Relatórios

Os efeitos positivos de fazer aportes regulares em sua carteira + Boas práticas para proteger o poder de compra do seu dinheiro

Escrito por Felipe Arrais, Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

7 min de leitura

Fonte: Shutterstock

Eu, Fê, gosto bastante de provérbios e ditados populares. Sempre me interessei muito em entender de onde essas ideias vêm, suas origens e significados. Tanto que cheguei a procurar por muito tempo um livro que compilasse essas frases.

A internet deu uma enorme ajuda a essa missão, e hoje ficou bem mais fácil descobrir a origem dos ditados populares.

Ainda assim, um dos meus favoritos é talvez um dos mais conhecidos:

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.”

Gosto dessa frase por causa da sonoridade, do ritmo em que é dita e da rima. Além disso, tem o poder da ideia que até mesmo a água, algo tão maleável, conseguiria perfurar até mesmo as mais sólidas formações rochosas.

Quando buscava suas origens nos sites de busca, normalmente a história vinha acompanhada da imagem de uma goteira ou fio d’água sobre uma pedra já furada ou até mesmo partida ao meio.

Mais do que a ideia de resiliência abordada pelo ditado, ficava também a lição do poder que o efeito cumulativo de um pequeno hábito, como uma pequena goteira, pode possuir ao longo do tempo mesmo contra obstáculos que parecem intransponíveis!

E o relatório de hoje vai abordar um hábito importante para quem investe, o da recorrência de investimentos. No entanto, quando vejo o tema ser abordado na mídia e em sites especializados, normalmente falam apenas da importância de investir e as mais diversas formas e efeitos positivos de fazer isso.

A importância disso é inegável! Mas neste relatório eu quero abordar a questão de investir de forma recorrente e regular.

É fato que, por conta de despesas mensais e gastos extras, nem sempre conseguimos separar um dinheiro pra investir todo mês sem falta. Inclusive, o último levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, órgão que regulamenta o mercado), mostrou que esse é o maior empecilho dos brasileiros que não investem.

E, mesmo quando conseguimos poupar, às vezes estamos passando por um momento atribulado na vida pessoal ou no trabalho, e sequer conseguimos pensar em investir. Quando muito, apenas colocamos na reserva de oportunidade e deixamos para outra hora.

Sabemos que isso acontece mesmo com qualquer pessoa, inclusive comigo e com você também, caro leitor, prezada leitora.

Nosso foco em relação a investimentos aqui na Spiti é o médio e longo prazos, e aqui na série Renda Total não é diferente. Pensando nisso, procuramos entender quais os efeitos de deixar de investir em alguns meses tem em um horizonte de tempo maior. Com isso, tomamos como base o estudo estatístico de Monte Carlo, que simula mais de cinco mil cenários em uma análise hipotética, utilizando dados desde 2008 de uma carteira diversificada com ativos de renda fixa e variável.

Queremos mostrar que, apesar de quanto maior a recorrência dos nossos investimentos, melhores são os resultados, é possível ficar alguns meses sem investir em um ano e não comprometer a performance da carteira no médio e longo prazos, desde que você tome algumas previdências nesses meses.

Vamos começar?

Prerrogativas do estudo

Nesse estudo, o nosso foco principal é entender quais as consequências de deixar de investir com regularidade e quanto deixaríamos de ganhar em uma carteira de investimentos hipotética em diferentes cenários.

Sendo assim, analisamos o retorno acumulado de R$ 12 mil de uma carteira em que a pessoa investiu o mesmo montante em 100% dos meses, 90%, 75%, 50% ou apenas em 30% dos meses de um ano na carteira criada.

Em suma, fomos desde uma pessoa assídua, que investiu todos os meses, até a mais despreocupada ou que teve dificuldades em manter a regularidade, que investiu em apenas 30% dos meses.

Como ponto de partida, criamos uma carteira composta majoritariamente de ativos de renda fixa prefixada e pós-fixada, de Bolsa, além de uma pequena exposição cambial usando os seus respectivos índices de mercado para simular uma carteira diversificada.

A partir disso, simulamos 2.160 cenários, sendo que cada um deles é uma pessoa que vai deixar de investir em determinados meses dentro desse período de 14 anos.

Aplicamos esses cenários para cinco pessoas hipotéticas:

  • A primeira investiu em todos os meses desse período, ou seja, 100% deles;
  • A segunda, em 90% dos meses;
  • A terceira, em 75% dos meses;
  • A quarta, apenas na metade dos meses do período (50%);
  • A última, em apenas 30% dos meses analisados.

Na primeira parte da análise, simulamos que nos meses em que os quatro últimos investidores não alocam seus investimos na carteira, esse montante será colocado em uma reserva de oportunidade com retorno de 100% do CDI.

Com os 2.160 cenários dos cinco investidores, temos dados suficientes para rodar o estudo de Monte Carlo, que consiste em criar mais cinco mil cenários de cada um desses perfis com base em dados estatísticos dos 2.160 outros.

Fizemos isso, pois queríamos variar também os meses em que as pessoas investiam, uma vez que as pessoas que investiram apenas 75% dos meses não deixaram de aportar nos mesmos meses, e poderíamos capturar essa variação através desse estudo estatístico. Com isso em mãos, comparamos os resultados das cinco carteiras contra a inflação do período.

O gráfico a seguir traz um dos cenários simulados dentro de uma janela de dois anos. Lembrando que o nosso resultado foi embasado em mais de cinco mil cenários simulados através de métodos estatísticos:

Fonte: Spiti

Os resultados

O gráfico anterior deixa claro que o investimento feito de forma recorrente gera rendimentos melhores. A carteira fictícia de quem investiu mensalmente sem falta teve um retorno aproximado de 11% ao ano, ao passo que a inflação média no período foi de 6%.

Para simplificar, trouxemos os resultados de cada carteira e o excedente da inflação para cada um dos investidores:

Fonte: Spiti

Na nossa simulação, quem investiu em apenas 30% dos meses acaba deixando na mesa na média 1% de retorno ao ano. Pode parecer pouco, mas em 14 anos a diferença chega a ser de 100% em retorno!

No período fechado de 14 anos, a carteira com aportes regulares teve um retorno de 466%, enquanto a carteira de quem investiu em 30% dos meses teve um retorno de 363% na média.

Um ponto que chama a atenção é o fato de que quem investiu apenas em 30% dos meses teve um retorno médio muito próximo de quem fez isso com 90% de frequência.

Como isso é possível?

A partir da análise, temos duas possíveis explicações. A primeira é que a carteira, além de não ser ajustada durante o período entre 2008 e 2022. possuía risco de mercado e a sua volatilidade mensal ficou acima da opção alternativa, a reserva de oportunidade, o que nos leva ao segundo motivo.

Nos meses em que a pessoa não investia, o dinheiro era alocado em sua reserva de oportunidade, que rendia na nossa simulação 100% do CDI.

E durante todo esse período, em apenas dois anos fechados (2020 e 2021), o principal índice do mercado não superou a inflação (IPCA):

Fonte: Spiti

Para controlar a inflação, o Banco Central usa a taxa básica de juros como principal ferramenta. Ainda que exista uma defasagem entre a elevação da taxa Selic e a inflação corrente, o retorno acumulado de um investimento corrigido pelo CDI superou o índice de preços em 12 dos 14 anos analisados.

E não se deixe enganar pelos dados de 2020 e 2021, em que o retorno do CDI no ano não superou a inflação. No período entre 2008 e 2022, o CDI acumulou 266%; já a inflação, 134%.

Sendo assim, quando a pessoa deixou de investir na carteira hipotética do nosso estudo, ela estava, na verdade, alocando em um investimento que a protegeu da inflação em boa parte das janelas mensais contra e com baixíssima volatilidade.

A fim de retirar o efeito da reserva de oportunidade na nossa análise, refizemos o estudo e alteramos uma regra: quando a pessoa não investe em determinado mês, esse montante fica sem rendimento, como se o dinheiro estivesse parado na conta corrente.

Fonte: Spiti

Quando retiramos o investimento na reserva de oportunidade, o cenário muda muito. Quanto menor a regularidade dos aportes, mais baixo o retorno acima da inflação no período. Nesse caso, a carteira perdeu na média 3% de retorno ao ano, e essa diferença atingiu 6% ao ano no cenário de investimento com alocação em 30% dos meses – que quase é superado pela inflação anual.

Com esses dados em mãos, podemos notar os efeitos positivos de investir de forma recorrente, que se mostrou diretamente proporcional ao retorno médio acima da inflação, e de deixar o dinheiro na reserva de oportunidade quando não conseguir investir na carteira.

Aqui, chamamos sua atenção para um ponto fundamental.

É importante mencionar que nós utilizamos uma carteira campeã nesse estudo, em outras palavras, que superou o CDI e a inflação corrente nas janelas analisadas mantendo uma ótima relação entre risco e retorno.

Mas não é qualquer carteira que vai atingir esse objetivo.

Com o intuito de provar isso, refizemos o estudo com as mesmas variáveis e premissas sobre os meses em que a pessoa não investe, mas com uma carteira que possui mais volatilidade e uma relação risco vs retorno menor.

Veja os resultados a seguir:

Com investimento na reserva de oportunidade

Fonte: Spiti

Sem investimento na reserva de oportunidade

Fonte: Spiti

Perceba que o resultado é pior ainda para quem não investiu na reserva de emergência nos meses em que deixou de alocar na carteira. Com isso, essa última análise mostra outro fator crucial para o sucesso no médio e longo prazos: identificar bons ativos e fazer alocações de forma a otimizar a relação entre risco e retorno, que é o nosso trabalho, e inclusive você pode acompanhar a evolução de tais métricas de risco da carteira nos nossos relatórios mensais de performance.

Conclusão

Sabemos o quanto é difícil manter a regularidade e investir todo mês sem falta. Afinal, somos humanos e estamos sujeitos a eventos imprevisíveis.

Mas mostramos que existem algumas boas práticas e fatores determinantes que podem ainda manter nossa saúde financeira no médio e longo prazos, inclusive nesses períodos mais difíceis.

Sobre as práticas mais eficientes, ficam nossas recomendações:

  • A recorrência de investir todos os meses se mostrou mais eficaz para manter o poder de compra ao longo dos anos em comparação a deixar de investir com essa regularidade, mas não é o único ponto determinante.
  • Caso não consiga alocar periodicamente na sua carteira de investimentos, uma boa prática para ter uma rentabilidade média acima da inflação é o de investir na sua reserva de oportunidade, que pode ser feita em ativos como Tesouro Selic e fundos taxa zero, compostos por ativos pós-fixados indexados ao CDI, índice que sempre se mostrou eficiente quando o assunto é superar a inflação corrente.
  • Fazer boas escolhas de ativos na hora de alocar a sua carteira de investimentos se mostrou um dos fatores mais importantes para proteger seu poder de compra, independentemente da recorrência do investimento.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.