Relatórios

Multimercados: Garde Porthos

Escrito por Vinicius Kenjiro, Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier em FUNDOS

9 min de leitura

Não sei vocês, mas eu (Alessandra aqui) amo limão. Agora, se você me perguntar se costumo pedir suco de limão quando vou a um restaurante, a resposta é não! Prefiro pedir água e limão espremido e fazer o meu próprio suco.

Muitas das vezes em que arrisquei pedir suco de limão, o que recebi foi um suco aguado, ou uma “limonágua”, como diria o Rodrigo. E se é para ter suco aguado, prefiro pagar menos pedindo água e limão espremido.

Mas e se me oferecessem uma limonada bem concentrada, com limão batido com casca, pelo preço da água com limão espremido? Aí eu não pensaria duas vezes!

Por que estou contando essa história? Porque, no mundo dos fundos, especialmente entre os multimercados, as gestoras costumam oferecer produtos que têm os mesmos ingredientes, mas em concentrações distintas – ou seja, fundos que seguem a mesma alocação, porém com tamanhos de posição distintos, um mais diluído e outro concentrado – e, em geral, pelo mesmo preço.

Melhor ficar com o concentrado, porque o rendimento tende a ser melhor!

Nos fundos, a concentração é medida em volatilidade. Enquanto o produto mais diluído oscila menos, porque tem posições menores, seu rendimento potencial também tende a ser menor se comparado ao concentrado. Quanto mais concentrado, mais risco e, potencialmente, mais retorno.

Aqui na série, preferimos o fundo mais concentrado. Mas, para quem não quer correr mais risco, é só investir menos e fazer a diluição em casa. É muito mais vantajoso ter o concentrado e poder fazer a diluição você mesmo, caso deseje, do que receber o suco já diluído e não poder fazer nada, não é mesmo?

Como os produtos mais concentrados têm posições maiores, e a tendência é que o risco seja maior, caso fique desconfortável com a volatilidade, você pode reduzir a exposição a esses fundos e colocar a diferença em um produto mais conservador, como um fundo taxa zero.

Inclusive, várias gestoras que possuem estratégias concentradas e diluídas em sua grade de produtos controlam o risco de cada um dos fundos pelo tamanho do caixa. Sendo assim, por que pagar mais caro em um multimercado que possui uma fatia considerável em caixa se existe a possibilidade de você mesmo fazer a diluição em casa e pagar menos ou até não pagar nada?

Voltando ao suco, é como optar pela limonada e colocar mais água se achá-la forte – ampliando o rendimento para mais de um copo de bebida.

Por todas essas vantagens, nesse relatório, estamos fazendo exatamente essa escolha. Ao invés de escolhermos os dois fundos mais aguados da Garde, D'Artagnan e Vallon, trazemos a estratégia mais concentrada e, portanto, mais eficiente, o Garde Porthos.

Porthos: um que vale por dois

Pensando sempre em alternativas mais eficientes para compor o nosso portfólio, incluímos o Garde Porthos. Nós já gostávamos do Porthos por ser a versão mais alavancada da casa. No entanto, a adição só passou a fazer sentido quando tornaram o produto mais acessível ao público de varejo.

O Porthos foi criado para atender à demanda de alocadores do Itaú e, por isso, estava restrito por conta de uma cláusula de exclusividade de dois anos com o banco. O período acabou recentemente, e a gestora pôde disponibilizar a estratégia em mais plataformas. Nesse momento, aproveitou para alterar o público-alvo, colocando-o para investidores em geral – antes o produto estava restrito a investidores profissionais –, e reduzir a aplicação mínima.

Apesar das mudanças na política de distribuição, não houve qualquer alteração na estratégia. Ao abrir o fundo para o público geral, a gestora poderia esbarrar em alguns limites, por exemplo, de exposição ao exterior. Mas, como nos explicaram, apesar de ter sido criado para o investidor profissional, o Porthos não faz uso do limite maior nem para operar fora nem da flexibilidade maior das regras para esse tipo de produto.

Para quem gosta da gestora nossa recomendação é que concentre os investimentos no Porthos. Através dele conseguimos ter uma utilização melhor dos nossos recursos, aumentando o risco sem incorrer em maiores custos – portanto, mais eficiência.

Um bom sinal é que até os sócios da Garde mantêm a maior parte de seu dinheiro no Porthos.

O fundo tem o mesmo custo dos outros dois multimercados da casa, ou seja, uma taxa de administração de 2% e a de performance de 20% sobre o que exceder o CDI. Agora, por ser mais arriscado, tem resgate em 60 dias – diferentemente das outras duas alternativas, em que o período é de 30 dias.

Como a mudança é recente, a gestora ainda está fechando os acordos de distribuição para disponibilizar o produto nas corretoras. Por ter sido criado como fundo exclusivo, um problema que pode impedir o fundo de ir para as plataformas é a pouca flexibilidade no pagamento dos rebates. No entanto, segundo a Garde nos contou, somente a XP mostrou alguma resistência.

Por enquanto, o Porthos está disponível com mínimo de R$ 1 mil para o público em geral no BTG, Banco Inter e na Modal. Ainda, pelo que apuramos, na Guide o fundo deve estar disponível em breve. E no Itaú, ao menos até o momento, o fundo ainda estava restrito para qualificados, com mais de R$ 1 milhão em investimento financeiro.

A diferença entre D'Artagnan, Vallon e Porthos

Como são muitos nomes e todos da mesma gestora, vamos a uma explicação sobre os três produtos e o porquê de termos escolhido o Porthos.

Diferentemente do D'Artagnan – que completa quase dez anos de história –, o Vallon e o Porthos são mais novos e acabaram de completar dois anos. Os fundos começaram a rodar somente em 2020 para atender à demanda de alocadores por produtos com mais volatilidade. A Garde lançou, primeiramente, o Porthos e, após alguns meses, veio o Vallon.

O D'Artagnan é o menos arriscado e apresenta a menor volatilidade entre os três produtos, em torno de 4%. O Vallon pode ser entendido como o fundo de risco moderado da gestora, com uma volatilidade próxima de 5,5%, e o Porthos, como o mais apimentado, com uma volatilidade que gira em torno de 7%.

Apesar dos níveis distintos de risco, os três fundos utilizam uma estrutura matricial e, portanto, seguem a mesma carteira ou estratégia, por assim dizer. O ajuste da volatilidade de cada um deles se dá por meio da alavancagem dos fundos. A versão menos arriscada não alavanca as posições da carteira-base; a moderada usa a alavancagem para alcançar um risco equivalente a 1,3x, e o fundo mais concentrado busca um risco de aproximadamente 1,7x.

Abaixo, você confere um gráfico em que mostramos o retorno em comparação à volatilidade dos três fundos desde o início do fundo mais novo, o Vallon. Nele, conseguimos ver bem esse escalonamento do risco e retorno entre cada um deles, e como o Porthos tem se saído em relação aos demais.

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

Aproveitamos a oportunidade também para mostrar como cada um deles reage a períodos de maior estresse. Como o Porthos é um fundo mais arriscado (mais volátil), é importante que você entenda que o ganho esperado maior vem às custas de um risco de perda maior também!

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

No gráfico acima de drawdown, que mostra o maior prejuízo apresentado pelos fundos depois de alcançar a cotação máxima, é possível notar que, enquanto o D'Artagnan apresentou uma queda de 4,77% no seu pior momento, o Vallon caiu próximo de 6,5%, e o Porthos, cerca de 7,75%. Usamos como base o período em que os três fundos já estavam em operação.

Um pouco sobre a Garde

É difícil encontrar gestoras com quase dez anos de história no mercado brasileiro, e a Garde é uma delas. A casa foi fundada em 2013 por um grupo de egressos do BNP Paribas e, desde aquela época, pela formação e experiência da equipe, sempre operaram com um viés de trading e se mostraram especialistas nos mercados de juros e câmbio.

Carlos Calabresi, um dos sócios-fundadores e atualmente diretor-executivo e diretor de investimentos, foi um dos responsáveis por trazer para a nova casa esse DNA. Além de ter sido tesoureiro no banco francês, o gestor é conhecido por operar muito bem moedas e um instrumento chamado no mercado financeiro de cupom cambial, que mistura taxa de juros e câmbio.

Mas não se engane. Apesar do histórico e reconhecimento da equipe em operar juros e moedas, não existe uma concentração exagerada do risco nessas estratégias. Ao longo dos anos, a gestora foi adicionando novos books à carteira, ampliando a diversificação e atribuição de performance entre as diferentes classes de ativos.

Atualmente, a casa conta com seis estratégias: renda fixa, moedas, ações, commodities, volatilidade e sistemática.

A Garde tem uma equipe bastante sênior e, apesar de termos mencionado somente o diretor de investimentos, existem outros seis membros do time de gestão que tomam decisões de alocação e fazem parte do comitê executivo da casa. Só para ter uma ideia, dentro do comitê, o membro com “menos experiência” possui 15 anos de mercado financeiro.

Recentemente, a gestora conclui uma reestruturação societária que culminou com a saída de um dos sócios-fundadores, Marcelo Giufrida. A transição começou no ano passado e foi gradual. O sócio em questão cuidava da parte institucional da gestora, como as áreas de relação com investidores e comercial, e acabava não atuando diretamente na gestão dos fundos.

Com a saída de um membro que detinha parte relevante da empresa, a gestora conseguiu equalizar melhor a sociedade, que sempre foi muito concentrada nos fundadores. Desse modo, abriu-se a possibilidade de realmente promover as pessoas que estão dando mais resultados para o fundo.

A pedra no meio do caminho

Em se tratando de uma gestora com praticamente dez anos de história, não há qualquer dúvida de que obstáculos vão surgir no meio do caminho. O que precisa ser avaliado não é o número de problemas, mas a forma como cada um deles foi resolvido e de que maneira a casa seguiu em frente.

Em 2018, por exemplo, a casa passou por um período bem difícil. Assim como parte relevante do mercado, o fundo sofreu com a greve dos caminhoneiros e a virada de política do Banco Central. No entanto, o maior erro da gestão foi não ter pegado a volta do mercado – desmontaram as posições rapidamente, mas acabaram não reposicionando o fundo com a mesma velocidade. A gestora fechou o ano positivo, mas abaixo do CDI.

As perdas foram concentradas em uma das estratégias do fundo, fato que já acendeu um alerta e despertou a necessidade de diversificar mais as classes de ativos dentro da carteira. Foi isso que levou a Garde a desenvolver novas estratégias.

Em razão das perdas, o fundo sofreu muitos resgates e, como estava fechado para captação, não conseguiu substituir os investidores que deixaram a casa. Segundo a Garde, estar fechado na época, momento em que os escritórios de agentes autônomos estavam em pleno crescimento, os deixou fora do radar do mercado.

A gestora, que na ocasião chegou a atingir R$ 8 bilhões sob gestão, viu seu tamanho diminuir bastante. O patrimônio ainda não voltou para os níveis vistos lá atrás, mas continua relevante – atualmente são cerca de R$ 3 bilhões – e o fundo tem entregado resultados positivos nos últimos anos.

Vale dizer ainda que, no mesmo período, a casa conseguiu identificar e corrigir um problema de rotatividade do time de gestão. Era uma coisa bem pontual por conta do modelo de incentivos dados à equipe, mas que foi solucionado logo em seguida com ajustes pequenos nessa metodologia.

Uma nova estratégia: quantitativa

Com o objetivo de ampliar a diversificação do fundo, uma das novas adições foi a estratégia quantitativa/sistemática. A área já vem rodando desde maio de 2019 e tem mostrado ótimos resultados – mesmo sendo uma parte pequena da alocação de risco total do fundo.

Para quem nunca ouviu falar desse mundo, as estratégias quantitativas utilizam-se de múltiplos dados e algoritmos para operar o mercado. Portanto, não há a discricionariedade de um gestor na tomada das decisões de investimento e, sim, um modelo matemático construído com o objetivo de operar algum mercado específico ou uma tendência já mapeada.

Apesar de essa forma de investir ser amplamente utilizada nos mercados desenvolvidos há algum tempo, no Brasil, ainda é um movimento relativamente recente das gestoras. No mercado, já vemos algumas iniciativas de gestoras totalmente focadas em estratégias quantitativas, mas em geral as casas acabam incubando-a dentro do fundo principal.

Na Garde, por exemplo, aconteceu exatamente dessa maneira. O time de gestão decidiu incluir dentro dos fundos macro uma estratégia quantitativa, portanto concorrendo com os books de Bolsa, renda fixa, moedas, commodities e volatilidade.

A equipe que toca o projeto dentro da gestora veio praticamente pronta, uma vez que todos trabalhavam juntos na empresa de consultoria McKinsey, dentro de uma célula chamada Quantum Black. Todo o modelo proprietário era utilizado para operar principalmente commodities.

O time teve que cumprir uma cláusula de “não-competição”, período que foi usado pela equipe de gestão para aperfeiçoar e ajustar os modelos já existentes, adicionando o conhecimento de vários anos da gestora, bem como criando algoritmos que operassem com outras classes de ativos, como juros, câmbio e Bolsa.

Não podemos afirmar como será daqui para frente. No entanto, até o momento, a área se mostrou bastante descorrelacionada com as outras estratégias e tem contribuído para a geração de retorno acima do índice (ou alfa, como chamamos no mercado financeiro). Um exemplo bem interessante foi o mês de julho, em que os fundos macro da casa sofreram em todas as estratégias com exceção da caixa sistemática.

Um grande abraço,

Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier e Vinícius Kenjiro

Sobre os analistas

Vinicius Kenjiro

Fund Research Analyst

É especialista de fundos da Spiti. Bacharel em Administração pela USP, com passagem pela Erasmus University Rotterdam, Vinícius atuou na análise financeira e social de um fundo de impacto social, nas áreas de agricultura e inclusão financeira. Fascinado pelo mercado financeiro, traz na bagagem a experiência de ter estado do outro lado da indústria e a vontade de impactar a vida das pessoas por meio da educação financeira e dos investimentos.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Alessandra Bellotto

É gerente executiva de análise de fundos de investimentos na Spiti. Jornalista com pós-graduação em informações econômicas e mercados de capitais, traz na bagagem a experiência e o relacionamento de mercado de quem passou mais de duas décadas nas redações da Gazeta Mercantil e do Valor Econômico, de onde saiu após 13 anos para se juntar ao time da Spiti. Sempre atuou com foco na cobertura e edição de finanças e investimentos para pessoas físicas, em especial fundos. Foi premiada por duas vezes pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por seu trabalho de educação ao investidor, e uma vez pela BM&FBolvespa, atual B3.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.