Uma das maiores convicções entre investidores, que basicamente não sofre questionamentos relevantes, é o fato de que, para angariar maiores retornos, no curto, médio ou longo prazo, você vai precisar estar disposto ou disposta a correr maiores riscos.
O risco pode ser de mercado, ou seja, da oscilação de preços diária de um ativo, muito comum em ações e títulos públicos de longo prazo. Pode também ser um risco maior de crédito, ou seja, o risco de você não receber o seu dinheiro de volta na data de vencimento do ativo. E, por último, se não estiver claro o risco de mercado ou de crédito de um investimento, muito provavelmente sua liquidez é muito reduzida, isto é, a capacidade de você transformar esse investimento em dinheiro é muito baixa ou até inexistente.
Você invariavelmente deve se sujeitar a algum desses três pontos se optar por investir em ativos que possuem um potencial de retorno maior do que o CDI.
Basicamente, voltamos à regra: para obter retornos maiores do que o CDI – o índice de menor risco no mercado financeiro brasileiro –, você deve se dispor a correr maiores riscos em seus investimentos.
Investidores parecem ter se adaptado bem a essa ideia até o momento, mas talvez essa calmaria seja uma falsa sensação de que tudo está bem. O motivo?
Noventa por cento das pessoas que investem, seja em ações, fundos imobiliários, seja em títulos de renda fixa com risco, entraram no mercado nos últimos cinco anos.
Acontece que esta, abaixo, é a performance dos ativos de risco nos últimos cinco anos quando comparados com o CDI, representado pela última linha, em amarelo:
Fontes: Spiti e Quantum
Todos os índices de risco, sem exceção, apresentaram performance muito acima do CDI, indicando que 90% dessas pessoas que investiram criaram uma relação direta entre mais risco e mais retorno.
Porém, risco significa maiores chances de o seu retorno se afastar do índice mais conservador (CDI), e isso pode ser tanto para cima, como vem acontecendo nos últimos cinco anos, quanto para baixo.
Gui, mas essa performance negativa dos ativos de risco tende a desaparecer em uma janela de dois ou três anos?
Não necessariamente.
Vamos relembrar de um período desfavorável para o mercado brasileiro, iniciado em 2008 junto com a crise econômica global.
Nesse período, o país viu sua perspectiva de endividamento crescer, um indicativo de descontrole de gastos públicos à frente, e também uma queda na demanda global por commodities como minério de ferro, petróleo e soja, produtos que o Brasil produz e exporta para os países desenvolvidos.
Nesse cenário, os ativos de risco performaram mal, ou seja, diferentemente do ciclo dos últimos cinco anos, que significaram maior risco, logo maior retorno, o período foi marcado por “maior risco e pior retorno”, o que pode acontecer em momentos desfavoráveis para a economia de um país.
Dá uma olhada no gráfico abaixo, que representa aquele período:
Fontes: Spiti e Quantum
Quem entrou no mercado em 2007 observou nos oito anos seguintes uma dominância dos indicadores de renda fixa frente aos indicadores de renda variável, conhecidos por entregar maior risco. Ou seja, nesse período não podemos dizer que maior risco significou maior retorno.
Escrevo esta introdução para lembrar a você de que o lema maior risco, maior retorno pode ter, sim, períodos desfavoráveis, mas que, com atenção, acompanhamento, estudo e disciplina, as alocações, inclusive as de risco, tendem a entregar resultados muito positivos para você.
Mesmo em períodos desfavoráveis, é interessante que uma boa escolha das classes de ativos se faça presente para que a performance da carteira como um todo amorteça certos momentos desfavoráveis de mercado.
Como isso acontece?
Escolhendo bons ativos a preços justos e com bons fundamentos para o médio e longo prazos.
Para verificar se essas escolhas estão sendo realizadas adequadamente, vamos verificar o desempenho da nossa carteira separada por pilares: ações, fundos imobiliários e renda fixa.
Mas, antes de irmos para essa análise, vamos dar uma olhada nos pontos que estão trazendo incertezas para o mercado em 2021.
O ano de 2021
No fim de 2020, monitorávamos três grandes preocupações no cenário do país, ou seja, três pontos que poderiam prejudicar a performance da nossa carteira: pandemia da Covid-19, inflação e popularidade do governo.
Pandemia da Covid-19
No fim do ano passado, o Brasil passava por um momento mais brando em termos de restrições de mobilidade em comparação ao período mais crítico da pandemia desde então. Boa parte dos comércios e serviços haviam retornado ao funcionamento, mesmo que em horário reduzido. A média móvel do número de óbitos diários em decorrência da Covid-19 no país estava próximo de 500, metade da registrada meses antes.
Fonte: SSE Covid-19 data
Com base nos indicadores da época, nas medidas de distanciamento, nas regras diferenciadas de funcionamento dos comércios e, principalmente, com o início do processo de vacinação, a estimativa para o primeiro semestre de 2021 era positiva. Consideramos que o Brasil, por ser um dos maiores países do mundo, deveria ser uma das prioridades dos laboratórios na oferta de vacinas.
O que se viu foi um descaso com a gravidade da pandemia, que impediu avanços significativos em termos de vacinação. O Brasil iniciou o processo apenas no dia 17 de janeiro deste ano (na Inglaterra, as primeiras vacinas foram aplicadas em 8 de dezembro de 2020) e manteve um ritmo de vacinação extremamente lento e muito aquém da sua capacidade até julho, quando efetivamente passamos a observar um avanço significativo no número de doses aplicadas diariamente.
As incertezas em relação ao enfrentamento da pandemia causaram dúvidas na nossa perspectiva de atividade e de gastos públicos, pontos que, na análise feita, estariam melhores já no fim de junho.
O retorno às atividades de forma integral não ocorreu em nenhum estado do país e deve ser observado mais fortemente apenas a partir de outubro. Essa atividade mais fraca mantém um nível de desemprego elevado, perto das máximas históricas, e que ainda mostra sinais fracos de queda.
E esse nível do desemprego elevado, por sua vez, reduz a expectativa de arrecadação de impostos por parte do governo e aumenta as chances de gastos públicos cada vez maiores, seja por prorrogações constantes do auxílio emergencial, que não era previsto perdurar por tanto tampo, seja por outros programas de transferência de recursos.
Erramos ao acreditar que o Brasil sairia dessa situação antes, e essa piora afeta principalmente os títulos de renda fixa de longo prazo, devido à perspectiva de mais gastos públicos, e os fundos imobiliários, em decorrência da postergação do ritmo normal da atividade econômica, que prejudica o setor como um todo.
Inflação
Apesar de as nossas análises mostrarem que os meses de junho e julho registrariam o maior IPCA acumulado em 12 meses, ou seja, a inflação mais alta acumulada em 12 meses do período, não esperávamos que dois fatores trouxessem surpresas altistas para o índice.
A primeira delas foi uma desvalorização cambial relevante nos quatro primeiros meses do ano, que continuaram trazendo impacto altista no preço de custos de produção, medido pelo IGP-M, que acumula mais de 30% em 12 meses. Há de se considerar também o impacto do preço de grãos, que afetou diretamente o preço dos alimentos.
Além disso, outra surpresa (muito negativa, diga-se de passagem) foi o fato de que o nível dos reservatórios utilizados para a geração de energia elétrica foi prejudicado por causa de um período de chuvas muito aquém do esperado nos primeiros meses do ano, o que levou o nível dos reservatórios a registrar índices cada vez mais baixos, até atingir o menor nível histórico em questão de armazenamento de água nos últimos dias.
Tudo isso faz com que outras fontes de geração de energia precisassem ser acionadas – estas, por sua vez, são mais caras. O aumento do custo de produção da energia elétrica é repassado ao consumidor, que enxerga uma alta muito forte no preço da energia nos últimos meses e, consequentemente, na inflação.
A inflação mais alta do que o esperado afetou principalmente os títulos de renda fixa.
Popularidade do governo
A expectativa, no fim de 2020, era de início do processo de vacinação e retomada da atividade e do emprego, mesmo que incipientes. Apesar de a atividade ter mostrado uma recuperação no início do ano, estimulada em boa parte pela continuidade do auxílio emergencial, e não da renda obtida através da criação de empregos, vimos uma contínua piora na avaliação do atual governo, conforme podemos observar no gráfico abaixo, retirado da pesquisa feita pela XP-Ipespe:
Fonte: XP-Ipespe
Desde o início deste ano, com postergações contínuas do processo de vacinação e o Brasil sendo um dos países líderes (pelo lado negativo) nos números da pandemia (sempre em termos relativos, ou seja, em percentual, e nunca nominais), a avaliação do governo federal segue uma tendência de reprovação.
Hoje, o governo é reprovado por 52% dos brasileiros, enquanto apenas 25% da população (pior registro desde o início do governo) aprovam o mandato do presidente Jair Bolsonaro. E a rejeição recorde traz efeitos negativos para o país e, consequentemente, para os mercados.
O primeiro é que essa reprovação alta faz com que o governo insista em continuar com programas de transferências de recursos, que trouxeram efeito extremamente positivo para a avaliação do governo no ano passado, mesmo quando a atividade já volta a mostrar sinais robustos de recuperação. Ao mesmo tempo, tais medidas proporcionam mais incertezas fiscais, ou seja, aumento da expectativa de endividamento.
Além disso, um governo com forte desaprovação por parte da população perde apoio no Congresso, ponto muito importante para o encaminhamento de matérias necessárias para o Brasil voltar a crescer com sustentabilidade.
Como nenhum congressista quer caminhar ao lado de um governo fraco, uma desaprovação maior dificulta em muito o encaminhamento de matérias tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.
Esse último ponto afeta todos os mercados de modo geral, porém, como as propostas enviadas ao Congresso são, ao menos neste momento, voltadas à contenção dos gastos públicos, os ativos que mais sofrem são os de renda fixa.
Impacto em nossa carteira
Primeiro, vamos dar uma olhada na performance da nossa carteira desde o início, no dia 26 de outubro de 2020:
Fontes: Spiti e Quantum
Desde o início da série Renda Total, acumulamos um retorno de 5,7%, performance acima do indexador dos fundos imobiliários, o Ifix, em verde no gráfico, e acima do índice da renda fixa, o CDI, em azul no gráfico.
O único indexador de que permanecemos abaixo foi o Ibovespa.
Aqui faço uma ressalva: a rentabilidade da carteira, se você reinveste seus dividendos, é superior. Isso porque com as ferramentas atuais não consideramos os pagamentos de dividendos e juros como sendo reinvestidos nos ativos da carteira Renda Total, o que potencializaria o seu retorno.
No gráfico, o Ifix e o Ibovespa apresentam rentabilidade levando em consideração o reinvestimento dos dividendos pagos tanto por fundos imobiliários quanto pelas ações.
Performance em 2021
Fontes: Spiti e Quantum
Em 2021, a carteira acumula um rendimento negativo de 1,2%, isso sem considerar o reinvestimento dos dividendos, que fazem uma diferença relevante em períodos mais longos de tempo.
O desempenho, apesar de desfavorável, não fica muito longe do índice líder do mercado brasileiro, o Ibovespa, que acumulou 2021 até agora um retorno aproximado de 3%.
Retorno por pilares
Costumo dizer que a carteira de renda é formada por investimentos em três pilares: renda fixa, ações e fundos imobiliários.
Para avaliar as alocações em cada uma dessas caixas, vamos avaliar individualmente como anda a performance de cada um desses pilares com relação ao seu benchmark, ou seja, o índice de referência.
Pilar de Ações
Fontes: Spiti e Quantum
Pilar de Fundos Imobiliários
Fontes: Spiti e Quantum
Pilar de Renda Fixa
Fontes: Spiti e Quantum
Ao analisar individualmente cada um dos pilares, podemos observar que o responsável por “segurar” a rentabilidade da carteira Renda Total em 2021 foram os títulos de renda fixa. Nos outros pilares, ações e fundos imobiliários, seguimos superando os principais indicadores de referência, fazendo uma alocação em bons ativos, com bons fundamentos para o momento.
É o momento de reduzir a exposição em renda fixa e ir para as ações?
Não. Como sempre fazemos questão de ressaltar, uma alocação de uma carteira de renda é composta por esses três pilares com certo equilíbrio. As taxas de renda fixa subiram muito nos últimos meses e estão em patamares extremamente atrativos para alocações de médio e longo prazos, que justamente é o foco da nossa carteira de renda. Sendo assim, uma redução nesse momento não é recomendada.
Conclusão
Apesar de estamos vivendo um ano complicado para ativos de renda fixa e fundos imobiliários em 2021 até aqui, acreditamos que continuaremos a superar os índices de referência no pilar de ações e de fundos imobiliários e, obviamente, temos convicção de que no médio prazo os índices de renda fixa devam, sim, recuperar o espaço perdido frente ao CDI, como costumam fazer em janelas maiores de tempo.
Basta olharmos o desempenho desses indicadores frente ao CDI nos dois primeiros gráficos do relatório, que nos mostraram o desempenho de ativos de risco em momentos favoráveis e desfavoráveis de mercado.
Um abraço,
Gui Cadonhotto e Filipe Colus