Provavelmente você já ouviu o termo “startups”, aquelas pequenas empresas que tentam ser disruptivas em um nicho específico, precisam captar rios de dinheiro com investidores na sua fase inicial e demoram anos para dar retorno financeiro.
Alguns dos exemplos de sucesso que podemos citar são Uber, que revolucionou o mercado de transporte, Airbnb, que inovou no modelo de hospedagem, Nubank, consolidando os bancos digitais, e QuintoAndar, que desburocratiza bastante a locação de imóveis.
Mesmo já sendo empresas aparentemente consolidadas, a Uber, por exemplo, teve seu primeiro trimestre positivo este ano, depois de muitos anos de atuação pelo mundo todo. Este mês, o Airbnb revelou que está com sérias dificuldades financeiras.
Mas o interessante é que essas empresas possuem estratégias bem agressivas por tentarem explorar alguma ineficiência do mercado. Porém sua margem é menor e, por isso, demoram para dar retorno.
Além disso, são empresas super dinâmicas, que podem mudar sua estratégia ou implementar novos serviços rapidamente. No caso da Uber, também disponibilizam o envio de pacotes e, mais recentemente, iniciaram o transporte de passageiros por motos.
A lição que fica do modelo de startups é que o que importa é começar, descobrir as necessidades do mercado testando produtos constantemente, aprender com os erros e mudar o rumo do projeto de forma ágil quando for necessário.
Inclusive essa mudança de estratégia rápida ganhou até um nome no mercado de startups: pivotagem. Que nada mais é do que voltar um pouco para trás na evolução do negócio e mudar o rumo do projeto visando a uma nova característica ou funcionalidade.
Essa ideia de agilidade das startups é perfeitamente compatível com os projetos cripto, que, também podemos dizer, são startups focadas na aplicação dos ativos digitais. Basicamente é essa pivotagem que a Polkadot (DOT) está precisando fazer no momento.
Quais as principais dificuldades do projeto hoje em dia? Como pretendem resolver esses problemas com a Polkadot 2.0?
É o que vamos ver no relatório de hoje.
Revisão do ativo
Caso você seja novo na série, sugiro que leia o relatório de recomendação do ativo, para compreender os conceitos básicos necessários para o bom entendimento do conteúdo de hoje.
Fazendo uma breve revisão do projeto, a Polkadot é uma rede multichain, ou seja, a partir dela podem se originar diversas parachains, que são equivalentes à ideia de blockchain, sendo cada uma delas um projeto distinto. Por exemplo, uma parachain focada em pagamentos, outra em finanças descentralizadas (DeFi) e outra em NFTs.
Uma das principais vantagens do modelo é todo o ecossistema poder se beneficiar das características e funcionalidades dos demais projetos de forma extremamente simples, por meio da comunicação entre eles.
Acontece que os slots dos quais se originam as parachains são limitados e, por isso, os projetos interessados em se ligar à Polkadot precisam passar por um leilão inicial. O ganhador deposita os ativos na rede e obtém o direito de utilizá-la por aproximadamente dois anos, precisando ganhar novamente o leilão ao final do período para continuar nela. Caso perca o leilão, ou não queira mais fazer parte da rede, os ativos depositados inicialmente são devolvidos ao projeto.
A ideia é criar uma competição pelos slots disponíveis. Na primeira oferta ao mercado, foram oferecidos 20 slots para os projetos se ligarem à Polkadot. A expectativa era que, com um leilão concorrido, conseguiriam tirar muitos DOTs de circulação, aumentando sua escassez e, consequentemente, agregando valor ao projeto.
Mas devido a alguns atrasos no desenvolvimento, a Polkadot iniciou o processo de leilão de parachains só em 2021, praticamente no topo do mercado cripto, e isso dificultou a adoção dos projetos. Mesmo assim, os dois primeiros leilões correram muito bem, sendo acirradamente disputados pela Acala e Moonbeam.
Ganhadores dos 20 primeiros slots
Repare como, a partir do terceiro leilão, ganhado pela Astar, o valor necessário foi menos de ⅓ dos dois primeiros. A partir do sexto slot, os lances começaram a diminuir bastante, ficando bem abaixo do esperado.
O objetivo inicial era conseguir selecionar, por valor de investimento, projetos que já possuem certa capitalização e uma comunidade forte, pois também podiam colaborar com o projeto por meio de um crowdfunding e aumentar o valor do lance.
De forma geral, o mercado esperava uma queda menos significativa nos lances, pois, no final das contas, acabou não servindo como um verdadeiro filtro de projetos. Ao final de 2022, depois de todos os leilões finalizados, o projeto tirou “apenas” 10,7% dos DOT de circulação.
Agora, dois anos depois, foram necessários, em média, apenas US$ 500 mil para os primeiros projetos renovarem seus slots. Deste modo, espera-se que a diferença de aproximadamente US$ 250 milhões, equivalentes a quase 70 milhões de moedas DOT depositadas pela Acala e Moonbeam, voltem para o mercado e reforcem a correção da DOT.
Inicialmente, a Polkadot tinha foco em projetos de mais longo prazo, mas por ser um mercado extremamente dinâmico, os desenvolvedores não sabem se seus projetos vão dar certo ou não. Muitos deles não aceitavam ter seus saldos bloqueados por mais de dois anos e acabavam optando por opções mais flexíveis como Ethereum e Cosmos. Essa estratégia acabou restringindo bastante o alcance e adoção do mercado. Com todos esses obstáculos identificados, o time está precisando pivotar o projeto.
Atualizações gerais
Até então, a principal aplicação da DOT é ser utilizada para os lances dos leilões de parachains e também para o staking, pois essas estratégias tiram ativos de circulação, o que aumenta a sua escassez.
Ranking de staking por capitalização
O staking é interessante por dois motivos. Primeiro pois faz com que os investidores tirem ativos de circulação. Inclusive a Polkadot é um dos projetos que mais pagam no modelo, com um rendimento oscilando entre 14% e 16% ao ano. Porém essa estratégia gera uma inflação bastante relevante no ativo, o que pode impactar seu preço.
Segundo porque demonstra quanto os investidores estão otimistas com o projeto para o longo prazo, pois quem coloca em staking não pretende se desfazer do ativo tão cedo.
Outro dado que sempre gosto de atualizar é a atividade dos desenvolvedores, e, nesse critério, a Polkadot sempre está em destaque entre os projetos mais atualizados do mercado.
Ranking por atividade dos desenvolvedores
Nos últimos 30 dias, a Polkadot ficou em segundo lugar, perdendo somente para a Cardano. A Kusama, em terceiro lugar, é a rede de teste da Polkadot, mas compartilha do mesmo time de programadores e, por isso, ambos os projetos possuem exatamente a mesma pontuação.
Claro que um período de 30 dias não é tão confiável, pois podemos ter picos de atualização em um curto espaço de tempo. Por isso, é importante analisarmos um prazo maior, de alguns anos, e observarmos como o projeto se comportou principalmente em períodos de baixa do mercado cripto.
Histórico de desenvolvimento da Polkadot
Conforme o gráfico acima, podemos dizer que o desenvolvimento da Polkadot não foi impactado nos períodos do inverno cripto em 2018 nem em 2022, mantendo seu ritmo de crescimento praticamente constante desde a sua criação. São pouquíssimos os projetos que conseguem manter esse ritmo.
Mas, se esses dados estão extremamente positivos, por que temos uma correção no ativo?
Histórico da DOT
É fato, a Polkadot não está passando por um bom momento e desde o inicio do spiti one já desvalorizou quase 50% em reais, inclusive segue renovando a mínima do ciclo nas últimas semanas. Os motivos específicos dessa correção serão abordados detalhadamente no item a seguir.
Atualização das parachains
Conforme comentado inicialmente, uma das principais críticas à Polkadot é a adoção de poucos projetos. Podemos dizer que, hoje, apenas cinco projetos realmente colaboram com o ecossistema, pois somam 86,6% dos ativos travados na rede. São eles: Moobeam, Astar, Parallel, Acala e Hydra.
Valor bloqueado na Polkadot por projeto
Com essa distribuição já é possível termos alguma flexibilidade da Polkadot, não dependendo do sucesso de apenas um ou dois projetos. Mas claro que apenas cinco projetos principais ainda está longe de ser o ideal. Além disso, nenhum deles acabou se destacando no mercado e eles não conseguiram atrair muitos usuários para favorecer o crescimento do ecossistema como um todo.
Por causa da baixa adoção, já era de se imaginar que os leilões não seriam tão concorridos e, consequentemente, a renovação dos slots destes projetos saiu muito mais barata do que no seu lançamento, pois agora a procura é muito menor. Isso fez com que o capital investido na rede caísse drasticamente a partir do terceiro trimestre de 2022 (Q3’22).
Valor captado com os leilões de parachains
Fazendo uma comparação, no lançamento das parachains, a Acala depositou 32,52 milhões de tokens DOT, enquanto na sua renovação do slot este ano, precisou de simplesmente 170 mil DOTs, apenas 0,5% do inicial. Do mesmo jeito, a Moonbeam iniciou na rede com 35,76 milhões de DOTs e conseguiu renovar seu prazo este ano por apenas 162,8 mil DOTs. Sem contar que este ano o DOT está 90% mais barato do que em outubro de 2021.
Boa parte desses DOTs travados inicialmente na rede deve voltar a entrar em circulação em breve, a partir do dia 24 deste mês, quando fará dois anos que foram depositados na rede. Esses tokens representam cerca 8% do total de DOTs em circulação, por isso tem o potencial, sim, de impactar o preço do ativo nos próximos meses. Entretanto, isso não é motivo para se desesperar e vender, mas também não precisa ter pressa para comprar.
Deste modo, do total de 10,7% de DOTs demandados nos leilões iniciais, agora temos somente 0,2% bloqueado no último trimestre. Mesmo com essa queda na captação dos leilões, se considerarmos a cotação atual da DOT, por volta dos US$ 3,75, ainda é necessário mais de US$ 500 mil para serem travados na rede, um capital que nem todos os projetos possuem em sua etapa inicial.
Por isso, apesar da estratégia de leilões ter sido inovadora, podemos ver como o filtro causado por eles, juntamente com a retenção dos ativos por dois anos, não funcionou. Pelo contrário, acabou restringindo demais a entrada de novos projetos e prejudicou sua evolução.
Foi necessário, então, o time reformular o modelo, e a nova estratégia adotada foi chamada de Polkadot 2.0.
Polkadot 2.0
A primeira atualização, mas menos impactante, é referente ao número de slots para criação de novas parachains. Atualmente estão disponíveis apenas 20 slots, o que limita bastante o crescimento do ecossistema. Recentemente o projeto anunciou, em uma conferência em Lisboa, que pretende aumentar em breve esse número para 100 slots e tem como objetivo dar suporte para até 1.000 parachains. Quando chegar a esse nível, a rede será capaz de suportar até 1 milhão de transações por segundo.
Mas o que adianta tudo isso de slots se não houver a adoção necessária ou os projetos não tolerarem o bloqueio dos seus saldos na rede por um tempo prolongado?
Aqui, sim, entra a grande mudança da Polkadot 2.0. O time decidiu mudar as regras para novos projetos participarem da rede. Os antigos leilões serão substituídos por modelos mais flexíveis, transformando as parachains e um modelo nomeado de “core rental”.
Como o próprio nome já diz, essa atualização transformará os leilões em um aluguel de quatro semanas, que pode ser renovado ou não conforme a decisão do projeto. A novidade é que esse aluguel provavelmente será feito por meio da aquisição de um NFT, que inclusive poderá ser vendido total ou parcialmente, o que representará o tempo de uso equivalente.
Esse formato vai possibilitar que projetos façam testes na rede por um curto espaço de tempo e trará flexibilidade, pois ao vender o NFT, poderão desfazer seu investimento de forma mais ágil. A diferença é que, ao fim do período, o valor não será devolvido para o projeto como no formato de leilões. Como o NFT terá validade de quatro semanas, ele não valerá mais nada depois de expirar o prazo.
Outra novidade relevante são os chamados “Accords”, que modificam um pouco a estrutura original do projeto. Basicamente essa nova ferramenta vai possibilitar que os contratos inteligentes sejam compartilhados para todo o ecossistema da Polkadot, o que economiza tempo de desenvolvimento.
Deste modo, um contrato inteligente de DeFi poderá ser utilizado por todos os projetos do setor, trazendo liquidez para o mercado por unificar as operações. Além disso, os projetos continuam podendo se comunicar entre si independentemente do setor.
Além dessas duas principais atualização que me chamaram mais a atenção, também temos outras novidades a caminho:
- Projeto Capi: focado em acelerar o desenvolvimento de aplicativos que visam operar em várias cadeias ao mesmo tempo;
- Hermit Relay: vai permitir a transferência de funcionalidades e transmissão de dados para outras cadeias;
- Light Clients: permitirá a interação com as blockchains sem a necessidade de precisar armazenar todo a blockchain, demandando menor poder computacional, com mais usabilidade e mais acessibilidade;
- ZK Primitives: visa simplificar a criação de bibliotecas para programadores, recursos que aceleram o desenvolvimento no ecossistema;
- Sassafras Consensus: um novo algoritmo de consenso, mais seguro, de maior desempenho e melhor experiência do usuário. Minimiza a interferência do Miner Extractable Value (MEV);
- Internode Mixnet: blinda as mensagens trocadas entre os projetos e outros dados sensíveis dos usuários.
Por isso, a Polkadot ainda tem um longo caminho pela frente, precisando correr atrás do tempo perdido. Toda essa atualização ainda deve levar pelo menos um ano para acontecer.
Conclusão
O sucesso inicial das parachains certamente estava associado ao mercado em alta no final de 2021, somado a uma ideia inovadora para a época. Mas essa narrativa não se mostrou eficaz com o tempo, pois restringiu demais a sua adoção. Atualmente esse é o ponto fraco do projeto.
Isso porque a estratégia inicial também não tornava viável o teste de projetos, diminuindo demais o apetite por inovações, por ser muito caro se ligar à rede. Desse modo, a estratégia de leilões de parachains da Polkadot não foi compatível com o período de baixa do mercado cripto, no qual os projetos certamente já corriam maior risco de falhar.
Agora, a Polkadot está precisando reformular seu modelo e correr contra o relógio para conseguir implementar esse novo formato, de preferência antes da próxima temporada de alta do mercado, movimento que certamente tem potencial de alavancar seu crescimento.
Apesar de a estratégia inovadora ter falhado, não há nada de errado nisso. O importante é repararmos com que velocidade o projeto se reformulou e quanto tempo vai demorar para executar essa transição. Com o forte time de desenvolvedores e com um modelo de governança extremamente ágil, as chances são boas de conseguirem aplicar a estratégia de forma satisfatória.
Voltando à ideia do mercado de startups, a Polkadot simplesmente está precisando pivotar a estratégia, com o objetivo de aumentar a adoção.
Mesmo com a forte correção da DOT, sigo confiante e ainda vejo como uma oportunidade para o longo prazo, pois, no meu ponto de vista, este é um dos principais concorrentes da Ethereum. Seu grande diferencial é a comunicação entre as parachains, característica que ainda não foi explorada e, consequentemente, não foi precificada pelo mercado.
Forte abraço,
Thales