No relatório de hoje, vamos trazer o balanço do mês de agosto da nossa carteira e quais os principais fatores nacionais e internacionais que impactaram o mercado no último mês.
Performance da carteira de Renda Total no mês de agosto
O mês de agosto foi um mês positivo para poucos ativos: dólar, pós-fixados indexados ao CDI e indexados à inflação de curto prazo. Veja a seguir na tabela resumida:
Fonte: Spiti
A carteira da série Renda Total seguiu o movimento do mercado, que foi marcado por oscilações negativas sem grandes surpresas. O gráfico a seguir mostra como foi a rentabilidade de cada um dos três pilares da nossa carteira: FIIs, ações e títulos públicos:
Fonte: Spiti
Fonte: Spiti
Fonte: Spiti
Ainda no mês, a taxa de dividendos anualizada da carteira atingiu 7,34% no ano. A tabela a seguir resume os dividendos pagos por cota dos nossos FIIs no mês:
Fonte: Spiti
Alguns fatores marcantes no mês explicam o porquê da deterioração dos ativos de risco no país. Vamos abordar cada um deles nas próximas seções.
Fatores nacionais
Os principais acontecimentos nacionais que levaram a essa deterioração do cenário interno foram:
- Aumento do risco fiscal;
- Tensão entre os Três Poderes;
- Avanço das reformas;
- Indicadores de atividade econômica mistos.
Esses acontecimentos acabaram atuando em conjunto e diminuíram a perspectiva positiva para o país, o que refletiu na taxa de juros futuros. Tais expectativas de taxa de juros variam todos os dias, sendo esta a responsável por marcar os títulos públicos a valor de mercado. Por conta da relação negativa entre taxa de juros e preços dos títulos, quando as expectativas de juros sobem, os preços dos ativos de renda fixa caem, e vice-versa.
No último mês, vimos as perspectivas de juros aumentarem em praticamente todos os pontos da curva por conta de diversos fatores que impactaram os ativos de risco do país, que não tiveram um mês positivo.
| Acumulado de agosto | |
| Ibovespa | -1,97% |
| Ifix | -2,60% |
| CDI | 0,45% |
| Renda Total | -2,27% |
Fonte: Spiti
Sobre o risco fiscal, tivemos um mês cercado de incertezas, principalmente na forma como o governo iria lidar com os precatórios, dívidas do governo no valor de R$ 89 bilhões, que recentemente foram incluídos no orçamento público do país para o ano de 2022, diminuindo assim os gastos discricionários (não obrigatórios).
É importante mencionar que, para que o pagamento dos precatórios seja feito sem grandes atritos, é preciso que exista um diálogo aberto entre os poderes, algo que não vimos acontecer recentemente. A falta de coesão entre as instâncias aumenta a percepção de risco sobre como a questão fiscal do país vai ser acomodada.
Outro fator que abalou o risco fiscal do país foi o recente anúncio do Auxílio Brasil, que deve substituir o antigo Bolsa Família. Com a entrada dos precatórios no orçamento de 2022, o novo programa coloca em risco o aumento de gastos públicos acima do teto, fato que, aliado à baixa aprovação do governo Bolsonaro, baseado nos dados mais atualizados da pesquisa XP/Ipespe, aumentou a percepção do risco de aumento de gastos.
Outros fatores que também impactaram o mercado de juros foram o aumento da inflação dos últimos 12 meses, que já atinge 8,99% ao ano. O indicador oficial de inflação, o IPCA, foi afetado pelos aumentos nos preços da gasolina e da energia elétrica – neste caso, houve uma alteração em relação à cobrança da bandeira vermelha. A crise hídrica no país é o fator determinante nos aumentos consecutivos do preço da energia elétrica.
No entanto, mesmo com os dados de inflação do ano acima da meta para 2021, é importante lembrar que a perspectiva de inflação futura do mercado para o ano que vem é de 3,95%, segundo o Relatório Focus do Banco Central. Fora isso, quando colocamos em perspectiva os aumentos na energia elétrica que já aconteceram em 2021 e o contínuo aumento da Selic por parte do Banco Central, acreditamos os juros futuros continuam em patamares elevados.
No âmbito das reformas, tivemos em agosto a aprovação inesperada do texto do projeto de reforma do Imposto de Renda, que agora segue para aprovação no Senado. Veja abaixo alguns pontos relevantes sobre a reforma que foram propostas nessa versão do texto, que ainda precisa ser aprovada no Senado e pelo Executivo:
- Tributação sobre FIIs segue inalterada para pessoa física, ganhos de capital continuam tributados em 20% e dividendos distribuídos seguem isentos.
- Tributação sobre renda fixa segue inalterada, seguindo a tabela escalonada de IR, que tem início em 22,5% sobre os lucros e diminui até 15% a partir de dois anos investido. LCI, LCA, CRI e CRA continuam isentos de pagamento de imposto
- Tributação sobre dividendos de ações será de 15%, com exceção de empresas do Simples (sem limite) e lucro presumido com receita até R$ 4,8 mi.
- Tabela do IRPF (Imposto de Renda para Pessoa Física) elevou a isenção para ganhos até R$ 2.500 por mês (antes era R$ 1.903,98) e alíquota de 27,5% começa em R$ 5.300,01 (antes começava em R$ 4.664,68).
O texto atual prevê saldo de arrecadação negativo para o país quando comparado com a versão anterior. Isso pode sinalizar mais deterioração fiscal se não houver a aceleração de outras medidas e diálogos políticos que, em parte, compensem essa queda na arrecadação de impostos.
Fora questões políticas e de inflação, os indicadores econômicos de agosto vieram mistos, demostrando que a retomada ainda segue lenta. Os níveis de desemprego, obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), mostram que o desemprego diminuiu de 14,7%, no fim de março/21, para 14,1% no fim de agosto. Ainda assim, mais de 14,4 milhões de pessoas seguem sem emprego, um dos patamares mais elevados da história.
Além disso, o PIB do segundo trimestre de 2021 divulgado em agosto veio abaixo da expectativa do mercado. O resultado foi diminuição do produto interno no valor de 0,1% quando comparado com o trimestre anterior, e a expectativa do mercado era de crescimento de 0,2%.
Do lado positivo, a arrecadação de impostos de julho bateu recorde no segundo trimestre, já descontados os efeitos não recorrentes. Isso se deu, em partes, por conta da retomada da atividade e o aumento da atividade econômica.
Fatores internacionais
Quando analisamos os fatores internacionais que impactaram o Brasil em agosto, três acontecimentos se destacam:
- Contínua intervenção da China para conter avanço da cotação do minério de ferro;
- Índice de atividades da China abaixo do esperado pelo mercado;
- Variante delta aumenta as incertezas quanto à reabertura da economia global.
A China continuou a avançar suas medidas intervencionistas, principalmente a respeito das restrições quanto à negociação de minério de ferro, sendo que duas delas impactaram diretamente na demanda da commodity:
- Segundo o canal norte-americano CNBC, a China recentemente impôs limitações na quantidade de produção de gás carbônico, refreando a capacidade produtiva de aço no país e, por consequência, no consumo de ferro;
- Aumento da regulação sobre a negociação de contratos de compra e venda de ferro com intuito de limitar a especulação de investidores e abaixar o preço da commodity.
Pensando na Vale (VALE3), que é a segunda maior empresa em valor de mercado da Bolsa brasileira, o impacto foi relevante. Quando a perspectiva da demanda por minério de ferro da China, que hoje consome 72% dessa matéria-prima do mundo, diminuiu os receios com a retomada, aumentaram as oscilações do preço da ação da companhia, que em agosto desvalorizou 12%.
Fora isso, os indicadores da China quanto ao crescimento da produção industrial e das vendas ao varejo saíram abaixo do esperado, o que diminuiu a perspectiva da retomada da economia global.
O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) composto e o de serviços da China, que é um bom indicador de atividade econômica, para o mês de agosto apresentou o primeiro sinal de retração em 16 meses de expansões contínuas.
Mas o que isso tem a ver com o Brasil?
Quando a atividade na China vem abaixo do esperado, o Brasil sofre impactos, pois o país asiático atualmente é o maior importador e parceiro comercial do Brasil.
Se as perspectivas chinesas estão abaixo quanto à atividade, é natural que essa sensação de negatividade se espalhe para as economias que são dependentes da China, sem contar que o país como um todo é responsável por 17% de todo o PIB global. Além disso, o aumento no número de novos casos da variante delta na Ásia e países desenvolvidos traz mais incertezas sobre a retomada na economia global.
Conclusão
O último mês de agosto foi um período em que os ativos de risco como um todo não tiveram uma performance positiva, com exceção de três deles: dólar, pós-fixados indexados ao CDI e indexados à inflação de curto prazo.
No âmbito nacional, os maiores efeitos políticos e econômicos se desdobraram no aumento da percepção de risco fiscal e elevação dos juros futuros do país. Como fator positivo, é importante lembrar que, por conta do aumento da energia elétrica (que já ocorreu neste ano) e do rígido controle monetário do BC com a última elevação da taxa Selic para 5,25% (com sinalização de mais mudanças para cima), entendemos que os níveis de juros futuros continuam em patamares bem elevados.
Na nossa visão, essa elevação da taxa de juros aconteceu também por conta do aumento do risco fiscal do país, que precisou incorporar R$ 89 bilhões de precatórios no orçamento em ano eleitoral (2022).
Os fatores globais também diminuíram o apetite de risco dos investidores, uma vez que, por conta da elevação dos números da variante delta e indicadores mistos, os sinais de uma retomada de economia mais forte aparentemente desapontaram o mercado e os investidores.
Não é segredo que a tempestade perfeita se formou no mês de agosto, por conta de fatores internacionais e nacionais, e abalou os mercados financeiros e ativos de risco como ações, fundos imobiliários e títulos públicos de longo prazo.
Diante de todos esses pontos, nossa carteira acumulou prejuízo de 2,27% em agosto. No entanto, por mais que nossa carteira tenha sofrido esse baque, assim como quase todos os ativos de risco do país, ela continua com uma taxa de dividendos anualizada em 7,34% ao ano.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto