Não há para mim, Gui, época do ano que se iguale ao Natal, a não ser o carnaval, claro – não porque eu goste de blocos de rua e desfiles de escola de samba na madrugada. É porque meu aniversário (19 de fevereiro) sempre cai muito próximo às festas.
Mas o clima do Natal é diferente. Parece que as pessoas ficam mais generosas; as famílias, distantes o ano inteiro, começam a conversar já no início de dezembro para decidir quem vai levar cada prato típico na ceia – isso em uma celebração normal, sem pandemia, claro.
Ainda que o último Natal tenha sido bem diferente para a grande maioria das famílias (pessoas reunidas em uma chamada de vídeo em vez de estarem em volta de uma mesa), a tradição de juntar pessoas ainda se manteve de alguma forma.
E outro evento tradicional de fim de ano também aconteceu – sem qualquer impedimento ou restrição, aliás.
Ele é bem conhecido dos gestores de fundos, traders e analistas de investimentos profissionais que atuam, ou atuaram, em mesas de operações por algum tempo.
Estou falando do famoso rali de fim de ano dos mercados.
Na linguagem do mercado, rali significa um período de alta, de valorização dos ativos – ao menos na maior parte deles.
Durante os dias ou semanas que precedem Natal e réveillon, operadores e investidores sentem que o clima de fim de ano, que citamos no início do texto, parece se espalhar também pelo o mercado financeiro.
Bolsa em alta e juros e dólar em queda são as características principais do movimento.
Mas imagino que você deva estar se perguntando...
Será que isso é verdade mesmo? E realmente ocorre todo fim de ano, de fato?
Antes de analisar o caso do Brasil em específico, vamos dar uma olhadinha no que aconteceu com os principais índices de ações do mundo apenas nos meses de dezembro desde 2011.
Rali lá fora e aqui
Os índices analisados primeiramente serão o S&P 500, o Euro Stox, o Hang Seng e o Nikkei, respectivamente os índices de ações dos Estados Unidos, Europa, Hong Kong e Japão, ou seja, os principais índices de ações do mundo.
Dê uma olhada na tabela abaixo:
Fonte: Spiti e Quantum
À primeira vista, o número de meses de dezembro em queda e em alta nos últimos anos parece bem equilibrado, mas, em um segundo momento, analisando os detalhes, vemos que a participação de células com percentual de oscilação positiva representam 60% do total.
Isso significa que, se investisse nos principais índices de ações no mundo nos últimos dez anos apenas no mês de dezembro, você teria uma chance de 60% de ganhar dinheiro, contra 40% de chances de perder.
É uma vantagem considerável, ainda mais quando se fala sobre o mercado financeiro. Caso não saiba, se uma pessoa que opera ou investe na Bolsa acerta 60% das suas posições e erra 40% das vezes (e com o devido gerenciamento certo de riscos), ela é um investidora muito bem-sucedida – mas isso é um assunto para outro relatório.
Mas chamo atenção aqui: a proporção 60/40 não parece justificar o que chamam de rali de fim de ano, em que a possibilidade de ganhos é bem maior do que a de perdas.
Dito isso, fui olhar o que aconteceu no Brasil nos últimos dez anos, desta vez com todos os índices que apresentam risco relevante de mercado, ou seja, que apresentam oscilação de preço razoável. Colocamos na tabela os principais benchmarks do Brasil:
Fonte: Spiti e Quantum
Agora temos um cenário um pouco diferente. Apesar de o Ibovespa apresentar um desempenho desfavorável no mês de dezembro nos últimos dez anos, os outros índices parecem realmente apresentar um desempenho muito significativo.
Para quantificar, 80% das células apresentam variação positiva, enquanto apenas 20% apresentam variação negativa.
Isso significa que se você comprasse um ativo com risco de mercado no Brasil em dezembro dos últimos dez anos, você teria 80% de chances de ganhar dinheiro, contra 20% de possibilidade de perder.
Essa distribuição de percentual é que indica uma maior tendência de ganho nos meses de dezembro, que poderia até ser chamada, sim, de rali de fim de ano.
O que dizer de dezembro de 2020 então?
O último mês do ano passado foi realmente único e trouxe um otimismo destacado para os ativos globais e, claro, para os brasileiros também.
O primeiro ponto que podemos destacar como medida positiva foi o início da vacinação contra o novo coronavírus em diversos países do mundo.
O Reino Unido deu o pontapé inicial ao começar o processo de vacinação de sua população com a vacina do laboratório Pfizer.
Vários outros países seguiram o caminho do Reino Unido também em dezembro, o que trouxe perspectivas de retomada de atividades positivas para a economia global e impulsionou o otimismo dos mercados internacionais com força.
Nos Estados Unidos, por exemplo, foi aprovado o pacote fiscal de quase US$ 1 trilhão para estímulo da economia do país, o que traz um grande fôlego não apenas para mercado norte-americano, mas também para o mundo como um todo.
Afinal, os Estados Unidos são hoje a maior economia do mundo, amplamente interligada com outros países do planeta. Isso significa que uma atividade maior por lá resulta em maior atividade no mundo inteiro, o que gera outra onda de otimismo ao redor do globo.
E essa onda de otimismo vinda da América do Norte tende a se repetir, já que o presidente eleito Joe Biden, em seus primeiros discursos como mandatário da nação, prometeu ampliar os pacotes de estímulos econômicos na economia norte-americana.
E claro que isso teve reflexos nos ativos brasileiros e surfamos essa maré positiva em dezembro. Em linha com a Bolsa norte-americana, o Ibovespa apresentou forte alta. E, assim como as moedas emergentes apresentaram um forte movimento de valorização frente ao dólar, o real brasileiro também tomou o mesmo caminho. Os juros, que balizam o retorno dos ativos da renda fixa, apresentaram queda, o que se traduz em valorização para os mesmos.
E como todo esse movimento impactou a nossa carteira?
Com exceção de um único fundo imobiliário, o RBRR11, todos os nossos ativos apresentaram performance positiva em dezembro.
- Ações
Destacamos as ações da Vale (VALE3), que performaram muito bem em dezembro, sendo o principal ativo em nossa carteira com relação a performance positiva.
As ações da mineradora subiram mais de 12% no mês, em linha com a alta do preço do minério de ferro em nível internacional. Essa subida foi ocasionada pela expectativa de retomada da atividade com os fatores que citamos acima.
Além da Vale, o destaque também foi para o Itaú (ITUB4), que apresentou variação positiva acima de 10%, em linha com outros papéis do setor bancário. A Vivo (VIVT3), apesar de mais comedida, apresentou retorno de quase 5% no último mês de 2020 – performance muito boa também.
A única empresa que não performou da mesma forma foi a Taesa (TAEE11), um papel mais defensivo e que apresenta oscilações bem mais discretas. Depois de um novembro brilhante, subiu pouco mais de 1% em dezembro.
- Fundos imobiliários (FIIs)
Destaque para a performance do KNIP11, um fundo de papel que tem a maioria de seus ativos indexados à inflação e possuem prazo médio de vencimento de 7,2 anos.
Como os títulos de renda fixa de mesmas características apresentaram retorno positivo em dezembro, beneficiados pela queda dos juros futuros, o FII também performou muito bem e subiu quase 5% no último mês do ano passado.
Os outros fundos também apresentaram performance positiva, considerando a volatilidade (oscilação) menor dos fundos imobiliários de tijolo, ou seja, que são proprietários de imóveis físicos.
Com a expectativa de retorno das atividades comerciais ao ritmo pré-pandemia com a aprovação das vacinas, os fundos de shopping também se destacaram. O HGBS11 apresentou alta de quase 4% em dezembro de 2020, enquanto os de logística (BTLG11 e XPIN11) apresentaram performance entre 2% e 3% no mesmo período.
- Títulos públicos
A queda das taxas de juros futuras foi bem relevante também para todos os títulos públicos. Desconsiderando apenas o Tesouro Selic, todos os outros títulos apresentaram alta superior a 5% no último mês de 2020, com destaque para o Tesouro IPCA+ 2055. Por possuir risco maior, teve alta de quase 10% em dezembro último.
Resultado final
Com desempenho positivo vindo de todos os lados, nossa carteira apresentou uma performance brilhante no mês. A carteira Renda Total se valorizou 4,40%, contra 0,16% do CDI, um desempenho realmente considerável.
Fonte: Spiti
Dezembro foi bom, mas janeiro...
Todo o otimismo visto no último mês de dezembro parece ter virado pessimismo concentrado nos ativos brasileiros já nas primeiras semanas de janeiro. Mas, ao contrário do que o cenário sugere, não surfamos uma maré externa negativa, e sim neutra.
A performance negativa dos nossos ativos é em grandíssima parte causada por fatores internos.
O principal deles é a desconfiança em relação ao nosso desempenho fiscal, ou seja, com nosso nível de endividamento público. Quanto maior o nível de endividamento, maiores os juros que os investidores tendem a cobrar para financiar os gastos do Brasil. São os chamados juros futuros, responsáveis pelo desempenho positivo dos ativos de renda fixa em dezembro, mas que neste mês de janeiro passaram a apresentar queda.
Com a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados prevista para o início de fevereiro, o candidato favorito na disputa, Baleia Rossi (MDB-SP), passou a defender maiores gastos do governo no início deste ano.
O problema é que aumento de gastos sem uma contrapartida no orçamento geral (algo que raramente se vê no Brasil, diga-se de passagem) se traduz em maior dívida. E essa tem sido a grande preocupação de investidores para o Brasil no início do ano.
Além disso, o crescimento no número de casos do novo coronavírus, que gerou novos recordes de infecções e óbitos, voltou a preocupar o mercado, que até o fim de semana passado não havia observado avanço concreto no processo de vacinação da população brasileira.
Conclusão
Apesar do desempenho positivo no último mês de dezembro, a carteira poderia estar com ativos de risco com maior participação na carteira, aproveitando o movimento positivo do mês.
Com o início de ano devolvendo boa parte dos ganhos, aproveitaremos o movimento gradual para aumentar a exposição em ativos de risco, como começamos a fazer na parte de fundos imobiliários.
Como os FIIs respondem mais fortemente a uma retomada da economia real, apostamos nesses ativos para um desempenho positivo da carteira em 2021.
Podemos dizer que os FIIs devem ser o prato principal que vai nos acompanhar no Natal de 2021, que esperamos que seja melhor do que o passado.
Abraços,
Gui Cadonhotto e Filipe Colus