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Multimercados: de volta aos tempos de glória?

Escrito por Felipe Arrais em FUNDOS

19 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • O papel da classe de multimercados na nossa carteira estrutural, atualmente representando 12% do portfólio total.

  • Embora gerar alfa frente ao CDI, um índice desafiador, seja uma tarefa complexa, gestoras com equipes consistentes conseguem se destacar. 

  • A classe oferece flexibilidade para operar em diferentes mercados e cenários, aproveitando sua natureza versátil e acessando oportunidades que, como pessoa física, muitas vezes não estão ao nosso alcance.

  • Visão do cenário macroeconômico e doméstico no mês de abril de 2025.

  • Desempenho dos fundos multimercados da nossa lista de aprovados no período.

Fechamos o mês de abril com um resultado extremamente positivo para uma das classes mais controversas que temos em nossa alocação estrutural da Finclass: os fundos multimercados. 

Por serem fundos que, como o nome sugere, investem em diversos mercados diferentes e frequentemente têm o CDI como benchmark de referência, a classe tem sido um tema central de diversas dúvidas expostas em nossas lives semanais. 

Qual a função dos multimercados em carteira? Como eles ganham dinheiro e como se comportam em momentos de euforia e aversão ao risco? Será que vale a pena pagar as taxas para os fundos que estão perdendo do CDI? 

São questões importantes e que frequentemente são permeadas por meias verdades e desconhecimento de aspectos importantes. 

Nosso objetivo, ao elaborar o relatório de hoje, é destacar a virada de performance dos multimercados no mês de abril e reforçar o papel desta categoria de fundos em nossa alocação estrutural, trazendo todas as discussões pertinentes sobre a performance passada recente. 

Uma ótima leitura!

O papel dos multimercados em nossa carteira

Fundos multimercado não são uma classe de ativos, como renda fixa, ações, FIIs, etc; são, na verdade, uma categoria de fundo que pode investir em diversas classes diferentes. 

Por essa possibilidade, o time de gestão de um fundo multimercado costuma ser extremamente robusto, numeroso e multidisciplinar. Afinal, com tantas possibilidades de investimento, exige-se ainda mais profundidade para escolher o que, de fato, se mostra como uma oportunidade em cada momento do tempo. 

Essa flexibilidade não confere aos gestores qualquer tipo de superpoderes, mas, sim, traz a possibilidade de que eles possam performar bem em diferentes cenários de mercado. 

No ano passado, fizemos uma série de relatórios, que nomeamos de “O Mapeamento de Fundos”, com uma edição dedicada aos fundos multimercado;  eles trazem à tona esse debate da função deste tipo de fundo em nossa carteira, clique aqui para acessar.

Além disso, o relatório mencionado destaca as principais características de nossos fundos recomendados; por isso, recomendamos fortemente a leitura como complemento ao conteúdo de hoje. 

Vamos relembrar algumas características importantes, que justificam a presença desta categoria de fundos em nossa carteira Finclass. 

Operações restritas e shorts

O gestor de um fundo multimercado tradicional tem a função de, juntamente com sua ampla equipe, encontrar as melhores alocações ao redor do mundo. Nessa função, o foco nem sempre é encontrar os ativos com maior probabilidade de valorização, mas, sim, procurar grandes assimetrias ou deslocamentos importantes de preço. 

Essas mudanças de preço podem, inclusive, ser para baixo. Os gestores podem operar vendidos para ganhar dinheiro com a desvalorização de ativos específicos. Um exemplo que gostamos sempre de trazer é o ocorrido no ano de 2022, em que a maior parte das classes de ativos sofreu no mundo. 

O IBOVESPA terminou o ano no positivo, praticamente por conta da alta de empresas de commodities, enquanto a maior parte das ações brasileiras afundou profundamente. As bolsas globais tiveram um péssimo ano com o aumento dos juros promovido nos Estados Unidos - e até mesmo a renda fixa global de alta qualidade não resistiu, tendo o pior ano desde 1929. 

Veja abaixo o gráfico de performance de diferentes classes de ativos em 2022:

No gráfico, a maior performance do ano foi a dos nossos multimercados recomendados, com quase 20% de alta no ano. Em sequência, temos a classe de commodities, seguida pelo IHFA, índice que representa a média dos multimercados da indústria brasileira. 

Em um ano extremamente desafiador, os multimercados fizeram muito bem a leitura de que os juros iriam subir e, com isso, ficaram vendidos a taxa de títulos públicos americanos. Essa leitura foi acertada e fez com que os multimercados, em geral, se destacassem. Para nossa felicidade, nossos recomendados entregaram um retorno substancialmente acima da média da indústria como um todo. 

Mesmo que não mergulhemos em mais dados, podemos ver apenas pelo perfil das linhas traçadas que o retorno conquistado veio com muito mais suavidade, em comparação com outras classes de risco. Ou seja, bom retorno com volatilidade controlada. 

Além disso, a maneira utilizada pelos fundos para capturar essa tendência de alta de juros nos EUA é extremamente difícil de ser executada por uma pessoa física, pois exige operar derivativos e trabalhar com certa alavancagem para fazer com que os retornos sejam relevantes para a carteira. Quantos de nós estaríamos aptos a “operar vendido” em títulos públicos norte-americanos com alavancagem? Melhor deixar a cargo de gestores experientes. 

Isso trouxe um grande alento à carteira de nossos assinantes, naquele ano difícil. Inclusive, ao iniciar 2023, tivemos diversos questionamentos sobre a possibilidade de aumentar a fatia de multimercados. Nossa orientação, à época, foi a de não nos pautarmos pelo histórico recente e incentivarmos nossos assinantes a manter as proporções da carteira estrutural, apesar da boa performance do ano anterior. 

Hoje, com uma performance mais desafiadora, temos observado o movimento contrário, com muitos assinantes pensando sobre diminuir ou até zerar a fatia de multimercados. 

A nossa orientação continua exatamente a mesma!

Por isso, para resumir esta seção, fundos multimercados oferecem mais diversificação e flexibilidade tática em relação ao que conseguiríamos executar por conta própria. 

Diversificador

Antigamente, na época em que houve a primeira onda de popularização de fundos multimercado, a partir de 2010, era comum que os fundos operassem poucas caixinhas de ativos, principalmente juros e moedas. Rapidamente começamos a ver gestoras incluindo ações brasileiras no pacote - e essa foi a realidade média por muito tempo (salvo algumas exceções, como a Gávea, que já explorava muito os investimentos fora do Brasil). 

Hoje, a realidade é totalmente diferente. Os gestores não são mais dependentes apenas do Brasil para entregar seus retornos e, cada vez mais, exploram tendências e classes de ativos internacionais. 

Veja o exemplo da alocação dos multimercados da gestora Kinea:

Fonte: Carta do Gestor – abril.25 | Kinea

Na imagem acima, podemos notar uma grande diversidade de países, classes de ativos e moedas que agregam em muito a diversificação na carteira de nossos clientes. 

Além de promover uma maior diversificação da carteira, podemos fazer uma conexão com a seção anterior; afinal, mesmo que quiséssemos, dificilmente poderíamos tomar exposições tão diversas por conta própria e executar de maneira tão eficiente como uma gestora teria condições de fazer. 

Sobreposição tática

Como trabalhamos com uma alocação estrutural, que é quase que completamente long (ou comprada, significando que se valorizará conforme a alta dos ativos em carteira), os multimercados oferecem uma chance de ir na contramão e contrabalancear o risco tomado pelas outras fatias, como discutimos anteriormente. 

Entretanto, em momentos positivos de mercado, eles podem servir como um pilar de sobreposição de risco, alavancando nossos retornos. 

Por exemplo, uma grande parte da boa performance entregue pelos multimercados no mês passado (como discutiremos mais adiante) veio da alta dos ativos de renda fixa (prefixados e indexados à inflação) e da Bolsa. No mês de abril, nossa carteira, portanto, se beneficiou da boa performance de ações e renda fixa dinâmica, que tem participações estruturais na carteira; essa performance se somou ao retorno dos multimercados, que capturaram tendências positivas. 

Então, em diversos momentos, teremos mais exposição a classes que estão performando bem, mesmo mantendo intactas as proporções defendidas pela carteira Finclass. Fazendo uma analogia, os fundos agem como um pêndulo, que pode aumentar ou diminuir o peso das outras caixinhas com um viés mais tático. 

Taxas e o Benchmark CDI

Muitas pessoas não sabem, mas, por lei, toda publicação de resultados de fundos de investimento deve ser feita computando os efeitos da taxa de administração e performance. 

Portanto, quando avaliamos um fundo de investimento, já estamos rodando nossas análises considerando o peso das taxas. No final, o que importa mais para nós não é apenas o quanto o gestor está ganhando, mas, sim, se o retorno do investidor é suficientemente bom e consistente ao longo do tempo. 

Nos anos recentes, dada a performance aquém de nossas expectativas, olhamos para trás e podemos chegar a uma conclusão bastante lógica de que “não valeu a pena o investimento”, já que o CDI foi maior no período.

O benchmark que os fundos tentam bater é o CDI, que é mais competitivo quanto maior é a taxa de juros do Brasil. Desde 2021, estamos subindo fortemente os juros (vale lembrar que a Selic chegou ao patamar de 2% antes de chegar aos atuais 14,75%, em cerca de quatro anos). 

A alta de juros atrapalha a performance de ativos de risco e deixa o CDI mais competitivo. Isso promove um ambiente extremamente difícil para os fundos multimercados. Em uma analogia esportiva, é como se um atleta de salto com vara tivesse que superar a barreira que fica cada vez mais alta, enquanto  a vara esportiva fica cada vez mais curta. 

Discutiremos este assunto mais, em detalhes, em uma seção dedicada, a seguir. 

Performance ruim nos últimos anos

Para colocar todos na mesma página, exibiremos um gráfico com a performance anual de diversos ativos desde 2020. 

Tome um tempo para analisar o gráfico, afinal ele traz muita informação. Gostaríamos de apontar alguns destaques sobre o gráfico acima, que serão importantes para nossa discussão. 

  • 2020 terminou com retornos positivos, mas foi o ano do surgimento da pandemia da COVID-19. Apesar da calamidade pública, bancos centrais do mundo todo cortaram suas taxas de juros e deram muitos estímulos aos mercados, o que fez com que a fotografia do ano tenha sido boa para a maior parte dos ativos. Mesmo sendo um contexto de difícil leitura, nossos recomendados só não performaram melhor que o S&P 500 e o dólar dentre os ativos representados.
  • Em 2021, a situação começou a piorar no Brasil. O Banco Central do Brasil (BACEN) identificou um grande risco inflacionário e iniciou, antes do mundo inteiro, um movimento de alta de juros, que se mostrou muito assertivo posteriormente. Mas, apesar de assertivo, subir juros machuca os ativos de risco e, assim, começamos um movimento de correção de ativos de risco no Brasil. Note que, neste ano difícil para ativos brasileiros, tirando o S&P 500, nossos multimercados recomendados apresentaram a melhor performance dentre os ativos representados no gráfico.
  • Em 2022, o Banco Central Americano (FED) se convenceu de que a inflação não era temporária e, de forma atrasada, iniciou um forte ajuste monetário, elevando os juros e, consequentemente, trazendo uma grande correção para os ativos internacionais. O IBOVESPA terminou positivo no ano, muito por conta das altas de empresas ligadas a commodities, como Petrobras e Vale; enquanto a maior parte das empresas da nossa Bolsa sofreu com grandes quedas. Por termos iniciado o ciclo de alta de juros no Brasil de forma antecipada, o CDI já se mostrou como uma das principais rentabilidades naquele ano, mas perdeu para os multimercados, principalmente os nossos recomendados, cuja média de retornos chegou a quase 20% naquele ano (note que, até mesmo a média da indústria dos multimercados, representada pelo IHFA, performou melhor do que todas as outras classes).
  • Em 2023, começamos o primeiro ano de mandato de um novo governo e com alguma sinalização positiva, em termos do desenvolvimento de uma âncora fiscal somada à perspectiva de juros menores, além do BACEN permanecer independente e oferecer um contraponto ao governo. Isso tudo deu suporte aos mercados, que terminaram o ano em boa performance. Apesar do bom resultado, a leitura não foi nada clara, pois tivemos diversas mudanças de expectativa. Os juros, que eram esperados cair , voltaram a subir. Tivemos quebras de bancos nos EUA, expectativa de recessão nos Estados Unidos, entre uma série de outros acontecimentos que tornaram difícil a leitura do cenário. Poucos multimercados da indústria bateram o CDI neste ano, dadas as tantas trocas de direção do mercado. Ainda assim, tivemos retornos positivos nos multimercados, mesmo que abaixo do benchmark. 
  • Em 2024, a situação para o Brasil começou a se deteriorar com a crescente preocupação fiscal, dado o grande volume de gastos públicos sem uma contrapartida de corte. Os juros futuros começaram a se elevar com o prognóstico de uma inflação encomendada para o futuro, com um governo pouco inclinado a propor uma mudança de direção. Podemos ver que, neste ano, a maior parte dos ativos brasileiros sofreu muito e, ainda assim, os multimercados entregaram retornos positivos, principalmente por pegarem uma contribuição positiva vinda do exterior - já que o “mundo desenvolvido” engatou um ciclo de corte de juros. Como resultado, apesar de terminar abaixo do competitivo CDI, a média de retorno dos nossos multimercados ficou muito próxima do benchmark e performou melhor do que as principais classes de ativos no Brasil. 

Com esse resumo dos anos anteriores, começamos a entender um pouco mais a dificuldade de leitura de cenário. Tivemos pandemia, guerras, conflitos comerciais, altas de juros sincronizadas no mundo, trocas de governo. Por mais experiente que sejam as equipes dos gestores recomendados, estão suscetíveis a erros de leitura de mercado. 

Esse é o ônus da gestão ativa. Toma-se posição apara escolher boas ideias e, em circunstância nenhuma, espera-se um índice de acerto de 100%. Na verdade, períodos ruins de performance são comuns até mesmo para os melhores gestores - e eles podem durar mais do que desejamos. 

Por isso, sempre nos incentivamos a olhar janelas mais longas. Será que um fundo que entregou retorno suficientemente acima do CDI por mais de uma década perdeu a capacidade de gestão, após enfrentar dois ou três anos ruins? O que deve ter mais peso, a consistência histórica ou o passado recente?

São ótimas perguntas. Por mais que tentemos defender nossos recomendados, não deixamos de cobrá-los em períodos de performance ruim. 

Se a performance está aquém de nossa expectativa, procuramos saber o contexto em que o retorno ruim aconteceu. Isso nos ajuda a entender se foi um erro natural de leitura de mercado, ou se houve imprudência, excesso de confiança, tomada indevida de risco, etc. 

Depois que entendemos os motivos, procuramos saber o que está sendo feito para evitar que esse tipo de erro se repita no futuro; e, é claro, passamos a acompanhar mais atentamente e observar se a melhora se apresenta. 

No caso da maioria de nossos multimercados recomendados, não achamos que houve perda de fundamento. Entendemos o contexto difícil e a grande dificuldade que os últimos anos trouxeram para nossos gestores. 

Mas o problema não foi apenas a performance das classes de ativos de maneira isolada. Houve outro fenômeno que agravou ainda mais a dificuldade de termos leituras claras sobre o mercado. 

Resgates elevados

Quando os juros se elevaram no Brasil, a partir de 2021, as classes de ativos de risco no Brasil sofreram. Com um juro maior, as aplicações de renda fixa pós-fixada passaram a ganhar popularidade entre os investidores: ganhar 110% do CDI em um CDB, quando os juros estão em 2% não enche os olhos, mas 110% do CDI com os juros altos, já começamos a ter mais vantagem em termos de retorno absoluto.

Enquanto gestoras de renda fixa passam a aumentar de maneira importante suas captações, fundos de ações e multimercado começam a sofrer resgates maciços. O pensamento dos investidores é compreensível: “com os juros altos, ganho um dinheiro sem tomar muito risco, então, prefiro resgatar das classes que têm risco para aumentar a parte de renda fixa pós-fixada”. 

Esse incentivo é ainda maior quando juntamos esse fluxo de resgates com dois outros acontecimentos. 

O governo acabou com benefícios fiscais existentes em fundos exclusivos no Brasil. Isso fez com que muitos fundos tivessem que ser desmontados. Esse investidor, que antes tinha muitas vantagens tributárias, começou a procurar incentivos em outros lugares e encontrou um momento perfeito de juros altos, além do aumento de oferta de fundos de infra, que são isentos de IR. 

Esse desmonte acelerou ainda mais essa migração do risco para a renda fixa. 

Veja abaixo o gráfico de captação dos fundos multimercado, desde 2020 até o fechamento de março de 2025.

* resultado até o fechamento do mês de março.

Note que, mesmo passando por momentos de dificuldade, como a grande crise financeira nos EUA em 2007/2008 - e entre 2010 e 2015 -, quando o Brasil entrou em uma profunda recessão, o nível de resgates da classe foi comedido, tendo atingido um ápice de resgates na ordem de R$ 44 bilhões, em 2011. 

Apenas em 2024, chegamos a ter mais de R$ 340 bi em resgates na classe, o que agrava fortemente a situação para os gestores. 

Se já é difícil o suficiente fazer boas escolhas no portfólio para bater um mercado competitivo, quando seu patrimônio está estável, imagina lidar com a diminuição rápida do patrimônio sob gestão - que faz com o que o time precise ficar vendendo até mesmo os bons ativos em carteira para honrar os resgates? 

Com a diminuição do patrimônio, entra a incerteza sobre o futuro do negócio (lembre-se de que uma gestora é uma empresa), a capacidade da gestora continuar remunerando bem seus colaboradores diminui, o índice de rotatividade começa a aumentar e tudo isso se reflete em retornos piores; o que acelera ainda mais os resgates, levando a um ciclo vicioso perverso. 

No ano de 2025, apesar do gráfico anterior mostrar uma saída na ordem de R$ 44 bilhões apenas até março, tivemos o início de uma mudança de tendência. 

O mês de março, inclusive, foi o primeiro mês, em muitos anos, que a captação passou a ser positiva. Coincidência ou não, o mês seguinte a esta captação positiva já trouxe um belo retorno para a maior parte dos multimercados da indústria. 

Infelizmente, ao longo do próprio mês rentável de abril, os resgates voltaram a acelerar. 

Ainda temos essa pressão vendedora, mas, como já estamos acostumados, a performance costuma ser uma grande promotora das viradas de captação. Assim como uma performance ruim acelerou os resgates, um período de boas performances tem grande potencial de trazer novamente um aumento de captação para a classe. 

A seguir,discutiremos especificamente o que aconteceu no mês de abril, destacando as principais performances de nossos recomendados e relacionando com o contexto macroeconômico. 

Cenário 

Macro

Abril foi marcado por eventos internacionais que influenciaram os mercados com mais intensidade do que os fatores domésticos. Já no início do mês, a partir do dia 2, os ativos globais passaram a refletir uma volatilidade ainda maior após o presidente americano, Donald Trump, anunciar um novo pacote de tarifas “recíprocas” - medida que ele chamou de “Dia da Libertação” para os Estados Unidos e que o mercado rapidamente apelidou de “tarifaço”.

Apesar da retórica inicial, Trump recuou parcialmente da proposta pouco depois: reduziu, por 90 dias, as tarifas de importação para 10% na maioria dos países; anteriormente, havia sinalizado alíquotas que poderiam chegar a 50% para nações com as quais os EUA mantêm déficits comerciais relevantes, como Reino Unido e China, e isentou produtos eletrônicos das cobranças.

Ainda assim, a retaliação chinesa não demorou e as tarifas entre os dois países escalaram para níveis insustentáveis, com alíquotas de até 145% sobre produtos americanos e 125% sobre bens chineses. Esse cenário, somado à desaceleração do crescimento global, à inflação persistente e à queda nas commodities, especialmente no petróleo, levou os principais bancos centrais a adotarem uma postura mais cautelosa.

Foi o caso do Banco Central Europeu (BCE), que cortou os juros em 25 pontos-base e ajustou sua comunicação diante da valorização do euro, da queda das commodities e das incertezas em torno das disputas tarifárias. O comunicado oficial retirou a menção ao grau de restrição da política monetária, enquanto a presidente Christine Lagarde minimizou a relevância desse conceito diante dos choques recentes. Inclusive, a mudança no discurso levou parte do comitê a defender um corte ainda mais agressivo, de 50 pontos-base.

Doméstico

No Brasil, mesmo com um ambiente externo mais turbulento, a economia manteve um bom ritmo de crescimento, sem sinais claros de desaceleração. Os ativos locais mostraram resiliência, com destaque para os índices IHFA e IBOVESPA, que avançaram 4,0% e 3,7%, respectivamente. Os juros locais caíram em relação aos norte-americanos e o real oscilou sem direção definida, mesmo diante de um cenário global mais avesso a risco.

Essa estabilidade pode ser atribuída à baixa integração da economia brasileira com o comércio internacional, que se adequou à alíquota mínima de 10%, dado não possuiria superávit comercial com os EUA, o que a torna, de certa maneira, menos exposta aos recentes choques externos. Isso se refletiu no comportamento dos principais ativos de risco, com melhor desempenho de empresas menos expostas às cadeias globais.

No campo fiscal, os desafios continuam latentes. O governo manteve a meta de superávit primário de 0,25% do PIB, no Projeto de Lei Orçamentária para 2026, buscando evitar os erros da proposta de 2024. Ainda assim, o cenário segue frágil: as receitas parecem superestimadas, as despesas, subestimadas, e o arcabouço fiscal está longe de ter credibilidade perante os agentes econômico.

A economia brasileira seguiu enfrentando desafios, embora eles tenham assumido um papel secundário neste mês. A seguir, é possível notar como os índices locais e os globais se comportaram ao longo do período. 

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Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass

Outro fator que voltou a impulsionar os retornos foi o aumento de risco,principalmente de investidores institucionais, o que eleva principalmente as ações. Dado o nível de alocação em ações nas mínimas históricas, um fluxo menos relevante já é capaz de movimentar os preços com mais intensidade. 

Conforme discutiremos mais adiante, a Bolsa e os juros estiveram entre as principais contribuições positivas para os fundos multimercados no mês passado.

De onde vêm os retornos?

Como destacado ao longo do relatório, essa classe se sobressai pela flexibilidade, permitindo ao gestor transitar entre diferentes classes de ativos, como renda fixa, bolsa, moedas e juros internacionais, em busca de oportunidades - mesmo em momentos de incerteza. 

O mês de abril foi um exemplo claro disso. Apesar da elevada volatilidade, que impactou muitos ativos, os multimercados demonstraram sua capacidade de adaptação. Mais do que contar com um cenário favorável, o diferencial está na habilidade de se posicionar com agilidade à medida que o ambiente vai se definindo, seja ele positivo ou negativo.

Naturalmente, nem todos os fundos multimercados tiveram desempenho positivo - o que é esperado. Justamente por isso, mantemos a diversificação, inclusive, entre as estratégias, que podem seguir caminhos distintos. Quando conhecemos bem o fundo em que investimos, uma má fase decorrente de fatores externos não altera nossa convicção. Da mesma forma que retornos passados não garantem resultados futuros, uma performance negativa recente não invalida um histórico consistente ao longo do tempo de existência do fundo. Por isso, destacamos a importância de avaliar o contexto e a qualidade da gestão (inclusive, sob a ótica do negócio em si), ao longo do tempo.

A seguir, destacamos os fundos e os respectivos movimentos que mais contribuíram para a performance do mês, tanto de forma positiva quanto negativa. É importante reforçar que o objetivo não é comparar os fundos entre si, já que todos os selecionados possuem uma justificativa clara para compor nossa seleção de fundos multimercados. Cabe ao investidor decidir se deseja seguir integralmente a carteira recomendada ou personalizar com outras peças (aprovadas), conforme seu perfil e objetivos.

Em abril, a classe registrou um desempenho superior à média da indústria e até mesmo em relação a outras classes - algo que não víamos há algum tempo.

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Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass

Sem dúvida, o grande destaque do mês foi a estratégia multimercado da Vista. Os fundos Vista Multiestratégia e Vista Hedge registraram altas expressivas de 36,86% e 18,08%, respectivamente. A gestora, liderada por João Landau, adota um estilo fora do convencional, com foco na preservação de capital no longo prazo, topando maior volatilidade no curto prazo. 

O Multiestratégia tem cerca de 20% de volatilidade média (uma volatilidade comparada à da Bolsa); enquanto o Hedge, mesmo sendo a versão “café com leite”, ainda está entre os mais voláteis da nossa seleção. Inclusive, sempre deixamos claro: é preciso ter estômago para ser cotista. Em abril, a performance foi impulsionada por uma posição vendida em petróleo e uma exposição comprada em ações locais, além de posições estruturais em urânio, ouro e ativos da Argentina.

Na sequência, o fundo Absolute Vertex contribuiu com uma alta de 4,39% no mês. A estratégia do fundo é focada em operações direcionais, buscando grandes assimetrias de informação, ou seja, oportunidades consideradas raras e potencialmente valiosas. O resultado positivo veio, em parte, das posições vendidas em dólar contra o euro, o iene, o dólar canadense e o australiano. 

No livro da Bolsa, os ganhos vieram, principalmente, de posições compradas nos mercados europeu e local, além de uma exposição pontual vendida no mercado acionário americano. No book de juros, o fundo se beneficiou de posições aplicadas nos Estados Unidos e no Brasil. Na Bolsa, manteve posições compradas na Europa e em países emergentes, com destaque para o Brasil.

Ambas as estratégias ficaram acima dos principais índices comparativos, o IHFA e o CDI, que andaram de 4,00% a 1,06% no mês. 

Na contramão, tivemos fundos que não surfaram neste movimento. 

Nosso único multimercado sistemático presente na carteira, Giant Zarathustra, teve uma queda de -1,74% no mês. Embora tenha sido um dos detratores da classe, esse resultado está longe de ser “assustador” e inesperado. O fundo busca capturar tendências e montar posições, conforme elas se consolidam. Quando há reversões abruptas, o fundo precisa desmontar rapidamente as posições e, muitas vezes, operar no sentido oposto. O Zarathustra iniciou o mês de abril com posições tomadas em DI, seguindo a tendência de abertura observada no final de março. No entanto, com a reversão ocorrida na primeira semana, mudou a direção para posições aplicadas, mas não conseguiu neutralizar as perdas acumuladas. No book de câmbio, manteve posições compradas em dólar contra moedas de países desenvolvidos. Houve também alguma perda nas posições vendidas em empresas do setor de energia, mas essa contribuição negativa foi pequena em comparação com o impacto das movimentações em DI e FX.

A próxima estratégia apresentou desempenho positivo, mas ainda insuficiente para superar o índice de referência. Os fundos Gávea Macro e Gávea Macro Plus registraram altas de 0,58% e 0,50%, respectivamente, em uma performance que, embora positiva, não foi expressiva. Ambos seguem a mesma estratégia, com foco na macroeconomia global. 

Na visão da gestora, as tensões comerciais seguem gerando incertezas, o que justifica uma postura mais cautelosa e uma perspectiva mais pessimista quanto aos desdobramentos à frente,e explica a alta moderada no mês. Houve perdas no livro de moedas, com posições compradas em dólar, mas os demais livros - Bolsa, renda fixa e outros - contribuíram positivamente, resultando em uma alta moderada.

Em resumo, as estratégias que encararam com mais otimismo a possibilidade de negociações entre Trump e outros parceiros comerciais se posicionaram aplicadas em juros. Se beneficiaram na etapa final do mês, pois, nos 45 minutos do segundo tempo, os juros começaram a aliviar um pouco mais. 

Os fundos que ficaram aplicados em juros com mais convicção - como os da Ibiúna Hedge STH (reconhecida pelo forte viés de políticas monetárias), além da Zapitalo Zeta e do Kappa - acabaram se destacando. Por outro lado, posições compradas em dólar, por exemplo, como as mantidas pela própria Ibiúna STH e pela Gávea Macro, tiveram desempenho negativo nessa parte do portfólio. Já os multimercados de gestores com um olhar mais pessimista diante da possibilidade de acordos comerciais - especificamente entre China e EUA, que, de fato, ocorreram na segunda semana de maio; como é o caso do fundo SPX Nimitz, que adotou uma postura mais cautelosa diante do cenário global e registrou ganhos mais modestos. 

Ter gestores com visões e estratégias distintas é não apenas saudável, mas também desejável. Essas divergências ajudam a equilibrar a carteira e a mitigar os impactos de cenários desafiadores como o que estamos vivenciando, mantendo a consistência do portfólio no longo prazo.

Caso queira acessar todas as cartas dos gestores de fundos multimercados, clique aqui. Postamos mensalmente, para que você consiga se aproximar de quem gere parte do seu patrimônio. 

Ficamos por aqui...

Nossa expectativa é que os gestores multimercados - principalmente os recomendados por nós - voltem à normalidade de retornos históricos consistentes e acima do CDI. 

Como discutimos de maneira qualitativa na seção anterior, os gestores começam a tomar mais risco, esperando por um momento de melhora em um Brasil recheado de ativos descontados, em meio a um mundo repleto de incertezas. 

Não estamos aqui para comemorar o resultado de um mês positivo, mas para relembrar que os multimercados ainda têm um grande potencial de ganhos. Além disso, esperamos que o relatório de hoje tenha conseguido esclarecer dúvidas sobre a importância dessa classe em nossas alocações e a justificar, com bons argumentos, as principais motivações  para a performance abaixo de nossas expectativas nos últimos anos. 

Como mencionamos ao longo do relatório, sempre cobramos nossos recomendados por uma melhoria de perfil de retornos - mas isso não significa  descartá-los ao primeiro tropeço. 

Essa verificação constante das convicções é parte essencial do nosso trabalho e, por isso, continue contando conosco para ser essa ponte ideal entre você e bons gestores do mercado. 

Um grande abraço,

Felipe Arrais, Ana Flávia Farias e Rodrigo Xavier.

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.