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O pistache e os índices de renda fixa, esquecidos, mas não descartáveis

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Rodrigo Xavier em RENDA FIXA

8 min de leitura

O pistache e os índices de renda fixa, esquecidos, mas não descartáveis

Eu preciso confessar que, apesar de ir à academia com certa frequência, tenho uma queda, não desprezível, por doces. Evito comê-los com frequência, mas aos finais de semana, por vezes, acabo compensando a falta deles nos dias úteis.

Minha esposa, Nicole, já usa uma estratégia diferente, quase que diariamente ela come uma leve dose de açúcar. O melhor? Eu não sei, mas não estou aqui para falar sobre isso.

Até pouco tempo atrás, se alguém me perguntasse sobre meu tipo de doce favorito, eu certamente diria algum que levasse um bom doce de leite. Apesar de ter uma certa antipatia com os argentinos, causada pela rivalidade no futebol, eu gosto de um típico doce de leite argentino.

Mas, recentemente, outro tipo de doce vem me agradando demais: aqueles preparados com pistache.

Quando trabalhava na mesa de operações da gestão de recursos da Porto Seguro em 2018, o gestor responsável pela seleção de ações não deixava faltar um pacote de pistache puro em sua mesa. Um dia, ao provar, percebi que era salgado e não agradava tanto o meu paladar na época.

Talvez por esse episódio levemente desagradável, eu tenha evitado todo e qualquer prato que levasse pistache por tanto tempo... que erro.

Recentemente provei um chocolate com recheio de pistache e, desde então, pistache e doce de leite se tornaram uma das minhas combinações favoritas.

Ovo de Páscoa? Pistache.

Petit Gâteau? Pistache.

Sorvete? Pistache.

E por aí vai.

O pistache parece ter se tornado a nova “Nutella” da gastronomia brasileira. Aparece em infinitas receitas e, surpreendentemente, na minha opinião, quase todas ficam muito boas.

Resumindo, o pistache foi uma grande descoberta para mim. Algo bastante semelhante ocorre no mercado financeiro e, provavelmente, já aconteceu com você: quantas novas classes de ativos você não investia e depois acabou descobrindo que se encaixavam perfeitamente em seu perfil de investimento?

Os ativos indexados à inflação, os fundos imobiliários, os fundos de infraestrutura, os criptoativos e os ETFs internacionais negociados na bolsa brasileira são alguns dos exemplos de ativos que os brasileiros estão descobrindo e vêm fazendo sucesso.

Mas eu não quero te apresentar a uma nova classe de ativos; pelo contrário, quero mostrar algo que já existe há bastante tempo, é eficiente e, provavelmente, você ainda não conhece: os anônimos índices de duração constante.

Apesar do nome complexo, eles são simplesmente índices que buscam representar uma cesta de ativos de modo que o vencimento médio dos ativos que estão lá seja sempre de um prazo fixo, como, por exemplo, uma cesta de títulos prefixados que vence em um ano.

Você pode estar pensando: “Guilherme, como uma cesta de títulos de renda fixa terá um prazo fixo?”.

A resposta é relativamente simples: vamos imaginar que existam apenas dois títulos públicos prefixados no Brasil, um que vença em um ano e outro que vença em exatos três anos.

Se estivermos falando de um índice com vencimento fixo de dois anos, a proporção será de 50% para o título que vence em um ano e 50% para o que vence em três anos, chegando a um vencimento médio de exatos dois anos.

Calma! A tabela a seguir, com certeza, vai melhorar o seu entendimento:

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Fonte: Finclass

Em amarelo, você observa o prazo médio de vencimento do índice.

Agora, vamos supor que seis meses se passaram, ou seja, o título que vencia em um ano, agora, vence em seis meses (0,5 ano) e o que vencia em três anos expirará em dois anos e meio.

Qual seria a nova proporção do índice? 25% para o título que vence em seis meses e 75% para o que vence em dois anos e meio. Com esse novo parâmetro, você teria um prazo médio de vencimento do índice de exatos dois anos.

Para ficar mais claro, observe esta outra tabela:

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Fonte: Finclass

Claro que, na realidade, não é tão simples, afinal, estamos falando de índices de vencimento fixo que são compostos por um número maior de títulos do que apenas dois.

Mas você não precisa se preocupar sobre como funciona a metodologia para o cálculo dessas proporções, basta saber que elas são calculadas e divulgadas pela Anbima.

A Anbima, Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, fala em nome de instituições como bancos, gestoras, corretoras, distribuidoras e administradoras. Ela tem como compromissos representar e autorregular o mercado financeiro e informar e educar tanto o mercado como a população brasileira.

Assim, realmente, o cálculo não é algo que deva estar entre as suas preocupações. Eu apenas quero que entenda o conceito de como ele funciona para ficar confortável sobre os investimentos que falaremos adiante.

Existem índices de prazo fixo para duas classes na renda fixa: os prefixados e os indexados à inflação (IPCA).

Todo e qualquer índice de prazo fixo é conhecido pelo prefixo IDKA, conhecido como Índice de Duração Constante Anbima. E para cada uma das “famílias”, ou seja, prefixados ou indexados ao IPCA, nós temos alguns índices de diferentes prazos.

Eles estão representados na tabela a seguir:

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Fonte: Anbima

Estamos falando de cinco índices para o segmento prefixado e sete índices para os indexados ao IPCA.

Vamos estudar um pouco a performance de todos eles, realizar algumas análises para entender a eficiência de cada um e, posteriormente, entender se há algum investimento que replique alguns dos mais eficientes, ou seja, aqueles que equilibram melhor a relação risco x retorno.

No gráfico abaixo, analisaremos o retorno dos índices desde o seu início, o dia 03 de janeiro de 2006. Portanto, consideraremos uma janela superior a 18 anos, um período relevante para tirarmos conclusões fundamentadas:

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Fonte: Quantum – Finclass

Veja que o retorno de qualquer índice, seja prefixado ou indexado à inflação, para qualquer período fixo, supera o CDI desde o início.

Mas será que, apesar de serem eficientes contra o CDI, eles também são contra os principais índices tradicionais do mercado, como IRF-M e IMA-B?

Vamos observar a tabela abaixo:

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Fonte: Quantum – Finclass

Perceba que, mesmo quando consideramos o índice dos títulos públicos prefixados (IRF-M) e indexados à inflação (IMA-B), os índices de duração constante aparecem como boas oportunidades no quesito retorno.

Se você já nos acompanha há mais tempo, deve saber que não olhamos apenas para o retorno, mas também tomamos muito cuidado com o risco que corremos, ou seja, a probabilidade de perder dinheiro com determinado investimento.

Quando estamos falando de investimentos em títulos públicos, nos referimos basicamente a dois riscos: de mercado e de crédito.

O risco de crédito se refere à probabilidade de você tomar um calote do emissor do título. Lembre-se, todo título de renda fixa, no final das contas, é um título de dívida. No caso dos títulos públicos, estamos falando da probabilidade de o Governo Federal, basicamente, quebrar ou, por livre e espontânea vontade, não pagar o que te deve no vencimento de um título público.

Todos os títulos analisados são públicos, o que significa que estamos correndo o mesmo risco de crédito.

Já o risco de mercado se refere à oscilação de preço de cada um desses ativos, que podem ser bem diferentes entre si. Essas oscilações estão diretamente relacionadas com o prazo de vencimento de um ativo prefixado ou indexado à inflação. Logo, quanto maior o prazo médio de vencimento do ativo/índice em análise, maior tende a ser a sua oscilação de preços, conhecida como volatilidade.

A seguir, para ter uma base de comparação, vamos observar a volatilidade do ano de 2023 dos principais índices do mercado brasileiro:

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Fonte: Finclass

Agora, confira a volatilidade dos índices de duração constante desde o início:

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Fonte: Quantum – Finclass

Veja, a volatilidade dos índices de duração constante na renda fixa com prazos superiores a 20 anos é superior à do Ibovespa, o principal índice de ações no Brasil. Outro ponto interessante é que, quando analisamos especificamente esses índices de renda fixa, quanto maior o risco, maior será o retorno. Este cenário, no entanto, não é trivial, basta observar a performance dos índices de renda variável no Brasil com maior volatilidade, mas baixo retorno.

Com essas duas informações, retorno e volatilidade, nós podemos calcular o famoso índice Sharpe, que mede justamente a eficiência de um ativo em entregar retorno frente ao risco que ele corre.

Quanto maior o índice de Sharpe, melhor será o resultado de um investimento frente ao risco que se corre.

Observe a tabela dos índices de duração constante ordenada de maneira decrescente:

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Fonte: Quantum – Finclass

Veja, o índice que traz a melhor relação risco x retorno é o indexado à inflação com duração constante de dois anos. Para você entender se essa é uma boa métrica, confira os índices “tradicionais” do mercado mais uma vez.

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Fonte: Quantum – Finclass

Portanto, quando analisamos os índices tradicionais do mercado, conseguimos entender que o índice de Sharpe dos índices de duração constante é muito alto, assim, eles parecem ser boas referências para trazer mais eficiência para nossos investimentos.

Mas como é a consistência desses índices em superar o CDI?

Uma coisa é você dizer que eles renderam mais que o CDI desde 2006, outra é afirmar que eles consistentemente superam o principal índice do mercado brasileiro.

A diferença está no fato de que pessoas podem ter investido nesses índices depois da sua criação e, ainda por cima, terem deixado-os na carteira por um prazo menor do que 10 anos. Dessa maneira, temos que analisar qual a consistência em superar o CDI em janelas de tempo de prazos menores, como dois, três e cinco anos.

Inicialmente, vamos entender qual a consistência de índices tradicionais em superar o CDI nas mesmas janelas.

Observe a tabela de dois anos. Ou seja, desde 2006, se você investiu em qualquer desses índices e os carregou por 24 meses, confira o percentual das vezes que teve um retorno superior ao CDI:

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Fonte: Finclass

Veja que, em janelas de dois anos, desde 2005 o Ibovespa ficou à frente do CDI em 39% das vezes, o que significa que o CDI teve vantagem no percentual restante - 61% das vezes. Podemos afirmar que o Ibovespa apresenta um histórico ineficiente contra o CDI. O índice Small Caps apresenta uma eficiência tão baixa quanto o Ibovespa, apesar de ser ligeiramente menor.

O destaque positivo fica por conta dos índices de renda fixa.

Agora, vamos entender as janelas de três anos:

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Fonte: Finclass

A consistência dos índices de renda fixa em superar o CDI aumentou conforme o prazo também cresceu, mas esse cenário não beneficiou os índices de renda variável na mesma proporção.

Na sequência, vamos às janelas móveis de cinco anos:

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Fonte: Finclass

Perceba que, neste caso, a eficiência dos índices de renda fixa salta para um percentual superior a 90%, enquanto os de renda variável permanecem basicamente estáveis. Significa que, para os índices tradicionais, em termos de eficiência, a renda fixa leva uma ampla vantagem.

Para facilitar o entendimento, chegamos agora ao quadro resumo por prazos:

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Fonte: Finclass

Agora, vamos aos índices de duração constante?

Nesta análise, em quadro resumo, vou direto ao ponto para te mostrar a eficiência dos três prazos analisados de janelas móveis, dois anos, três anos e cinco anos. Minha única interferência será separar os índices indexados à inflação dos índices prefixados:

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Fonte: Finclass

Observe o nível de consistência de superar o CDI para os índices de duração constante IPCA de curto prazo. Para janelas móveis de cinco anos, a consistência é de 100%, ou seja, quem replicou esses índices de alguma maneira em sua carteira de investimentos e preservou esses valores por 60 meses, superou o CDI em qualquer janela de observação. É um nível de consistência bastante acima da média.

Por fim, vamos aos índices prefixados.

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Fonte: Finclass

Apesar da consistência ser levemente inferior ao IPCA, ela ainda é extremamente elevada. Em janelas mais longas, observamos um fenômeno parecido, ou seja, uma consistência próxima de 100% em superar o CDI - cenário extremamente positivo.

O que isso significa?

Que os índices com elevada consistência são importantes para termos exposição de maneira constante na carteira. Já os índices de alto risco têm menor consistência, mas apresentam alto retorno acumulado desde o início e podem ser boas opções para exposição pontual, visando marcação de mercado.

Nossa estratégia para o próximo mês será buscar novas recomendações para nossa carteira, visando eficiência relevante em superar o CDI em janelas de tempo maiores.

Espero que, conhecer os índices de duração constante, lhe traga tantas surpresas positivas como o pistache trouxe para mim.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.