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Os possíveis cenários para a renda fixa

Escrito por Guilherme Cadonhotto em RENDA FIXA

9 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Mostramos, na prática, como muitas “oportunidades” de investimento são na verdade, apostas, que precisam ser analisadas com atenção às probabilidades e à combinação de outras variáveis, caso contrário, podem comprometer toda a nossa estratégia.

  • Analisamos o Tesouro IPCA+ 2050 como um exemplo de oportunidade interessante no cenário atual, trazendo simulações de retorno em diferentes cenários.

  • Juntamente, avaliamos como os tipos de título de renda fixa de renda fixa (pós-fixados e pré-fixados) tende a se comportar em cada um desses cenários.

O que é uma oportunidade?

Muitos acreditam que a oportunidade se trata apenas de algo onde você pode ganhar uma quantia relevante de dinheiro única e simplesmente, o que não é bem assim.

É claro que a chance de te entregar um dinheiro relevante é algo que uma oportunidade precisa entregar, mas não é só isso; e é aí que a maioria se engana, cometendo erros que podem atrapalhar (e até comprometer) a sua construção de riqueza.

O que a maioria chama de oportunidade é na verdade o que chamamos de aposta.

O que caracteriza uma aposta são três pontos:

1) A chance de ganhar uma quantia relevante em um cenário positivo.

2) A chance de perder muito, ou tudo, em um caso negativo.

3)  A baixa probabilidade de cenários positivos se concretizarem.

Uma aposta pode, de fato, te entregar muito dinheiro se o cenário positivo se concretizar. No entanto, ela também pode te fazer perder uma quantia tão grande quanto  (ou até maior) caso o resultado seja negativo. E o pior de tudo: na maioria das vezes, essa é justamente a chance mais provável.

Vamos entender o que é uma aposta, olhando para um site de apostas?

Acessei um site de apostas esportivas para verificar quanto eu poderia ganhar se apostasse nos vencedores do mundial de clubes de futebol, que está ocorrendo agora, entre junho e julho de 2025.

Há na disputa times brasileiros e europeus, em um momento em que estamos nos aproximando da final.

Para apostar em quem será o vencedor, temos um número “multiplicador” do seu dinheiro, conhecido como “Odds”.

Vamos dar uma olhada para que você entenda rapidamente:

Fonte: Site de apostas

Os números à direita mostram o quanto o dinheiro colocado lá seria multiplicado, caso o time em questão fosse campeão da competição.

O primeiro time da lista, o Paris Saint Germain, é o atual campeão da maior competição de clubes do mundo, vencendo todos os poderosos times europeus ao longo dos últimos meses. Isso significa que a chance de que ele vença mais essa competição não é desprezível, pelo contrário.

Na última linha, temos o Fluminense, um time carioca que, no próprio campeonato brasileiro, não está muito bem.

O efeito multiplicador da aposta no Paris Saint Germain é de R$ 3,25, ou seja, colocou R$ 10, ganhou R$ 32,50.

O efeito multiplicador da aposta no Fluminense é de R$ 18, ou seja, colocou R$ 10, levou R$ 180.

Em termos de potenciais ganhos, ambas as opções parecem ser grandes oportunidades, certo? Afinal, você multiplicaria bastante o seu dinheiro.

Qual o problema em chamar isso de oportunidade?

Você não está levando em consideração os outros dois fatores que diferenciam uma aposta de uma oportunidade:

2) A chance de perder muito em um caso negativo.

3) A baixa probabilidade de cenários positivos se concretizarem.

E é justamente isso que teremos nos casos dessas duas APOSTAS, e não oportunidades.

Apesar de o Paris Saint Germain ser um forte candidato ao título, existem outros times europeus muito fortes na competição, além de todos os outros; ou seja, a chance maior é de que ele não vença a competição, apesar de ser o favorito.

Essa probabilidade de vitória do campeonato é ainda mais baixa quando analisamos o time brasileiro, o Fluminense.

Qual o prejuízo obtido caso você aposte na vitória do campeonato para esses times e eles não vençam?

A perda seria de -100%, sim, é 100% negativo -  ou seja, perda de todo o dinheiro que você colocou em risco.

Como se recuperar de um prejuízo desse?

Não há como se recuperar; só teria a chance de recuperar o dinheiro perdido com um novo recurso.

Veja, uma aposta, assim como um bom investimento e uma boa oportunidade, tem um ponto em comum, que é chance de ter um bom retorno; porém, o que as difere é justamente o prejuízo em caso de um cenário negativo e a chance de que ele ocorra.

Preciso ressaltar que é difícil que esses três fatores apareçam de uma vez; ou seja, é difícil encontrar no mercado, e em qualquer outro lugar, algo que possa te entregar um retorno alto em cenários positivos que não te entregue um retorno muito negativo caso o pior ocorra, e que exista uma probabilidade alta de que os cenários positivos realmente ocorram; e é justamente isso que faz com que verdadeiras oportunidades no mercado sejam raras.

Oportunidades boas existem

Uma boa oportunidade existe hoje e não é novidade para você, como ocorre hoje no Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo. Veja seu quadro simulando diferentes taxas de retorno para um cenário com diferentes níveis de inflação. Vou destacar os cenários negativos, medianos e os cenários positivos:

Fonte: Finclass

No quadro acima, destacado em vermelho estão os cenários negativos, em amarelo os medianos e em azul os positivos.

Veja que, nos cenários negativos, nos prazos de três e cinco anos, o retorno não é negativo, ou seja, traz uma pequena rentabilidade, mas mesmo assim não significa uma redução do valor investido.

Nos cenários medianos, o retorno já é considerável, e, indo para os cenários positivos, as taxas de retorno começam a ficar excelentes.

Então, temos aqui dois dos três pontos necessários para serem considerados uma oportunidade, que são: i) A chance de ter um bom retorno; ii) Pequenos resultados negativos em cenários desafiadores.

Mas ainda falta a questão das chances estarem a seu favor, ou seja, a probabilidade ser maior de que, no futuro, os cenários medianos e positivos se concretizem.

Para isso, há uma questão de leitura do cenário econômico, mas também podemos olhar para o passado para nos ajudar, ou seja, quantas vezes a taxa dos títulos IPCA+ de longo prazo trabalhou acima dos patamares destacados. 

É isso que veremos agora.

As taxas dos títulos IPCA+ de longo prazo sempre caminham em patamares muito semelhantes, por isso vamos consultar a taxa do Tesouro IPCA+ longo com maior histórico e colocá-la como uma proxy para nossa análise.

Vamos analisar o histórico de taxa da NTN-B 2050, que também é conhecida como Tesouro IPCA+ 2050:

Fonte: Finclass

Nos melhores momentos, a taxa do IPCA+ de longo prazo ficou em IPCA+ 3%, mas em outros momentos se aproximou da taxa de IPCA+ 4%. Do lado negativo, no pior momento, no final de 2015, a taxa se aproximou de IPCA+ 8% ao ano, mas em nenhum momento chegou a tocar em IPCA+ 8% ou muito menos ultrapassar essa marca.

A linha laranja marca a média que o ativo trabalhou desde o seu lançamento, no início de 2010 até hoje.

A média está em IPCA+ 5,55% ao ano, ou seja, um patamar bem inferior ao que o título está trabalhando nesse exato momento.

Além disso, no quadro abaixo, conseguimos ver qual o % das vezes a taxa desse ativo trabalhou nos respectivos patamares de nossos cenários:

Fonte: Quantum e Finclass

Veja, desde o lançamento desse título, ele nunca trabalhou nos piores patamares considerados em nossa simulação; além disso, ele só esteve 6,40% dos dias desde a sua criação em um patamar acima de IPCA+ 7%, patamar que ele trabalha hoje.

O patamar entre IPCA+ 5% e IPCA+ 6% é o mais comum para esse ativo, com uma representatividade de 43,40% desde a sua criação.

Se somarmos as linhas IPCA+ 3%, IPCA+ 4% e IPCA+ 5%, teremos o percentual de vezes que esse ativo trabalhou em um patamar inferior à IPCA+ 6%, que são as taxas que ele passará a entregar um retorno significativo para nós investidores. Veremos que ele chega próximo de 70%.

Isso significa que, em 70% dos dias desde seu lançamento, esse título trabalhou em um patamar que, se comprado hoje, nos entregaria um resultado muito bom.

Um gráfico para visualizarmos os percentuais de maneira intuitiva:

Fonte: Finclass

Na linha laranja, podemos ver a média desde o lançamento desse título, enquanto na verde vemos o nível de taxa pela qual ele está sendo negociado hoje.

Ou seja, essa é uma oportunidade.

Mas, apesar de termos uma ideia de como o IPCA+ de longo prazo vai se comportar em diferentes cenários, ainda nos faltam outras classes dentro da renda fixa: os pós-fixados, os IPCA+ de curto prazo, os prefixados de curto prazo e os prefixados de longo prazo.

Nas páginas abaixo, procurarei montar uma tabela para cada uma dessas classes; dessa maneira, você terá uma ideia de qual a perspectiva de valorização de cada uma das classes para os próximos três anos em diferentes cenários.

Para desenharmos esses cenários, precisaremos de duas projeções macroeconômicas: inflação e Selic.

Desenhei as seguintes estimativas para cenários que vão desde o “Péssimo” até o “PRAIA”, cenário que carinhosamente recebeu esse apelido devido ao potencial de trazer uma excelente taxa de retorno para nossos investimentos.

Os cenários para inflação e Selic são os seguintes:

Fonte: Finclass

Agora, vamos agora entender como cada classe de ativos se comporta em cada um dos cenários:

Pós-fixados

Importante ressaltar que um cenário péssimo, no geral, significa taxa Selic elevada por mais tempo; ou seja, para essa classe de ativo, o retorno no final das contas seria maior:

Fonte: Finclass

IPCA+ de curto prazo

Já vimos os resultados que seriam obtidos pelos IPCA+ de longo prazo, mas e pelos indexados à inflação de curto prazo, o que esperar?

Vou ressaltar que, para a estimativa de resultado abaixo, considerarei uma cesta de títulos públicos indexados à inflação de curto prazo.

Para esses ativos, duas coisas importarão: a inflação acumulada no período e a taxa de marcação dos IPCA+ de curto prazo em três anos. A tabela ficará da seguinte maneira:

Fonte: Finclass

O retorno dos IPCA+ de curto prazo depende da taxa de marcação do ativo e da inflação acumulada no período, sendo assim, ele apresenta taxas maiores de retorno quando a inflação é muito elevada, o que acaba protegendo o seu retorno, ou quando a sua taxa cai de maneira relevante.

O interessante é notar que, em qualquer cenário onde a Selic caia, nem que seja um pouco no futuro, o retorno dos IPCA+ de curto prazo será maior do que o dos pós-fixados.

Prefixados de curto prazo

Para os prefixados, a taxa Selic do período e a inflação não importam; o que impacta o seu preço é justamente a taxa de aquisição de hoje (13,40%) e a taxa de marcação em três anos.

Para a estimativa de resultado abaixo, considerarei uma cesta de títulos públicos prefixados de curto prazo.

A tabela com os possíveis resultados, considerando diferentes taxas de marcação, vemos abaixo:

Fonte: Finclass

Para os prefixados de curto prazo, a Selic subir, e consequentemente sua taxa, significa marcação a mercado negativa, e, justamente por isso, os resultados obtidos nos cenários negativos são bem desvantajosos se comparados com os pós-fixados e com os indexados à inflação de curto prazo.

Porém, em cenários positivos, com queda da inflação e,consequentemente, da Selic e da taxa de marcação, os resultados obtidos passariam a ser muito relevantes.

Isso mostra que o IPCA+ de curto prazo é hoje uma opção mais defensiva dentro da renda fixa dinâmica de curto prazo.

Prefixados de longo prazo

A taxa de aquisição dos prefixados de longo prazo é muito semelhante à dos de curto prazo, hoje em 13,40%. A diferença dos resultados se dará por conta de um prazo de vencimento maior e, consequentemente, maior risco, ou seja, oscilação de preço dada a oscilação de suas respectivas taxas.

Para a estimativa de resultado abaixo, considerarei uma cesta de títulos públicos prefixados de longo prazo.

Fonte: Finclass

Agora temos bem mapeado as possíveis taxas de retorno de todas as classes de renda fixa. Como nossa carteira de renda fixa dinâmica se comportaria nos mais diferentes cenários, então?

Bom, considerando nossa distribuição na renda fixa dinâmica hoje, que tem 10% em IPCA+ de longo prazo, 5% em prefixado de curto prazo e 5% em IPCA+ de curto prazo, a tabela de retorno nos diferentes cenários seria esta:

Fonte: Finclass

Lembrando que a renda fixa dinâmica representa 20% de nossa carteira, além disso, hoje não temos exposição na carteira geral da Finclass à prefixados de longo prazo.

Mas, se considerarmos a fatia de pós-fixados, que hoje representa 15% de toda a nossa carteira, teremos um total de 35% em renda fixa na carteira de valorização, e a expectativa de retorno nos diferentes cenários de nossa carteira será:

Fonte: Finclass

Perceba que, ao incluir a parte pós-fixada, nós reduzimos o risco de nossa carteira, reduzimos o potencial de retorno em cenários mais positivos, porém, reduzimos as perdas em cenários negativos.

Vale ressaltar que poderíamos considerar outros ativos, de maior risco, na simulação dos IPCA de longo prazo, como o Renda+ 2065, o que aumentaria o retorno em cenários positivos e reduziria em cenários negativos.

Claro que os cenários são baseados nas estimativas aqui colocadas de inflação, Selic e taxas de marcação, que podem se diferenciar na realidade do que estimei; mas acredito que muitos cenários estão contemplados, e a realidade não deve se diferenciar muito do que temos aqui.

Espero que tenha gostado.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.