Relatórios

O preço da falta de paciência + Atualizações sobre o mercado de FIIs e possíveis impactos da variante ômicron

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

10 min de leitura

Entre as décadas de 1960 e 1970, Walter Mischel, psicólogo da Universidade de Stanford, queria estudar o impacto da paciência no desenvolvimento das crianças.

Para isso, ele precisaria, entre outras coisas, elaborar um teste para determinar o quanto as crianças eram pacientes ou não.

Nada mais óbvio do que testar crianças com doces, certo?

Mischel criou um experimento que ficou conhecido posteriormente como o “teste do marshmallow”.

Ele consistia basicamente em colocar uma criança em uma sala apenas com uma mesa e cadeira e sem estímulos adicionais à sua atenção. Em cima da mesa, era colocado um marshmallow.

A partir disso, a pessoa que aplicava o teste avisava a criança que daria uma saidinha da sala, mas que se ela aguardasse a sua volta sem comer o doce, ganharia outro.

Participaram do experimento 600 crianças, e estes foram os resultados:

  • Uma pequena parte delas comeu o doce quase antes que a pessoa responsável saísse da sala. Logo depois esperava em silêncio, mas com uma satisfação relevante. A frustração poderia se abater caso percebesse que não receberia o segundo doce.
  • A maior parte das crianças (praticamente 2/3 delas) desistia no meio do caminho, ou seja, colocavam na cabeça que iriam aguardar a volta da pessoa para ganhar a recompensa, mas não tiveram o autocontrole necessário para tal.
  • E cerca de 1/3 das crianças conseguiu aguardar (a duras penas) a volta da pessoa que aplicou os testes sem comer o doce. Algumas delas inclusive chegaram a cheirar o doce na esperança de que apenas o aroma pudesse satisfazer o desejo (não vou negar que tentei usar a mesma tática em algumas dietas).
  • Por fim, Mischel observou que crianças mais velhas tinham uma tendência maior a exercer o autocontrole do que as mais novas, mesmo que a diferença fosse de alguns meses de idade.

Só que o teste não tinha o intuito de testar apenas a paciência das crianças, mas também de saber qual a diferença no desempenho escolar entre crianças que se mostraram mais pacientes e com maior autocontrole e aquelas menos pacientes.

Você pode até questionar e dizer que algumas crianças poderiam estar com fome ou que fazia semanas que não comiam um doce, mas a inclusão de 600 crianças no estudo tinha como objetivo trazer uma amostra grande e minimizar os efeitos desses casos isolados. Esse é o poder da estatística.

As crianças que foram capazes de abrir mão de um benefício de curto prazo para ter o benefício posteriormente foram as mesmas que, em média, demonstraram melhor desempenho na escola, eram menos propensas a apresentar sobrepeso e tinham em testes de educação uma avaliação melhor do que as crianças que comeram o doce.

Em outras palavras, crianças que souberam exercer o autocontrole tiveram mais condições iniciais para que conseguissem alcançar uma vida com mais qualidade do que aquelas que não exerceram, e isso levando em conta os pontos de vista profissional, pessoal e emocional.

Assim, se eu pudesse dar um conselho a você que tem filhos ou pensa em ter seria desenvolver a paciência e o autocontrole desde cedo.

Mas o mais curioso é que o teste do marshmallow também pode ajudar a compreender um comportamento encontrado em investidores. E, obviamente, em vez de marshmallows e outros doces, a “recompensa” é um bom retorno anual da carteira.

A falta de paciência nos investimentos pode ter sabor desagradável

Veja bem, nós vamos te dar a conclusão antes de te apresentar o estudo, para que você entenda que a paciência compensa e tem um preço interessante nos investimentos.

Investidores que realizam menos trocas em seu portfólio, ou seja, são mais pacientes, podem ter retornos 2x maiores do que aqueles que trocam de carteira constantemente. E vamos te explicar os motivos.

No primeiro momento, fizemos uma simulação com dois tipos de investidores: uma pessoa com perfil mais paciente, que realiza seus aportes sem ficar realizando trocas, e outra que realiza troca total de sua carteira a cada dois anos.

Apesar de não serem sentidos no curto prazo, os impactos são fortemente observados em um prazo mais longo. Dê uma olhada no gráfico abaixo, que simula o retorno em 40 anos de um único aporte de R$ 1 mil a uma taxa de 10% ao ano. Não se apegue à rentabilidade, só estimamos uma taxa de retorno para observar o impacto de longo prazo em estratégias de investimento diferentes.

Fonte: Spiti

Aqui, destaco dois pontos. O primeiro é que a linha amarela, que mostra o desempenho de uma pessoa paciente com relação aos seus investimentos, apresenta uma queda brusca no último ano devido ao pagamento de Imposto de Renda sobre os lucros obtidos no período. A linha vermelha não apresenta essa queda, já que o pagamento dos impostos é feito recorrentemente a cada dois anos, ou seja, na mudança total de carteira.

O segundo ponto: no fim do período, ou seja, depois de quase uma vida inteira de investimentos, a diferença chega a 52%, o que é muito relevante. Porém, até o 10º ano, essa disparidade não chega a 10%.

E qual o problema disso? As pessoas impacientes, caso notem uma diferença não muito relevante nesse período, podem não adotar a estratégia do longo prazo e colher resultados cada vez menores de maneira exponencial, e aqui as mais pacientes abrem larga vantagem ao longo do tempo.

Mas você ainda não se convenceu que 52% de retorno acumulado ao longo desse período de aporte único é uma diferença relevante?

Bom, vamos então simular duas carteiras em que serão feitos aportes mensais de R$ 1 mil e ver qual a diferença nos resultados ao longo de 10 anos, 20 anos, 30 anos e 40 anos. Segue a tabela abaixo:

Fonte: Spiti

Veja que, com o mesmo aporte, depois de décadas, a diferença entre o patrimônio acumulado passa de dezenas de milhares de reais para mais de R$ 1 milhão!

A princípio, a diferença pode parecer pouca, mas no longo prazo ela fica mais que evidente.

Ainda assim, vamos incluir mais um perfil nessa lista, ao qual daremos o nome de “mais impaciente”, que vai trocar totalmente os ativos de sua carteira em um prazo de um ano.

Vamos primeiro verificar a diferença de um único aporte de R$ 1 mil ao longo dos anos com um rendimento de 10% ao ano. De novo, não se apegue à taxa de retorno, pois ela serve apenas para verificarmos a diferença de retorno ao longo do tempo entre três estratégias diferentes.

Fonte: Spiti

Os resultados obtidos são semelhantes até o 10º ano, com pouca distinção entre as estratégias. Porém, conforme o tempo passa, a diferença vai aumentando de maneira exponencial.

Agora, a diferença entre o dinheiro acumulado pela pessoa paciente (linha amarela) e mais impaciente (linha roxa) é de 91,08% – ou seja, quase o dobro!

E se fizermos a simulação que considera aportes mensais de R$ 1 mil? Veja a diferença acumulada em 10 anos, 20 anos, 30 anos e 40 anos:

Fonte: Spiti

Novamente, vemos resultados semelhantes: no curto prazo, as diferenças são mínimas, mas, depois de décadas, a discrepância chega a quase R$ 2 milhões. Um valor razoável, certo?

Por que isso acontece?

Acho que o primeiro motivo deve ter ficado claro: o pagamento do Imposto de Renda a cada vez que as pessoas vendem seus ativos com retorno acumulado. Apesar de pagar imposto ser um bom sinal (você está obtendo retorno), pagá-lo constantemente pode afetar seu patrimônio no longo prazo.

Além disso, existe outro fator muito relevante, mas difícil de mensurar em todos esses cálculos e que ficou de fora para simplificação da nossa simulação: os custos adicionais, que podem ser corretagens, taxas de performance e spread (diferença entre o valor justo de um ativo e o quanto o banco ou corretora te cobra ou paga) cobrados pelas corretoras.

Apesar de parecerem custos irrisórios, acredita-se que no longo prazo eles tenham o seu devido impacto.

Isso significa que, depois de investir, devo evitar a qualquer custo trocar os ativos da minha carteira?

Não, de maneira alguma. O estudo serve apenas para direcionar nossas estratégias.

Feitas todas as contas acima, chegamos à mais importante.

Se uma pessoa troca os ativos a cada dois anos, qual deve ser então o retorno anual para que compense o pagamento de impostos e assim um retorno maior do que uma pessoa paciente?

Essa na verdade é a pergunta que nos interessa.

Se a pessoa denominada impaciente continuar trocando totalmente seus ativos a cada dois anos, ela deverá angariar um retorno pelo menos 11,21% maior do que os ativos que está deixando para trás.

Isso significa que, se a expectativa de retorno para sua carteira atual for de 15% para os próximos anos, a pessoa impaciente deveria realizar a alteração na sua carteira apenas se a nova alocação tiver uma expectativa de retorno no médio e longo prazos de pelo menos 17%.

Se a nova carteira render 16,90%, enquanto a antiga mantém o retorno de 15%, por exemplo, o resultado líquido no médio e longo prazos será o mesmo.

Para a pessoa mais impaciente, a situação é ainda mais desfavorável.

A pessoa que troca a sua carteira a cada ano precisa ter um retorno 20% superior ao que obtinha antes. Por exemplo, se a sua carteira entrega um retorno médio anual de 15% sem realizar alterações constantes, só vale a pena ficar trocando os seus ativos a cada 365 dias se o retorno médio anual for de 18%, pelo menos. Do contrário, a carteira parada entregará retorno líquido mais atrativo.

E não para por aí. Quem costuma gerar alterações de carteira a cada seis meses ou menos deve então procurar atingir um retorno 25% maior do que pessoas que não fazem mudanças. Isso significa que essa pessoa em questão deveria mirar um retorno mínimo de 19%.

A cada um desses percentuais, demos o nome de “preço da falta da paciência”.

Por que saber disso?

Essa sequência de três relatórios, iniciada semanas atrás (você pode ver os primeiros relatórios aqui e aqui) e concluída com esta publicação, vem para solidificar uma estratégia de investimentos clara formada por três pilares: aportes constantes, aumento de risco em momentos de risco elevado e troca de posições somente quando a expectativa de retorno for no mínimo 20% maior do que o ativo já em carteira.

Seguindo esses passos e mantendo o padrão de escolha de ativos de qualidade na carteira, o retorno para a sua carteira de investimentos deve vir – pode tardar, mas não falhará. Lembramos que o ano de 2021 está sendo extremamente desafiador, o que vez ou outra é normal de se ocorrer, ainda mais quando falamos em Brasil. Porém, um cenário com incertezas políticas e pressão inflacionária tão forte não deve permanecer por tantos anos, não aos olhos de hoje, o que reafirma o nosso contínuo compromisso em seguir essa tese dos três pilares.

Conclusão

O estudo de Walter Mischel concluiu que crianças com mais paciência e autocontrole obtiveram desempenhos melhores em testes escolares padronizados nos Estados Unidos e foram descritas por seus pais anos depois como adolescentes mais competentes.

Porém, o mesmo estudo contemplou que o maior determinante para a não obtenção da gratificação, ou seja, do segundo marshmallow, foi a idade. Crianças mais novas em geral tinham menos paciência, e, ao longo de infância, iam exercitando e desenvolvendo essa habilidade.

Com investidores, vejo um comportamento bastante semelhante, me arrisco a dizer.

Investidores mais novos ou com menos experiência tendem a ter menos paciência e autocontrole. E, no mundo dos investimentos, não desenvolver tais habilidades tende a gerar menores retornos. De qualquer forma, meu conselho é que você passe a trabalhar nisso a partir de agora.

Atualização de cenário: fundos imobiliários no córner e nova variante do coronavírus

O momento ruim dos FIIs

Nas últimas semanas, os FIIs vêm apresentando desempenho sofrível, e uma das razões que destacamos para tal performance é o passivo da classe de ativos. Passivos são os investidores dos fundos imobiliários e, diferentemente do mercado de ações ou de renda fixa, o mercado de FIIs é formado em sua grande maioria por pessoas físicas.

Pessoas físicas entraram nos fundos imobiliários em busca de polpudos dividendos, algo que tem obtido até agora. Esse movimento se intensificou nos últimos cinco anos com a queda da taxa Selic.

Agora, em um ciclo de alta de juros, as pessoas que olham simplesmente para os dividendos recebidos mensalmente encontram oportunidades com as mesmas taxas na renda fixa, inclusive de títulos públicos.

A diferença se dá pelo risco de mercado. Ativos de renda fixa apresentam, na média, oscilações em seu preço menores do que em fundos imobiliários. Além disso, a chance de não receber seus recursos de volta são baixíssimas, se considerarmos os títulos públicos e os ativos emitidos por sólidas instituições financeiras.

A narrativa, portanto, está dada.

Se a renda fixa oferece maior retorno mensal com menor risco de mercado, o que investidores fazem?

Simples: vendem seus fundos imobiliários e voltam para a renda fixa.

O problema?

O problema é que um fundo imobiliário não se resume somente ao seu dividendo mensal, mas também aos ativos que estão em sua carteira. Estes podem ser inclusive imóveis físicos e ativos de renda fixa.

E, nas últimas semanas, estamos vendo fundos imobiliários sofrendo quedas constantes, de modo que as suas cotas estejam sendo negociadas a valores abaixo de suas cotas patrimoniais, ou seja, menos do que especialistas no ramo imobiliário dizem que efetivamente eles valem.

Além desse indicativo, podemos olhar que negócios entre fundos imobiliários estão sendo realizados com valores de metro quadrado superiores à cota patrimonial e às cotações de mercado.

Assinantes nos perguntam muito se o momento dos fundos imobiliários chegou ao fim, e afirmamos veementemente que não.

Em momentos de dúvidas, voltemos a olhar para os três pilares de nossa estratégia, que nos dão um norte em relação ao que fazer.

Temos uma forte convicção de que investidores que continuam a adquirir FIIs ou passam a investir neles agora estão fazendo um bom negócio, comprando bons ativos com preços atrativos.

Variante ômicron

Nos últimos dias, uma nova variante da Sars-Cov-2 tem assustado investidores ao redor do mundo.

A princípio, a nova variante, denominada ômicron, seria mais contagiosa. Porém, não se sabe ao certo a gravidade dos sintomas que causa nem se as vacinas disponíveis hoje garantem imunidade relevante contra essa cepa.

Mas os impactos já chegaram aos mercados: queda nos preços das commodities e das ações, além de aumento da percepção de risco com relação aos países emergentes.

O fato é que tudo com relação à variante ômicron é muito recente. E nesses momentos de tantas perguntas e incertezas, investidores reduzem o seu risco, causando essa queda nos ativos de maior risco.

O petróleo, que é um termômetro da atividade global, já acumula queda de mais de 10% desde o início da preocupação com a nova variante, enquanto Bolsas globais sofrem quedas relevantes.

A diferença aqui no Brasil é que, desta vez, como já conhecemos os impactos de uma pandemia, que pode chegar à imposição de um lockdown e restrições à mobilidade de pessoas, sabemos também que o impacto na inflação em um primeiro momento é negativo. Logo, os juros no país, que em 2020 subiram de maneira forte, agora estão caindo.

Não é hora de aumentar nem diminuir o risco dadas as oscilações causadas pela nova variante nos últimos dias. Isso porque, quando se trata de questões sanitárias, a avaliação é um pouco mais complexa e exige cautela.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.