Relatórios

Performance das carteiras original e alternativa da série Renda Total em junho de 2022

Escrito por Felipe Arrais, Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

7 min de leitura

Nesse fim de semana, aconteceu algo peculiar. Eu, Fê, levantei cedo, pronto para começar o dia e realizar a única tarefa da manhã, que era passar em um laboratório de exames. Para aproveitar aquele que era um dos raros dias ensolarados na cidade de São Paulo no inverno, fiz uma caminhada até o local.

Porém, fui surpreendido quando cheguei ao laboratório e me deparei com a porta fechada. Perguntei para uma pessoa que estava ali se o estabelecimento havia fechado e logo recebi a segunda surpresa: era feriado – no caso, o feriado estadual de 9 de julho – em pleno sábado. Pelo menos, a caminhada já estava paga.

Enquanto voltava para casa, encontrei uma loja de tênis e vi o modelo que estava procurando há muito tempo. Não pensei duas vezes, entrei no estabelecimento e pedi ao atendente para experimentar o calçado. Dessa vez, a surpresa foi positiva, pois era o último par disponível. Era um sinal para que eu não perdesse a chance, então comprei!

Moral da história: saí de casa para tirar sangue e voltei com um par de tênis, algo totalmente inesperado. Se me perguntassem no começo do dia como o passeio teria se encerrado, eu não teria acertado.

Da mesma forma, nenhum dos maiores gestores de fundos teria acertado no começo deste ano qual seria o assunto que traria mais temor aos mercados em junho: a de uma possível recessão global.

A trajetória do mercado neste ano tem sido muito peculiar. Começamos 2022 saindo de uma pandemia, e seis meses depois o tópico mais debatido é uma possível recessão global, assunto que não estava nas cartas dos maiores gestores de fundos analisados no começo do ano, segundo o time de fundos da Spiti.

Por isso, no relatório de hoje, além de trazer nosso acompanhamento mensal das carteiras original e alternativa da série Renda Total, vamos detalhar o tópico que foi peça central do mês de junho: o medo da recessão global.

Vamos lá?

Recessão global: de onde vem esse receio?

No começo do mês de junho, vimos o mercado internacional adicionar à sua lista de preocupações a possibilidade de uma recessão global e seus possíveis desencadeamentos, assunto que não chamava nossa atenção no começo do ano.

Durante os primeiros meses de 2022, os temores estavam centrados no fim da pandemia e seus impactos, subitamente substituído pelo receio do conflito entre Rússia e Ucrânia, e posteriormente pelos dados de inflação no mundo todo, que batiam recordes de décadas nos países desenvolvidos, sobretudo nos Estados Unidos, onde, em maio, o índice de 12 meses acumulados chegou a 8,6%, nível máximo em 40 anos e acima das expectativas dos analistas.

Como reflexo desse nível de inflação corrente, o mercado colocou mais um receio na lista do ano de 2022: uma possível recessão. Mas como isso poderia acontecer?

Explico. Para quem não sabe, cada país tem o seu banco central, e o seu papel, não importa onde esteja, é trazer estabilidade e controle para o sistema financeiro. Um de seus objetivos é o de manter a inflação em linha com o estipulado em suas metas anuais, e a instituição o faz através da política monetária, que envolve reduzir ou elevar a taxa básica de juros do país, medida que vai afetar a quantidade de dinheiro disponível no mercado e, por consequência, a inflação.

No caso dos Estados Unidos, o Fed (Federal Reserve, o banco central do país) já surpreendeu o mercado elevando seus juros em 75 pontos-base em junho, maior elevação desde 1994, para conter o avanço da inflação, e já indicou novos aumentos de mesma magnitude em recente comunicado.

Além disso, a expectativa do mercado é que o ciclo de elevação de juros termine acima de patamar neutro, ou seja, que o Fed vá desestimular a economia norte-americana. Isso significa frear a economia, retirar dinheiro em circulação o suficiente para reduzir a atividade e, por tabela, a inflação.

Isso é o que o mercado chama de recessão: frear a economia através da elevação de juros, que é o mecanismo oficial para controle de inflação.

Porém, muito tem se discutido sobre a origem da inflação nos países desenvolvidos e o quão eficazes os bancos centrais dos países desenvolvidos serão para reverter o cenário inflacionário com uma elevação de juros de forma comedida e suave, ou se deverão ter uma postura mais dura e firme, elevando suas taxas de forma mais proeminente.

Por mais que essa seja a função dos bancos centrais, a dúvida é extremamente pertinente, uma vez que a inflação global pode ser atribuída a uma combinação de dois grandes fatores que não foram pontuais: a pandemia da Covid-19, que colocou em xeque as cadeias de suprimentos e as atividades econômica e industrial dos países, bem como os seus desdobramentos futuros para a economia global, e o aumento da quantidade de dinheiro disponível no mundo por parte dos bancos centrais como resposta à crise pandêmica.

Veja a seguir como evoluiu o balanço dos maiores bancos centrais do mundo (quanto maior o balanço, entende-se que há maior disponibilidade de recursos no mercado):

SNB: Banco Nacional Suíço; BoE: Banco da Inglaterra; Fed: Federal Reserve; ECB: Banco Central Europeu; BoJ: Banco do Japão.Fonte: Reuters

Agentes do mercado entendem que essa combinação de fatores é fundamental para compreender o porquê de termos atingido os níveis atuais de inflação. Por isso é que se questiona qual o posicionamento dos bancos centrais das economias desenvolvidas e a eficiência de suas ações no combate à inflação.

Essa discussão fez parte do cenário de junho, e os reflexos disso podem ser vistos acompanhando a variação das taxas dos títulos públicos norte-americanos (Treasuries) de 10 anos do Tesouro Americano. A taxa desse ativo saiu de 2,802% no fim de maio, teve um pico de 3,5985% em 15 de junho e fechou o mês em 3,115%.

De certa forma, estamos entrando em território ainda não explorado, uma vez que estamos revertendo a política expansionista (juros baixos) dos Estados Unidos praticada desde a crise do subprime de 2007 para uma política mais restritiva, o que coloca uma série de questionamentos sobre seus impactos e cria uma dificuldade na leitura efetiva do cenário à frente e seus possíveis desdobramentos.

Como temos falado nas nossas lives sobre o assunto risco versus oportunidade, quando existe um certo nível de preocupação ou incerteza no mercado, duas coisas tendem a acontecer: o clima de aversão ao risco (pois o capital busca um porto seguro) e boas oportunidades de investimentos podem aparecer.

Mas e o Brasil (e a sua carteira) no meio disso?

Por conta do receio que a recessão traz aos mercados e o cenário de aversão ao risco, é natural que as moedas sintam os primeiros impactos. Isso fica claro quando analisamos a variação de moedas de países emergentes no ano em relação ao dólar:

Fonte: Economatica. Elaborado por Spiti

Note como, a partir do começo de junho, o dólar se apreciou contra as moedas emergentes, incluindo o real.

Além disso, outro indicador de confiança do mercado, o CDS Brasil, subiu e permanece acima da média desde 8 de junho. Esse indicador é utilizado como parâmetro de percepção de risco para o país:

Fonte: Economatica. Elaborado por Spiti

Além de estarmos fortemente ancorados em um cenário com forte aversão ao risco global, em poucas semanas entraremos oficialmente em período eleitoral. Segundo calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no dia 16 de agosto tem início o período de propaganda eleitoral e comícios. Então, juntamos à conta internacional um aumento relevante do risco decorrente do cenário interno.

Dessa forma, o cenário local potencializa a ancoragem do sentimento de aversão ao risco em um patamar de alta, como mostram o próprio CDS acima da média e os juros futuros.

Foi possível verificar também uma elevação considerável dos juros no país ao longo do mês de junho carregado pelo risco fiscal, impactado severamente pelo PEC dos Benefícios Sociais, que adicionou cerca de R$ 41 bilhões em gastos diretos para os cofres públicos.

Fonte: Bloomberg. Elaborado por Spiti

Além disso, vimos um impacto direto nas negociações feitas na Bolsa. O volume financeiro médio diário na B3 foi de R$ 27,77 bilhões em junho, queda de 25,1% na comparação com o mesmo mês de 2021; em relação a maio de 2022, volume cedeu 8,7%.

Essa retração do volume retrata o comportamento de aversão ao risco em meio às elevadas incertezas fiscais e eleitorais do país, e isso não acontece apenas com investidores locais. Ainda que no ano o saldo de ingresso de capital estrangeiro na Bolsa seja positivo, no valor de R$ 50,95 bi, considerando apenas julho, até o dia 7 deste mês, investidores estrangeiros já haviam retirado R$ 963,2 milhões da Bolsa.

A redução de negócios de junho e o fluxo de retirada teve impacto na performance da Bolsa, que no mês de junho caiu mais de 10%. Porém, isso pode ser também visto como uma oportunidade de compra, como mostram o indicador P/L (preço sobre lucro) e o prêmio pago em relação a um título de longo prazo.

Fonte: Economatica. Elaborado por Spiti

Fonte: Economatica. Elaborado por Spiti

Desempenho das carteiras original e alternativa Renda Total em junho de 2022

O mês de junho foi duro com o mercado e não foi diferente com nossas carteiras, cujo desempenho foi influenciado principalmente pelas ações e pela elevação dos juros futuros.

Nesse mês, não fizemos alterações nossas posições das carteiras, que seguem 100% alocadas. Para conferir a alocação detalhada da carteira alternativa, veja o artigo: "Como escolher entre as duas opções de carteira da série"; para a da carteira original, na aba de recomendados.

Quanto à performance das carteiras, seguimos o movimento dos benchmarks de forma mais comedida. A carteira original fechou o mês em -2,8% e a alternativa, em -2,7%.

O destaque positivo fica para nossas parcelas de proteção em dólar e de renda fixa. Já as ações, ainda que tenham fechado no negativo, performaram melhor que o Ibovespa, principal índice da Bolsa, assim como a nossa parcela de fundos imobiliários quando comparada com o Ifix, principal indicador do setor:

No gráfico a seguir, que traz as performances de cada categoria em junho, vemos o efeito positivo das nossas parcelas de proteção e de títulos públicos:

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

Os únicos destaques positivos em relação aos ativos de renda variável foram:

  • HGRU11
  • KNCR11
  • RBRR11
  • PATL11

Atribuição de performance – Carteira original

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

Atribuição de performance – Carteira alternativa

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

Taxa de dividendos

A taxa de dividendos paga mês a mês pode ser encontrada na tabela a seguir:

Conclusão

O mês de junho não foi tranquilo para os mercados brasileiro e internacional, sobretudo quando adicionamos aos ativos nacionais o risco fiscal do país. Vimos os juros subirem, a moeda se desvalorizar e a aversão ao risco global deixar investidores estrangeiros ariscos.

Nossa carteira seguiu o humor do mercado, porém de forma comedida. As fatias de fundos imobiliários e de ações performaram melhor que seus respectivos benchmarks setoriais, ainda que em patamar negativo, e o destaque positivo do mês ficou para as parcelas de proteção, que mostrou seu papel em uma carteira diversificada, e de renda fixa, que assegurou estabilidade mesmo com a elevação dos juros locais.

Ainda que apresentando viés negativo, as nossas carteiras continuaram entregando uma média interessante de dividendos mensais, com destaque para a alternativa, que entregou 0,51% no mês em proventos.

Abraços,

Fê Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.