Panorama dos principais acontecimentos do ano e seus reflexos no Brasil
Com uma guerra em andamento e um cenário desafiador de recuperação econômica após o término de dois anos de pandemia, 2022 não tem sido um ano fácil até então para os mercados como um todo.
O sentimento que reverberou em uníssono foi o de aversão ao risco, e a inflação que, desde o começo do ano, continuou a assolar os países mais abastados, que começaram a aumentar ou iniciar o passo de elevação da taxa de juros.
E como o mercado olhou para as decisões que o Brasil tomou nesse período?
Aqui o ano foi marcado por um aumento forte e já esperado da taxa de juros básica da economia, a Selic, levando o Brasil a conquistar a posição de país com maior retorno na operação de carry trade no mundo. Para quem não sabe, essa operação consiste em pegar empréstimos em dólar e comprar títulos nos outros países.
Tradução: “Retorno real de ‘carry trade’ em % a.a. de títulos públicos comparado ao dólar norte-americano”. Fonte: Bloomberg
Segundo levantamento, o resultado de se realizar o carry trade de dezembro de 2021 até abril deste ano na moeda brasileira resultou em 24% a.a., o maior do mundo e mais que duas vezes quando comparado com o segundo lugar, o rand sul-africano.
O intuito de elevar a Selic é para conter o avanço da inflação, que continuou dando sinais de não arrefecer – a despeito de reduzir o passo do aumento, a inflação continuou surpreendendo negativamente o mercado em 2022.
Veja a seguir um gráfico que mostra a diferença em pontos percentuais entre a expectativa dos resultados versus o realizado para cada mês do IPCA:
Fonte: Bloomberg
Dentro do retângulo amarelo estão os resultados do ano de 2022. Entendendo melhor esse gráfico, todos os dados acima da linha vermelha são resultados mensais que vieram acima do que o mercado esperava, e todos os que estão abaixo dele são resultados que vieram abaixo da expectativa. Como vemos, em 2022 apenas um resultado de IPCA veio em linha com o que o mercado esperava e todos os outros vieram com surpresas inflacionárias.
E podemos notar que, além das taxas de curto prazo, com a elevação da Selic, as taxas de longo e médio prazos também se elevaram durante o ano.
Veja a seguir como as perspectivas de taxas futuras variaram no fechamento de todos os meses deste ano até agora.
Fonte: Broadcast, elaborado por Spiti
Vale lembrar que essas expectativas de taxas futuras são as utilizadas na marcação dos títulos de renda fixa e vimos que ao longo de 2022 que em todos os vértices (datas de vencimentos dos contratos) as expectativas futuras se elevaram consideravelmente.
O que está no radar daqui pra frente?
Dois pontos importantes vão pairar no radar ainda no restante do ano, e são eles: a resiliência da inflação global e como a economia vai ser retomada. Com os casos de Covid-19 e o lockdown severo na China, os dados de atividade da nossa maior parceira econômica e a segunda maior economia do mundo vieram aquém do esperado.
Os primeiros reflexos dos mais recentes lockdowns impostos na China estão aparecendo recentemente em indicadores econômicos da China. O PMI Caixin composto, um indicador que mede o quanto a economia chinesa está forte ou fraca teve a segunda pior retração do dado histórico, ficando atrás apenas de fevereiro de 2020, mês subsequente de quando a pandemia teve início.
Outros dados que corroboram que o lockdown está impactando severamente a atividade econômica chinesa são os dados de produção industrial e de vendas ao varejo, ambos de abril. A leitura de produção industrial da China caiu 2,9% frente uma expectativa de queda de 0,5%, vendas ao varejo a surpresa foi maior, queda de 11,1% contra expectativa de 6,6%.
A resposta inicial do Banco Central Chinês (PBoC) não foi exatamente em linha com o mercado que esperava uma linha de auxílio maior, o PBoC afirmou que auxiliará a economia pontualmente nos setores que sentiram mais os efeitos de retração econômica.
Menciono estes dados pois é importante lembrar que a China é a nossa maior parceira econômica e sendo um país exportador de commodities boa parte de nossa exportação está atrelada ao consumo chinês.
Sendo assim, os dados mais fracos que o esperado e o tom menos expansionista utilizado pelo banco central chinês para aquecer a economia que dá sinais de contração reduz as probabilidades de uma atividade econômica mais forte para este ano na China.
Outro fator que pairou no ar durante os primeiros meses de 2022 e vai ser pauta ainda neste ano é o início do passo do FED, banco central norte americano em elevar as taxas de juros do país. Em março tivemos a primeira elevação de 0,25% da taxa básica de juros.
Para a reunião de maio, ao longo do mês de abril investidores e analistas foram elevando as expectativas para uma alta maior, de 0,50% e em alguns momentos até de 0,75%, possibilidade refutada pelos membros mais duros (hawkish) do FED bem como o próprio presidente, Jerome Powell.
Nos Estados Unidos, também tivemos a primeira indicação do PIB do primeiro trimestre de 2022, que apresentou desaceleração em relação ao trimestre anterior. Ainda em relação ao PIB, o mercado tem viés baixista para o segundo trimestre de 2022, o que associado junto com a elevação das taxas de juros no país e a fraca atividade da segunda maior economia do mundo da sinais de alerta para a atividade global, aumentando a aversão a risco global em um cenário em que a inflação continua pressionada
E como fica o Brasil nesse cenário?
Quando somamos todos os fatores internacionais, vemos que o Brasil continuou sendo uma opção atraente para o capital estrangeiro e nossa moeda fornece indícios disso.
É difícil de traduzir a atratividade de uma economia de forma empírica e definitiva, mas uma das formas de verificar isso é a variação da taxa de câmbio, que, como já mostramos neste relatório passado, pode servir como um termômetro para aferir a resiliência ou a atratividade de uma economia.
E, nessa análise, nossa moeda continua melhor que a de outros pares, o que mostra que, mesmo com as surpresas inflacionárias e o sentimento internacional negativo, nossa economia é na margem vista com olhares positivos quando comparada com outros países.
Fonte: Broadcast, elaborado por Spiti
No ano nossa moeda, com exceção do Rublo, moeda da Rússia, foi o câmbio que mais depreciou frente ao dólar (real se apreciou frente ao dólar) quando comparado com outros países em desenvolvimento.
O dólar em suas mínimas no ano chegou a atingir R$ 4,66 no ano mas no fechamento do dia 17/5/22 estava cotado à R$ 4,94. Porém, como mostra o gráfico mesmo com essa recente alteração da taxa cambial, das mínimas R$ 4,66 para os atuais R$ 4,94 nossa moeda performa na margem melhor que a de nossos pares globais em 2022.
Retorno das carteiras do Renda Total em 2022
Ao longo de 2022, fizemos algumas mudanças na carteira da série Renda Total. Em ambas as carteiras, reduzimos nossa posição em fundos de papel e aumentamos nossas seleções em FIIs que adquirem bons ativos de tijolos com desconto. Isso é uma estratégia que adiciona potencial retorno no médio e longo prazos.
E mesmo com as alterações os FIIs foram os grandes responsáveis pelos pagamentos de dividendos da carteira, assegurando proventos mensais de forma recorrente.
Sobre nossas ações, acreditamos que nossa exposição percentual está adequada para o momento tendo em vista o atual nível de desconto dos indicadores de Preço/Lucro da Bolsa e índice de prêmio versus um título público de longo prazo, que estão acima da média histórica. Além disso, como mostraremos a seguir, nossa seleção de ações foi a estrela do ano de 2022, que carregou o retorno de ambas as carteiras.
Mesmo em um ano marcado pela elevação das taxas de juros, nossa seleção de títulos públicos conseguiu performar no agregado positivamente e assegurar parcela de juros para nossas carteiras.
Retorno acumulado
As duas carteiras Renda Total conseguiram se manter estável no ano de 2022 até aqui. O retorno acumulado das duas carteiras está positivo no ano.
Veja a seguir a rentabilidade mensal das nossas carteiras:
Fonte: Quantum, elaborado por Spiti
No ano, os ativos que surpreenderam positivamente foram as ações, que carregaram boa parte dos ganhos das duas carteiras durante o ano de 2022.
Veja a seguir a atribuição de performance no ano por estratégia:
A única parcela de nossa carteira que ficou no negativo foi a de fundos imobiliários. Porém, vale mencionar que o setor imobiliário sofreu no ano. A performance do Ifix em 2022, até a data em que escrevemos esse relatório (16 de maio), acumulou retorno negativo no valor de -1,29%, e mesmo assim nossa seleção de ativos imobiliários superou o indicador.
Quando investigamos a performance individual levando em consideração o peso de cada dos nossos FIIs, vemos que apenas 5 dos fundos selecionados performaram positivamente na janela analisada, o que explica a performance no período de -0,47% no período:
Fonte: Quantum, elaborado por Spiti
Dividendos
O dividendo mensal das carteiras, você encontra na tabela a seguir. Os valores do mês atual ainda estão em aberto, uma vez que alguns FIIs não divulgaram seus resultados.
Ambas as carteiras estão performando em linha com o nosso objetivo inicial, de gerar renda passiva sem deixar de lado o ganho de capital. Nossos ativos estão se mostrando resilientes para o momento atual, em que o receio e o sentimento e aversão ao risco toma conta dos mercados.
Quando fazemos a atribuição de performance para o pagamento de dividendos, fica claro também o papel importante da combinação de ações e de fundos imobiliários para a carteira:
Fonte: Spiti
Ao passo que as ações e os títulos públicos contribuíram majoritariamente para o ganho de capital no ano, os FIIs garantiram a renda mensal, representando 69,2% dos dividendos gerados na carteira alternativa e 45,5% na original.
Alguns destaques para os pagamentos de dividendos das ações que vale mencionar:
- A Taesa informou a distribuição de dividendos, referentes ao exercício de 2021, no montante de R$ 800,3 milhões, equivalente a R$ 2,32 por unit. Esse valor será pago no dia 31 de maio de 2022 e terá como base a posição acionária do dia 9 de maio de 2022. As ações passaram a ser negociadas ex-dividendos a partir de 10 de maio de 2022.
- O Banco do Brasil informou que vai realizar a distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP), referentes ao primeiro trimestre de 2022, no valor de R$ 0,1553 de dividendos por ação e R$ 0,5177 de JCP por ação. O pagamento será efetuado no dia 31 de maio, com base na posição acionária do dia 23 de maio de 2022, e as ações passam a ser negociadas “ex-dividendos e JCP” a partir de 24 de maio de 2022.
Conclusão
Por mais desafiador que tem sido o cenário para os ativos de risco até o momento, o ano de 2022 foi positivo para nossa carteira. Além disso, o ano reafirmou o potencial de nossa estratégia de estruturar ações, fundos imobiliários e títulos públicos numa carteira pagadora de dividendos.
Com taxas de juros tão altas, pode parecer tentador fugir para uma estratégia de juros conservadora, porém, como o relatório de hoje nos mostra, a melhor opção, como sempre afirmamos, é a de diversificar de modo a capturar as boas oportunidades do mercado.
Isso quer dizer que adicionamos risco em nossos investimentos, mas também potencial de retorno de médio e longo prazos, sem contar o pagamento de dividendos recorrentes. É importante lembrar que a parcela em que tivemos o resultado negativo é justamente a que afirmamos ser a mais volátil desde que a adicionamos na carteira: a de shoppings.
Uma carteira bem equilibrada não tem o propósito de seguir o mesmo direcionamento a todo momento. O objetivo aqui é promover e assegurar o retorno no médio e longo prazos com bons ativos selecionados em carteira que consiga ser resiliente mesmo em cenários de estresse no mercado.
Continuaremos trazendo essa análise de forma mensal com os principais resultados positivos e detratores de nossa carteira para sermos mais assertivos e transparentes com vocês.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto