valor agregado, e com unidades somente em São Paulo e no Distrito Federal.
Marcas A+ São Paulo
Nesse grupo estão as UAs da marca A+ localizadas no Estado de São Paulo e a Campana. A marca A+ realiza serviços no nível intermediário, enquanto a Campana é uma marca focada no atendimento móvel.
Marcas Rio de Janeiro
A cidade maravilhosa e sua região metropolitana são atendidos por três marcas do Grupo Fleury. No segmento intermediário, são duas marcas. A maior e mais famosa é a Labs A+, uma conjunção da marca Labs D’Or. A outra bandeira carioca que atende a classe média é a LAFE.
A bandeira premium é a Clínica Felippe Mattoso, que foi adquirida na mesma transação do Labs D’Or e é voltada para os clientes de maior poder aquisitivo.
Marcas regionais
Nesse segmento estão todas as outras bandeiras do Grupo Fleury espalhadas pelo Brasil, como a Weinmann, Serdill, Pretti, Marcelo Magalhães, Diagnoson, IRN, além da marca A+, que opera fora de São Paulo.
Atendimento móvel
O atendimento móvel é basicamente o serviço de exames em domicílio. Nele, um profissional do Grupo Fleury vai até a sua casa e realiza a coleta do material a ser examinado.
O motivo para o Grupo Fleury manter suas fichas no atendimento móvel é claro: ele permite um ganho de produtividade para as lojas, já que uma boa parte dos exames nesse tipo de serviço é feita à tarde, quando as unidades estão mais vazias.
B2B
Além dos exames feitos pelas unidades de atendimento, o Grupo Fleury também faz exames e análises para outras empresas, como hospitais e outros laboratórios, que às vezes nem área técnica têm.
Vale ressaltar que, após a fusão com o Hermes Pardini, a proporção de receita advinda da unidade B2B, nos nove primeiros meses de 2023, saltou para 23%, frente a uma média de 16% entre 2017 e 2021.
As operações hospitalares são aquelas em que os hospitais terceirizam os exames feitos por lá para um laboratório parceiro. No caso do Grupo Fleury, ele possui centrais de processamento dentro de hospitais, para processar exames que precisam ter respostas urgentes.
No Lab-to-Lab, o Grupo Fleury realiza o exame para outro laboratório. Geralmente, são exames complexos, sendo que o laboratório que terceirizou a análise não tem a capacidade ou a experiência para realizar e analisar aquele tipo de exame. Nesses casos, o Grupo coleta o material a ser analisado e presta assessoria para o outro laboratório na interpretação dos resultados. Esse, inclusive, é um dos focos da Hermes Pardini.
A Medicina Preventiva são as receitas que a empresa consegue realizando check-ups e realizando a gestão de doenças crônicas. Essa quase não é representativa.
Novos Elos e plataforma de saúde
Nos últimos anos, o Grupo Fleury resolveu expandir seus ramos de atuação, entrando em novas especialidades médicas e prestando outros serviços fora do seu core de medicina diagnóstica. A ideia é aumentar o mercado endereçável da empresa, que antes se restringia somente a exames de análises clínicas e imagem.
Uma importante vantagem da entrada em Novos Elos é que o Fleury pode passar a oferecer outros serviços em suas unidades de atendimento, aumentando assim a produtividade. Durante a tarde, por exemplo, a quantidade de pessoas que procuram exames é baixa e a UA que estiver vazia pode passar a oferecer infusões de medicamentos, entre outros serviços de atenção primária.
Por fim, a gente tem que falar da menina dos olhos dentro desses Novos Elos, a Saúde iD. Ela se propõe a ser uma plataforma que centraliza toda a experiência do paciente, para que ele tenha uma visão única e integrada da sua saúde.
Para centralizar a experiência do paciente na plataforma, a Saúde iD oferece o agendamento e realização de consultas, tanto presenciais quanto remotas, marcação e resultados de exames diagnósticos, consulta do prontuário eletrônico do paciente, gerenciamento de doenças crônicas e também um marketplace que oferece desde venda e entrega de medicamentos até cirurgias de baixa complexidade.
Valuation
Para avaliarmos a empresa, a gente fez um modelo de DCF (fluxo de caixa descontado) até 2027.
Utilizamos o resultado já consolidado entre Fleury e Pardini, levando em consideração as sinergias esperadas que foram divulgadas pela companhia.
Em nossas premissas, projetamos que o grupo terá um crescimento na receita bruta de, em média, 10% a.a. Além disso, a margem Ebit será inicialmente de 17% e avançará à medida que as sinergias são capturadas, chegando até 18% em 2027.
E mesmo com uma receita crescendo menos que a média histórica da companhia, e uma margem Ebit em linha com o histórico, ainda encontramos um retorno interessante para a empresa.
Tendo em mãos todos esses dados, projetamos os fluxos de caixa livre da empresa até 2027 e também na perpetuidade. O método que usamos foi o FCFF (Free Cash Flow to the Firm), que utiliza uma taxa de desconto para trazer os fluxos futuros a valor presente (WACC).
Dado o upside que encontramos e as perspectivas de crescimento, além das sinergias positivas entre ambas as companhias, resolvemos incluir Fleury na carteira recomendada, com preço-teto de R$ 17,45 e preço-alvo de R$ 22,33.
Sai Simpar, entra Vale nas carteiras com patrimônio entre R$ 10 mil e R$ 50 mil
Agora, vamos ao nosso racional para a retirada de Simpar (SIMH3) da nossa carteira.
A Carteira de Valorização possui uma estratégia um tanto mais defensiva, dando espaço um pouco maior para empresas que estão no Ibovespa, com menos volatilidade. Obviamente, nossa estratégia não proíbe que tenhamos small caps. Mas Simpar perdeu o perfil dessa carteira, considerando que no atual cenário de incerteza macroeconômica a sua variação de preço está parecendo uma verdadeira montanha-russa.
Para o lugar dela, nas carteiras de até R$ 50 mil, estamos realizando uma troca por Vale (VALE3), que já está recomendada para as carteiras acima deste valor. Optamos por essa troca pelo motivo de que buscamos aproximar as carteiras com menor patrimônio à performance do Ibovespa, mas com potencial para ultrapassar o índice.
Sai Taurus, entra SLC Agrícola nas carteiras com patrimônio acima de R$ 50 mil
Agora, vamos ao nosso racional para a retirada de Taurus (TASA4) da nossa carteira.
A Taurus é uma small cap com valor de mercado de R$ 1,8 bilhão. Além disso, como uma fabricante de armas, a empresa atua em um setor extremamente regulamentado, polêmico para a maioria das pessoas e que ainda não é bem visto por grande parte dos fundos de investimentos, que precisam cumprir com suas obrigações de ESG. Só no ano passado, para se ter ideia, depois de uma “canetada” do governo, o mercado brasileiro de armas ficou praticamente paralisado. Isso fez com que a receita da empresa no Brasil tivesse uma queda acentuada de praticamente 75% ao longo dos nove meses de 2023.
Colocando tudo isso na conta, fica mais do que claro que, para investir nessa ação, você precisa estar preparado para comer volatilidade no café da manhã, almoço e jantar. Dessa forma, apesar de acreditarmos que a empresa tenha potencial de valorização, buscamos equilibrar o perfil de risco entre small caps e empresas maiores em nossa carteira, retirando Taurus e colocando a SLC Agrícola (SLCE3) em seu lugar. Essa troca ocorrerá para as carteiras com patrimônio a partir de R$ 50 mil investidos.
A SLC foi fundada em 1945, por Frederico Logemann, no município de Horizontina (RS), o mesmo de onde saiu a gloriosa Gisele Bundchen. A sigla, aliás, é para “Schneider, Logemann & Cia”. Por muito tempo, a SLC era focada no ramo de máquinas agrícolas, porém, em 1977, a empresa comprou a Fazenda Paineira, no município de Coronel Bicaco (RS), que cultivava soja e trigo. Isso fez com que a empresa entrasse de vez para a agropecuária. Esse braço do grupo SLC foi batizado de Agropecuária Schneider Logemann, que é a atual SLC Agrícola.
Hoje, a SLC Agrícola é responsável pela gestão de 23 fazendas espalhadas pelo Brasil, totalizando um portfólio de pouco mais de 674 mil ha plantados na última safra (23/24). Isso dá cerca de 4,4 vezes a área da cidade de São Paulo. Em julho de 2023, a empresa divulgou que uma auditoria externa da Deloitte avaliou todo o portfólio de terras em R$ 10,9 bilhões. De toda essa área plantada, cerca de 51% foi de soja, 24% de algodão e 20,4% de milho.
A área total plantada pode ser o grande destaque para muitos, mas o principal diferencial dessa empresa está no operacional. Para se ter uma ideia, a produtividade da soja na última safra foi de 3.910 kg/ha. Esse valor foi 11,5% maior que a média nacional, divulgada pela CONAB. Ou seja, mesmo em uma área plantada enorme, a SLC ainda consegue se distanciar (positivamente) em relação à média nacional, que já é uma das maiores do mundo.
Por falar do operacional da empresa, essa parte é uma tarefa bem complexa de se projetar em uma empresa de commodities que é exportadora por vocação. Assim, em nosso valuation, projetamos a produtividade para os próximos anos como a média histórica. Isso nos deixa tranquilos em relação a quebras de safras no futuro e pode nos trazer boas surpresas com incremento da produtividade.
A mesma coisa vale para os preços projetados das commodities. Aqui, nós projetamos o preço unitário por cultura com a média histórica em dólar corrigida pela inflação. O argumento se repete pois o preço das commodities é cíclico, tendo momentos bons e outros ruins. Lembrando que o câmbio é projetado pela correção da inflação (Brasil e EUA) futura esperada. Por exemplo, nesses últimos meses o agro brasileiro realmente está num momento difícil do ciclo, com um El Niño trazendo a seca e com uma briga política ferrenha para ver quem acerta no quanto a safra será prejudicada (algo que só saberemos no meio do ano).
Porém, em janeiro, chegou uma bomba positiva. Quatro integrantes da família Scheffer, uma das mais relevantes do mercado agrícola brasileiro, compraram 5,37% da SLC Agrícola por cerca de R$ 445 milhões. Ninguém esperava essa transação, ainda mais vinda de uma família que já possui um grande histórico na exploração de terras.
Quando perguntados pela imprensa, os familiares, representados por Guilherme Eliseu Maggi Scheffer, foram enfáticos:
- Essa forma se mostrou mais eficiente para a alocação de capital.
Ou seja, dentre todas as opções que a família poderia fazer com o dinheiro, como comprar novas terras ou outros negócios, eles concluíram que comprar as ações da SLC seria a melhor opção. O motivo é simples: para eles e para nós, as ações estavam muito baratas. Em uma conversa com investidores, Guilherme Scheffer chegou até a dizer que “hoje é mais barato comprar SLC do que fazenda” e que “as terras do padrão da SLC mais a operação deveriam valer de 2x a 2,5x o valor da ação”.
Aliás, até ano passado, o segundo maior acionista da SLC era o fundo britânico Odey Asset Management. Porém, com várias denúncias de assédio no decorrer do ano, o fundo zerou sua posição e isso, além de derrubar um pouco a cotação, deixou muitos papéis no mercado. Dessa forma, não era inesperado que alguma hora alguém tomasse essa parte. A surpresa (positiva) foi essa fé que os Scheffer depositaram na SLC.
Com o “empurrãozinho” da família Scheffer, que após a aprovação da transação no Cade será o segundo maior acionista da SLC, o papel emplacou uma sequência de alta interessante. Isso afetou nossa decisão? Sinceramente, não! Já acompanhávamos e gostávamos do case há alguns meses. Esse movimento ajudou mais a nos indicar que o próprio agro enxerga a SLC como uma boa empresa.
Além disso, temos projeções até o fim da década que já levam em consideração as oscilações naturais do mercado. Isso nos deixa bem tranquilos com quaisquer movimentos de curto prazo, que não afetam substancialmente a estrutura da empresa, já que é algo esperado.
No fim das contas, nossa SLC Agrícola tem um preço-alvo projetado de R$ 27,95, preço-teto de R$ 27,20 e uma TIR de 19,35%.
Por fim, sai Tupy das carteiras de R$ 500 mil ou mais
Para começar, nossa primeira recomendação é a venda de Tupy (TUPY3). Apesar de gostarmos da empresa, o perfil da companhia não se enquadra totalmente na estratégia que buscamos para a carteira no momento, com um melhor equilíbrio entre small caps e empresas mais estabelecidas.
Para quem não sabe, a Tupy é uma small cap que possui praticamente 50% da sua receita vinda dos EUA, 30% do Brasil, 18% da Europa e 2% da Ásia, África e Oceania. No Brasil, a empresa vem sendo afetada pela menor produção de veículos pesados, decorrente da mudança de tecnologia de emissão de motores (Euro 6/Proconve 8). Como a nova tecnologia é mais cara que a geração anterior, os consumidores anteciparam as compras ao final de 2022. Soma-se a isso a ainda elevada taxa de juros e restrição na oferta de crédito, que também reduzem a demanda pelos produtos da companhia como um todo no país.
Por sua vez, a situação no exterior também não anda muito diferente. Com a inflação global ainda dando as caras, a empresa vê impacto nas suas margens decorrentes dos maiores custos com mão de obra em sua operação no México, e maiores despesas com frete internacional. Isso tudo contribui para que a Tupy possua certa volatilidade nos seus resultados recentes, considerando ainda que a empresa tem sua operação estruturada em quatro moedas diferentes: real, dólar, peso mexicano e euro. Diante desse contexto, optamos por fazer a retirada da ação de nossa carteira no momento, sem a inclusão de uma nova ação em seu lugar.
Um motivo para não trocar Tupy por outro papel é que estamos em um momento da temporada de divulgação de resultados das empresas. Como estamos constantemente testando nossos cases e procurando novos, pode ser que surjam novas oportunidades, a depender do que será apresentado ao mercado. Dessa forma, preferimos esperar um pouco para ver como está a temperatura da água antes de pular direto para novas recomendações que substituíssem essas duas.
E como ficam as ações recomendadas?
Houve recomendação de compra da Fleury (FLRY3) para o lugar da Tegma (TGMA3) em todas as carteiras com valor de R$ 10 mil ou mais.
Retiramos Simpar (SIMH3) de todas as carteiras e colocamos Vale (VALE3) no seu lugar para as carteiras de R$ 10 mil até R$ 50 mil.
Para as carteiras acima de R$ 50 mil, recomendamos a venda de Taurus (TASA4) casada com a compra de SLC Agrícola (SLCE3).
Recomendamos a venda de Tupy (TUPY3) para todas as carteiras com R$ 500 mil ou mais.
Além disso, decidimos que faz sentido as carteiras entre R$ 50 mil e R$ 500 mil também terem todos os ativos que recomendamos. Dessa forma, para quem está nessa faixa, também recomendamos a compra de Bradesco (BBDC4).
Para facilitar, basta conferir como ficam as novas distribuições após a atualização na tabela abaixo:
Porém, após os ajustes, caso você venda mais de R$ 20 mil com lucro nessas operações, ainda temos mais uma etapa.
Pagando a DARF
DARF significa Documento de Arrecadação de Receitas Federais. Ele é um formulário onde pessoas físicas declaram seus rendimentos no mercado financeiro.
Para as operações comuns, existe a isenção de imposto se o ganho de capital existir em vendas de um volume menor que R$ 20 mil dentro de um mesmo mês. Já no day trade, essa isenção não existe.
No caso dos fundos de investimento em ações, a alíquota do Imposto de Renda é fixa em 15% sobre os rendimentos, independentemente do prazo da aplicação. O imposto é cobrado somente na hora do resgate das cotas do fundo.
O prazo para pagamento do imposto sobre o ganho de capital em ações é até o último dia útil do mês seguinte ao da venda das ações.
Você deve emitir um DARF com o código 6015 e pagar no banco de sua preferência ou em casas lotéricas.
Mas tenha atenção, se você não fizer o pagamento no prazo, além dos juros, você pagará multa e tenho certeza que você não vai querer ter problemas com a Receita Federal.
Como emitir um DARF?
Agora que você já sabe o que é a tributação sobre o investimento em ações, aprendeu a calcular o ganho de capital e o imposto que precisa pagar (se tiver que pagar), chegou a hora de aprender a emitir um DARF.
Para emitir o DARF, você vai precisar entrar no site da Receita para entrar no Sicalc Web, que é o sistema de cálculos e pagamentos da Receita. E, para facilitar a sua vida, deixamos o link aqui embaixo.
Site para emitir o Darf: Sicalc (economia.gov.br)
Na primeira página, será solicitado seu CPF e sua data de nascimento. Depois, é só clicar na caixinha de verificação de segurança que o botão “Continuar” vai ser liberado.
Após isso, o sistema vai pedir o seu domicílio atual (normalmente essa opção já vem preenchida). Porém, caso isso não aconteça, você pode digitar o nome da sua cidade que vai aparecer na lista ao lado de um número de identificação.
Nessa mesma página, aparece o campo onde você digita o código do imposto, aquele que falamos lá em cima, o 6015.
Depois, novos campos vão aparecer, e agora é só preenchê-los com bastante atenção.
Em relação à data de consolidação, você pode deixar a que está no sistema. E o tipo de apuração já foi definido quando você indicou o código 6015.
O período de apuração é o mês referente ao seu lucro, ou seja, aquele em que você vendeu suas ações com lucro acima de R$ 20 mil.
Agora, você vai ver que a data de vencimento vai aparecer como sendo o último dia do mês seguinte, assim como mencionamos lá em cima.
Abaixo dela, você vai inserir o valor do imposto a pagar. Preste atenção, pois aqui não é para inserir o valor do lucro.
Assim que preencher todos os dados, o botão “Calcular” vai ficar liberado. Clicando nele, você vai perceber que o imposto vai ser cadastrado na tabela.
Agora, é só clicar em “Emitir Darf” e realizar o pagamento até o vencimento em qualquer grande banco ou casa lotérica. Ele tem essa cara aqui:
E sobre as ações das carteiras O Melhor da Bolsa e Small Caps?
Fiquem tranquilos. Ainda faremos o acompanhamento das ações que estavam nas carteiras O Melhor da Bolsa e Small Caps para que de forma gradual você possa ajustar suas carteiras pessoais.
Vamos avisar o momento ideal de vender as ações que foram recomendadas nas carteiras extintas e, ao mesmo tempo, recomendaremos as ações da Carteira de Valorização. Assim, aos poucos você poderá alinhar suas carteiras.
Vamos começar com O Melhor da Bolsa.
O Melhor da Bolsa
Na carteira O Melhor da Bolsa, teremos poucos ajustes para adequar à Carteira de Valorização. Das 10 ações que tínhamos lá, 7 estão na de Valorização, sendo elas:
● Banco do Brasil
● C&A
● Vale
● Bradesco
● Transmissão Paulista (Isa Cteep)
● Fleury
● SLC Agrícola
As três empresas restantes que eram Tegma (TGMA3), Simpar (SIMH3) e Eletrobras (ELET3) tiveram recomendação de venda a partir do momento que entramos na Finclass.
Agora, podemos seguir para a Small Caps.
Small Caps
Na carteira de Small Caps, das 13 ações que tínhamos lá, apenas 3 já estão na Carteira de Valorização, sendo elas:
● C&A
● Ambipar
● SLC Agrícola
Já retiramos quatro ações, que são Banco ABC (ABCB4), Tupy (TUPY3), Simpar (SIMH3) e Taurus (TASA4), desde que chegamos à Finclass.
Das seis ações restantes, seguem abaixo seus preços máximos de compra e preços-alvos:
Abraços,
Leandro Siqueira