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Por que não temos ativos diretamente dolarizados na carteira do Renda Total + Atualizações de CVRDA6

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

7 min de leitura

Nas últimas semanas, um dos assuntos que eu, Fê, mais vi em manchetes de jornais e sites de notícias foi a queda da taxa de câmbio brasileira e o ingresso de dólares no país.

Pois bem, existem muitos fatores que vão determinar a taxa de câmbio final de uma moeda, e no relatório de hoje quero mostrar a vocês uma breve explicação deles, além de explicar por que não temos ativos diretamente vinculados à moeda norte-americana na carteira.

A dinâmica do câmbio

Quando um brasileiro ou uma brasileira vai ao exterior e adquire moeda para usar no destino final, por exemplo, dólar (no caso dos Estados Unidos) ou euro (no caso de países da União Europeia), essa aquisição é uma operação de câmbio. Da mesma forma, é considerada uma operação de câmbio quando uma empresa nacional que faz importação precisa trocar seus reais pela moeda dos parceiros comerciais para pagar os itens que adquire.

Outro exemplo de operação cambial: quando um banco nacional precisa negociar com um de outro país, ele precisa trabalhar com a moeda da empresa estrangeira ou utilizar mecanismos mais complexos, como o mercado de contratos futuros ou derivativos.

Todas essas operações muito provavelmente acontecem todos os dias do ano, e a partir delas é que se elabora a taxa de câmbio. Ela é obtida após o balanço do que entrou e do que saiu de dinheiro estrangeiro do nosso país através dos mais diversos instrumentos: câmbio, remessas internacionais ou instrumentos financeiros mais complexos.

Ou seja, no fim do dia, o principal driver que vai impactar o câmbio é a quantidade de dinheiro estrangeiro dentro do país. Então, a taxa de câmbio é uma relação entre moedas, e uma das melhores formas de visualizar o que ele representa é uma balança, tal qual trago abaixo.

Vamos pensar, para o nosso exemplo, que toda a quantia da balança (reais + dólares) está dentro do Brasil, e, de cada lado, as moedas que vamos usar para verificar a taxa de câmbio.

Fonte: Spiti
Fonte: Spiti

Sendo assim, no nosso exemplo, dentro do Brasil temos R$ 500 milhões e US$ 80 milhões. Então, quanto custa cada dólar dentro do nosso país nesse cenário? Veja comigo:

US$R$
US$ 80 milhõesR$ 500 milhões
US$ 1R$ x ?

Aplicando uma regra de três básica, obtemos:

Ou seja, nesse caso, podemos dizer que a taxa de câmbio é de R$ 6,25.

Aqui é importante dizer que esse cálculo não é tão simples, afinal, como mencionamos, existem diversas operações de câmbio que acontecem em paralelo. Esse método que ilustramos acima é apenas para mostrar o poder da entrada do capital estrangeiro que, no fim de um dia, é a maior força capaz de alterar a taxa de câmbio.

Agora vamos imaginar que haja um fluxo intenso e adicional de capital estrangeiro, como tem acontecido nos últimos três meses no Brasil. Como os investidores estrangeiros precisam comprar reais para negociar os nossos ativos aqui, sejam eles na Bolsa, títulos de renda fixa, sejam fundos de investimento, a quantidade de moeda estrangeira dentro do país aumenta.

Sendo assim, a nossa balança vai mudar. Usando o exemplo anterior, colocamos em verde o novo montante de dinheiro estrangeiro que chegou:

Fonte: Spiti
Fonte: Spiti

Agora a balança fica com uma configuração diferente, pois dentro do Brasil temos os mesmos R$ 500 milhões, mas agora temos US$ 20 milhões a mais. Nesse cenário, quanto vai custar cada dólar no Brasil? Vejamos:

US$R$
US$ 100 milhõesR$ 500 milhões
US$ 1R$ x ?

Calculando o quanto vale US$ 1 em reais, obtemos:

Reiteramos que esse exercício é uma simplificação do método utilizado pelo Banco Central, órgão responsável pela metodologia e cálculo das taxas, e escolhemos esses valores apenas para ilustrar o poder do ingresso de dinheiro estrangeiro no câmbio e seus impactos diretos.

A taxa de câmbio existe para todas as moedas. Veja como a cotação de algumas delas em países emergentes variaram nos últimos 60 dias em comparação com o dólar norte-americano:

Fontes: Broadcast e Spiti
Fontes: Broadcast e Spiti

A taxa de câmbio é influenciada por uma combinação de fatores internos e externos de um país, e isso fica claro quando observamos a oscilação que aconteceu com a moeda da Rússia, o rublo, desde o início do conflito com a Ucrânia. A variação no câmbio foi imensa, não somente por conta do contexto em que o país está inserido, mas também das diversas sanções impostas ao país.

Na contramão, a moeda que mais se beneficiou no período foi o real brasileiro, por conta da junção de fatores internos promissores, como a alta taxa de juros, e fatores externos, como a guerra no leste europeu e o aumento do preço das commodities, que fazem com que investidores estrangeiros queiram alocar aqui.

Veja que o câmbio envolve muito mais questões do que se imagina. E isso nos leva ao próximo ponto.

Ativos dolarizados que pagam renda

Pois bem, quem nos acompanha há algum tempo sabe que ativos dolarizados para uma carteira de renda possuem entraves, como o pagamento de impostos no país de origem e as taxas cobradas aqui, que tiram sua atratividade em relação ao objetivo da série Renda Total.

Porém, por conta do movimento do câmbio nos últimos meses e já antecipando possíveis questionamentos, analisamos alguns ativos dolarizados que estão disponíveis através de instrumentos como BDRs, os recibos de ativos estrangeiros negociados no Brasil, e vamos explicar por que estamos fora deles.

Para esse estudo, trouxemos a análise de dois ativos com auxílio do time de investimentos globais, liderado pelo Felipe Arrais.

Analisamos o BIVB39 e o BUSR39, que são BDRs de ETF. Explicamos:

  • Os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) são instrumentos que permitem investir em ações emitidas por empresas em outros países, mas são negociados na própria Bolsa de Valores brasileira.
  • Já um ETF (Exchange Traded Fund) é um fundo de investimento passivo que replica um índice específico, e esse ativo é negociado como uma ação.
  • E um BDR de ETF é a junção dos dois, ou seja, uma forma de investir no Brasil em ETFs estrangeiros.

Os ativos

iShares Core US Reit ETF BDR (BUSR39)

O mercado de fundos imobiliários nos Estados Unidos é em torno de 55 vezes maior do que o brasileiro em capitalização de mercado e possui volatilidade muito superior. Esses dois fatos fazem com que o investimento em Reits proporcione alta liquidez e tenha uma relação de risco vs retorno muito diferente da que encontramos no Brasil.

O BDR de ETF, BUSR39, segue o índice FTSE Nareit Equity REITS Index, um dos principais indicadores do setor imobiliário norte-americano e possui exposição a diversos setores imobiliários, sendo divididos da seguinte forma:

NomeProporção
REITs especializados24,33%
REITs residenciais18,50%
REITs de varejo13,82%
REITs industriais13,78%
REITs de saúde10,92%
REITs de escritório9,81%
REITs diversificados4,83%
REITs de hotéis e resorts3,73%
Outros ativos0,28%

Fontes: BlackRock, FTSE, Morningstar

Ou seja, com esse ativo, você expõe seu portfólio aos Reits, que são os fundos imobiliários dos Estados Unidos.

iShares Core S&P 500 ETF BDR (BIVB39)

Esse BDR de ETF tem como principal objetivo replicar a performance do S&P 500, o principal índice das Bolsas norte-americanas. Ele é composto pelas ações de 500 das maiores empresas listadas na NYSE (New York Stock Exchange) e na Nasdaq. Portanto, é um bom termômetro de como está a economia não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo em geral.

As dez empresas com maior peso no S&P 500 são todas aquelas a respeite das quais a maioria de nós já deve ter escutado falar:

  • Microsoft
  • Apple
  • Amazon
  • Facebook
  • Berkshire Hathaway (a empresa do Warren Buffett)
  • Johnson & Johnson
  • J.P. Morgan Chase (um dos maiores bancos do mundo)
  • Alphabet (nome da holding que controla o Google)
  • Exxon Mobil (empresa multinacional de petróleo e gás)
  • Visa

Ambos os ativos pagam dividendos, mas não possuem proteção cambial (o chamado hedge), ou seja, a cota vai oscilar junto com a taxa de câmbio. Vejamos agora como foram o pagamento de dividendos e a oscilação da cota de cada um dos BDRs em reais nos últimos meses:

Fontes: Quantum e Spiti
Fontes: Quantum e Spiti
Fontes: Quantum e Spiti
Fontes: Quantum e Spiti

Por estarem expostos ao câmbio, esses ativos tiveram uma desvalorização de mais de 20% em 2022. E, quando analisamos o pagamento de dividendos, o valor é discrepante quando comparado com a taxa de dividendos que a carteira Renda Total entregou no último ano, no valor de 7,85%.

Então, como a carteira Renda Total está exposta a ativos internacionais?

Na carteira Renda Total, atualmente temos uma exposição indireta a fatores como câmbio e ativos dolarizados. São as nossas ações de empresas exportadoras de commodities, como por exemplo a Vale ou a Minerva, e a debênture da Vale, a CVRDA6.

O fato de a CVRDA6 ser uma debênture participativa indica que a remuneração do papel da Vale está atrelada a algum resultado da empresa – no caso, refere-se à receita advinda da extração de minério de ferro de algumas minas nas regiões Norte e Sudeste, onde a companhia opera.

Primeiramente, temos que lembrar que, como a remuneração dessa debênture é determinada pela receita líquida da extração de minerais de algumas jazidas da Vale, o pagamento semestral é determinado pelo preço das commodities no mercado internacional (principalmente o minério de ferro) e também pela cotação do dólar, já que a negociação das commodities no mercado internacional ocorre na moeda dos Estados Unidos.

Nesse cenário, a Vale e, consequentemente, os/as debenturistas se beneficiam em duas situações de alta: do preço da commodity e do dólar.

Em tempo, uma atualização da nossa recomendação: em seu último relatório, a Vale declarou o pagamento de R$ 2,88 por debênture participativa, e o valor foi liquidado, segundo a empresa, no dia 1º de abril de 2022.

Fonte: Vale
Fonte: Vale

Vale mencionar que o ativo continua disponível na plataforma da Vitreo no valor de R$ 51,00 por debênture, e o investimento inicial mínimo é de R$ 12.750. O valor de distribuição por debênture e o atual nível de preço do ativo elevam a taxa de remuneração da debênture para 10,3% ao ano.

Conclusão

Neste relatório, explicamos nossa decisão de ficar de fora de ativos diretamente expostos ao dólar, mesmo que estes sigam grandes índices do mercado. Em resumo, os pontos negativos de se possuir esses ativos na carteira Renda Total são:

  • Taxa de dividendos individual dos ativos pouco atrativa;
  • Possibilidade de expor a carteira de forma indireta à receita em dólar através da debênture CVRDA6;
  • Aumento do nível de risco da carteira ao inserir ativos diretamente indexados ao câmbio.

Isso não quer dizer que não estejamos expostos ao câmbio, muito pelo contrário. A única diferença é a forma como fazemos isso! Hoje, preferimos manter na carteira Renda Total ativos que se beneficiam de forma indireta da oscilação cambial.

Gostamos de fazer dessa forma para conter os riscos envolvidos e poder angariar bons pagamentos de dividendos no caminho, como é o caso de CVRDA6.

Aproveitamos o momento para reiterar a nossa posição de 2,5% da carteira em CVRDA6, a debênture participativa da Vale, que atualmente está com um valor de investimento inicial menor do que na época de recomendação (R$ 12.750) e disponível apenas na plataforma da Vitreo.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.