Relatórios

O novo sistema financeiro

Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS

20 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Atualização do cenário macro: a expectativa de corte de juros dos Estados Unidos está se consolidando para setembro, com 64% de chance de um corte de 25 bps e um segundo possível corte em dezembro.

  • Revisão de algumas classes de ativos. O BTC deu origem ao mercado cripto com o objetivo de ser utilizado como meio de pagamento, mas hoje em dia sabemos que esse não é o seu principal foco. A partir dele, surgiram diversas outras soluções inovadoras para o mercado financeiro, chamadas de Finanças Descentralizadas (DeFi), até que hoje, a digitalização desses ativos tradicionais, e com isso, ganharam o nome de Ativos do Mundo Real (Real world Assets - RWA)

  • Como será o novo sistema financeiro? Como o mercado cripto pode revolucionar cada um dos mercados, desde a renda fixa, empréstimos, tesouro, ações, dividendos, entre outros mercados tradicionais. 

Sendo eu da geração dos millennials, ou seja, dos que nasceram entre 1980 e 1995,  sou da primeira geração da tecnologia. Eu vivi a época em que tínhamos computador, mas não tínhamos internet. Tudo era na base do disquete ou CD. Os celulares, além de fazerem ligações, eram meramente agendas e despertadores. O GPS, sem internet, só surgiu quando eu já tinha mais de 20 anos e nem era no celular. Alguns anos depois, tive que me adaptar novamente com a internet chegando em todos esses aparelhos.

O mundo está cada vez mais dinâmico e mudando rapidamente. Precisamos nos adaptar a ele cada vez mais frequentemente. Você pode estar achando que essa adaptação é fácil, mas repare na dificuldade que os mais velhos possuem em navegar na internet nos smartphones, em utilizar a multimídia do carro, aprender uma nova língua ou até mesmo em realizar investimentos via home broker.

Para os mais jovens que podem estar achando tudo isso banal, imaginem a dificuldade de se adaptar hoje à programação e à inteligência artificial, que certamente são cada vez mais importantes no nosso dia a dia, mas quem se propõe a aprendê-las? 

Trazendo para o mundo dos investimentos, aqueles interessados nos criptoativos, não sabem nem por onde começar seus estudos e, por isso, muitos preferem ficar na sua zona de conforto, investindo por um ETF cripto. Percebeu como é mais difícil do que parece nos adaptarmos às mudanças?

Por isso, prepare-se. A mudança do mercado financeiro já começou, e quanto antes você se adaptar a ela, melhor será para você. Inclusive, agora você tem a possibilidade de surfar a valorização dela. Algo semelhante com o que aconteceu com a geração X, anterior à minha, que teve a oportunidade de investir na origem das grandes empresas de tecnologia que conhecemos atualmente e que pouco investiu naquela época.

No relatório de hoje, vou te mostrar como está se iniciando essa transição do mercado financeiro tradicional para um modelo baseado nos criptoativos.

Cenário macro

Este mês, as bolsas dos Estados Unidos chamaram a atenção do mercado. O S&P bateu máxima atrás de máxima, e a bolsa de tecnologia, a NASDAQ, seguiu em ritmo forte. Esse movimento já demonstra como o cenário econômico dos Estados Unidos já está predominantemente positivo, apesar de ainda não termos expectativas muito claras de corte dos juros por lá. O mercado já está se adiantando a esse movimento.

Na reunião do dia 12 deste mês, o Presidente do FED, Jerome Powell, seguiu cauteloso no seu discurso, reforçando que o mercado de trabalho segue forte e que está disposto a manter a taxa elevada por mais tempo se for necessário. Esse deve ser um dos principais dados que devemos prestar atenção neste momento. Por isso, para a próxima reunião, em 31 de julho, temos a expectativa de manutenção da taxa na faixa de 5,25% a 5,50%.

A boa notícia é que para a reunião de 18 de setembro, ainda temos uma expectativa predominante de corte, e que inclusive aumentou nas últimas semanas, estando hoje, dia 25, com 66% de chance de corte. Conforme a tabela abaixo, o segundo corte ainda é possível ocorrer neste ano, no dia 18 de dezembro, com uma chance significativa de 66%.

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Fonte: CME (25/06/2024)

Apesar da notícia predominantemente positiva, por enquanto, o mercado cripto ainda não está reagindo bem ao aumento do positivismo do cenário econômico. Isso porque é o mercado mais arriscado, sendo natural que os investidores tomem um cuidado redobrado e, por isso, estejam à espera de uma visão mais clara e definida da economia global.

Mas outro fator que está cada vez mais relevante e impactou negativamente os criptoativos este mês foram as vendas dos ETFs de BTC à vista, dia após dia, conforme a tabela abaixo.

Fluxo de capital nos ETFs de BTC à vista

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Fonte: Farside

Por isso, o BTC está caminhando para fechar o mês no negativo, mas ainda respeitando a congestão que vem desde o final de março, entre US$ 60 mil e US$ 72 mil. Coincidentemente ou não, é exatamente o período no qual os ETFs estabilizaram sua capitalização, conforme o gráfico abaixo.

Capitalização dos ETFs de BTC à vista

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Fonte: TheBlock

Mas, além da capitalização de mercado, também é interessante observarmos o market share de cada um dos fundos, assim conseguimos ter alguma ideia do desempenho de cada um deles e do seu potencial de atrair clientes. 

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Fonte: TheBlock

Apesar da Grayscale (GBTC - gráfico verde) ter diminuído nas vendas, segue perdendo mercado. Enquanto isso, a BlackRock (IBIT - Gráfico azul-escuro) continua seu ritmo de crescimento, chegando aos 58%. A Fidelity (FBTC - gráfico vermelho) está conseguindo se manter estável, com uma fatia que varia entre 16% e 18%.

Outro dado que também precisamos analisar, e que inclusive nos dá pista do interesse do mercado tradicional no mercado cripto, é o volume de negociação desses ativos.

Volume de negociação dos ETFs

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Fonte: TheBlock e Yahoo Finance

A última barra do gráfico representa um dia de bastante volatilidade, no qual o BTC chegou a cair mais de 7%, mas recuperou boa parte da queda até o final do dia e, por isso, tivemos um volume acima da média. Por outro lado, isso demonstra que tivemos um interesse comprador significativo no patamar dos US$ 60 mil.

Para o investidor institucional, o volume de negociação é extremamente importante, não só para conseguir comprar em lotes, mas também para desfazer as posições no futuro. A tendência é que o volume suba com a retomada da volatilidade do mercado.

O novo sistema financeiro

O primeiro documento explicando o BTC surgiu em dezembro de 2008, e a rede começou a operar em janeiro de 2009. E, de fato, ele começou sua jornada com foco em ser um dinheiro digital, ou seja, com o objetivo de ser utilizado como transferência de valor de pessoa para pessoa. Mas a grande característica do BTC não é ser digital, mesmo porque, hoje em dia, quase não usamos mais dinheiro. Sua principal característica é ser descentralizado e imparável.

Podem acreditar, se fosse possível parar o BTC, já teriam feito, pois de fato o ativo desafia os mais poderosos do mundo. Como não conseguiu, o mercado financeiro tradicional está se juntando a ele.

Inclusive, recentemente, um movimento que me chamou a atenção foi o do ITAÚ. Eles começaram a disponibilizar o investimento diretamente em criptoativos, mas a diferença em sua estratégia é que eles tomaram a iniciativa de realizar a autocustódia dos criptoativos. Por outro lado, eles não permitem o saque dos ativos, ou seja, eles não querem “largar o osso” para nos manter dependentes deles.

Mas o que eu considero o principal movimento dos bancos é a digitalização de seus ativos do mercado financeiro tradicional, que ganharam o nome de Ativos do Mundo Real (Real World Assets - RWA). Então, hoje vamos abordar como esses ativos tradicionais estão sendo convertidos em ativos digitais nos mais diversos mercados, como renda fixa, empréstimos, imóveis, troca de ativos, entre outros.

Por isso, se você ainda não entende termos como RWA, escalabilidade, camadas (layers), contratos inteligentes, finanças descentralizadas (DeFi), staking, exchanges descentralizadas (DEX), stablecoins, entre outros, sugiro que leia meu relatório de maio, no qual comentei resumidamente cada um desses termos, os quais nos aprofundaremos no relatório de hoje.

Meios de pagamento

Em 2017, quando comecei no mercado cripto, estranhei que naquele momento as taxas de transações do BTC chegavam a passar de US$ 10. No final de 2017, chegou a passar dos US$ 50. Esta foi a primeira vez que o BTC foi colocado em xeque quanto à sua usabilidade como meio de pagamento.

Taxa de transação de BTC (USD)

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Fonte: BitInfoCharts

Isso aconteceu porque o ativo ganhou sua primeira grande onda de usuários e, consequentemente, aumentou o número de transações na rede, resultando no aumento das taxas da rede. Como podemos ver no gráfico acima, esse aumento de taxas também aconteceu na temporada de alta de 2021 e está acontecendo novamente na atual temporada de alta.

Portanto, hoje a gente sabe que o BTC de fato não serve para ser utilizado como meio de pagamento no dia a dia, pois mesmo nos períodos mais baratos, as taxas giram ao redor de US$ 1, inviabilizando o pagamento de um cafezinho.

Visando superar o BTC, em 2017 e 2018, surgiram dezenas de projetos que abordavam a principal dor do ativo, como o Bitcoin Cash (BCH), o principal ativo que se originou a partir da blockchain do BTC, por meio de uma divisão da rede (Fork). Mas também podemos citar ativos um pouco mais antigos que já haviam identificado esse problema com o BTC, como Litecoin (LTC) e  Stellar Lumens (XLM).

Acontece que, todos os projetos que focaram somente na escalabilidade das transações com baixo custo já mostraram que fracassaram. Ou seja, não é uma narrativa suficiente para manter um ativo. Outro motivo é o baixo nível de descentralização desses projetos em relação ao BTC, e por isso, não acompanharam seu crescimento.

Mesmo assim, atualmente já temos algumas alternativas para efetivamente utilizar o BTC como meio de pagamento, como a segunda camada chamada Lightning Network (LN). Para utilizá-la, é preciso de uma wallet específica para a rede, pois todo BTC que você deposita nela está disponível para ser transacionado. As maiores carteiras atualmente são a Wallet of Satoshi e a Breez. E, por ser utilizada como meio de pagamento, lembre-se de deixar nela apenas o que pretende utilizar no dia a dia e não manter nela seus ativos de HODL.

O primeiro dado que podemos analisar da rede é o número de computadores ligados a ela, chamados de nodes.

Número de nodes na rede da LN

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Fonte: LookIntoBitcoin

Apesar da temporada de alta do mercado, que vem desde 2023, o número de nodes na rede da Lightning está diminuindo nos últimos anos, o que já é um sinal de alerta. Por outro lado, os nodes estão depositando mais ativos na rede este ano, conforme o gráfico azul abaixo.

Capacidade da rede

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No final das contas, o valor depositado na rede está aumentando de forma saudável, mas graças à valorização do BTC. 

Agora, se o BTC vai mesmo ser utilizado como meio de pagamento no futuro, não sabemos. Mas é possível, sim, que outros criptoativos surjam e ocupem essa fatia do mercado, nem que seja uma stablecoin.

Serviços financeiros

Além dos meios de pagamento, também estamos prestes a revolucionar diversos outros serviços financeiros tradicionais, conforme veremos a seguir.

  • Poupança

Infelizmente, a poupança é um dos investimentos favoritos do brasileiro, com baixa rentabilidade, mas com a vantagem de ser um dos mais conservadores e práticos que existem. 

No mercado cripto, podemos comparar esse investimento com o staking de criptoativos, mas vale destacar que isso só é possível em projetos que adotaram a estratégia de Proof-of-Stake (PoS), e não inclui o BTC.

Usando como referência o ETH e a MATIC, se forem colocados na maior plataforma de staking do mercado cripto, como a LIDO, os ativos renderão por volta de 3% e 4% ao ano, respectivamente.

Para um mercado volátil como este, é um rendimento relativamente baixo e, na minha opinião, não vale o risco de interação com a LIDO, mesmo sendo uma das mais confiáveis atualmente.

Devido ao baixo rendimento da poupança, por ser uma opção ruim, possibilitar um rendimento contínuo e ser a forma mais conservadora de rentabilizar no mercado cripto, fiz essa comparação do staking com a mesma. 

  • Câmbio

Temos duas stablecoins entre os seis maiores criptoativos do mundo, a USDT e a USDC, ambas lastreadas em dólares americanos. Além disso, o USDT é o ativo mais negociado no mundo, sendo quase duas vezes mais do que o BTC.

Isso se deve  ao fato de o USDT ser o principal ativo a ser utilizado para converter diversas moedas ao redor do mundo para dólar. Além disso, é por meio dele que os mais diversos ativos são negociados. Por sempre possuir um valor estável de US$ 1, quando algum investidor quer realizar lucro, ele pode trocar o ativo pela stablecoin e conservar seu patrimônio enquanto espera uma nova oportunidade no mercado. Seria como se estivesse comprando e vendendo por dólar, mas tecnicamente é uma operação entre criptoativos.

Deste modo, o mundo inteiro está negociando os diversos ativos em USDT, e por isso ele é tão utilizado, tornando a cotação em dólar a referência do mercado global. 

Essa facilidade de trocar uma moeda local de qualquer país, por dólar diretamente na exchange, com um ágio relativamente baixo de aproximadamente 1%, faz com que o ativo facilite bastante a negociação ao redor do mundo, proporcionando maior liquidez ao mercado.

Além do dólar, também já existem stablecoins em diversas outras moedas Fiat, inclusive me real, o que permite você se expor a elas, quando achar interessante, e até mesmo operar o câmbio de forma semelhante ao mercado Forex.

Atualmente, esses ativos possuem uma grande dependência do dólar, mas seria bastante interessante ter uma moeda lastreada em moedas de diversos países ao redor do mundo, que se tornasse uma moeda única mundial.

  • Empréstimos

Aqui, precisamos diferenciar as operações. Quando você está tomando empréstimo no banco, você está contraindo uma dívida e, por isso, pagará juros. Por outro lado, também podemos considerar um CDB como um empréstimo que você concede ao banco e, por isso, recebe juros.

No português, é tudo empréstimo, mas na língua inglesa temos uma palavra para cada situação. Para quem toma empréstimo, é borrow, e para quem disponibiliza o empréstimo, é lending ou supply.

Precisei esclarecer isso, pois nas plataformas de criptoativos, você consegue operar nas duas pontas. Apenas por questão de facilidade visual, vamos pegar como exemplo a plataforma da AAVE, mas outras plataformas de referência poderiam ser a Maker, Nexo e a Compound.

Plataforma AAVE de empréstimos

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Fonte: Aave

Na coluna verde, perceba que se você colocar o ETH para outras pessoas pegarem emprestado, você receberá, por ano, cerca de 1,79% de rendimento. Já se você pegar emprestado o ativo, precisará pagar 2,54% de juros ao ano. 

Mas Thales, então esse modelo é pior do que colocar em staking?

Depende. Pois esse rendimento oscila constantemente e pode melhorar conforme a demanda do mercado pelo ativo aumenta. Ainda mais nesse momento, no qual o mercado cripto está estagnado há quase três meses, a demanda pelos ativos diminui, reduzindo assim o rendimento da operação.

Por outro lado, repare que você pode pegar emprestado por uma taxa de juros de 2,54% ao ano e, em seguida, colocar na Lido para ganhar 3% ao ano. Mas lembre-se que você corre o risco de a taxa de juros paga passar dos 3% quando o mercado retomar seu movimento devido ao aumento da demanda pelo ativo. Portanto, também não acho que vale a pena o risco da operação. Ela atende um público muito específico, podendo, por exemplo, ser uma alternativa para quem não consegue um empréstimo do modelo tradicional.

Um ponto interessante é que dificilmente emprestamos dinheiro para quem não conhecemos muito bem; mesmo em um CDB, corremos o risco de tomar calote e precisar recorrer ao FGC. Mas aqui, tudo é garantido por um contrato inteligente que realiza as operações de forma automatizada, permitindo-lhe “emprestar” o ativo para qualquer pessoa ao redor do mundo. Enquanto a pessoa não devolver os ativos que pegou emprestado, os ativos de garantia ficam bloqueados.

Corretoras 

No mercado tradicional, os bancos tradicionais até prestam um serviço de investimento, mas, se quisermos investimentos melhores, precisamos ir para as corretoras, como XP, RICO, BTG, entre outras.

Aqui no mercado cripto, as empresas que disponibilizam a negociação de criptoativos são chamadas de exchanges. Quando são empresas tradicionais, como Binance,  Coinbase e Mercado Bitcoin, são chamadas de exchanges centralizadas, ou CEX (Centralized Exchanges), pois as operações são de responsabilidade de uma empresa específica.

Quando escolhemos uma dessas empresas para operar, continuamos dependendo de um intermediário nas nossas operações, o que o mercado cripto não apoia muito. Por isso, surgiu uma evolução desse modelo herdado do mercado tradicional, as  chamadas Exchanges Descentralizadas (Decentralized Exchanges - DEX).

Como o próprio nome já diz, as DEX, de fato, seguem a ideia de independência do mercado cripto, pois são contratos digitais que operam livremente na internet. Não são uma empresa, não possuem uma localização específica, nem um representante principal e, por isso, são consideradas “descentralizadas”.

Por meio das DEX, você consegue executar sua troca de ativos diretamente da sua carteira; basta interagir com um contrato inteligente, não sendo necessário enviar de volta para uma exchange.

Interagir é muito simples. Vamos pegar a Uniswap, para exemplificar.

Plataforma Uniswap

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Fonte: Uniswap

0- Acesse o site app.uniswap.org

1- Faça o login na sua carteira;

2- Vá na aba “Conversão”; 

3- Defina a quantia e o ativo que deseja desfazer posição;

4- Escolha o ativo que quer receber em troca;

5- Realize a conversão e aprove na sua wallet.

A vantagem é que, dependendo das taxas da CEX (corretagem e de saque da cripto), pode ser mais interessante realizar a troca de ativos, pois a taxa da DEX é fixa, independentemente do valor convertido.

Espero que, até então, você tenha entendido esse conteúdo, porque a partir de agora, a estrutura da operação começa a se complicar. 

Se você quer se beneficiar desse modelo das DEX, ganhando taxas dessas operações, não basta apenas colocar seu ativo à disposição, como nos empréstimos; agora, será necessário você participar do que a gente chama de “piscina de liquidez” (Pool).

Para iniciar o processo, você precisa possuir pelo menos dois ativos, conforme veremos no passo a passo, utilizando a Uniswap novamente como exemplo.

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Fonte: Uniswap

1- Vá na aba “explorar”;

2- Escolha a opção “piscinas” ou, então, “pools”, se estiver em inglês;

3- Clique no par de ativos que você possui.

Note que, na última coluna “1 dia de abril”, existe um valor percentual, mas não se engane, não é o rendimento de um dia, e, sim, qual volume da pool foi movimentado. As taxas que você recebe são proporcionais tanto ao valor total depositado na pool, quanto ao volume negociado pelo mercado.

Cada par de ativos é considerado uma pool e, por isso, você só receberá taxas nas trocas entre esses dois ativos. Depois de escolher o par, você verá a tela abaixo.

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Nesse exemplo, a pool do par ETH/USDT possui US$ 93,4 milhões investidos e recebeu nas últimas 24 horas US$ 48,3 mil em taxas, ou seja, aproximadamente 0,052% de rendimento ao dia; levando em consideração que o mercado cripto funciona todos os dias do mês, isso seria um rendimento de aproximadamente 1,57% ao mês. 

Para alguns investidores, pode ser um rendimento interessante, mas podemos considerá-lo relativamente baixo, isso porque o mercado cripto como um todo está lateral há alguns meses. Quando o mercado retomar o movimento, as negociações tendem a aumentar e, consequentemente, as taxas também tendem a melhorar.

Com seu par escolhido, basta ir em “Adicionar liquidez”; agora, vem a parte mais complexa da operação:

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1- Escolha a melhor opção para seus ativos, conforme as instruções da Uniswap;

2- Defina o range de preços em que você quer disponibilizar a negociação dos seus ativos. Utilize o gráfico como referência;

3- Defina quanto quer colocar do seu primeiro ativo;

4- Este campo é preenchido automaticamente após a definição do (3), com base no range de preços que você escolheu;

5- Para finalizar, aprove a operação na wallet.

Teoricamente, quanto mais estreito o range de preços que você escolher, maior será a  taxa que você tende a receber. Nesse caso, você fica mais suscetível aos ativos saírem do range de preços definido. Se isso acontecer, você para de receber as taxas e precisará desfazer a pool atual e montar outra, ou seja, pagará mais duas taxas.

Na rede da Ethereum, as taxas são bem significativas, mas, claro, quanto maior o valor financeiro, menor o impacto do custo operacional. Pessoalmente, prefiro pools mais duradouras, com range de preços mais amplos para não precisar refazer a operação frequentemente. Mesmo porque, o acompanhamento das pools já precisa ser praticamente diário.

Para comparar os rendimentos das diversas pools em várias plataformas, você pode utilizar o site DeFiLlama, seguindo o passo a passo abaixo.

Rendimento das Pools no DeFiLIama

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Fonte:DeFillama

A última coluna APY (Annualised Percentage Yield) é o rendimento estimado anual, mas lembre-se que esse rendimento oscila diariamente, conforme a demanda do mercado.

Podemos obter alguns rendimentos interessantes, mas precisamos tomar alguns cuidados. Quanto menor a plataforma utilizada, maior tende a ser o retorno, pois ela precisa atrair investidores para as pools e compensar o risco de se expor a um projeto menor. Além disso, se você não quer viver do mercado, não vale a pena ficar buscando melhores rentabilidades em ativos que não fazem parte da sua carteira de longo prazo, pois a chance de o ativo se desvalorizar mais do que a rentabilidade da pool é bem alta.

Deste modo, a Uniswap consegue disponibilizar a paridade de diversos ativos do mercado cripto, graças aos investidores ao redor do mundo que montam e colaboram com a liquidez das milhares de pools. 

É assim que funcionam as exchanges descentralizadas. Mas, claro, tudo isso continua em processo evolutivo e certamente estamos muito longe de um ideal, mas a transformação das corretoras tradicionais já começou.

Ativos do mundo real (Real World Assets - RWA)

Como o tema já foi abordado no relatório anterior, vamos fazer uma breve revisão do que são os RWA (Real World Assets). Podemos traduzir a sigla como “ativos do mundo real”, ou seja, ativos do mercado financeiro tradicional adaptados ao mercado cripto.

Iniciando com o exemplo das stablecoins, ativos de valor estáveis lastreados no dólar, podemos dizer que o modelo segue a ideia de um RWA, pois converte a moeda fiduciária em um ativo digital. Essa digitalização pode ser aplicada em diversos outros ativos tradicionais, conforme veremos a seguir.

Renda Fixa Digital

Desde o início de 2023, já temos tokenização dos títulos do governo dos Estados Unidos, e hoje a soma deles já ultrapassa US$ 1.6 bilhão em capitalização.

Títulos do governo dos Estados Unidos

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Fonte: rwa.xyz

Apesar de ter iniciado no começo do ano, o token da Black Rock, maior gestora do mundo, já é o líder deste mercado, seguido pela gestora Franklin e, depois, pela empresa predominantemente de cripto, a ONDO. Os ativos BUILD, FOBXX, USTB e OUSG já são, inclusive, regulamentados pela SEC.

Market share de ativos e redes

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Fonte: rwa.xyz

As vantagens da tokenização desse tipo de ativo, assim como nos ativos que abordaremos a seguir, são a automatização das operações, pois tudo pode ser feito por um contrato inteligente, sem depender de uma empresa para realizar as operações. Você simplesmente acompanha pela análise dos dados. Certamente também evita burocracias e agiliza a criação e negociação do título.

Outra aplicação na renda fixa é no crédito privado, ou seja, no empréstimo para as empresas, semelhante ao que temos nas Debêntures. Também podemos expandir a aplicação para os títulos de securitização, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA).

A ideia aqui é que esses títulos costumam ter baixíssima liquidez no mercado, inviabilizando o investidor desfazer a posição antes do prazo contratado. Com a tokenização desses ativos, é possível criar um mercado secundário eficiente para negociação de cada um deles, possibilitando oferecer rendimentos mais agressivos, aumentar a captação, bem como permitir a saída antecipada do investidor. Mas claro que, mesmo assim, quem vender antes do prazo sofrerá alguma punição do mercado.

No Brasil, a maior exchange local, o Mercado Bitcoin, proporciona investimento e negociação de diversos ativos de renda fixa, como consórcios, recebíveis e de precatórios.

Commodities

A Tokenização das commodities começou em 2019 com a criação do PAXG, um criptoativo lastreado em ouro físico. Em 2021, surgiu o XAUT, outro ativo baseado no ouro, que vem em crescimento contínuo nos últimos anos. Atualmente, esse mercado soma cerca de US$ 850 milhões.

Capitalização das commodities tokenizadas

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Fonte: RWA.xyz

Mais recentemente, também surgiram os tokens lastreados em prata e até mesmo na platina, conforme a lista abaixo. A famosa gestora do mercado tradicional WisdomTree, já embarcou nessa jornada.

Ativos tokenizados de commodities

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Fonte: RWA.xyz

A Paxos, empresa responsável pela PAXG, permite inclusive sacar ouro físico com o ativo, sendo que cada token equivale a uma onça. Deste modo, as empresas conseguem comprar o ativo e terceirizar o armazenamento. Se você é um investidor pessoa física, por meio do criptoativo, consegue armazenar ouro sem precisar correr o risco de guardá-lo fisicamente em sua casa.

Renda Variável Digital

A economia compartilhada está cada vez mais popular.  Exemplos incluem a compra de cotas de um carro de luxo ou de um hotel, que te permitem utilizar algumas diárias por ano, além de receber dividendos. Já vi até mesmo cotas de aviões e iates. Um mercado relativamente novo, limitado, extremamente burocrático e, por isso, sem liquidez. 

Como esse ainda é um mercado muito novo, vamos ser mais conservadores. Deste modo, podemos fazer uma relação das cotas de imóveis, que são ligeiramente semelhantes aos Fundos Imobiliários. Cada cota pode virar um token, que permite fazer a verificação automática no blockchain de quantas diárias você utilizou ou ainda tem disponível no ano,  além de realizar a distribuição dos dividendos sem precisar de alguém para operar as transações e criar um sistema de governança que dá direito a voto, muito mais eficiente do que nos FIIs.

Então, essas cotas teriam lastro no imóvel e nos dividendos, podendo ser negociadas mais facilmente do que no modelo de economia compartilhada, que é extremamente burocrático. Cada um pode vender pelo preço que achar interessante e, por ser apenas uma fatia do imóvel, seria muito mais fácil sua venda no mercado secundário. Mas, claro, tudo dependeria da dinâmica de oferta e demanda.

Já no mercado de ações, a ideia pode ser a mais básica possível: desde um token que simplesmente replica o desempenho do ativo real, assim como a Binance e a falida FTX já fizeram anteriormente. Esse seria um modelo que facilita o acesso de pessoas do mundo todo a esses ativos. 

Outra aplicação seria um token criado com o objetivo de ser equivalente a uma ação, mas que só existe no digital. Um exemplo desse tipo de ativo digital equivalente a uma ação é o BNB, que, apesar da Binance negar sua relação com o ativo, se beneficia claramente com o crescimento da exchange. 

Dividendos

Alguns projetos do mercado cripto conseguem obter uma renda significativa e, por isso, conseguem até distribuir seus lucros, tanto para os desenvolvedores quanto para a comunidade de investidores, um modelo semelhante ao rendimento do staking.

Essa distribuição pode ser automatizada por um contrato inteligente, até mesmo diariamente, devido à baixa complexidade operacional, e pode inclusive ser auditada por todo o mercado graças à transparência do blockchain.

Apesar de ser uma característica positiva, com potencial de atrair muitos investidores, diversos projetos evitam essa estratégia. Isso porque o mercado tem um grande medo de que, depois de aderir tal estratégia de distribuição de lucros, a SEC possa interpretar como um ativo de valor mobiliário e emitir uma multa pesada ou até mesmo emitir um stop order.

Fundos

Para facilitar o entendimento, podemos utilizar aqui o modelo de ETFs, que nada mais são do que fundos listados na bolsa. Por serem ativos negociáveis, também podem ser digitalizados, assim como nas ações.

Outra possibilidade seria um fundo que fosse operado automaticamente por um contrato inteligente, sem depender de alguém para operá-lo. Por exemplo, um fundo que se exponha proporcionalmente aos TOP 50 criptoativos da rede da Ethereum e que faça seu rebalanceamento de forma automática todo mês por meio das DEX. Todo dinheiro que sai ou entra é distribuído automaticamente entre os ativos.

Entusiasta Cripto

Misturando tudo isso, no futuro será possível colocar suas ações e até seu imóvel compartilhado como garantia para pegar cripto emprestada. 

Algumas aplicações parecem uma loucura hoje em dia e de fato podem realmente ser, mas neste relatório, meu objetivo não foi abordar a viabilidade de cada aplicação, e sim, simplesmente citar as diversas possibilidades para te fazer pensar fora da caixa do mercado tradicional e para onde ele pode ir.

Então, fazendo um apanhado geral da relação dos criptoativos, temos a Ethereum com suas diversas aplicações, como stablecoins, principal estrutura para DEXs, e sendo a rede predominante nos RWAs. 

A Chainlink é a principal fornecedora de dados do mercado cripto para os bancos tradicionais aplicarem em seus RWAs, e a AVAX também está em parceria com diversos bancos para a construção de uma blockchain específica para os bancos.

A Lido (LDO) é o jeito mais prático para se obter um pequeno rendimento extra da Ethereum e MATIC por meio do staking. Assim, diversos ativos desta tabela de aprovados podem se beneficiar desse movimento de transformação.

Ativos aprovados

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Fonte: Spiti data: 23 fevereiro

Conclusão

O mercado financeiro tradicional adiou ao máximo a adoção do mercado cripto, mas agora, finalmente deu o braço a torcer. Esse é um movimento inevitável e, por isso, agora todo sistema financeiro está se digitalizando. 

Claro que essa transformação não será do dia para a noite, esse processo está apenas começando e ainda deve demorar vários anos para se tornar relevante. Além disso, muitas outras aplicações que nem imaginamos hoje surgirão no futuro. 

O que importa é que você está tendo a oportunidade de participar do início do crescimento desse mercado, tanto de investir, quanto também de poder empreender nele. Basta ser disruptivo no seu mercado de atuação e encontrar alguma forma de automatizar o processo. 

Então, relembrando a introdução deste relatório, quanto mais rápido você se adaptar a essa transformação, melhor para você. Aproveite esse movimento de queda recente do mercado cripto para aumentar suas posições e se preparar para a retomada de alta do mercado.

Forte abraço,

Thales

Sobre os analistas

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.