Como navegar o cenário eleitoral e o que ocorreu historicamente;
O IBOV, as eleições e o Poder das Recompras
Escrito por Evandro Medeiros, Isabel Fidalgo em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
O efeito multiplicador das recompras;
Recompras de ações e insiders das empresas recomendadas;
Considerações finais.
Introdução
Olá, estimado(a) assinante,
Nesta edição quero muni-lo(a) de ferramentas para navegar o cenário eleitoral, conviver com a volatilidade de forma saudável e encontrar oportunidades.
A eleição presidencial trará incertezas, e o nosso papel é justamente endereçar, estimular e fomentar as suas dúvidas. Ao investir, o ceticismo é um poderoso aliado.
Anos eleitorais são potencializadores de incerteza e volatilidade e, portanto, são repletos de oportunidades, mas também de riscos que partem de nós mesmos. Com o perdão do clichê, nos investimentos você é seu pior inimigo.
E não é força de expressão. As finanças comportamentais documentam que mesmo os investidores mais experientes são vulneráveis a heurísticas e vieses comportamentais, e o ambiente eleitoral incerto intensifica esse fenômeno. Com isso em mente, analisar friamente o passado para poder traçar possíveis cenários futuros é uma das melhores defesas.
No período entre 2002 e 2022 tivemos seis eleições presidenciais. Nessa amostra, o investidor que comprou o IBOV um mês antes do pleito teve um desempenho médio de 37%. Nada mau para um período de 17 meses.
Fonte: Economatica. Elaboração: Finclass.
Nessas últimas seis eleições analisadas, quatro tiveram desempenhos positivos: Lula 1, Lula 2, Bolsonaro e Lula 3. Já quem comprou um mês antes da eleição e posterior reeleição de Dilma Rousseff, amargou retornos negativos de 13% e 29%, respectivamente. Abaixo incluímos o CDI como base de comparação:
Fonte: Economatica. Elaboração: Finclass.
Como o histórico indica, mesmo se soubéssemos qual era a linha de pensamento dos candidatos (pró-mercado ou não), seria difícil prever qual seria o desempenho do IBOV. Ademais, nas últimas seis eleições, em quatro o IBOV superou o CDI, ainda que com uma considerável volatilidade.
É claro que a história não se repete, mas rima. Contudo, mesmo diante de um cenário eleitoral incerto e com a possibilidade da manutenção da política econômica atual, temos ações recomendadas que deverão ir bem a despeito do resultado da corrida eleitoral.
Ademais, se mesmo assim você segue pessimista com o Brasil, trago boas notícias: nosso portfólio recomendado apresenta um alto nível de dolarização, mesmo se tratando de empresas genuinamente brasileiras.
Em nossas estimativas, a ARCA Valorização tem cerca de 57% das receitas ponderadas pelo tamanho da alocação em dólares. Sob a mesma ótica, a ARCA Renda tem quase metade das suas receitas dolarizadas, o que também agrega segurança ao portfólio.
Estimativas e elaboração: Finclass.
É válido frisar que a BB Seguridade, que representa 10% da alocação do portfólio em ações, tem receitas auferidas em reais, mas seus clientes agricultores têm, em grande parte, receitas dolarizadas e, portanto, o percentual efetivo é possivelmente superior a esses 47,3% observados na ARCA Renda.
O Poder das Recompras
Se nós, investidores, somos vulneráveis aos próprios vieses, vale observar quem tem as melhores informações a respeito das empresas: os insiders. Ninguém conhece a Prio melhor do que a própria gestão. E o que ela tem feito ao longo de 2026, a despeito da alta das suas cotações? Comprado as próprias ações.
As recompras de ações são interessantes por dois motivos. O primeiro é a sinalização de que a gestão considera suas próprias ações baratas. O segundo é que sua participação na empresa cresce e, por consequência, sua fatia nos lucros e dividendos futuros. A empresa que recompra anualmente 3% de suas ações, após cinco anos, eleva seu dividendo por ação em 16,5%, sem sequer precisar distribuir mais dividendos totais.
Para colocar esse efeito em perspectiva, uma empresa que também recompra 3% a.a. e distribui a mesma proporção do resultado, mas cresce 5% a.a., verá seu dividendo por ação crescer 48,6% ao longo de cinco anos. Quando combinamos crescimento de lucros com recompras, os efeitos se acumulam.
Elaboração: Finclass.
A importância das recompras tem respaldo acadêmico. Em um estudo com 1.239 anúncios de recompra nos EUA entre 1980 e 1990, Ikenberry, Lakonishok e Vermaelen (1995) mostraram que o mercado reagiu timidamente no dia do anúncio, mas que essas ações renderam cerca de 12% acima de empresas comparáveis no período de quatro anos.
Mas recompra não é sinônimo de acerto, ela cria valor quando a empresa compra barato e pouco acrescenta, ou até destrói valor, quando compra caro. E o que observamos é que mesmo quem conhece a empresa por dentro erra o timing, por isso não devemos nos ater a ele. Vamos, Kepler Weber e o próprio Grupo Mateus recompraram ações em 2024 e 2025 a preços bem superiores aos atuais. Isso não invalida as teses, apenas mostra que ninguém acerta o curto prazo com consistência.
Por isso, a recompra deve ser lida como uma peça a mais no quebra-cabeça, e não como um gatilho de compra.
Recompras da carteira
A Prio é a empresa recomendada pela Finclass que mais recomprou em 2026, foi quase R$ 1,1 bilhão, totalizando 18,1 milhões de ações. A companhia chegou a pagar R$ 68,65 em maio, acima do preço atual enquanto escrevo (~R$ 63). Isso sinaliza que, para a gestão, a ação estava barata mesmo naquele patamar, uma leitura que converge com a nossa tese.
Bloomberg. Elaboração: Finclass.
Já a SLC Agrícola vem recomprando em quantidades menores, mas de forma consistente. Em certos meses, a companhia comprou quase todos os dias, tanto na alta, em abril, quando a ação chegou a cerca de R$ 19, quanto na baixa, em julho, quando recuou para perto de R$ 13. No total, foram R$ 18,9 milhões, revelando que, nessa faixa de preço, a empresa recompra independentemente das flutuações.
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Finclass.
A Klabin iniciou as suas recompras em julho e continuou comprando em agosto, totalizando 6,4 milhões de units (KLBN11) no ano, cerca de R$ 112 milhões.
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Finclass.
A movimentação do Grupo Mateus é modesta para o tamanho da companhia. As recompras começaram nas últimas semanas de agosto, em meio à forte saída do capital estrangeiro da bolsa, a companhia recomprou 2,5 milhões de ações, cerca de R$ 11,4 milhões, pagando entre R$ 4,28 e R$ 4,77, lembrando que a ação chegou a cair a ~R$ 3,50 este ano.
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Finclass.
Quem está comprando
As companhias não são as únicas a comprar.
E os maiores acionistas do Grupo Mateus, o que fizeram enquanto a ação caía?
Entre o 2T25 e o 2T26, a maior parte dos 15 maiores acionistas do Grupo Mateus aumentou sua posição. A família controladora ampliou sua participação em cerca de 607 milhões de ações, e gestoras, cujo trabalho nós respeitamos e estudamos, como Guepardo e Real Investor somaram, juntas, mais de 120 milhões. Houve, é claro, quem reduzisse a exposição, como Squadra e Norges Bank, o que é natural, afinal, investidores têm horizontes e necessidades de liquidez distintos.
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Finclass.
O saldo, contudo, é comprador. Enquanto a cotação recuava, quem acompanha a empresa de perto aumentou sua exposição.
Recomendamos GMAT3 no dia 3 de março, a R$ 5,44. Logo em seguida, a ação iniciou uma queda que a levou para perto de R$ 3,50. Se soubéssemos disso, teríamos esperado para comprar mais barato, mas não temos bola de cristal e não somos capazes de fazer market timing.
Fonte: Google.
A boa notícia é que não precisamos ter. Quando compramos um bom negócio abaixo do seu valor intrínseco, o tempo trabalha a nosso favor, e o mercado, cedo ou tarde, tende a reconhecer esse valor. Desde as mínimas do ano, GMAT3 já subiu para R$ 4,94, uma alta de cerca de 40%. Inclusive, recebemos relatos de assinantes que aproveitaram a queda para aumentar a posição e já colhem um retorno bastante interessante.
Quem comprou no dia da recomendação ainda acumula uma queda próxima de 9%. Mas, como mostra o movimento dos seus maiores acionistas, não estamos sozinhos na convicção de que o preço atual não reflete o valor do Grupo Mateus.
Considerações finais
Seis eleições em vinte anos deixam uma lição incômoda para quem gosta de previsões: o nome do vencedor explicou pouco do que a bolsa fez depois. Governos vistos como hostis ao mercado conviveram com fortes altas, e reeleições tratadas como continuidade trouxeram perdas. Montar a carteira a partir das pesquisas significa apostar duas vezes: primeiro no resultado da urna, depois na reação do mercado a ele.
O que está sob nosso controle é a qualidade das empresas e o preço que pagamos por elas. Nesse ponto, a carteira chega ao período eleitoral com duas camadas de proteção. A primeira é a receita dolarizada, que amortece parte de uma eventual turbulência doméstica, sem eliminá-la. A segunda são sinais de quem conhece os negócios por dentro: a Prio recomprou mais de R$ 1 bilhão em ações neste ano, SLC e Klabin executaram seus programas, e no Grupo Mateus o controlador e gestoras que respeitamos ampliaram posição enquanto a cotação caía.
Nenhum desses sinais garante acerto, e os próprios insiders já erraram o preço em mais de uma ocasião. Eles servem para confirmar ou questionar uma tese que se sustenta pelos seus próprios fundamentos. Quando os números da empresa, o preço e o comportamento de quem está dentro apontam na mesma direção, a convicção fica mais bem fundamentada.
Até outubro, o noticiário vai oferecer motivos diários para agir. A pergunta útil diante de cada um deles é simples: o que mudou no negócio? Se a resposta for nada, a queda da cotação é ruído, e às vezes é oportunidade. O maior risco deste período provavelmente está nas decisões tomadas sob pressão, e a melhor defesa contra ele é decidir com antecedência como vamos agir.
Evandro Medeiros, CNPI 9270
Isabel Fidalgo, CNPI 10400
Sobre os analistas
Evandro Medeiros
Especialista em Ações
Analista CNPI, economista e especialista em mercado acionário da Finclass. Iniciou sua trajetória em análise de ações em 2019, cobrindo inicialmente o mercado brasileiro e, posteriormente, ampliando seu escopo para os mercados globais, com foco especial em ativos dos Estados Unidos e da Argentina, países onde também teve a oportunidade de residir. É um apaixonado declarado pela filosofia do Value Investing e um entusiasta das empresas “pouco empolgantes”, que muitas vezes oferecem uma precificação mais atrativa do que os grandes nomes conhecidos.
Isabel Fidalgo
Analista de Ações
É analista CNPI, economista e integra a equipe de ações da Finclass. Dedica-se ao estudo de empresas listadas na bolsa brasileira, com foco em valuation e em decisões de investimento de longo prazo. Acredita que bons investimentos nascem de um trabalho cuidadoso e disciplinado e, por isso, tem como compromisso oferecer análises sérias e responsáveis, que ajudem cada investidor a tomar decisões com mais conhecimento e confiança.