Relatórios

Performance da carteira Renda Total em fevereiro: ligamos os pontos, mas o resultado não saiu tão bom

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Fillipe Colus, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

6 min de leitura

Recentemente, em um almoço de família, eu, Fê, minha irmã e minha namorada ficamos alguns bons minutos discutindo um tópico muito importante: qual era a atividade escolar mais legal a se fazer como tarefa de casa.

Minha irmã adorava o desenho livre, tanto que virou arquiteta; minha namorada gostava muito de desvendar charadas e adorava palavras cruzadas, e atualmente é pesquisadora pela FGV. Já eu disse que adorava a atividade de ligar os pontos, aquela cujo desenho só se formava depois que você conectava com traços os pontos em sequência.

E o relatório de hoje vai se basear justamente na minha atividade favorita. No caso, vou conectar os pontos ligados ao mercado brasileiro para que você possa entender melhor o que aconteceu ao longo do último mês de fevereiro – que começou muito bem, mas fechou em uma preocupante derrocada –, e como isso se refletiu em nossa carteira de Renda Total.

Política

Ainda que tenha apenas 28 dias, para mim o mês de fevereiro deste ano pareceu ter durado mais do que o normal. Tivemos um início promissor, com a resolução do impasse político da eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Fonte: Câmara dos Deputados

O fato proporcionou um frescor positivo para o mercado, que resultou na diminuição das taxas de juros futuros logo no começo do mês.

Seguindo a nossa lista de acontecimentos positivos, outro fator que marcou o mês foi a votação sobre a autonomia do Banco Central, que anula ou dificulta ao máximo interferência política sobre o Banco Central brasileiro. Do ponto de vista econômico, esse fator é crucial para o longo prazo, pois define os responsáveis pela política fiscal (governantes) e monetária (BC).

No entanto, os ruídos sobre a extensão do auxílio emergencial colocaram em xeque a positividade que o mercado apresentava. A existência da continuação do estímulo foi se tornando cada vez mais concreta ao longo do mês, ainda que não houvesse nada definido em relação ao furo do teto de gastos ou não.

A previsão do voto da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) emergencial na Câmara, que determina se vai haver de fato esse rompimento, deve ser realizada nesta primeira semana de março. E, claro, estamos de olho na repercussão do resultado.

Covid-19

Em fevereiro, vimos as dificuldades do Brasil em relação ao cumprimento de seu calendário de vacinação contra a Covid-19. Problemas relacionados à cadeia de suprimentos da vacina, disputas políticas, falta de diretrizes e treinamentos prévios se concretizaram numa pífia vacinação de 40 mil pessoas por dia.

Fonte: UOL

Enquanto isso, o ex-secretário da saúde do Estado de São Paulo, professor da FGV e superintendente do Hospital Sírio Libanês, Gonzalo Vecina Neto, afirmou que o Brasil tem capacidade de vacinar uma média de dois milhões de pessoas por dia. Esse número tem como base a infraestrutura atual do Sistema Único de Saúde e as campanhas de vacinação de outros anos.

Aliado a isso, a economia dá sinais de retração por conta dos resultados de vendas abaixo do esperado. Com o receio de medidas de isolamento social mais duras para tentar frear o número de infecções, a economia sentiu o peso da segunda onda da Covid-19 no mês de fevereiro.

E o número de mortos e contaminados pela doença está alcançando seus piores índices desde o início da pandemia, o que potencializa mais ainda o impacto negativo da falta de uma campanha de vacinação eficiente.

No entanto, mesmo com uma performance ruim, estamos acima da média global de vacinação, o que pode indicar que estamos indo na direção certa, com capacidade de melhorar – e muito – a taxa de vacinação:

Fonte: The New York Times

Jeitinho brasileiro

No dia 19 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a troca do mandatário da Petrobras – sai Roberto Castello Branco e entra o general Joaquim Silva e Luna.

Não é a primeira vez que uma intervenção estatal em uma grande empresa brasileira colocou em apuros o mercado – e, infelizmente, acredito que não será a última. E a alteração forçada em seu corpo executivo causou um forte impacto nas ações da companhia.

Nessa hora, muita gente pode se perguntar: o que tem a ver a Petrobras com a carteira Renda Total, se ela nem é uma empresa recomendada na série?

É que estamos falando da segunda maior empresa do país na Bolsa brasileira. Veja só as 10 maiores participações da composição do Ibovespa:

EmpresaRepresentatividade do Ibovespa (%)
VALE13,24 %
PETR8,631 %
BBDC6,005 %
ITUB5,997 %
B3SA5,176 %
MGLU3,186 %
ABEV3,014 %
WEGE2,843 %
SUZB2,619 %
GNDI2,518 %

Fonte: B3 – acessado em 01/03/2021

A Petrobras perde em representatividade no Ibovespa apenas para a Vale. De forma simples, o índice é um reflexo do mercado acionário brasileiro, e, se a segunda maior companhia tem uma queda acentuada, o índice também é abalado negativamente.

E, como eu sempre comento com o Gui, as maiores empresas da Bolsa representam o Brasil no mercado internacional. Ou seja, se a performance ou risco dessas companhias aumenta, a performance ou risco do Brasil como um todo segue a mesma toada.

O mercado acionário costuma ser um bom termômetro para analisar o risco de um país, que inclusive é medido através de uma métrica chamada EMBI+, elaborada pelo JP Morgan e que pode ser encontrada aqui.

O risco-país, como também é chamado, é basicamente um número que determina quantos pontos percentuais um país tem que pagar a mais que um título americano paga para atrair investidores. Ou seja, quanto maior o risco, maior o EMBI+ daquela nação.

Não é uma regra escrita a ferro e fogo, porém é um bom comparativo para mensurar o risco de um país. Uma análise mais detalhada da variação das quatro maiores ações brasileiras nos últimos 20 anos mostra que elas estão intimamente correlacionadas ao risco do Brasil.

Em outras palavras, se as maiores empresas da Bolsa brasileira se depreciam, o risco do Brasil aumenta. E isso fica evidente quando observamos as correlações:

ITUB4BBDC4PETR4Ibovespa
Correlação - EMBI-42%-43%-42%-54%
Correlação - Ibovespa74%76%77%-

Fonte: JP Morgan – Elaborado por Spiti

Ao analisar a tabela, vemos que o Ibovespa não é o único fator que vai determinar o valor do risco-país. No entanto, notamos a existência de uma correlação inversa e média entre o Ibovespa e o EMBI+ de -54%, um valor expressivo.

Esse valor informa que o índice da Bolsa brasileira tem uma correlação negativa com o risco do país, ou seja, historicamente, quando analisamos sua variação, quanto mais o Ibovespa aumentou, menor o risco-país do Brasil.

Além disso, vemos que as quatro maiores empresas em valor de mercado possuem uma forte correlação entre elas e o Ibovespa. Assim, uma queda no valor de mercado em uma dessas companhias fomenta uma queda no índice, que por sua vez influencia negativamente o risco.

E como esse aumento de risco-país é sentido de forma mais direta por investidores? Pelo aumento no valor de juros futuros dos títulos brasileiros, justamente o que aconteceu no fim de fevereiro:

Fonte: XP Investimentos

É importante mencionar que existem diversos fatores além dos abordados nesta análise que influenciam na causalidade do aumento do risco-país, tais como: fatores políticos, força da economia global, nível de endividamento do país, entre outros. Vemos também que o impacto das ações é um deles, mas sabemos que não é o único.

Além do aumento de juros, a intervenção no comitê executivo por parte do presidente incentivou também um forte fluxo de investidores a deixar de investir no país:

“Investidores se desfizeram da moeda e das ações do país, enquanto aumentam as taxas de juros depois de o presidente Jair Bolsonaro tomar uma atitude na tarde da sexta-feira de retirar à força o presidente da estatal Petrobras, após semanas de confrontos sobre aumento do preço de combustíveis”, diz o trecho. Fonte: Reuters

E qual o resultado dessa fuga de capital internacional? Bom, sem contar o aumento do risco percebido pelo mercado e o crescimento da taxa de juros, a fuga de investidores para outros mercados impacta também no câmbio, apreciando as moedas estrangeiras e, por consequência, depreciando ainda mais o real.

Nossa carteira

Dado o cenário um pouco afastado daquele que consideramos ideal, em fevereiro tivemos uma queda de performance no trecho final do mês, após um início promissor.

O resultado negativo foi puxado principalmente pelo aumento da taxa de juros ao longo do mês e pela queda do preço das ações na nossa carteira:

Fonte: Spiti

Mesmo com um resultado pior que o dos meses passados, nossa tese para a carteira do Renda Total permanece inalterada, pois notamos que o desempenho negativo associado ao mês de fevereiro não altera a estrutura da nossa visão para a estratégia que adotamos.

Naturalmente, por aumentarmos nossa posição em Bolsa e fundos de investimentos imobiliários, também nos expomos a mais risco. Porém, como vemos no gráfico Risco vs retorno, ainda estamos performando melhor que nossos pares de mercado.

A performance da nossa carteira de FIIs também foi negativa, e aqui os maiores vilões foram a pandemia da Covid-19 e os problemas na campanha de vacinação. A segunda onda da doença, associada às novas variantes do vírus, forçaram os shoppings que compõem o HGBS11 e MALL11 a colocar limites em relação a clientes e horário de funcionamento.

Vemos que o crescimento do setor está intimamente relacionado com o retorno do crescimento da economia. Como ainda existe um bom espaço para melhoras, a vacinação eficaz é um dos entraves a ser superado para fomentar a retomada dos shoppings e término da crise sanitária atual.

Por enquanto, os pontos que ligamos em fevereiro estão criando um cenário não tão interessante, mas há a expectativa de que nas próximas semanas o desenho fique mais agradável aos olhos – no caso, à nossa carteira.

Abraços,

Filipe Colus e Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.