Relatórios

Performance da carteira Renda Total em março + reavaliação dos preços-alvo de B3 (B3SA3) e Vale (VALE3)

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Fillipe Colus, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

6 min de leitura

Antes de entrar na graduação de Engenharia, eu, Fê, quis por todo ensino médio fazer Direito. Alguns diriam que são os extremos opostos: enquanto um trabalha a linguagem argumentativa, o outro lida com análise de dados e de projetos.

Eu sabia que qualquer uma delas me satisfaria como profissional, mas a escolha de seguir as ciências exatas fez mais sentido de acordo com meu perfil. O fato é que, durante a graduação, fiz várias matérias eletivas ligadas a cursos como Psicologia, Direito e Economia para aproveitar o melhor dos dois mundos.

Hoje, penso que no ensino médio tive a sorte de encontrar ótimas pessoas que me fizeram questionar sobre as minhas escolhas e que foram fundamentais para a minha tomada de decisão.

E, da mesma forma que contei com pessoas incríveis na minha trajetória, neste relatório, vamos contar com a ajuda da Aline Tavares, analista de Bolsa da Spiti que está à frente da série O Melhor da Bolsa. No caso, o auxílio dela será em relação a dois pontos a respeito de dois aspectos de empresas que temos em nossa carteira: Vale (VALE3) e B3 (B3SA3). São eles:

  • Reavaliação de preços-alvos;
  • Análise dos resultados das empresas no ano de 2020.

Antes, vamos avaliar o desempenho mensal (março de 2021) da nossa carteira da série Renda Total e quais motivos influenciaram para os resultados obtidos.

Análise da carteira

O principal fator que mais afetou o desempenho da nossa carteira em março foi a situação atual da pandemia no Brasil. Outro ponto bastante relevante foi o aumento da preocupação global com a inflação, que fez com que a taxa de juros longos dos Estados Unidos fosse aumentada. Veja o desempenho nos gráficos abaixo:

No gráfico acima, vemos que o retorno positivo da nossa carteira em março se deu por conta das nossas alocações em ações (+0,71%). Já os nossos FIIs (-0,9%) e títulos públicos (-0,76%) tiveram retornos negativos no mês.

A fatia em ações teve bons resultados principalmente por conta de Taesa (TAEE11) e Vale (VALE3), que divulgaram há poucos dias seus resultados do ano de 2020 e surpreenderam positivamente o mercado. Como resultado, nos últimos 30 dias as ações da transmissora de energia elétrica subiram 13,11%, enquanto as da mineradora, 6,49%.

Sobre os fundos de investimento imobiliários, a tentativa de conter o avanço do novo coronavírus com a adoção de medidas ainda mais restritivas e os números recordes de novos casos afetaram principalmente nossos FIIs de shoppings, que apresentaram uma desvalorização de 7,53% no período.

Já os títulos públicos foram impactados por dois fatores que serão detalhados a seguir.

Pandemia

O crescimento preocupante do número de casos e óbitos, a descoberta de novas cepas do vírus e o ritmo lento de vacinação levaram ao aumento do receio dos investidores com relação à capacidade da retomada da economia do Brasil.

Todos esses fatores, aliás, geraram uma tempestade perfeita. Para evitar que a rede de atendimento de saúde entre em colapso, novas medidas de isolamento (inclusive lockdown em algumas cidades) foram tomadas, o que envolve o fechamento de diversos estabelecimentos em diferentes setores, como os shopping centers.

A falta de capacidade do Brasil em priorizar ações para mitigar os efeitos da pandemia trouxe à tona uma nova rodada de ansiedade ao mercado e falta de confiança no país. E essa falta de confiança em frear o avanço da pandemia refletiu na elevação das taxas de juros ao longo do mês de março.

Não podemos deixar de mencionar aqui o risco fiscal, que também continuou a bater à porta por conta da situação econômica do país – e já adianto que não é apenas a gente que vê o cenário dessa forma:

Fonte G1 Economia

Inclusive um dos argumentos utilizados pela instituição monetária soberana do Brasil, o Banco Central, para elevação da taxa de juros básica do país em 0,75 ponto percentual, para 2,75%, foi o aumento da percepção do risco fiscal brasileiro:

Fontes: Forbes e R7

Em resumo, os participantes do mercado precisam ver sinais claros de que estamos avançando no combate à pandemia. Ou seja, enquanto não houver uma queda relevante no número de novos casos e óbitos e um aumento significante de pessoas vacinadas, o risco de haver novas rodadas de estímulos à economia – que aumentam ainda mais a nossa dívida – vai continuar a existir e pressionar nossos juros.

Taxa de juros paga pelos títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos

Fonte: MarketWatch

Com o aumento do juro longo nos Estados Unidos, os juros no restante do mundo também se elevam como consequência. Isso acontece uma vez que os juros de longo prazo dos Estados Unidos servem de base para calcular os juros de outros países.

E a medida que melhor reflete isso é o EMBI+, o qual apresentamos no relatório de duas semanas atrás. Ele representa o risco de países do mundo com relação aos Estados Unidos, e o índice elaborado pelo JP Morgan para o Brasil  pode ser encontrado aqui.

O risco-país, como também é chamado, é basicamente um número que determina quantos pontos percentuais um país tem que pagar a mais que um título norte-americano paga para atrair investidores. Ou seja, quanto maior o risco, maior o EMBI+ daquela nação.

Assim, com esse aumento dos juros nos Estados Unidos – nossa referência base –, o restante do mundo vê um aumento nos seus juros como consequência.

Revisando os preços-alvo de B3SA3 e VALE3

B3 (B3SA3)

No último dia 4 de março, a B3 soltou os resultados do quarto trimestre de 2020 e os resultados consolidados de 2020:

De forma resumida, notamos alguns fatores nos resultados que a consolidam como uma boa empresa para nossa carteira. São eles:

  • Crescimento forte e sólido da receita em praticamente todas as linhas de negócio;
  • Recorde de volume médio diário (ADTV) no mercado de ações e de futuros;
  • Entrega de mais de 80 novos produtos e serviços;
  • Nova política de tarifas para o mercado de renda variável que entrou em vigor no último mês de fevereiro.

Além disso, foi aprovada pelo Conselho de Administração a distribuição de dividendos, equivalentes ao valor de R$ 0,392 por ação.

O pagamento acima referido será realizado em 8 de abril de 2021 e tomará como base de cálculo a posição acionária de 24 de março de 2021.

Adicionalmente, a empresa também aprovou a distribuição de dividendos extraordinários, a ser realizada no dia 7 de maio de 2021, no montante de R$ 0,585 por ação. A base de cálculo será a posição acionária de 24 de março de 2021.

A demanda por ações e o número de empresas que abrem o capital devem continuar impulsionando os ADTVs (volumes médios diários de negócios), como vimos em janeiro e fevereiro deste ano, o que serve como base sólida para mantermos a nossa tese de investimentos na B3.

Com auxílio da Aline Tavares, munidos dos resultados de 2020 e das perspectivas da empresa, chegamos ao novo preço-alvo de R$ 71 para a ação da B3 (B3SA3).

Vale (VALE3)

Os resultados do quarto trimestre de 2020 de uma das maiores mineradoras do mundo foram liberados no fim de fevereiro. Resumidamente, os tópicos que mais chamaram atenção foram:

  • Preços das commodities em tendência de alta;
  • Forte geração de fluxo de caixa da empresa;
  • Diminuição da dívida líquida (mesmo com a dívida relativa ao acordo de Brumadinho/MG);
  • Cenário internacional continua beneficiando a empresa pela alta do preço das commodities e pela desvalorização cambial.

Os resultados da Vale impressionaram o mercado, que continuou confiando no seu potencial de mercado e de geração de receita. Tanto que, no último mês, abocanhou um aumento de 6,49% no valor da sua ação.

É notório que alguns fatores exógenos à empresa afetaram a geração de receita, principalmente devido à desvalorização do real frente ao dólar e ao aumento do preço da commodity de ferro nos últimos meses de 2020.

No entanto, a capacidade da Vale em surfar essa onda positiva é sem dúvida mérito da empresa, e isso pode ser notado através da diminuição da dívida líquida e aumento do fluxo de seu caixa livre.

Além disso, o Conselho de Administração da Vale aprovou o pagamento de remuneração aos seus acionistas referente ao segundo semestre de 2020.

Na forma de dividendos, será distribuído o valor de R$ 3,426 por ação; na forma de Juros sobre Capital Próprio (JCP), o valor de R$ 0,836 por ação.

A data de corte para os detentores de ações de emissão da Vale negociadas na B3 foi no dia 4 de março de 2021. Por fim, ao visitarmos os números do quarto trimestre de 2020 e atualizarmos nossas perspectivas para a empresa, o nosso preço-alvo calculado para VALE3 é de R$ 114,40. Assim, reiteramos nossa posição em manter 5% da carteira em Vale.

Conclusão

Vemos que este é um bom momento para adequar a carteira Renda Total, principalmente aquelas pessoas que não possuem os percentuais recomendados em B3, VALE3 ou nos títulos públicos. Para relembrar, seguem os nossos percentuais alocados na carteira:

Abraços,

Filipe Colus e Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.