Na última sexta, 21 de julho, o presidente Lula assinou o que ficou conhecido no mercado como o “novo decreto de armas” — oficialmente, Decreto 11.615/2023.
Entre os vários tópicos abordados pelo documento, que faz parte do Programa de Ação na Segurança do Ministério da Justiça, alguns têm implicações importantes para a atuação da Taurus (TASA4), que faz parte da nossa carteira, no mercado brasileiro.
Vamos a eles:
O principal ponto em relação à empresa até o momento é o anúncio da restrição da venda de pistolas 9 mm e a redução da quantidade de armas que podem ser compradas pelos CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores).
A gestão da Taurus acreditava numa "racionalidade" do governo com a manutenção do 9 mm liberado, já que esse é um dos calibres mais amplamente usados ao redor do mundo hoje, inclusive por civis. Grande parte das vendas do mercado interno também se baseiam nesse tipo.
Entretanto, o decreto usou como classificação para restrição armas cuja munição comum tenham, na saída do cano, energia de até 300 libras-pé ou 407 joules.
Até mesmo o revólver .38, historicamente permitido no Brasil, acabou restrito, já que ele tem um disparo de 437 joules. Com isso, uma gama de serviços, como empresas de segurança privada e vigilantes, que usam o .38, tiveram suas operações dificultadas.
Depois da assinatura do decreto, ainda houve manifestações visando deixar o mercado ainda mais restritivo. A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann (PR), disse que vai apresentar um projeto de lei para banir os clubes de tiro e os registros dos CACs. O presidente Lula também afirmou que é preciso fechar a maioria dos clubes de tiros, dizendo que “nós temos que fechar quase todos, e só deixar aberto os que são da Polícia Militar, Exército ou Polícia Civil”, no programa “Conversa com o Presidente”.
Cenário indefinido: o que a oposição vem fazendo?
Após a assinatura do decreto, começaram a surgir notícias referentes à movimentação contrária feita por representantes das frentes parlamentares da Segurança Pública e do Agronegócio.
Alguns membros buscam suprimir um trecho (tratando especialmente sobre a restrição dos calibres), enquanto outros buscam derrubar a medida por completo.
No dia 24 de julho, 53 deputados assinaram um projeto de decreto legislativo (PDL) para tentar derrubar a restrição. Para ter efeito, um PDL precisa ser aprovado tanto pela Câmara como pelo Senado. Além de parlamentares de partidos da oposição, em sua maioria do PL (32), o projeto também recebeu apoio de membros filiados à base do governo (MDB, PSD e União Brasil), e ainda do Republicanos e do PP, que negociam espaço em ministérios com o governo.
Para aumentar sua força, parlamentares do segmento armamentista vêm buscando apoio da bancada ruralista. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion (PP-PR) chegou a afirmar que vai se mobilizar para sustar os efeitos do decreto de armas e que 80% da bancada segue essa linha.
No Senado, também foram apresentados dois projetos com o objetivo de sustar integralmente os efeitos do Decreto 11.615/2023, um apresentado por Luis Carlos Heinze (PP-RS) e outro por Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Um argumento usado pela oposição é que o novo decreto seria ilegal, segundo juristas. Isso porque ele faz alterações em artigos previstos na Lei 10.826/2003, conhecida como Estatuto do Desarmamento.
Basicamente, existem dois sistemas que fiscalizam as armas no país: o Sigma (Sistema de Gerenciamento Militar de Armas, do Exército) e o Sinarm (Sistema Nacional de Armas, da Polícia Federal). Pela lei de 2003 quem faz o controle dos CACs é o Exército. Acontece que o decreto alterou o que está na lei, com o Ministério da Justiça e Segurança Pública passando para a PF a fiscalização dos CACs. Juridicamente, para fazer uma mudança de competência, como essa, seria preciso mudar a própria legislação.
Fazendo contas
Enquanto o toma lá dá cá entre governo e oposição acontece, na terça, 25 de julho, quatro dias após o anúncio do decreto, a Taurus demitiu cerca de 100 funcionários em sua planta de São Leopoldo (RS). Anteriormente, a empresa já havia demitido outros 230 desde o início do ano com o “revogaço”.
Inegavelmente, a situação impacta a companhia, mas quanto?
Esse cenário atual veio ao encontro do conservadorismo do modelo que adotamos desde o 4T22 e na inclusão da ação na carteira. Nele, reduzimos o volume de vendas da Taurus para o mercado brasileiro de 2023 em 65%. Esse número faz referência à porcentagem de armas que a empresa vende por meio de distribuidores e lojas no Brasil, ou seja, com foco em civis.
Isso também tem impacto nas margens da empresa. Como no Brasil a Taurus vende também da fábrica direto para os consumidores, ela conseguia praticar margens maiores. Entretanto, desde o relatório inicial da empresa, nós projetamos sua margem Ebit inferior ao realizado pela empresa nos últimos anos, convergindo para a média tradicional de suas concorrentes internacionais listadas, Smith e Ruger, de 19,6%.
Agora precisamos olhar para a frente. No dia 14 de agosto, a Taurus vai reportar seus resultados do segundo trimestre de 2023 (2T23).
A expectativa é que os números para o mercado brasileiro sejam parecidos com os do 1T23. Nele, a empresa foi impactada em sua operação no Brasil com um número largamente reduzido de vendas no mercado doméstico. Operando com um volume menor de produtos, a companhia também viu suas margens diminuírem, dada a menor diluição de custos fixos.
Após a divulgação do 1T23, as ações da empresa tiveram uma queda acentuada de 15,49%, saindo de R$ 16,20 para R$ 13,69.
Agora no 2T23, se o mesmo acontecer, estaremos vendo uma irracionalidade do mercado. Isso porque, como dissemos, o cenário brasileiro nos dois trimestres foi basicamente o mesmo e o decreto recém-apresentado só vai apresentar efeitos a partir do terceiro trimestre. Ainda assim, não dá para duvidar que o mercado não possa ter uma reação exagerada novamente.
Como exercício teórico, podemos ser mais pessimistas ainda em nosso modelo. Tomando como base o resultado do 1T23, em termos de receita líquida e margem Ebit, tanto no mercado brasileiro como no dos EUA, e o estendendo até 2026, chegamos a uma taxa interna de retorno (TIR) para TASA4 de 16,3%, superior ainda ao seu custo de capital próprio de longo prazo de 15,2%, o que viabiliza seu investimento. Nesse cenário, o valor justo da ação teria a seguinte matriz de sensibilidade:
De qualquer forma, no relatório subsequente à divulgação, traremos nossos comentários sobre os números apresentados, assim como as perspectivas da empresa para seu futuro.
Abraços,
Leandro Siqueira