Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
Normalmente, começamos nossos relatórios com um resumo macroeconômico e uma miniaula sobre algum tema de investimentos. Porém, como nosso último relatório saiu de forma extraordinária há pouquíssimo tempo, e não tivemos muitas novidades no mercado.
Dessa forma, para não ficarmos nesse “cópia e cola” maçante, recomendamos que você, caro leitor, vá ao nosso último relatório e dê uma lida para se inteirar sobre tudo o que aconteceu na economia global no último mês.
Em compensação, fevereiro e março foram meses em que tivemos muitas movimentações no mercado de ações por conta da temporada de resultados. Se nós já comentamos sobre os motivos de os papéis entrarem em nossas carteiras, as atualizações nos contam um pouco sobre os porquês de eles continuarem.
Como atualizamos totalmente ambas as carteiras há pouco tempo, não há alterações a serem feitas, nem na composição, nem nas recomendações.
Assim, esse relatório está dividido em 3 partes, além do resumo das carteiras ao final: um destaque da Carteira de Valorização, um da Carteira de Renda, um destaque em comum e dois pontos para ficarmos de olho sobre ações que estão em ambas as carteiras. Vamos lá?
Um destaque da Valorização
C&A (CEAB3)
A ação da C&A começou fevereiro avaliada em R$ 7,30 e foi subindo ao longo do mês por conta da alta expectativa do mercado em relação ao resultado do 4T23. No dia 27/02, antes do resultado, a ação fechou em R$ 8,99. No dia seguinte, o mercado se surpreendeu com o resultado acima das expectativas e a ação registrou uma alta de 4,2%, fechando o mês em R$ 9,37. Dessa forma, a C&A fechou fevereiro com uma alta de 28,35% vs. janeiro.
Ao longo de 2023 a C&A se destacou entre as varejistas de moda. O resultado do quarto trimestre fechou o ano com chave de ouro.
Diante de um período com o cenário macroeconômico conturbado, a empresa seguiu mostrando melhoras na operação. Tanto nas vendas, quanto nas margens. Tudo isso é fruto dos investimentos que ela fez nos anos pós-IPO.
Por conta dos investimentos em logística, gestão de sortimento, estoques e preço, a empresa conseguiu fazer o que muitos tiveram dificuldade no período: aumentar a Receita e as Margens ao mesmo tempo.
Daqui para a frente, esperamos ver mais do que vimos no ano de 2023. A empresa vai seguir colhendo frutos dos investimentos e segurando a expansão. Acreditamos que, a partir do momento em que a gestão julgar que a operação está lapidada, a abertura de lojas vai ser retomada. Em paralelo a isso, a C&A Pay vem amadurecendo, com o atraso da carteira diminuindo e com os índices de inadimplência se estabilizando.
O amadurecimento da financeira vai contribuir de duas maneiras para os resultados futuros: vai fomentar as vendas do varejo e aumentar a Receita de serviços financeiros.
A expectativa de queda de juros contribui ainda mais para nossa crença de que a CEAB3 ainda tem espaço para subir.
Um destaque da Renda
Klabin (KLBN11)
A Klabin (KLBN11) soltou os resultados do 4T23 logo no início de fevereiro, que veio em linha com as expectativas do mercado, exceto quando olhamos o lucro líquido, que despencou mais de 30% em 2023, em comparação com 2022. Impactado, principalmente, pelas despesas financeiras, que cresceram pouco mais de 50% na comparação anual.
Apesar disso, conforme falado quando iniciamos a cobertura de Klabin, a sua política de dividendos e/ou Juros sobre Capital Próprio (JCP) é baseada no EBITDA Ajustado. Com isso, a empresa divulgou, logo no dia seguinte da divulgação de resultados, a distribuição de R$ 192 milhões em dividendos, equivalente a R$ 0,174 por Unit.
Com esse dividendo de fevereiro, nos últimos 12 meses a empresa distribuiu R$ 1,4 bilhão em proventos, o que equivale a um valor de proventos por Unit de R$ 1,73. Esse valor de dividendos pagos representa cerca de pouco mais de 20% de seu EBITDA ajustado, preservando o limite de pagamento até 25%.
Um ponto que chamou atenção no resultado de 2023 é o endividamento. Como sabemos, a Klabin é uma empresa de capital intensivo, que precisa de muito dinheiro para conseguir colocar de pé seus projetos. Dito isso, sabemos que a empresa vem se mantendo alavancada nos últimos anos, porém com níveis de endividamento saudáveis, respeitando o “teto” estipulado por eles.
Em 2023, a Klabin atingiu uma relação entre Dívida Líquida/EBITDA de 3,3x, bem próximo a sua meta estipulada de 3,5x e 0,6x maior do que o observado em 2022. Contudo, vale lembrar que a empresa está em um ciclo de investimento, e é esperado que a alavancagem aumente. Aliás, quando a empresa está em um ciclo de investimento é aceito que este valor chegue a 4,5x.
Além disso tudo, esse aumento de alavancagem é reflexo de um mercado mais fraco, com queda no volume de vendas, receita e, consequentemente, no EBITDA. Mas um dos nossos “abacaxis” que consideramos para Klabin é o Projeto Figueira (iniciado em 2022). Esse projeto prevê um investimento de R$ 1,57 bilhão entre 2022 a 2024, e na época da votação houve várias divergências no Conselho de Administração.
Esse Projeto Figueira deve ter uma capacidade produtiva de papelão ondulado de até 240 mil toneladas por ano e contempla a instalação de 2 onduladeiras, 9 impressoras, além de toda a infraestrutura e áreas de apoio do site.
Dado todo esse contexto, a questão que vamos nos manter atentos nos próximos trimestres é a alavancagem e o retorno que esse projeto irá trazer, já que uma parte dessa alavancagem serve para financiá-los. Além disso, esperamos que as coisas melhorem no setor de papel e celulose, com níveis de preços e volume de vendas melhores em 2024.
Um destaque em comum
Banco do Brasil (BBAS3)
No dia 8 de fevereiro, o Banco do Brasil (BBAS3) divulgou o resultado referente ao 4T23.
No geral, o BB bateu a expectativa do mercado e apresentou resultado acima do esperado. No trimestre, o Lucro Líquido ajustado foi de R$ 9,4 bilhões, crescimento de 7,5% em relação ao 3T23. Na comparação com o 4T22, o Lucro Líquido cresceu 4,8%. No acumulado do ano, em 2023 o Lucro Líquido Ajustado do BB foi de R$ 35,6 bilhões, 11,4% acima do Lucro Líquido de 2022.
O resultado do trimestre foi impactado positivamente pelo crescimento da Margem Financeira Bruta (MFB) (+8,8% vs. 3T23). Por outro lado, houve aumento (+32,8% vs. 3T23) da Despesa de Provisão de Crédito para Liquidação Duvidosa (PCLD).
O crescimento da Margem Financeira se deu, principalmente, pelo aumento da carteira de crédito no período e pelo efeito do Banco Patagônia, instituição argentina na qual o BB é acionista majoritário.
Acontece que o Banco Patagônia possuía parte da carteira de Títulos e Valores Mobiliários (TVMs) protegida contra uma variação cambial. A maxidesvalorização do peso argentino ocorrida principalmente em dezembro de 23 fez com que o resultado da Margem com o Mercado do Banco Patagônia viesse bastante acima do esperado, impactando a MFB do conglomerado do Banco do Brasil como um todo. Sem essa contribuição adicional do Banco Patagônia na MFB, ela teria crescido 23% na comparação entre 2023 e 2022.
Apesar do forte crescimento da MFB, houve crescimento de 32,8% na PCLD do trimestre. No acumulado do ano, o crescimento é 82,3%, totalizando R$ 30,5 bilhões. Para entendermos o forte crescimento das despesas de PCLD, são necessárias algumas ressalvas.
A primeira ressalva é que, ao longo de 2023, o BB provisionou 100% dos créditos concedidos à Lojas Americanas, o que impactou a PCLD do acumulado do ano. Depois, ao longo de 2020, por conta de toda a imprevisibilidade causada pela pandemia de Covid-19, o BB optou por realizar grandes provisões, elevando de forma considerável o índice de cobertura do banco.
Nos anos seguintes, ao ver que os impactos da pandemia foram controlados, o BB passou a queimar parte das provisões realizadas em 2020. Na prática, isso significou menores despesas de PCLD em 2021 e 2022. Ou seja, a comparação entre a PCLD de 2023 e 2022 envolve uma base de comparação que havia sido positivamente impactada por um excedente de provisão.
Além disso, ao longo do 4T23, ao notar o forte crescimento da MFB explicado anteriormente, o BB aproveitou para reforçar a PCLD, em especial para o segmento de empresas. Assim, o banco fechou o 4T23 com índice de cobertura de 196,7%, uma leve queda em relação ao do 3T23. Na média do Sistema Financeiro Nacional (SFN) o índice de cobertura é de 184,8%.
Esse aumento da PCLD afetou em cheio a Margem Financeira Líquida (MFL). No 4T23, a MFL apresentada pelo BB foi de R$ 15,8 bilhões, queda de 2,3% em relação ao trimestre anterior. No acumulado do ano, a MFL fechou em R$ 63 bilhões, 11,1% maior que 2022.
A Carteira de Crédito Ampliada do BBAS seguiu crescendo. Ela fechou o 4T23 em R$ 1,11 trilhão, alta de 1% no trimestre e de 10,3% no ano. Dentre os segmentos da carteira, o que mais cresceu foi o Agro. No trimestre, a Carteira Agro cresceu 4,5%. Em 12 meses, o crescimento é de 14,7%. As carteiras PF e PJ também apresentaram crescimento satisfatório. A primeira cresceu 2,9% no trimestre e 8,1% no ano, enquanto a segunda cresceu 5,2% no trimestre e 9% no ano.
Em relação à qualidade do crédito, o índice de inadimplência superior a 90 dias (NPL 90) voltou a subir. O NPL 90 fechou o 4T23 em 2,92% vs. 2,81% no 3T23. Em dezembro de 2022 esse índice era de 2,51%.
Em uma análise mais detalhada da inadimplência, percebemos uma queda sequencial da inadimplência do crédito à pessoa física. Por outro lado, as inadimplências das carteiras agro e pessoa jurídica cresceram.
A queda da inadimplência no segmento de pessoas físicas é um reflexo das melhores safras nas linhas não consignadas, principalmente no cartão de crédito. Na carteira agro, a elevação da inadimplência reflete uma menor velocidade de crescimento da carteira, natural após dois anos fortes de expansão. Já o aumento da carteira de pessoa jurídica mostra um efeito de normalização gradual para os níveis pré-pandemia.
Assim, em 12 meses, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) cresceu. No 4T23 o ROE anualizado foi de 22,5%, 1,2 p.p. maior ao do 3T23. No acumulado do ano, o ROE do BB foi de 21,6%. Em 2022 esse indicador ficou em 21,1%.
Por fim, o BB divulgou o Guidance para 2024. O banco planeja crescer a Carteira de Crédito Expandida entre 8% a 12%. A Carteira voltada às pessoas físicas deve crescer entre 6% e 10%. As carteiras voltadsa às empresas e ao agronegócio devem crescer entre 7% a 11% e 11% a 15%, respectivamente. O crescimento planejado para a MFB é entre 7% e 15%.
Dois pontos em comum para ficar de olho!
Vale (VALE3)
Está na hora de falarmos sobre outros assuntos que andam gerando um peso no papel, mas que não necessariamente têm a ver com os resultados da empresa, no jargão do mercado: overhangs.
O primeiro e mais importante deles é a possível interferência do governo na escolha do próximo CEO. Em janeiro, o governo desistiu de Guido Mantega para ocupar o cargo. Inclusive, desistiu até de uma vaga para ele no Conselho de Administração, o que foi melhor do que esperávamos.
Para o governo, impor um CEO de nome tão controverso como Guido Mantega seria uma tarefa quase impossível, dada a composição atual do Conselho de Administração. Lá, deixamos claro que dos 13 conselheiros atuais, pelo menos 7 certamente demonstrariam forte resistência ao governo.
● Shunji Komai, relacionado com a Mitsui;
● Douglas Upton, relacionado com o The Capital Group;
● Jose Penido, ex-CEO da Samarco, com carreira na área privada;
● Manuel Lino, executivo com carreira na área privada;
● Vera Marie Inkster, executiva canadense, com carreira na área privada;
● Rachael Maia, executiva brasileira, com carreira na área privada;
● Paulo Hartung, que ficou muito conhecido depois de exercer o cargo de governador do Espírito Santo por três vezes.
Enquanto os outros 6, dadas as relações anteriores com acionistas direta ou indiretamente ligados ao governo ou ainda possivelmente interessados em manter boas relações com o governo, poderiam comprar a ideia do Planalto:
● Daniel Stieler, ex-presidente da PREVI;
● João Luiz Fukunaga, atual presidente da PREVI
● Fernando Buso Gomes, ex-direto da Bradespar
● Marcelo Gasparino, ex-conselheiro da Bradespar (BRAP4);
● Luis Guimarães, CEO da Cosan;
● André Viana, líder sindical e atual presidente do sindicato de Itabira.
Quase acertamos, pelo menos no que diz respeito à última votação do dia 15/02/2024. Segundo o jornal do Estadão, a posição do governo segue pela não continuidade do atual CEO, Eduardo Bartolomeo. Porém, não existe uma indicação direta mais. O que se pretende é que seja contratada uma agência de headhunter que possa elaborar uma lista tríplice de possíveis sucessores. Votaram a favor dessa alternativa 5 dos 6 apontados por nós como possíveis votantes a favor da proposta governamental, a exceção foi Luis Guimarães, que se absteve, uma vez que é visto como possível sucessor de Eduardo.
A surpresa ficou por conta de Rachael Maia, que também votou pela proposta acima. Isso fez com que apenas 6 dos 7 apontados por nós como possíveis oposição votassem a favor da recondução imediata do Eduardo. Infelizmente a ata completa da reunião ainda não foi publicada no site de RI da companhia e a definição sobre o futuro ocupante do cargo continua em aberto.
Mantemos nossa posição, de forma que continuamos a achar que um nome 100% ligado ao governo, como foi o de Guido Mantega, não será aprovado. Porém, a PREVI é um acionista relevante da companhia e dificilmente sairá completamente vencida. Haja vista a pressão que o presidente Lula anda exercendo em seus discursos em relação à companhia, bem como as paralisações em Onça Puma e Sossego, que tiveram que ser restabelecidas mediante decisão judicial no final do mês passado. Por isso, algo no meio do caminho deve acabar sendo definido, por exemplo a lista tríplice votada no dia 15/02. O segundo assunto que anda funcionando como um overhang no papel diz respeito às provisões da Samarco. Acontece que foi intentada uma ação em Londres, na Inglaterra, contra a BHP, pelas vítimas do desastre de Mariana, quando do rompimento da Barragem do Fundão.
Trata-se de uma ação cujo pedido de indenização é de US$ 44 bilhões ou aproximadamente R$ 220 bilhões, mais que o dobro da condenação da Vale em solo brasileiro, pelo Tribunal Federal de MG, que atingiu o montante de R$ 47, 6 bilhões, já que nessa ação a Vale foi chamada a responder pela metade dos danos pleiteados pelas vítimas, tendo em vista sua participação na Samarco, joint venture formada como a BHP.
Ao que parece, a Vale conseguiu um adiamento no julgamento na Inglaterra, que deve ser finalizado somente em 2025. Porém, precisamos considerar dois pontos aqui. O primeiro é que o valor dado aos pedidos de indenização não necessariamente será convertido 100% em valor da condenação. Em segundo lugar, é certo que caso haja a condenação no estrangeiro, dificilmente a Vale teria que pagar outra condenação no Brasil, uma vez que existem instrumentos jurídicos para evitar o duplo pagamento.
Porém, é fato que números grandes assustam, principalmente quando montam a quase um terço do valor de mercado da companhia. Ainda mais quando as provisões para pagar o acidente aumentam, como aconteceu com a BHP e com a própria Vale, no resultado do 4T23 da empresa.
Por fim, o terceiro assunto muito em voga ultimamente diz respeito ao consumo de minério de ferro pela China. Como a gente também pode ver no nosso relatório base, a crise imobiliária chinesa é real e vem se arrastando desde 2020. Conforme é amplamente conhecido, o mercado imobiliário é um grande demandante de minério de ferro, já que o aço é um dos principais componentes utilizados na construção civil.
Acontece que em 2023 as siderúrgicas na China mantiveram taxas de operação elevadas à medida que a demanda doméstica cresceu 1,5% ano a ano. Infraestrutura e outras construções apoiadas pelo governo ultrapassaram o setor imobiliário residencial como os maiores setores consumidores de aço, enquanto a manufatura continuou a contribuir com volumes substanciais de demanda. Um aumento de 47% nas exportações líquidas de aço apoiou ainda mais a produção de aço bruto da China, que superou um bilhão de toneladas pelo quarto ano consecutivo. Isso resultou em um aumento de 6,6% ano a ano nas importações de minério de ferro da China, alcançando um recorde de 1,18 bilhão de toneladas, segundo o relatório anual da Rio Tinto de 2023.
Ou seja, mesmo sem a força do setor imobiliário, o preço da tonelada de minério de ferro permaneceu em patamares favoráveis e fechou o ano acima de US$ 130.
O problema, aqui, é que o mercado não está esperando uma demanda tão robusta para 2024. Tanto que o preço da tonelada de minério já caiu desde o início do ano e no momento em que escrevemos esse relatório gira entre US$ 103 e US$ 110. A boa notícia é que o Partido Comunista Chinês renovou a meta de crescimento do PIB em 5%, o que indica que possam existir mais estímulos do governo ao longo do ano, que podem influenciar na demanda pela commodity.
Nosso modelo é bastante conservador e prevê um preço para o minério de ferro convergindo para a média de 10 anos em 2027. Isso quer dizer que ele deve sair de US$ 107 em 2024 para perto de US$ 96. Considerando que o preço realizado da Vale é, em média, 88% do preço spot, isso significa que a Vale venderia a tonelada em 2027 por US$ 85.
Em outras palavras, enquanto o minério ficar acima desses números, a empresa vai gerar valor para seus acionistas. Se isso não acontecer pela valorização da ação, vai acontecer na forma de dividendos ou recompras. Sem contar que fomos muito conservadores no segmento de metais básicos e projetamos os preços do cobre e do níquel caindo mais forte: o que não está acontecendo.
Portanto, acreditamos que as ações da Vale, já há um tempo, vêm passando por uma tempestade perfeita. No entanto, nosso modelo segue bastante conservador, de modo que reflete um cenário ainda pior de preços dos minérios vendidos pela companhia do que o cenário atual.
Bradesco (BBDC4)
O grande destaque negativo de fevereiro ficou por conta do Bradesco (BBDC4) que caiu 10,3% no mês. O motivo de tamanha queda foi o fraco resultado apresentado no 4T23, divulgado no dia 7 de fevereiro.
Mas hoje, vamos falar sobre o plano de reestruturação apresentado pelo banco.
Primeiro, a gestão identificou que o grande desafio é diminuir o custo da prestação de serviços no varejo bancário. A ideia do banco é, além de melhorar a eficiência operacional diminuindo o custo, atuar de forma mais representativa no mercado de alta renda, parcela de maior rentabilidade.
O banco também pretende melhorar a eficiência do crédito fornecido. Podemos entender isso como “melhorar a análise do crédito”, liberando empréstimos de maior spread e menor risco. Para tanto, o banco pretende fazer um grande investimento em tecnologia, começando pela contratação entre 3.000 a 4.000 colaboradores na área de tecnologia.
Em números, nos próximos 5 anos, a nova gestão deseja atingir um market share entre 15% e 19% do mercado de crédito brasileiro. Atualmente esse share é de 14%. Para a base de clientes da Pequenas e Médias Empresas (PME), o BBDC pretende sair de 1,7 milhão para algo entre 2 e 2,5 milhões de clientes. Quanto à eficiência operacional, a gestão espera melhorar o índice de eficiência em 8 pontos percentuais. Assim, conseguiria aumentar de forma representativa o ROE.
Para atingir tais objetivos, o banco pretende desenvolver 122 plataformas digitais para o atendimento de empresas com faturamento anual entre R$ 3 e R$ 50 milhões. Também foi criada uma unidade de negócios voltada ao ciclo de crédito. Nessa unidade de negócios será agrupada a análise de crédito, gestão de carteira e recuperação de crédito, tudo isso com apoio de inteligência artificial.
Por fim, em relação à melhoria da eficiência operacional, o banco promete uma nova estrutura organizacional. O número de executivos do banco foi reduzido de forma significativa, resultando na eliminação de diversos cargos. Na prática, isso significa redução do custo com a diretoria executiva, um problema histórico do banco.
Outro problema que o plano de reestruturação pretende resolver é o engessamento do banco. O Bradesco sempre foi reconhecido por ser um banco fechado, onde todos os diretores eram funcionários de carreira. Inclusive, havia uma regra de que para um diretor ser eleito, ele deveria ter trabalho nos últimos 10 anos dentro do banco. Porém, essa cultura acabou fazendo com que o banco fosse lento em se adaptar à nova dinâmica do setor financeiro brasileiro, principalmente após a entrada dos bancos digitais e de novas plataformas de investimento.
Para corrigir o problema, pela primeira vez na história, serão contratados dois diretores “C-level” (jargão para “diretoria executiva”) de fora. O BBDC está em processo de contratação de um C-level de Recursos Humano e um C-level para o segmento digital. Inclusive, o Conselho deu completa autonomia para a nova gestão realizar as mudanças na estrutura da diretoria executiva.
Caso haja sucesso no plano de reestruturação, esperamos que a melhora seja sentida trimestre a trimestre. O principal indicador para medir a eficácia do plano será o ROE. Hoje, o Bradesco possui ROE de 10% e custo de capital entre 14% a 15%. A gestão espera que essa melhora gradual faça com o que o ROE ultrapasse o custo de capital em algum momento de 2026. Em nossas projeções, acreditamos que o ROE ao final de 2028, prazo em que o plano de reestruturação se encerrará, será de 17%.
Um sinal de esperança surge, conforme publicamos no fórum do Circle! Na Assembleia Geral Ordinária, que aconteceu dia 11/03, o banco retirou de seu estatuto a obrigação de um executivo ter 10 anos de carreira no próprio banco para ser elegível à diretoria executiva. Além disso, foi aprovada a incorporação da Bradesco Asset ao banco, para otimizar a estrutura de gestão da companhia.
Pinceladas gerais sobre outros resultados
Obviamente, não temos apenas 5 ações na carteira. Apesar das outras não terem um capítulo de destaque, vale um breve comentário individual, já que a temporada de balanços está em seu fim.
TEGMA (TGMA3): mais um trimestre bom, com a Tegma apresentando resultados acima de nossas expectativas e acima das expectativas do mercado. E o motivo é simples, mais carros foram vendidos no 4T23 no Brasil, o que levou a mais carros transportados pela empresa, mais Receita e mais Lucro.
SLC Agrícola (SLCE3): 2023 foi um ano com muitos desafios para a SLC, assim como temos observado para todas as empresas do agronegócio. Apesar disso, ela conseguiu manter boas produtividades, uma alavancagem saudável e boa geração de caixa. No lado financeiro, a Receita se manteve estável, influenciada pelos preços menores para todas as culturas, com exceção do algodão, que subiu 13,2% em relação ao 4T22. O custo acompanhou a Receita, e se manteve estável, com queda de 5,4% em relação ao 4T22. O grande vilão da DRE nesse trimestre foi a Realização do Valor Justo dos Ativos Biológicos fortemente negativo. Isso levou a uma redução de 76% no Lucro Bruto da SLC e, consequentemente, uma reversão de Lucro para Prejuízo Líquido de R$ 153 milhões no 4T23.
Kepler Weber (KEPL3): Ainda impactada pela base de comparação alta com os resultados do ano anterior, a Kepler apresentou números inferiores ao 4T22 em quase todas as suas linhas. Entretanto, isso não se mostrou necessariamente negativo, já que 2023 se consolidou como o segundo melhor ano da companhia, com o mercado agro enfrentando quebras de safra e menor patamar da cotação da soja. Durante a call de resultados, a diretoria destacou que o prêmio negativo da soja em vigência por mais tempo (desconto sobre a soja nacional em relação ao negociado no exterior) tem feito o produtor priorizar o investimento em armazenagem, já que, com armazenagem própria, ele pode "escolher" vender num melhor momento. A empresa reforçou que tem uma carteira de pedidos superior à da virada de 2022 para 2023 e destacou R$ 176,6 milhões em obras para serem faturadas ao longo de 2024.
Banco ABC (ABCB4): no 4T23, o Banco ABC Brasil (ABCB4) cumpriu as expectativas do mercado e apresentou Lucro Líquido Recorrente de R$ 231,5 milhões, novamente o maior já apresentado em um trimestre. Esse Lucro representa crescimento de 1,4% em relação ao 3T23 e de 17,3% em relação ao 4T22. No ano de 2023, o ABC Brasil registrou Lucro Líquido Recorrente de R$ 851,6 milhões, crescimento de 6,4% em relação a 2022. Na nossa visão, mais uma vez o aumento da inadimplência e a queda do índice de cobertura são os principais pontos negativos do resultado apresentado. Ainda assim, a Carteira de Crédito do ABCB possui qualidade bastante superior à apresentada pela maioria dos seus pares e à média do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Fleury (FLRY3): no quarto trimestre de 2023, o Fleury reportou resultados um pouco abaixo das nossas expectativas, principalmente no crescimento de Receita. Entretanto, a companhia conseguiu gerar caixa e manter o nível de endividamento controlado, o que abre espaço para futuras aquisições. Os resultados do quarto trimestre mostraram, mais uma vez, uma sólida resiliência do segmento de Unidades de Atendimento, core business da companhia. Consequentemente, mantemos o viés positivo para as ações de Fleury (FLRY3).
Isa CTEEP/Transmissão Paulista (TRPL4): No 4T23, a receita bruta foi de R$ 1,3 bilhão, representando um aumento de R$ 199,8 milhões em comparação ao mesmo período do ano anterior, o que equivale a um incremento de 18,6%. Esse aumento pode ser atribuído principalmente ao reajuste do ciclo tarifário em julho de 2023 para o ciclo 2023/2024, à energização de dois projetos greenfield (Itaúnas e Triângulo Mineiro) e ao início das operações de 65 projetos de Reforços e Melhorias. Impulsionado pelo aumento da receita e pelo resultado das controladas em conjunto, o lucro líquido cresceu R$ 537 milhões, representando um aumento de 147,7% no quarto trimestre de 2023, totalizando R$ 900,6 milhões.
Por fim, ainda não comentaremos os resultados de Ambipar (AMBP3) e Taurus (TASA4) pois ambos sairão apenas dia 27/04.
Bora para o nosso resumo das carteiras?
E como ficam as ações recomendadas?
Como falamos, não houve mudanças neste relatório! Nem nos ativos selecionados, nem nos pesos de cada um na carteira.
Para facilitar, basta conferir como estão as distribuições na tabela abaixo:
Contem conosco sempre!
Abraços,
Varos Brasil