Olá, assinante do Spiti One!
Ainda que nós não tenhamos CRIs, CRAs e debêntures entre nossas recomendações no Spiti One, sabemos que muitos dos nossos assinantes chegam até nós com esses tipos de ativo, muitas vezes por terem adquirido antes de nos conhecer.
Portanto, o relatório de hoje tem o intuito de ajudá-los com uma possível venda destes papéis.
Eu sempre levo o princípio de Pareto comigo, por onde quer que eu vá.
Ele basicamente afirma que, para muitos trabalhos, 80% dos resultados vêm de 20% das causas. Em outras palavras, uma parte pequena das causas tem um efeito desproporcionalmente grande.
O interessante é que esse princípio funciona em muitas áreas das nossas vidas, pessoal e profissional.
No mercado financeiro não é diferente. Oitenta por cento do resultado que você obtém da sua carteira de investimento é explicado por 20% das causas.
Entre as causas que eu identifico nesses 20% primordiais estão:
- Sua alocação de investimentos
Distribuir o seu dinheiro de maneira eficiente em diferentes classes de ativos será muito benéfico para o seu processo de acúmulo de patrimônio no médio e no longo prazo. Na verdade, estudos realizados pela Vanguard, uma das maiores gestoras de investimento do mundo, e outros órgãos reguladores e normativos no Brasil e no exterior, apontam para uma preponderância desse fator com relação aos resultados obtidos por uma carteira de investimento.
Para deixar mais claro, vamos imaginar duas pessoas diferentes partindo exatamente da mesma carteira. Ambas possuem R$ 100 mil aplicados e dividem em proporções iguais, ou seja, 50% para cada lado em renda fixa conservadora e ações através do Ibovespa.
Ana possui essa alocação de 50% em renda fixa e 50% em ações de forma estrutural, ou seja, conforme o tempo vai passando e os ativos vão observando alterações de preços, ela eventualmente volta a equilibrá-los para os 50%/50%.
Carlos, apesar de ter o mesmo valor e hoje apresentar a mesma distribuição de Ana, não segue uma alocação estrutural, ou seja, vai mudando a sua exposição a diferentes classes de ativos conforme sua percepção se altera sobre o cenário econômico vigente no Brasil e no mundo.
Em um cenário hipotético, vamos entender como a carteira deles se comportaria.
Momento 1: ambos possuem R$ 100 mil que estão distribuídos da mesma maneira.
Fonte: Spiti
Momento 2: as ações no Brasil caem 50%.
Fonte: Spiti
Momento 3: Ana segue sua alocação estrutural, reduzindo renda fixa e recompondo sua exposição em ações; Carlos, por outro lado, acha que o cenário ficou negativo para ações e não faz nada, permanece com a mesma carteira.
Fonte: Spiti
Momento 4: passado o susto, as ações voltam para seu patamar inicial.
Fonte: Spiti
Veja, no simples exemplo acima, mesmo que ao final de todo o movimento os ativos tenham ficado em patamares inalterados, Ana conseguiu rentabilizar seu patrimônio, enquanto Carlos continuou com o patrimônio inalterado ao final do período.
Isso se deu única e exclusivamente pelo fato de Ana ter seguido uma alocação estrutural.
Talvez você pense que isso não aconteceria com ativos reais, em uma carteira com uma boa alocação estrutural no mundo real, mas temos estudos que mostram que, sim, ter uma alocação estrutural e rebalancear sua carteira consistentemente se mostra uma estratégia muito bem acertada no médio e no longo prazo.
São estudos mais complexos que podemos deixar para apresentar a você em um relatório focado nesse assunto.
- Diversificação nas classes de ativos, exceto na renda fixa, de que vamos falar em seguida
Você pode ter a melhor alocação de investimentos possível, ou seja, equilibrar muito bem a sua carteira entre ações, renda fixa, fundos imobiliários e por aí vai, porém, se você concentra sua exposição em poucos ativos, está correndo um risco elevado do que chamamos de “ruína”. Para simplificar, o risco da ruína é a chance de você perder, de maneira definitiva, uma parte relevante do seu capital.
Para exemplificar melhor, imagine que 30% da sua carteira de investimentos esteja em ações, porém em uma única empresa, a LOCO3 (ticker fictício). Se a LOCO3 passa por uma fase difícil, se envolve em algum escândalo ou entra em recuperação judicial, provavelmente 30% do seu patrimônio estará seriamente ameaçado.
Isso também acontece com a exposição a fundos imobiliários. Se você possui um único fundo imobiliário, concentra muito o seu risco em um único ativo de renda variável.
Diversificar definitivamente é o caminho mais eficiente para o seu dinheiro, ou seja, reduz o risco e não reduz as chances de você ganhar dinheiro de maneira significativa.
- Pulverizar sua exposição em ativos de crédito privado
Se o lema em renda variável é diversificar, em crédito privado o lema é pulverizar, ou seja, pegar o seu dinheiro que deseja investir em ativos de crédito e dividi-los em dezenas de pequenas parcelas, e eu vou te mostrar brevemente com um pouco de matemática porque isso é eficiente para sua carteira, já que reduz o risco e aumenta o seu retorno.
Vamos imaginar que você tenha R$ 100 mil para investir em uma única debênture com a promessa de te pagar uma taxa de 15% ao ano por dez anos.
Se tudo der certo, esse vai ser o comportamento do seu ativo e do seu patrimônio:
Fonte: Spiti
Tudo certo?
Porém e se algo desse errado com a empresa no meio do caminho e ela entrasse em recuperação judicial no sexto ano após o seu investimento?
Fonte: Spiti
Veja, se no sexto ano a empresa passar por problemas que comprometam a sua saúde financeira, você perde 100% do seu capital investido, não somente o retorno. Uma coisa é você ter um returno nulo, de 0%, outra coisa é você perder o capital investido — e esse é o risco do investimento em crédito privado.
“Mas não posso investir em crédito privado?”
Pode, mas de preferência você deve pulverizar, ou seja, dividir a sua exposição em dezenas de ativos diferentes para minimizar o risco de problemas relevantes e perda de capital de maneira significativa.
Veja abaixo na simulação com dezenas de ativos diferentes pagando os mesmos 15% ao ano por um prazo de dez anos e tudo dando certo:
Fonte: Spiti
Repare que, se tudo correr bem com todos os ativos, o retorno vai ser exatamente o mesmo que no caso positivo com uma única debênture, correto?
Mas e se problemas ocorrerem com algumas empresas no meio do caminho, o que vai acontecer com seu patrimônio? Veja na tabela abaixo:
Fonte: Spiti
No exemplo acima eu simulei a “falência” de três emissoras de debêntures que possuíamos na carteira nesse cenário hipotético ao longo do tempo. Claro que o resultado não vai ser o mesmo que no cenário mais otimista, porém ele está muito longe de se aproximar do pior cenário em que você perde 100% do seu patrimônio investido porque concentrou sua exposição em um único ativo.
Mas será que isso seria suficiente para se mostrar um bom investimento?
Na tabela abaixo incluí mais uma linha importante, que simula os R$ 100 mil iniciais aplicados a uma taxa hipotética de 12%, que nesse caso seria o CDI.
Será que mesmo com os defaults, os chamados calotes, de três debêntures os resultados ainda superariam o CDI?
Fonte: Spiti
Na tabela acima, com o acréscimo dessa linha que nos mostra qual seria a rentabilidade dos R$ 100 mil aplicados no CDI no mesmo período uma coisa fica clara: mesmo com os três defaults no meio do caminho, aplicar nessa carteira de crédito privado pulverizada ainda seria atrativo frente à opção de deixar o recurso aplicado no CDI.
Isso nos dá mais confiança em nos expormos ao mercado de crédito privado, principalmente quando o assunto é CRI, CRA e debêntures, de forma pulverizada, ou seja, diversificando ao máximo nossa exposição.
Para fazer isso o ideal é manter a maior parte da sua exposição em crédito privado em fundos de crédito privado, do contrário você precisaria possuir algumas centenas de milhares de reais para fazer a mesma coisa diretamente na sua carteira.
É o que fazemos, dando preferência na hora de nos expor aos ativos de crédito através de fundos de infraestrutura e até em fundos imobiliários de papel em vez de escolher a exposição via CRIs diretamente na carteira.
“Poxa, Gui, mas tenho debêntures, CRIs e CRAs na carteira de antes de conhecer a Spiti. Como me desfazer deles sem ser prejudicado pela venda antecipada na corretora?”
Eu recebo essa pergunta de maneira recorrente, afinal, muitas pessoas ao tentarem se desfazer de suas debêntures, CRIs e CRAs antecipadamente acabam se deparando com uma terrível verdade:
O PÊNALTI.
Pênalti é o nome carinhosamente dado por mim para o desconto com relação ao valor justo de um determinado ativo de crédito.
Por exemplo, talvez você queira vender debêntures que estão marcadas na sua carteira ao valor de R$ 1.100 e, ao falar com seu assessor, recebe a desagradável notícia de que irão te pagar apenas R$ 800 pelo ativo.
Normalmente essa oferta vem acompanhada de uma narrativa de deterioração do mercado de crédito privado e um cenário macroeconômico mais desafiador.
Mas como saber se isso é verdade?
Para saber se o valor que oferecem pelo seu título de crédito privado está em linha com que o mercado está pagando, e saber se uma oferta de outro ativo de crédito privado, com um CRI, CRA e até uma debênture está chegando até você com uma taxa justa?
Para isso, bastar você consultar o Anbima Data.
A Anbima é a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, e uma de suas ferramentas mais interessantes e gratuitas, que podem te ajudar a economizar muito dinheiro, é o Anbima Data, uma plataforma que reúne dados de ativos do mercado e ferramentas para ajudar na sua tomada de decisão.
Para saber qual o valor justo de um ativo é importante saber o seu código oficial vai te economizar bastante tempo.
Por exemplo, a Concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos S.A. emitiu uma debênture no passado com vencimento no dia 15/12/2025 com código AGRU41.
Com esse código sua vida fica muito mais fácil.
Vamos ao passo a passo para você consultar o valor justo do ativo:
1. Abra o Anbima Data
Essa é a sua interface:
Fonte: Anbima Data
2. Digite o código do ativo em questão na barra de busca destacada em vermelho abaixo
Fonte: Anbima Data
Depois disso, basta apertar “Enter” que você verá a seguinte página:
Fonte: Anbima Data
Veja que a Anbima encontrou apenas um ativo correspondente, que é uma debênture, a qual inclusive já apareceu em destaque no retângulo vermelho na parte inferior da imagem.Para consultar mais detalhes, basta você clicar no botão “Ver detalhes”, destacado em verde na imagem acima.
Assim, você irá para a seguinte página:
Fonte: Anbima Data
Tudo o que você precisa saber sobre o ativo está nesse retângulo vermelho em destaque. Vamos dar um zoom nele:
Fonte: Anbima Data
Verde: aqui estão as características desse ativo na emissão. Ou seja, foi uma debênture emitida no dia 15/02/2014 para 11 anos, com vencimento previsto para 15/12/2025. A taxa de remuneração foi de IPCA+ 7,86% ao ano.
Azul: aqui você pode ver o que chamamos de PU PAR, ou seja, qual seria o preço do ativo hoje se ele fosse corrigido pela sua taxa de emissão.
Vermelho: a parte mais importante, ou seja, quais são os parâmetros de negociação atuais desse ativo. O campo “Taxa indicativa” nos mostra a qual taxa essa debênture está sendo negociada agora. O campo “PU Indicativo” mostra a qual valor justo esse ativo está sendo negociado agora.
A parte vermelha te mostra o que chamamos de “Tabela Fipe” do seu ativo. Para você que não sabe, a tabela Fipe mostra o valor justo de mercado dos carros de determinados modelos e anos. Se você quer vender um carro para outra pessoa ou concessionária, é extremamente prudente, e recomendável, que você consulte a tabela Fipe de seu veículo antes, assim evitará tomar o famoso “pênalti” na hora de vender o seu veículo, vendendo-o por um valor inferior ao que ele efetivamente vale.
“Gui, mas eu não sei qual o código da minha debênture.”
Não tem problema, o que você pode fazer é pesquisar por palavras-chaves. Vamos lá?
Se você digitar “Guarulhos” na aba de pesquisa, como destacado em vermelho, o Anbima Data encontrará nove debêntures.
Fonte: Anbima Data
Agora bastar procurar a debênture com o vencimento e características da sua. Vamos procurar a AGRU41 entre as opções.
Fonte: Anbima Data
Veja, entre as opções você encontraria uma debênture emitida pela empresa Concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos com o vencimento igual a sua e indexador IPCA, ou seja, a debênture que possui em carteira.
Assim você consegue encontrar o valor justo, assim como a taxa, dos papéis presentes na sua carteira.
Espero que com este relatório você tenha uma clareza maior para definir os 20% que vão trazer maior resultado para os seus investimentos além de conseguir encontrar de uma vez por todas o valor justo de seus ativos de crédito privado.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto