Se em algum momento dos últimos dias você acessou a internet ou ligou a sua televisão em qualquer canal que não seja direcionado única e exclusivamente à transmissão de filmes ou desenhos, você já entendeu que um grupo islâmico palestino chamado Hamas atacou o Estado de Israel.
A resposta de Israel escalou o conflito para níveis que não observávamos há algum tempo no Oriente Médio.
Claro que o conflito atual — assim como o entre Rússia e Ucrânia — é, do ponto de vista humano, pesaroso. Mas é importante que você entenda como esse conflito pode impactar a economia global e, consequentemente, a sua carteira de investimentos, afinal, estamos falando de recursos financeiros que você vem acumulando ao longo de sua vida e, apesar do caráter trágico do conflito, é importante saber o que está acontecendo.
Inicialmente, é preciso entender que esse conflito ocorre no centro do Oriente Médio.
O Oriente Médio é uma região geográfica e geopolítica que abrange partes da Ásia Ocidental e do Norte da África. É uma área culturalmente diversa e historicamente rica, conhecida por sua importância geopolítica e econômica global.
Apesar de não haver um consenso universal sobre quais países fazem parte da região, geralmente incluímos os seguintes: Israel, Arábia Saudita, Irã, Iraque, Jordânia, Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã, Iêmen e Afeganistão.
A região do Oriente Médio é considerada o berço de várias civilizações antigas, incluindo a Mesopotâmia (na área do atual Iraque), o Egito Antigo (no Egito moderno) e a Pérsia Antiga (no atual Irã). Também é uma região de importância significativa para as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.
A região também é conhecida por ser rica em recursos naturais, especialmente petróleo e gás natural, detendo algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, o que a torna um ator fundamental na economia global e na geopolítica.
A região é culturalmente diversa, abrigando várias religiões e culturas. Soma-se a isso a riqueza em recursos naturais e você tem um ambiente propício para conflitos entre os diversos povos residentes da região.
Quais os receios em um conflito bélico de grandes proporções?
Ressalto que neste relatório a ideia não é focar na situação humana, mas sim nos impactos financeiros que o conflito pode gerar ao longo do tempo.
Nesse sentido, a primeira grande preocupação em uma guerra é:
1 - O que os países participantes fornecem para o mundo que a partir de agora pode se tornar mais escasso?
Esta é a primeira pergunta que precisamos nos fazer, afinal, isso pode nos dar uma ideia sobre quais preços podem ficar mais elevados se o conflito perdurar de maneira relevante.
Vamos dar uma olhada nas exportações de Israel para entender se esse é um problema que pode afetar o preço de bens relevantes para a economia global.
Pauta de exportação Israel – 2021
Fonte: The Observatory of Economic Complexity
Segundo os dados apontados acima, o principal produto exportado por Israel é o diamante, que foi responsável por 14,1% das suas exportações no ano de 2021. Em segundo lugar estão os circuitos integrados ou semicondutores, que são produtos com alta capacidade tecnológica envolvida e somente em terceiro lugar temos o petróleo refinado.
Apesar de o petróleo ocupar a terceira posição em termos de exportação, Israel não é nada relevante no cenário mundial em termos de produção da matéria-prima.
O Brasil produz em média 3 milhões de barris de petróleo por dia e está entre os dez maiores produtores. Israel produz aproximadamente mil barris de petróleo por dia, uma quantia ínfima que não deve impactar de maneira relevante a oferta global da commodity, pelo menos não diretamente.
Mas por que o petróleo subiu nos dias que se sucederam ao primeiro ataque?
Para responder a essa pergunta, precisamos entender que o Oriente Médio é responsável por cerca de 1/3 da produção de petróleo mundial, ou seja, apesar de Israel não ser um grande produtor, os países vizinhos são.
Em um primeiro momento, o investidor global prefere se precaver de possíveis impactos em outros países da região, com isso fazendo com que o petróleo suba. Em outras palavras, inicialmente, mesmo com a chance pequena de o conflito se espalhar para outros países da região, a tendência da commodity é subir.
Como isso pode impactar os mercados internacionais e o mercado brasileiro?
O primeiro canal de transmissão desse conflito e desse possível impacto no petróleo, se duradouro, é o impacto inflacionário.
Uma alta no preço do barril do petróleo gera uma pressão de alta no preço dos combustíveis através de possíveis repasses pela Petrobras. Estes são parte importante da cesta de consumo dos brasileiros e uma alta no preço da gasolina e outros derivados do petróleo tende a afetar o nosso custo de vida.
Um impacto relevante na inflação poderia levar a uma elevação dos juros futuros no Brasil, reduzindo as expectativas de corte da Selic ou a expectativa de que ela permaneça mais baixa por um período mais longo.
Uma elevação ou mesmo pressão nos juros futuros levaria a desvalorizações nos ativos prefixados e indexados à inflação na renda fixa e pressões baixistas nos ativos de renda variável como ações e fundos imobiliários.
Nossa perspectiva é de que isso aconteça?
A princípio, não. Obviamente não conseguimos prever o futuro, mas um comunicado oficial conjunto de França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos expressando “apoio firme ao Estado de Israel e a condenação inequívoca ao Hamas” deve reduzir de maneira relevante, se havia, algum sentimento de possível apoio ao Hamas em ofensivas contra Israel.
Outro trecho do comunicado tende a reduzir ainda mais o ímpeto do Irã de entrar no conflito de alguma maneira: “Também pedimos a outros grupos extremistas ou a qualquer Estado que possa tentar tirar proveito da situação, em especial o Irã, que não tente explorar essa situação para outros fins ou estender o conflito para além de Gaza.”
O que esperar do preço do petróleo nessa situação?
A cotação do petróleo deverá apresentar um alívio no curto prazo, como já ocorre, mas, tudo o mais constante, não deve voltar para um patamar inferior e anterior ao conflito, já que, por mais reduzida que esteja a possibilidade de este se espalhar pelo Oriente Médio, ela ainda existe. Isso deve manter o que chamamos de “prêmio de risco” no preço do petróleo, ou seja, este não deve voltar ao patamar anterior.
O impacto no preço do petróleo até aqui tem potencial de causar maiores estragos?
Por enquanto o impacto é muito limitado e diria que praticamente irrelevante dada a movimentação do petróleo nos últimos três meses. Veja o impacto no preço do barril da commodity destacado em vermelho no gráfico abaixo:
Fonte: Investing
Repare que há duas semanas o petróleo estava praticamente 10% acima do valor de hoje. Isso significa, em minha opinião, que, apesar de o percentual de alta do petróleo ter sido relevante na segunda-feira logo após os ataques do Hamas a Israel, o impacto será comedido. A variação natural do petróleo dados outros fatores como economia global e oferta dos países da Opep deve ser mais relevante para a movimentação do preço do que o conflito atual.
A segunda grande preocupação para entender quais possíveis impactos econômicos o conflito pode gerar na economia e nos mercados globais é:
2 – Quem são os principais parceiros comerciais de Israel?
Quando falamos de parceiros comerciais, estamos falando de países que mantêm relações de exportação e importação com Israel, ou seja, que compram produtos do país ou que vendem produtos para ele.
Fonte: The Observatory of Economic Complexity
O maior destino das exportações israelenses é os EUA, correspondendo a pouco mais de 26% do total das exportações do país.
Dentro dos produtos exportados por Israel para os EUA, se destacam os diamantes, produtos médicos e equipamentos de tecnologia. Essa é uma pauta que traz poucos riscos ao desempenho da economia americana e não deve afetar, por exemplo, a expectativa de inflação por lá, nem os juros americanos e, consequentemente, os juros globais.
O Brasil importa muitos produtos de Israel?
Em 2021 o Brasil importou US$ 1,5 bilhão em produtos vindos diretamente de Israel, sendo 70% deles químicos utilizados em grande parte como fertilizantes direcionados à agricultura.
É importante ressaltar também que o Brasil importou US$ 225 bilhões de produtos em 2021 e que o montante importado de Israel representa 0,67% desse total, uma quantia muito baixa a ponto de gerar impactos relevantes para o nosso país nesse aspecto.
O quão relevante são esses fertilizantes em nossa pauta de importação e o quanto podem afetar nossa agricultura?
Apesar de sermos destino importante das exportações de fertilizantes israelenses, outros países são muito mais relevantes em fornecimento desses produtos que Israel, representando aproximadamente 5% de nossa importação de fertilizantes. Logo o impacto deve ser bem limitado.
Falamos até aqui das exportações de Israel, que podem ser prejudicadas enquanto o país estiver em conflito com o Hamas, mas agora vamos dar uma olhada em quais são os países que mais exportam produtos para Israel?
Essa análise é importante já que, se o volume for considerável para algum país, este pode esperar um impacto de desaceleração econômica.
Vamos dar uma olhada em quem mais exporta produtos para Israel:
Fonte: Fonte: The Observatory of Economic Complexity
Dos US$ 92 bilhões importados em produtos do mundo inteiro, nenhum país se destaca como fonte majoritária de participação.
Desse lado da balança comercial, os mais representativos continuam sendo China e EUA.
A China exportou aproximadamente US$ 13 bilhões em produtos para Israel, o que parece considerável, mas é ínfimo se comparado ao valor total de bens exportados pelo gigante asiático em 2021, que foi de US$ 3,34 trilhões. Ou seja, 0,39% das exportações chinesas podem estar em risco por conta dos fatos recentes entre Israel e Hamas.
Esse percentual não tem o poder de afetar de maneira relevante a economia chinesa, nossa maior parceira comercial, o que deixa de ser um impacto negativo também para o Brasil.
Os EUA exportaram aproximadamente US$ 10 bilhões em produtos para Israel, o que também mantém a participação do país do Oriente Médio abaixo de 1% na pauta de exportação americana. Logo, o impacto direto na economia americana também deve ser reduzido.
E o Brasil, exporta uma quantidade relevante de produtos para Israel a ponto de o conflito prejudicar nossa economia ou algum setor específico?
O Brasil exportou aproximadamente US$ 600 milhões em produtos para Israel, o que é equivalente a 0,20% de nosso total de exportações em 2021. Dito isso, a economia brasileira não deve ser impactada pela queda de atividade em Israel e consequente redução, e até zeragem, da importação de produtos brasileiros.
O principal produto exportado para Israel é a carne bovina congelada, que representa 2% do total exportado pelo Brasil. Ou seja, analisando também por esse aspecto, nem a economia brasileira, nem nenhum setor em específico devem ser impactados de maneira relevante e direta pelo conflito entre Israel e Hamas.
Conclusão
Se analisarmos as exportações e importações de Israel com outros países, notaremos que os impactos econômicos do conflito devem ser limitados.
Ou seja, do ponto de vista da atividade econômica global, os impactos passarão despercebidos se o conflito permanecer restrito aos grupos envolvidos até o momento. O maior possível detrator da atividade econômica global, e que pode ajudar a puxar a inflação no mundo para cima e, consequentemente, o juro global, é o envolvimento de outros países e grupos no Oriente Médio.
Essa última possibilidade parece estar por ora contida, mas obviamente seguiremos acompanhando o caso de perto para identificar se uma escalada do conflito se tornará provável.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto