Relatórios

Nova Cobertura de Bancos em Renda Fixa

Escrito por Eduardo Perez em RENDA FIXA

10 min de leitura

Se você é assinante da Finclass há algum tempo, provavelmente já se fez uma dessas perguntas: O banco onde tenho meu CDB é seguro? Ou então: Quero diversificar além do BTG e do Daycoval… por onde começo?

Essas perguntas chegaram até nós de vários assinantes, especialmente via Circle e nas lives de renda fixa às segundas.

Ficou claro que precisávamos de um acompanhamento estruturado. Foi daí que nasceu a iniciativa dessa cobertura

Na carteira de renda fixa da Finclass, recomendamos expressamente CDBs do BTG e do Daycoval com liquidez diária. Essa recomendação tem uma razão clara: são instituições com qualidade de crédito sólida, alta liquidez nos produtos e fácil acesso a suas plataformas.

Para quem está construindo a base da carteira, eles continuam sendo o ponto de partida natural.

Mas muitos já chegam aqui com CDBs, LCIs, LCAs e outros títulos bancários de instituições diferentes e precisam saber se estão bem alocados. Outros já têm aplicações em CDBs do BTG e Daycoval e querem diversificar em emissores adicionais sem abrir mão da qualidade.

Para esses dois grupos, desenvolvi o score proprietário Finclass de qualidade de crédito para instituições financeiras.

É importante deixar claro o que essa lista te mostra e o que ela não mostra: não se trata de uma recomendação expressa de investimentos específicos, já que essa função segue sendo da carteira recomendada por enquanto.

O que a lista faz é identificar emissores que passaram por uma análise rigorosa de qualidade de crédito e atingiram uma nota de corte igual ou maior a 7 no nosso modelo. São instituições que consideramos suficientemente sólidas para figurar numa carteira de renda fixa bem estruturada, cabendo ao assinante escolher o produto, a plataforma e o vencimento que melhor se encaixam no seu momento.

A seguir, vou explicar como o modelo funciona, então vamos abusar um pouco do “tecniquês”. Se quiser ir direto às listas, pode pular para o final do relatório.

Como funciona o modelo de score da Finclass

Para chegar às notas que você vê na tabela, as instituições passam por duas etapas de avaliação distintas: uma quantitativa, baseada inteiramente em números públicos do Banco Central reportados pelas instituições financeiras, e uma qualitativa, que ajusta a nota final com base em características que os dados contábeis não conseguem identificar sozinhos.

No final do processo a nota final pode ir de 0 até 10, sendo 7 a nota mínima para integrar a lista de aprovados.

O que estamos aprovando e o que não estamos

Antes de entrar nos detalhes do modelo, um ponto que precisa ficar claro: a lista avalia exclusivamente a qualidade de crédito do emissor.

Não avaliamos se um CDB é melhor que uma LCI, nem taxas, nem vencimentos ofertados em diferentes plataformas e há uma razão objetiva para isso: as taxas mudam todos os dias em todas as corretoras e cada corretora tem sua política própria de spread, ou seja, do que ela cobra pelos serviços através da redução da taxa ofertada. Então qualquer comparação de rentabilidade estaria desatualizada antes mesmo de o relatório chegar até você.

O que a aprovação na lista significa é que, na nossa avaliação, aquele banco tem solidez suficiente para figurar como emissor aceitável numa carteira de renda fixa.

A decisão sobre qual produto, em qual plataforma e com qual vencimento comprar por enquanto é uma etapa separada e para efeitos de comparação a régua mínima é simples: se um CDB pós-fixado paga menos que 100% do CDI, o Tesouro Selic já é uma alternativa melhor. O mesmo raciocínio vale para prefixados e títulos indexados ao IPCA; se um CDB  em todas as plataformas te paga abaixo da taxa de um título do Tesouro de mesmo prazo e indexado, vá para o Tesouro.

A segmentação do Banco Central — e por que ela importa

O Banco Central classifica todas as instituições financeiras por porte, numa escala de S1 a S5. Os grandes bancões, como Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Caixa, estão no S1, que reúne bancos com ativo equivalente a 10% ou mais do PIB brasileiro. À medida que descemos na escala, o porte diminui: S2 vai de 1% a 10% do PIB, S3 de 0,1% a 1%, e assim por diante.

Então se nosso modelo preza pela qualidade, não deveria causar espanto que estejamos aprovando as instituições S1.

É natural associar segmento menor a risco maior e em geral há alguma correlação. Mas essa leitura não é automática nem completa.

Um banco S3 bem capitalizado, com carteira de crédito conservadora e funding estável pode ser uma opção de crédito mais sólida do que um banco S2 com histórico de gestão problemática.

O que o modelo faz é justamente ir além do porte e olhar para os fundamentos de cada instituição. Por isso, a lista não se restringe a nomes S1 — onde a qualidade de crédito raramente é a dúvida — e inclui instituições de segmentos menores que passaram pelos mesmos critérios rigorosos.

Analisamos o grupo, não apenas o CNPJ

Quando um banco opera dentro de um conglomerado financeiro ou não, a análise do CNPJ não é tudo.

O que importa é a saúde do grupo como um todo porque é o grupo que determina, na prática, a capacidade de suporte a uma entidade específica em caso de estresse.

Pense num banco médio que é subsidiária de um grande grupo financeiro. Os demonstrativos contábeis daquela subsidiária sozinha podem parecer fracos, mas o risco real do investidor é moldado pelo balanço consolidado do conglomerado, a capacidade do grupo de capitalizar essa subsidiária e de absorver perdas e honrar obrigações.

O inverso também vale: uma subsidiária aparentemente saudável dentro de um conglomerado com problemas carrega consigo o risco do grupo, mesmo que seus números individuais não sinalizem nada.

Por isso o modelo trabalha no nível do conglomerado prudencial, a mesma unidade de análise que o Banco Central usa para fins de supervisão.

Indicadores de capital e rentabilidade são herdados do consolidado do líder do grupo para as entidades membros, garantindo que a nota reflita o risco do conjunto, e não apenas o recorte contábil de uma entidade específica.

Quando um banco opera de forma independente, sem vínculo com nenhum grupo, ele é avaliado por seus próprios números sem o benefício nem o ônus de um conglomerado por trás.

Na prática, isso significa que ao ver um nome na lista você está vendo a avaliação do grupo econômico ao qual aquela instituição pertence, não apenas da entidade emissora de produtos bancários que você está considerando investir.

É o risco maior que estamos mapeando já que é esse o risco que importa para quem empresta dinheiro a um banco.

Qualidade de crédito nunca foi tão importante

Uma crença comum entre investidores de renda fixa é que o Fundo Garantidor de Créditos resolveria qualquer problema e que, portanto, analisar o emissor seria trabalho desnecessário.

Vimos na prática que isso é um argumento fraco.

O FGC garante até R$ 250 mil por CPF por conglomerado financeiro, não por produto. Isso significa que quem tem R$ 250 mil num CDB do banco X e mais R$ 100 mil numa LCI do mesmo grupo está com R$ 100 mil descobertos, mesmo que sejam produtos diferentes. Para quem tem patrimônio maior distribuído entre poucos emissores, o limite muda completamente o cálculo de risco.

Além disso, o FGC é um mecanismo privado com capacidade de cobertura finita. Ele foi desenhado para absorver quebras pontuais de instituições menores, não um colapso sistêmico simultâneo de vários bancos. Em cenários extremos a velocidade e a integralidade desse ressarcimento podem não ser o que o investidor espera.

As quatro “dimensões” que compõem a nota

Voltando ao score, a parte quantitativa é construída em cima de quatro “dimensões”, cada uma com um peso diferente que reflete o que mais importa para o investidor

A primeira delas é a mais importante: o Capital, com 40% da nota.

Aqui entram o Índice de Basileia e o Índice de Capital Nível 1, que medem a solidez patrimonial do banco. Vale mencionar que qualquer banco com Basileia abaixo de 11% é automaticamente excluído da lista, independentemente de qualquer outra nota.

Em segundo lugar vem a Qualidade dos Ativos, com 25%. Esse item avalia o risco da carteira de crédito do banco a partir de quatro ângulos: o custo das perdas ao longo do tempo, o nível de provisionamento em relação à carteira bruta, a concentração da carteira no total do ativo e o perfil de risco das modalidades de crédito em que o banco atua, que detalhamos mais abaixo.

Com 20% do peso vem a Rentabilidade: e aqui é importante entender que rentabilidade, para o investidor de renda fixa, não é o mesmo que para o acionista.

Você não está interessado em quanto o banco lucra para distribuir dividendos. O que o modelo quer ver é um banco que gera resultado consistente, com boa margem financeira e operação eficiente, porque isso indica capacidade de honrar obrigações ao longo do tempo.

Bancos com lucro volátil ou dependente de eventos pontuais são penalizados não porque o lucro em si seja o objetivo, mas porque consistência operacional é um indicador de resiliência.

E por fim, a Liquidez fecha com 15%. Ela mede quanto o banco mantém em recursos de alta liquidez em relação ao ativo total, e a qualidade do seu funding, ou seja, o quanto das suas obrigações são captações estáveis, como depósitos a prazo, em relação ao passivo total.

O risco que está por trás da carteira de crédito

Muitos investidores acreditam que “banco é tudo igual” já que eles “só emprestam dinheiro”. A segunda frase é praticamente verdade, mas a primeira não e é importante saber a diferença.

Dentro de Qualidade dos Ativos, o modelo usa quatro indicadores. Custo de risco, cobertura de provisões e concentração da carteira no ativo medem o resultado e a composição agregada da carteira.

O quarto é o mix da carteira de crédito, que vai um nível abaixo e avalia o perfil de risco das modalidades em que o banco empresta.

A lógica por trás do mix é simples: crédito não é tudo igual.

Cada modalidade de empréstimo carrega um nível de risco estruturalmente diferente, e um banco que concentra sua carteira em modalidades mais arriscadas recebe uma penalidade que antecede a materialização das perdas, não apenas depois que os calotes aparecem nos números.

Na prática, o modelo atribui um risco a cada modalidade e calcula uma média ponderada pelo tamanho de cada carteira.

Modalidades com garantia real e desconto em folha como crédito habitacional e consignado têm pesos menores, porque o risco de inadimplência é estruturalmente menor: no consignado, o desconto acontece antes de o salário chegar ao trabalhador e no crédito imobiliário há um imóvel como garantia.

Financiamento de veículos fica numa faixa intermediária pois há uma garantia, porém depreciável e sujeita a disputas de retomada.

Crédito para pequenas e médias empresas e crédito pessoal sem garantia ficam no topo da escala de risco, porque dependem inteiramente da capacidade de pagamento do tomador, sem nada que o credor possa acionar em caso de inadimplência.

Um banco que tenha uma nota conservadora do seu mix significa que ele possui uma carteira concentrada em modalidades de baixíssimo risco, então como forma de premiar o menor risco, ele recebe nota máxima nesse indicador.

A nota começa a cair à medida que o mix se afasta desse patamar, e zera quando esse indicador supera um certo nível, sinalizando uma carteira predominantemente exposta a crédito de alto risco.

Esse indicador tem peso de 10% dentro do critério de Qualidade, funcionando como um sinal antecedente: penaliza o perfil de risco antes que ele se materialize em inadimplência.

Comparação com pares, não com o mercado inteiro

O score foi pensado em um sistema híbrido comparando esses indicadores com patamares predeterminados, mas também há uma comparação com pares.

Isso significa que um banco médio especializado em crédito consignado não é comparado diretamente com o Itaú. Isso evita distorções e garante que a nota reflita a qualidade relativa dentro do segmento em que o banco de fato compete.

Então 70% de cada nota vem de critérios absolutos, onde há um patamar mínimo aceitável de Basileia, de rentabilidade e de liquidez independentemente de como os concorrentes estão, e 30% vêm da comparação com pares, impedindo que um banco ruim tire nota boa só porque seus concorrentes são ainda piores.

O ajuste qualitativo

Depois de toda essa jornada, a nota quantitativa é finalizada totalizando 9 pontos e deixando espaço para o que chamo de ajuste qualitativo.

Esse ajuste pode melhorar a nota em até 1 ponto, totalizando 10, ou reduzir em até 3.

A assimetria é proposital: é muito mais fácil uma informação qualitativa negativa destruir a confiança dos investidores do que uma positiva criá-la.

Os principais fatores considerados são: se o banco pertence a um conglomerado ou opera de forma independente já operar em segmentos mais arriscados ou até perigosos do ponto de vista de risco de crédito é uma realidade. Depois a concentração das suas fontes de receita; o tipo de controlador (público, holding financeira, etc.); se há investigações ou processos relevantes envolvendo dirigentes; e se há algum movimento recente de rating por agências externas.

O item de investigações sobre dirigentes é o de maior peso negativo disparado no ajuste qualitativo.

Um banco tecnicamente bem capitalizado pode ter sua nota final significativamente reduzida se houver processos formais envolvendo sua liderança.

Mas há um caso ainda mais grave: bancos sob intervenção do Banco Central recebem a penalidade máxima de desqualificação automática por motivos óbvios.

Periodicidade de atualização dos dados

O IF Data é atualizado trimestralmente pelo Banco Central, o que significa que o score sempre reflete o último balanço publicado — não o momento exato em que você está lendo este relatório.

Na prática, pode haver uma defasagem de até quatro meses entre os dados mais recentes disponíveis e a data de leitura.

Isso não compromete a utilidade da análise pois os fundamentos de crédito não mudam de um trimestre para o outro sem sinais prévios, mas é importante ter em mente.

A lista será revisada pelo menos a cada atualização trimestral do IF Data, e eventuais mudanças relevantes de nota serão comunicadas em decorrência de notícias, julgamentos, crises etc.

Edu, procurei o Banco X e o Y, mas não achei, e agora?

Muita calma. A lista vai aumentar com o tempo, então peço paciência neste primeiro momento.

Disclaimer importante

O score é uma ferramenta para te auxiliar na parte analítica, não é um parecer regulatório nem uma garantia de solvência.

Aprovados

aprovados (2).png
aprovados (2).png

Reprovados

reprovados (1).png
reprovados (1).png

Forte abraço, 

Eduardo Perez

Sobre os analistas

Eduardo Perez

Especialista em Renda Fixa

Eduardo Perez é analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, construiu sua trajetória no mercado financeiro passando por diferentes áreas, desde o atendimento ao cliente na Easynvest até o research de renda fixa e análise macroeconômica no Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Posteriormente, atuou na mesa de operações de renda fixa, integrando a equipe de gestão do book proprietário. Acredita que o mercado de capitais brasileiro ainda tem um amplo espaço para crescimento e amadurecimento, especialmente do ponto de vista do investidor pessoa física, e vê a educação financeira como o principal caminho para transformar esse potencial em decisões de investimento mais conscientes e eficientes.