Relatórios

Pacote de corte de gastos, convexidade na renda fixa e oportunidades atuais.

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Rodrigo Xavier em RENDA FIXA

18 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Pesquisa destaca que a consultoria financeira é mais completa que a assessoria, integrando planejamento tributário, sucessório, orçamentário e investimentos.

  • O Brasil enfrenta desafios fiscais para cumprir o Arcabouço Fiscal, em uma tentativa de equilibrar o orçamento e estabilizar a dívida pública. Recentemente, o pacote fiscal provocou alta no dólar, nos juros e na inflação, comprometendo a credibilidade fiscal com propostas de tributação e cortes de gastos.

  • Oportunidades surgem em títulos prefixados, atrelados ao IPCA+ e em FI-Infra. As taxas elevadas desses ativos proporcionam assimetrias favoráveis, beneficiadas pela convexidade, enquanto as recentes quedas nos FI-Infra criam um cenário atrativo para investimentos com a vantagem da isenção de IR.

Antes de mais nada, inicio esse texto trazendo o resultado de uma pesquisa elaborada nos EUA com clientes de consultorias de investimentos.

Uma consultoria de investimentos trabalha com um serviço mais personalizado, o que significa que, quando você entra para uma, será atendido sempre por um mesmo consultor(a), e essa pessoa irá conversar com você frequentemente, de preferência, por muitos e muitos anos.

O trabalho é um pouco diferente da assessoria, afinal, dentro de uma assessoria de investimentos, o profissional fica limitado a recomendação de investimentos que estejam na plataforma em que ele atua; já o consultor pode indicar as melhores opções de investimento para o seu perfil e a necessidade em qualquer plataforma do mercado. Não são raros os casos aqui na Portfel, consultoria financeira do Grupo Primo, em que os consultores conversam diretamente com os gerentes de banco dos clientes, orientando-os sobre o que fazer com seu dinheiro.

Além disso, a consultoria financeira vai além da assessoria. A assessoria tem foco no trabalho, quase que única e exclusivamente, na parte de investimentos; enquanto na consultoria, um bom profissional te ajudará com muito mais; planejamento tributário, planejamento sucessório, planejamento orçamentário, aquisição de bens através de financiamento (vai encontrar as melhores opções para o seu caso), mudança de residência fiscal, além, é claro, de cuidar dos seus investimentos. É um serviço realmente completo.

Em 2022, os clientes de grandes consultorias financeiras nos EUA foram questionados sobre o que esperavam de seus consultores; a resposta se distanciou de maneira relevante do que os profissionais acreditavam que os clientes queriam.

Entre as habilidades mais valorizadas pelos clientes estavam a confiança, a disponibilidade e a habilidade de ouvir.

Como um profissional do mercado, confesso que me surpreendi um pouco com essa leitura, afinal, é de se esperar que o objetivo de alguém que entra para uma consultoria financeira é ganhar mais dinheiro, mas não só isso.

As pessoas querem ficar tranquilas de que o profissional esteja trabalhando para o seu enriquecimento e não única e exclusivamente para o enriquecimento próprio; além, é claro, de ter convicção de que o profissional é gabaritado para exercer essa função. Esse princípio caracteriza o pilar da confiança.

Em momentos negativos de mercado, esses que todos vamos passar, o cliente quer ficar tranquilo de que está no caminho certo, ou seja, entender que seu dinheiro está alocado de maneira correta e não o corre risco de sofrer perdas relevantes. Para isso, ele fica feliz e mais calmo, quando recebe um relatório reafirmando as teses de seus investimentos, uma mensagem o tranquilizando ou até mesmo uma reunião. Esse conjunto de atitudes caracteriza o pilar da disponibilidade.

De pouco adiantaria ter competência e disponibilidade, se o consultor não escutasse e entendesse as reais necessidades, dúvidas e aflições de seu cliente. A habilidade de ouvir, apesar de estar entre as habilidades mais requeridas pelos clientes, é com certeza a mais subestimada pelos profissionais.

Essas habilidades são ainda mais requeridas em momentos de estresse, afinal, é justamente neles que os clientes ficam de fato mais preocupados.

Pensando nos pontos citados pelos clientes americanos, que provavelmente são semelhantes aos dos clientes brasileiros, resolvi elaborar esse relatório para reforçar algum desses princípios, que provavelmente você valoriza bastante:

A disponibilidade e a habilidade de ouvir suas reais demandas. 

Pensando nisso, resolvi pegar as dúvidas e questionamentos que mais apareceram nas últimas semanas em nossa comunidade, e respondê-los, com bastante embasamento, para que fiquem mais tranquilos nesse momento de estresse dos mercados.

As dúvidas, como era de se imaginar, tinham relação com as propostas do governo para o pacote de corte de gastos, com uma possível isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil; e para responder se o momento que estamos vivendo é o início de uma piora que pode se intensificar no futuro ou, quem sabe, uma oportunidade.

Vou falar mais sobre os pontos acima. Então, vamos começar pelo que efetivamente está causando uma boa parte do movimento de piora dos últimos dias:

O Pacote de corte de gastos

Na última quarta-feira, dia 27/11, o ministro da fazenda Fernando Haddad veio a público fazer o anúncio de duas possíveis medidas econômicas relevantes. A primeira era amplamente esperada, o anúncio de um pacote de corte de gastos.

Esse pacote de corte de gastos visava deixar mais claro quais seriam as iniciativas implementadas para equilibrar o orçamento público.

Mas, inicialmente, vamos à primeira pergunta;

Por que equilibrar o orçamento público é importante?

Um orçamento público equilibrado indica que há um certo balanço entre receitas e despesas de um governo. Quando há esse equilíbrio, o nível de dívida de um país se acomoda.

Quando isso acontece, normalmente os juros daquele país apresentam um alívio por dois motivos:

1 – Um equilíbrio do orçamento, conhecido por equilíbrio fiscal, tende a ocasionar uma inflação mais controlada e, com isso, os juros de curto prazo, a nossa Selic, podem cair.

2 – Uma dívida estável traz mais tranquilidade aos credores da dívida pública brasileira. Com uma previsibilidade maior sob o nível do orçamento público brasileiro, mais pessoas, empresas, investidores e fundos de investimento ao redor do mundo poderão emprestar o dinheiro para o Tesouro Nacional e, consequentemente, os nossos juros de longo prazo podem cair.

O equilíbrio, por si só, é importante, mas ele não pode ser atingido por mero acaso, ou ano a ano. É preciso que haja uma previsibilidade sobre como o governo arrecada os impostos e como ele gasta esse dinheiro.

Isso é importante para trazer mais confiança para os agentes econômicos e aos credores da dívida pública, garantindo que o orçamento continuará equilibrado por muitos e muitos anos.

Ao conjunto de diretrizes a serem seguidas com relação ao orçamento público, se dá o nome de regra fiscal. Uma regra fiscal clara, simples, que mostre um equilíbrio das contas públicas e que seja respeitada, fará com que os juros de um país cedam naturalmente.

Ao conjunto de diretrizes atual, se deu o nome de “Arcabouço fiscal”, uma regra fiscal criada para substituir o antigo “Teto de gastos”.

Normalmente, nessa discussão fiscal, os ânimos começam a se aflorar, afinal, há quem defenda que um equilíbrio fiscal não é importante.

Por uma incrível coincidência, ao pesquisar o seguinte termo no Google: “Por que uma regra fiscal é importante?”, o primeiro link que aparecerá é do site da presidência da república, o www.gov.br

Segue a resposta do governo atual para essa questão simples, mas vital para o bem-estar da nossa economia e, consequentemente, da nossa população:

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Figura 1 | Fonte: Presidência da República

É uma lógica relativamente simples de se explicar, mas não tão simples de se alcançar, principalmente quando incluímos o ambiente político nessa equação; afinal, segurar a torneira dos gastos públicos é impopular.

Mas, se o arcabouço fiscal existe, por que um pacote de corte de gastos era necessário?

Vale lembrar que o arcabouço fiscal foi aprovado em agosto de 2023, prometendo um resultado primário (receitas menos despesas sem considerar os juros) de zero ainda em 2024.

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Figura 2 | Fonte: CNN

Mesmo naquela época, economistas especialistas em contas públicas já duvidavam da sua viabilidade, tanto para o alcance das metas propostas quanto para a estabilização da dívida pública no curto prazo.

Relembre algumas matérias da época:

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Figura 3 | Fonte: Neo Feed

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Figura 4 | Fonte: G1

Há aqueles que dizem:

“O mercado estava torcendo contra, é claro que o governo iria cumprir a sua meta.”

Bom, não é isso, de fato, que estamos observando no aspecto fiscal. Neste  final do ano, o resultado primário do governo deve apontar para um déficit de 0,50% do PIB.

Os questionamentos apontados no ano passado pareciam fazer sentido.

Então, vale ressaltar que a nova regra fiscal não será cumprida, nem ao menos em seu primeiro ano de vigência. Mas essa regra poderia não ser cumprida de duas maneiras diferentes:

1 – Com menos arrecadação através de impostos do que se esperava.

2 – Com gastos maiores do que o esperado.

No Brasil, quase sempre, o problema vem do 2º ponto citado acima, ou seja, gastos maiores do que o esperado.

Apesar de termos observado aumento da receita, as despesas em 2024 cresceram em um ritmo ainda maior:

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Figura 5 | Fonte: Uol - 28/11/2024 - De Giuliana Saringer

Portanto, o pacote de corte de gastos tem como intuito fazer com que o orçamento público volte aos trilhos, trilhos esses determinados pelo arcabouço fiscal.

Mas será que o pacote de corte de gastos anunciado seria suficiente para colocar o orçamento de volta aos trilhos?

Bom, havia uma expectativa de que o arcabouço fiscal anunciasse um corte de R$ 70 bilhões em despesas para os próximos dois anos, caminho esse que o colocaria próximo às metas estipuladas pelo arcabouço fiscal para os próximos anos.

No dia seguinte ao pronunciamento do ministro Fernando Haddad, houve o detalhamento do pacote. Anunciado pelo quadro abaixo:

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Figura 6 | Fonte: Ministério da Fazenda

Podemos verificar que foi anunciado um contingenciamento de despesas na casa de R$ 70 bilhões para os próximos dois anos, porém, levaram poucas horas para que os especialistas em contas públicas fizessem seus próprios cálculos e chegassem a uma estimativa diferente da apontada pelo governo.

Vamos, aqui, elencar as estimativas de economistas respeitados, com experiência no setor público, e extremamente gabaritados:

Felipe Salto – Ex-secretário da Fazenda do governo do Estado de São Paulo, passagem pela instituição Fiscal Independente e economista-chefe da Warren.

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Marcos Mendes – Economista e professor do Insper

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Bruno Funchal – Foi secretário do Tesouro Nacional e secretário especial do Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia do Brasil. Atualmente, é CEO da Bradesco Asset.

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As estimativas, então, dos principais economistas apontam para uma economia entre R$ 40 e R$ 50 bilhões para os próximos dois anos, uma estimativa abaixo da apresentada pelo governo.

Talvez você pense: “Mas os economistas não são muito pessimistas?”

Esse pensamento é razoável, porém vale lembrar que, na apresentação do próprio arcabouço fiscal, a desconfiança já era alta, e ela veio a se confirmar. No entanto, acredito que a desconfiança dos mesmos especialistas, hoje, seja razoável de se levar em consideração.

“Foi essa diferença de R$ 20 bilhões que levou o mercado a piorar dessa maneira?”

Bom, primeira vamos dar uma dimensão da piora observada até o momento:

Câmbio:

O dólar continuou seu movimento de alta e chegou a ultrapassar o patamar de R$ 6, o mais alto da sua história. No ano, a moeda americana subiu mais de 20% contra a moeda brasileira:

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Figura 7 | Fonte: Google Finance

O dólar subindo pode indicar um aumento na busca por proteção, e esse aumento pode se traduzir em mais inflação.

Juros:

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Figura 8 | Fonte: Broadcast

Os juros de longo prazo voltaram a subir de maneira relevante e chegaram ao patamar mais alto do atual mandato do governo Lula, chegando a atingir 14% ao ano. Ou seja, isso significa que empresas que precisarem de crédito pagarão mais caro por pegar dinheiro emprestado, um limitador para o desempenho da atividade econômica brasileira.

Vale lembrar que, agora, o mercado precifica uma Selic chegando a 15% ainda em 2025.

Esse movimento é reforçado pela piora das expectativas de inflação, que subiram de maneira muito relevante nos últimos dias.

A inflação implícita, taxa embutida nos preços dos ativos, para os próximos 10 anos, aponta para uma variação média anual da inflação na casa dos 6% ao ano. Isso é o dobro da meta do Banco Central.

Mas o que causou esse movimento?

O anúncio do pacote de corte de gastos não foi o principal fator para a deterioração relevante observada nos últimos dias. Podemos creditar esse movimento ao anúncio atrapalhado de uma proposta de correção da tabela de cobrança do Imposto de Renda.

No anúncio oficial, o ministro Fernando Haddad comunicou que o governo pretende enviar uma proposta para isentar da cobrança do Imposto de Renda as pessoas que ganham até R$ 5 mil por mês da cobrança do imposto e, em compensação, tributar mais os mais ricos, aqueles que ganham mais de R$ 50 mil por mês.

Em breve, entrarei no mérito da proposta, vamos entender como é a tributação no Brasil hoje, e se a proposta anunciada por Haddad, ainda sem detalhamento algum, pode ser boa para o Brasil.

Como falei anteriormente em outra parte do texto, equilibrar as contas públicas e conter as despesas é, de fato, algo impopular.

Na minha visão, ao tentar conter um dano em sua imagem, por anunciar um corte de gastos, o governo resolveu misturar duas coisas diferentes: um pacote para equilibrar as contas públicas e uma proposta de reforma no Imposto de Renda.

Reduzir impostos para uma grande parte da população e tributar uma pequena parcela, de fato, teria um potencial para conter danos à popularidade de qualquer governo, isso se trabalhado na hora certa.

Acontece que, qualquer redução de carga tributária, nesse momento em que o orçamento público e a regra fiscal andam em dissonância, é extremamente perigosa.

Uma sinalização de menor arrecadação de impostos ou aumento nos gastos pode passar a ideia de que o governo não está preocupado com resultados fiscais inferiores ao esperado e fora da meta estabelecida há 14 meses.

Veja, é muito cedo para não conseguirem cumprir uma meta fiscal aprovada recentemente, que não era audaciosa. Mostrar que você vai arrecadar menos impostos, ou que corre o risco disso, mina ainda mais a sua credibilidade fiscal.

Foi essa a percepção que investidores (as), empresários (as) e outros agentes da economia tiveram no pronunciamento do ministro da fazenda, Fernando Haddad.

O pacote de corte de gastos, que muito provavelmente serviria como um reforço na credibilidade do governo, deu espaço a uma proposta apresentada no momento errado, e parece ter ficado clara até o momento:

O governo está mais preocupado com a popularidade do que com a credibilidade fiscal.

“Mas, Gui, o governo disse que a queda da arrecadação será compensada por uma tributação maior para os que ganham R$ 50 mil ou mais por mês.” 

Acontece que não há nenhum detalhamento sobre como isso será feito;  até o momento, é apenas uma ideia. No entanto, é importante entender o seguinte, ao  propor uma reforma na tributação da renda:

Você calcula facilmente o quanto vai deixar de arrecadar de impostos, mas apenas estima o quanto arrecadará, ao impor regras mais rígidas ou alíquotas maiores para outra parcela da população.

Isso acontece porque as pessoas que passarão a ser tributadas podem adotar estratégias diferentes de remuneração, encontrar brechas para pagar menos impostos do que o governo acreditava que elas pagariam.

E lembre-se, na primeira parte do relatório, o próprio governo coloca que mais dívida gera mais inflação, mais juros e menos atividades.

Segundo Felipe Salto e Ítalo Franca, chefe de políticas fiscais e estudos especiais do Banco Santander e a Associação Nacional dos Auditores Fiscais, da Receita Federal do Brasil (Unafisco Nacional), estimaram uma queda na receita entre R$ 45 e R$ 50 bilhões por ano, por conta da isenção do IR para quem ganha até R$5 mil.

Fazer uma tentativa de reforma da renda rápida pode custar caro para o Brasil.

“Entendi que o momento não foi o mais adequado, mas a proposta de isentar as pessoas que ganham menos do que R$ 5 mil e tributar os que ganham mais de R$ 50 mil é boa?”

Vamos analisá-la juntos.

Tributando os mais ricos e aliviando os mais pobres

Vamos entender, hoje, como o Brasil tributa a renda?

Jabuticaba é um termo utilizado para falar de algo que acontece apenas no Brasil. Existia a ideia que a fruta jabuticaba só nascia no Brasil, então, o termo ainda hoje é utilizado para quando você quer mostrar algo que só acontece aqui , ou que acontece em poucos lugares do mundo, incluindo nosso país.

Dentre as várias jabuticabas brasileiras, a tributação da renda é mais uma nesse amontoado.

No Brasil, quanto mais renda você recebe, menos você paga de imposto, é o que chamamos de tributação regressiva da renda.

Talvez você esteja pensando:

“Ué, mas a alíquota do Imposto de Renda vai subindo conforme a remuneração de uma pessoa aumenta, certo?”

Existe uma diferença entre alíquota nominal e alíquota efetiva.

Alíquota nominal é a porcentagem declarada oficialmente na legislação tributária para um determinado imposto, ela representa um valor teórico que deveria ser aplicado sobre a renda. E tem mais: ela não considera deduções e abatimentos, que, no final, alteram o valor final do imposto.

A tabela de alíquota nominal do Imposto de Renda no Brasil realmente é progressiva:

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Mas o que é a alíquota efetiva?

É o percentual real que o contribuinte paga em relação à sua base de cálculo total, após considerar as deduções, as isenções e os abatimentos.

Aqui, o cálculo é simples:

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Quando olhamos para a alíquota efetiva, ou seja, quando verificamos, de fato, o que se pagou de imposto frente à renda recebida, o problema se mostra:

A alíquota efetiva no Brasil avança até certo ponto, depois ela cai, indicando que quanto mais se ganha menos se paga de imposto.

Essa não é uma prática tão comum ao redor do mundo e, na verdade, é uma prática que tende a prejudicar o desempenho de uma economia como a brasileira.

O motivo?

Se eu der R$ 1 mil a mais de renda para duas pessoas, qual delas você acredita que tem a maior chance de usar esse dinheiro para consumo - pode ser alimentação, lazer, contas básicas e por aí vai.

1 – Uma pessoa que recebe R$ 4 mil por mês.

2 – Uma pessoa que hoje ganha R$ 100 mil por mês.

A chance desses R$ 1 mil virarem consumo na mão da pessoa que ganha R$ 4 mil é maior do que na pessoa que ganha R$ 100 mil, e é isso que efetivamente acontece na média.

A propensão a poupar, ou seja, a guardar os R$ 1 mil adicionais daqueles que ganham muito, é bem maior.

Ao tributarmos mais as pessoas que ganham menos, deixamos de deixar a população consumir mais, o que tenderia a beneficiar nossa atividade econômica.

No Livro “Extremos”, de Pedro Fernando Nery, ele cita as alíquotas efetivas de IR para cada faixa de renda da população.

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Figura 9 | Fonte: Companhia das letras

A alíquota máxima efetiva no Brasil está para quem ganha entre 15 e 20 salários-mínimos por mês; 11% vai para o Estado através do IR.

A partir daí, a alíquota efetiva começa a cair.

Por exemplo, a alíquota para quem ganha entre 60 e 80 salários-mínimos por mês é de 8%.

Mais de 320 salários-mínimos caíram para 5%.

Economistas liberais criticam essa característica do Brasil, inclusive Paulo Guedes e Armínio Fraga.

Então, para corrigir essa discrepância, alterar a forma como tributamos a renda, parece ser uma boa estratégia.

Vou além, a isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês faz bastante sentido.

Em 1996, quem ganhava até R$ 900 por mês era isento da cobrança do Imposto de Renda; hoje, quem ganha mais do que R$ 2.259, já paga impostos.

O que aconteceria se corrigíssemos os R$ 900, desde 1996 até agora, usando o IPCA, nosso índice oficial de inflação?

Bom, eu fiz essas contas; e você pode fazer também, na calculadora do cidadão do Banco Central: https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCorrecaoValores

Veja o resultado:

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Isso significa que, se estivéssemos tributando as pessoas com o mesmo poder de compra de 1996, deveríamos tributar apenas pessoas que ganham mais do que R$ 5 mil. Então, isso implica dizer que o Brasil, ao longo desses quase 30 anos, passou a tributar pessoas cada vez mais pobres para cobrir gastos crescentes.

Não à toa, o Brasil tem uma carga tributária compatível com países da OCDE, grupo conhecido de países desenvolvidos, e muito acima da média da América Latina:

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Figura 10 | Fonte: Correio Braziliense e OCDE

Se a ideia de tributar mais os mais ricos e menos os mais pobres é boa, os preços dos ativos vão voltar a melhorar?

Não acredito nisso, pelo menos, não no curto prazo.

A apresentação dessa ideia em um momento tão sensível para a credibilidade fiscal do país mostrou que a preocupação maior é com a popularidade e não com a sustentabilidade das contas públicas brasileiras. Hoje, economistas não conseguem enxergar uma data para estabilização da nossa dívida pública, o que implica  em um aumento nas expectativas de inflação e juros.

Nos últimos dias, bancos, gestoras e economistas independentes estão revisando suas projeções para o próximo ano, e as primeiras leituras não são nada positivas.

Inflação em 6%, Selic em 15% e o câmbio ainda mais depreciado já não são raros de se encontrar.

Com esse cenário se incorporando nas projeções dos economistas, analistas de investimentos e investidores (as) no geral, a precificação de alguns ativos sofreu bastante, inclusive os de renda fixa.

A convexidade aplicada a renda fixa vai te ajudar

“Gui, mas essa piora abriu oportunidades?”

Eu acredito que não só abriram oportunidades, como elas passaram a ficar mais assimétricas a seu favor, e isso por conta de algo que se chama convexidade.

Você está acostumado (a) a ouvir convexidade como um conceito onde você tem muito para ganhar e pouco para perder; aqui, na renda fixa, é parecido, mas conseguimos entender isso de uma maneira muito mais palpável.

A convexidade aplicada à renda fixa determina o seguinte:

Quando os juros de um título prefixado ou IPCA+ sobem, o impacto negativo em seu preço é menor do que o impacto positivo que ocorre quando suas taxas caem.

Estou querendo dizer que, se você comprar um título prefixado ou IPCA+ e as taxas deles subirem 1%, o impacto negativo em seu preço será menor do que o positivo se as taxas caírem 1%.

O mais interessante é que esse “desequilíbrio” favorável para o investidor aumenta quanto maior for o ponto de partida da taxa do título, ou seja, quanto maior for a taxa pela qual ele esteja sendo negociado hoje.

Exemplo:

O que aconteceria caso um título prefixado de 10 anos, cuja taxa está em 14% ao ano, observa-se uma alteração em sua taxa de 1%, 2%, 3%, 5% e 7% tanto para cima quanto para baixo?

É isso que simulei na tabela abaixo:

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Figura 11 | Fonte: Finclass

Na tabela acima, na coluna “Título hoje”, você observa a taxa com que ele está sendo negociado, assim como o seu preço hoje, que é de respectivamente 14% a.a. e R$ 269,74.

Para o lado esquerdo, você observa o impacto no preço do ativo que uma queda na taxa de 1%, 2%, 3%, 5% e 7% tem em seu preço. Os percentuais destacados em verde, na parte inferior da tabela, mostram o quanto o ativo se valorizaria caso observássemos aquela alteração na taxa.

Para o lado direito, você observa o impacto no preço do ativo que uma alta na taxa de 1%, 2, 3%, 5% e 7% tem em seu preço. Os percentuais destacados em vermelho, na parte inferior da tabela, mostram o quanto o ativo se desvalorizaria, caso observássemos aquela alteração na taxa.

Veja, no melhor cenário, onde a taxa caísse 7%, o ativo se valorizaria 88,46%, enquanto no pior cenário, com uma alta da mesma proporção, o ativo se desvalorizaria praticamente a metade disso - ou, para ser mais exato, 44,90%.

Perceba que essa vantagem para a queda nas taxas existe para qualquer variação e não só para variações extremas, como essa de 7%.

A esse “desbalanceamento”, nos ativos de renda fixa, damos o nome de convexidade, e ele existe nos ativos prefixados e IPCA+, justamente os ativos que mais estão sofrendo no momento.

Isso mostra que a assimetria hoje está muito favorável para quem tem uma visão de médio e longo prazo. É possível comprar ativos a excelentes taxas, com uma relação entre espaço para ganhos e perdas muito favoráveis  no médio e longo prazo.

Vale lembrar que quanto maior o prazo de vencimento do ativo, maior também o impacto dessa convexidade.

Nos ativos IPCA+ de longo prazo, isso é ainda mais forte, mas, claro, as varições são bens maiores tanto para o lado positivo quanto para o lado negativo. Mas ressalto novamente, a convexidade está do seu lado, e nesse momento ainda mais.

Oportunidades nos FI-Infra

Brincamos internamente que o Ricardo, nosso analista de fundos imobiliários, tem uma missão relativamente fácil, superar o Ifix, o principal índice de fundos imobiliários do mercado.

Ela só não é tão fácil quanto a minha, afinal, a Selic se altera apenas a cada 45 dias, e nos outros 44, posso passear pelo escritório.

Brincadeiras à parte, falamos isso sobre os fundos imobiliários, porque em sua grande maioria, mais especificamente ¾, ou 75%, dos participantes desse mercado são pessoas físicas.

Isso significa que apenas uma pequena parcela são investidores institucionais, amparados por ferramentas e capacidade técnica ímpar.

Esse cenário tem o seu lado positivo, afinal, a médio e longo prazo, sua capacidade analítica apurada amparada por um bom ferramental deve fazer com que seu trabalho se descole da média do mercado. 

Por outro lado, os movimentos do mercado no curto prazo são determinados pela emoção do investidor pessoa física, o que significa que as desvalorizações são intensificadas em momentos de estresse e as valorizações irracionais podem ocorrer em momentos de euforia.

Isso não é verdade apenas para fundos imobiliários, mas também para os FI-Infra, ou fundos de infraestrutura, já que de alguns anos para cá eles adotaram o mesmo comportamento dos FIIs, traço esse que os tornou bem populares, o pagamento do dividendo mensal.

Hoje, o movimento dos FI-Infra também é determinado, em grande parte, pela emoção da pessoa física. E com o cenário de revisão da Selic para cima, os investidores entraram em pânico, gerando fortes quedas em suas cotas.

JURO11, KDIF11 e IFRA11, nossos FI-Infra recomendados caíram respectivamente 13,61%, 9,42% e 13,94% nos últimos 6 meses, se não considerarmos os seus dividendos.

Considerando, é claro que esse impacto é muito menor, mas quero ilustrar o momento negativo pelo qual passaram até agora.

Acontece que, enquanto muitos querem se desfazer desses ativos, o momento para comprá-los não estava tão propício há muitos anos.

Hoje, após meses e até anos, as cotas de mercado desses ativos estão abaixo da cota patrimonial. O que significa que a remuneração líquida da carteira dos ativos que estão lá chega a ultrapassar o patamar de IPCA+ 9% ao ano;  isso, sem considerar a isenção do Imposto de Renda a qual estão sujeitos tanto os dividendos quanto a valorização de sua cota.

Portanto, se esses ativos estão com um percentual menor do que deveriam em sua carteira ou se você ainda não teve a oportunidade de comprá-los, aproveite; sei que isso não durará por muito tempo.

O momento é desafiador para o mercado brasileiro, porém, se você não precisa realizar resgates relevantes da sua carteira, parece ser mais um daqueles excelentes momentos para ir às compras.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.