Neste relatório, vamos analisar os principais tópicos que afetaram o cenário nacional em 2022. Ao longo do ano, o campo econômico foi impactado por uma série de fatores, incluindo aumentos nas taxas de juros, incertezas políticas e econômicas, a guerra entre Rússia e Ucrânia, o cenário desafiador de recuperação econômica após o abrandecimento dos casos de Covid-19 e o sentimento de aversão ao risco global.
Além disso, vamos comparar como esses tópicos podem ter afetado o desempenho dos principais indicadores econômicos, como o CDI, o Ibovespa (principal índice da Bolsa) e o Ifix (referência do setor de fundos imobiliários).
E para fecharmos o relatório traremos a performance anual de nossas carteiras. Dezembro foi um mês positivo para as carteiras original e alternativa, com ambas apresentando performance positiva. A carteira original teve uma performance de 1,0% e a alternativa teve uma performance de 0,9%.Ao olhar para o desempenho anual, vemos que a carteira original teve uma performance de 9,00% e a alternativa teve uma performance de 4,10%. A menor performance é em partes fruto da sua menor volatilidade, uma vez que a carteira alternativa foi a que teve uma performance mais consistente e superior ao longo de todo o ano.
Outra ponto a ser notado é a taxa de dividendos anual das duas carteiras. A carteira original teve um DY (taxa de dividendos) de 7,07% enquanto a alternativa teve um DY de 7,87%, isso mostra que a carteira alternativa também foi a que teve uma taxa de dividendos anual mais elevada e consistente dentre as duas.
Cenário nacional: a soma de uma série de acontecimentos
Como mostramos em relatório passado, a inflação continuou a ser um problema para os países mais desenvolvidos, o que levou, de acordo com o cenário de cada lugar, ao aumento ou início da elevação das taxas de juros.
No Brasil, não foi diferente, mas esse início ocorreu ainda em 2021. A taxa básica de juros da economia, a Selic, foi fortemente ajustada, saindo de 9,25% ao ano em janeiro de 2022 e terminando o ciclo em 13,75% a.a., justamente no fim do ano passado, tornando o Brasil o país com o maior retorno na operação de carry trade no mundo.
Fonte: Banco Central do Brasil
A inflação continuou a surpreender negativamente o mercado, mesmo após a redução do ritmo de aumento. Em maio, o governo aprovou o Projeto de Lei Complementar (PLP) 18 para limitar a alíquota do ICMS em 17% com o objetivo de evitar aumentos nos preços de diesel e gasolina, o que poderia afetar a arrecadação de impostos. A medida entrou em vigor apenas ao final de junho.
Porém, mesmo que apresentasse um alívio momentâneo nos preços de combustíveis a redução de arrecadação de impostos sem uma correspondente redução de gastos do governo pode levar a uma diminuição na confiança de um país. Isso ocorre porque essa situação tende a ser vista como sinal de falta de responsabilidade fiscal e gestão econômica ineficiente por parte do governo.
Quando existe uma queda na arrecadação de impostos, é esperado que o governo busque medidas para equilibrar as contas públicas, como a diminuição de gastos ou aumento de impostos.
No entanto, se o governo não toma essas medidas e mantém os gastos em níveis elevados, pode ser visto como irresponsável e pouco comprometido com a estabilidade econômica do país. Isso pode afetar negativamente a confiança dos cidadãos no governo, investidores e na política do país.
As eleições
Fonte: Shutterstock
Tivemos a escolha de governadores e presidente, mas os impactos de uma eleição podem ultrapassar as barreiras políticas e ter também um impacto significativo na credibilidade fiscal de um país. Numa corrida eleitoral, não é estranho ver o governo em exercício aumentando os gastos com o objetivo de aumento de popularidade na tentativa de se reeleger, mesmo que atenuado pela oposição.
E isso pode ser visto como falta de responsabilidade fiscal e comprometimento com a estabilidade econômica do país, o que pode afetar negativamente a confiança dos cidadãos no governo e na política, e, possivelmente, levar a uma queda na credibilidade fiscal.
Além disso, nessa eleição em especial vimos o novo governo eleito iniciando sua gestão com uma série de divulgações que discutiam sem um foco aparente que não fosse uma redução da confiabilidade fiscal e colocaram em risco a confiança no país, que pode ter um impacto ainda mais negativo na credibilidade fiscal.
Essa combinação de movimentos pode levar a uma diminuição da atração de investimentos estrangeiros e a uma desvalorização da moeda local, prejudicando o crescimento econômico e a competitividade do país no mercado global no médio e longo prazos.
Inflação
A inflação do ano de 2022 foi fortemente impactada pelo ano anterior, que foi surpreendente e impulsionada por diversos fatores, como a maior seca das últimas décadas nas bacias hidrográficas, o aumento dos preços de energia e petróleo e dos alimentos, sem contar a quebra da cadeia de suprimentos. Esses fatores contribuíram para a elevação dos preços de muitos produtos e serviços, o que levou a uma inflação mais alta do que a esperada em 2021.
Para tentar conter a inflação, o Banco Central entrou em ação e aumentou a taxa básica de juros. Essa medida tem como objetivo frear a atividade diminuindo a demanda por bens e serviços, o que pode ajudar a conter os preços. No entanto, ela também pode ter um impacto negativo na economia, pois tende a encarecer esse crédito para empresas e pessoas e afetar o crescimento econômico.
O desafio de domar a inflação que chegou em 2021 e perdurou em 2022 foi um desafio para o BC e para o governo, que precisaram encontrar maneiras de equilibrar controle do índice de preços com o crescimento econômico.
Lembremos que a escolha de medidas eficazes para conter a inflação sem prejudicar o crescimento econômico é crucial para garantir a estabilidade financeira e econômica do país.
Ontem, dia 10, foi divulgado o índice de inflação oficial do Brasil, o IPCA, referente a dezembro de 2022, e os resultados vieram acima das expectativas. O indicador subiu 0,62% em relação ao mês anterior, superando a previsão dos analistas, que esperavam uma variação de 0,46%. Além disso, também superou a do consenso, que era de 0,45%.
Apesar de a inflação ter ficado acima do esperado no último mês do ano, a tendência de desaceleração foi mantida. A inflação acumulada em 12 meses, que mede a variação do IPCA ao longo de um ano, caiu para 5,78% ao ano, em comparação com 5,9% registrado no mês anterior.
Vamos lembrar que a meta de inflação para 2022, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), foi de 3,5%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Dessa forma, a inflação pelo IPCA poderia ficar entre 2% e 5% em 2022.
Portanto, apesar da desaceleração na inflação acumulada, é importante notar que ficou acima da meta de inflação estabelecida pelo CMN para 2022. Isso significa que é importante continuar acompanhando os dados futuros para ver se essa tendência vai se manter e se o objetivo da meta será alcançado.
Dezembro movimentado para finalizar 2022
O último mês do ano foi marcado pelas escolhas de nomes para os ministérios do novo governo e pela tentativa de aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permitiria aumentar os gastos sociais.
Após a tramitação da PEC, o texto aprovado foi um pouco melhor do que o esperado, pois limitou a expansão de gastos a um ano. A economia brasileira mostrou sinais de forte desaceleração e acreditamos que cortes nas taxas de juros sejam prováveis em 2023. Nesse cenário, a curva de juros inclinou, o real ficou estável e a Bolsa fechou em queda.
Apesar de a PEC aprovada ter limitado a expansão de gastos sociais a um ano, vemos como pouco provável que haja uma redução nos gastos ao final desse período. Isso se deve ao fato de que cortar gastos sociais é uma medida impopular e pouco provável de ser implementada pelo governo. Portanto, é importante considerar que a expansão dos gastos sociais possa se estender por mais tempo do que o previsto inicialmente.
O impacto da credibilidade sobre os juros
Fonte: Shutterstock
A redução da credibilidade fiscal de um país pode ter um impacto significativo nas suas expectativas de taxa de juros. Isso se dá quando investidores e atores internacionais perdem confiança na capacidade do governo em gerir as finanças de maneira responsável. Como resultado, eles tendem a exigir uma taxa de juros mais alta para emprestar dinheiro ao país, o que pode levar a uma elevação da curva de juros e das expectativas destes.
Além disso, a redução da credibilidade pode afetar negativamente a capacidade do país em obter financiamento externo e possivelmente levar a uma pressão sobre os juros internos. Quando um país tem dificuldades em obter financiamento externo, corre o risco de ser obrigado a aumentar os juros para atrair investimentos no mercado interno e garantir a liquidez necessária para cumprir suas obrigações financeiras.
As eleições também podem trazer riscos em relação à mudança de um novo governo. Quando isso ocorre, é comum que tenhamos mudanças nas políticas econômica e fiscal do país. Isso costuma gerar incertezas quanto ao resultado e às políticas futuras e afetar a confiança dos investidores e atores internacionais na economia.
Em resumo, a elevação da curva de juros e das expectativas de juros pode ser causada pela redução da credibilidade fiscal de um país, bem como pelos riscos de mudança de governo decorrentes de eleições. Esse foi praticamente o movimento uníssono que a curva apresentou ao longo do ano.
Fonte: Broadcast | Elaborado por Spiti
Resultados nos índices
Em 2022, a cotação do dólar caiu mesmo se mostrando mais forte em relação ao real, devido à elevação de juros nos Estados Unidos e incertezas políticas e econômicas no Brasil.Em janeiro de 2022, o dólar estava cotado em R$ 5,57, e, no decorrer do ano, chegou a R$ 5,24 em junho, e se manteve estável em R$ 5,22 em dezembro.
A Bolsa também foi afetada pelo aumento da Selic e pelas incertezas políticas e econômicas. O Ibovespa apresentou um desempenho volátil, com variações mensais positivas e negativas, tendo seu pior desempenho em abril, com -10,1%, e o melhor desempenho em janeiro, com 7%. Em termos anuais, o índice retornou 4,69%, mas, comparado ao CDI, que foi de 12,37% no mesmo período, teve um desempenho menor.
Já o Ifix, o índice que mede o desempenho dos fundos imobiliários, também mostrou volatilidade, tendo seu pior desempenho em novembro, com -4,2%, e o melhor em agosto, com 5,8%. O índice no ano apresentou retorno de 2,22%, performance também menor quando comparada ao CDI.
Desempenho das carteiras original e alternativa Renda Total em dezembro de 2022
No mês, os principais destaques foram a contribuição de ações e FIIs para o retorno total.
As ações tiveram uma contribuição média de 0,5%, enquanto os FIIs apresentaram uma contribuição média de 0,4% e, em terceiro lugar, nossa fatia de renda fixa internacional, entregando 0,2%.
Por outro lado, os títulos públicos tiveram uma contribuição negativa de -0,1%. No geral, a performance da carteira original foi de 1,0%, e a alternativa, de 0,9% no mês de dezembro.
Fontes: Quantum, Broadcast, Economatica | Elaborado por Spiti
| jan/22 | fev/22 | mar/22 | abr/22 | mai/22 | jun/22 | jul/22 | ago/22 | set/22 | out/22 | nov/22 | dez/22 | 2022 | |
| CDI | 0,7% | 0,8% | 0,9% | 0,8% | 1,0% | 1,0% | 1,0% | 1,2% | 1,1% | 1,0% | 1,0% | 1,1% | 12,4% |
| Ibovespa | 7,0% | 0,9% | 6,1% | (10,1%) | 3,2% | (11,5%) | 4,7% | 6,2% | 0,5% | 5,5% | (3,1%) | (2,5%) | 4,7% |
| Ifix | (1,0%) | (1,3%) | 1,4% | 1,2% | 0,3% | (0,9%) | 0,7% | 5,8% | 0,5% | 0,0% | (4,2%) | 0,0% | 2,2% |
| RT - Alternativa | 0,6% | 0,6% | 3,3% | (0,6%) | 0,6% | (2,7%) | (0,1%) | 3,8% | 0,3% | 0,6% | (3,2%) | 0,9% | 4,1% |
| RT - Original | 0,3% | 1,5% | 4,2% | (1,1%) | 1,4% | (2,8%) | 0,3% | 5,4% | 1,0% | 1,3% | (3,5%) | 1,0% | 9,0% |
Fonte: Spiti
No mês de dezembro, as ações da carteira original apresentaram variação entre -0,02% e 0,25%, enquanto os FIIs oscilaram entre -0,13% e 0,16%. Já na carteira alternativa, as ações tiveram variação entre -0,1% e 0,3%, enquanto os FIIs oscilaram entre -0,17% e 0,2%. A seleção de FIIs e ações da carteira alternativa apresentou um aumento total de 0,87%, enquanto a original, retorno de 0,93%.
Fonte: Quantum | Elaborado por Spiti
Fonte: Quantum| Elaborado por Spiti
Entre os FIIs, os melhores ativos da carteira foram HGRU11, o PVBI11 e o KNIP11. Já no campo de ativos detratores, o CPTS11 teve um retorno negativo de -0,03%, assim como o KNRI11 e o PATL11, com retorno de -0,04% cada. E, finalizando a lista, XPML11 e RBRR11, recém adicionados na carteira alternativa, apresentaram um mês com performance negativa.
Performance dos fundos de debêntures incentivadas
Importante salientar sempre que, para obter o cálculo de rentabilidade dos nossos fundos de debêntures, utilizamos a metodologia da Anbima, a entidade que representa as instituições do mercado de capitais nacional.
Como comentamos em relatório passado, consideramos o pagamento de dividendos do quinto dia útil do mês – como os fundos recomendados IFRA11 e KDIF11 fazem. Além disso, o retorno apresentado se refere ao das cotas patrimoniais, e não das de mercado, uma vez que o exercício aqui é verificar a geração de valor para quem investe.
No mês de dezembro, assim como nossos ativos de renda variável, mesmo ajustadas pelos dividendos, as cotas de KDIF11 e IFRA11 caminharam em patamar negativo:
Taxa de dividendos
A taxa de dividendos paga mês a mês pode ser encontrada na tabela a seguir:
A partir da tabela acima, é possível observar que ambas as carteiras original e alternativa apresentaram uma taxa de dividendos similar ao longo de 2022.
A carteira original apresentou uma taxa de dividendos de 0,57% no mês de dezembro e uma taxa de dividendos anual de 7,07%. Já a carteira alternativa, 0,68% em dezembro e 7,87% anual.
Carteira alternativa
Antes de fecharmos o relatório, trazemos nesta seção o percentual recomendado da carteira alternativa, bem como o preço máximo dos FIIs que foram recomendados exclusivamente para essa carteira: PORD11 e KNCR11.
Carteira Renda Total alternativa
Agora, se você segue a carteira original e quer saber as informações relativas a ela, basta entrar na seção de recomendados da série.
Conclusão
O ano de 2022 foi marcado por uma série de fatores que afetaram o cenário econômico nacional. A elevação das taxas de juros e as incertezas políticas e econômicas foram alguns dos principais, que impactaram o mercado cambial, a Bolsa de Valores, a inflação e a economia como um todo.
A análise dos principais indicadores econômicos, como as expectativas de juros, o Ibovespa e o Ifix, mostrou que tais fatores tiveram um impacto significativo sobre eles. Além disso, também foi possível observar, a partir da performance das carteiras tradicional e alternativa, como cada uma foi afetada pelos eventos ocorridos em 2022.
No ano passado, a carteira alternativa teve uma performance positiva, mas mais modesta quando comparada à tradicional, que teve um aumento mais significativo. A carteira tradicional teve um rendimento de 9%, enquanto a alternativa obteve 4,1%.
É importante lembrar aqui que a carteira alternativa é composta por ativos considerados mais conservadores e possui percentuais específicos quanto à distribuição setorial, ao passo que a original foi composta por um percentual maior de ações e fundos imobiliários de diferentes setores.
Isso sugere que a estratégia conservadora da carteira alternativa, além de ter proporcionado uma menor volatilidade, também resultou em menor ganho em relação à tradicional, justamente por conta de sua natureza mais estável.
Além disso, a taxa de dividendos das carteiras veio sem surpresas no campo negativo. Inclusive, ela mostrou que a carteira alternativa teve ao longo do ano uma taxa de dividendos ligeiramente maior que a original, a despeito de sua menor volatilidade.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto