Por aqui, mais uma (master) emoção creditícia...Mas como já investimos em 1.300 casos nos últimos 15 anos, turma está de alguma forma calejada.”
Foi assim que um dos mais bem-sucedidos gestores de crédito, Arturo Profili, sócio-fundador da Capitânia, resumiu o imbróglio envolvendo a varejista Americanas, que surpreendeu o mercado com a revelação de que havia encontrado “inconsistências contábeis” da ordem de R$ 20 bilhões no balanço.
O episódio, que já é visto como um dos maiores escândalos corporativos do mercado de capitais brasileiro, causou estragos. Desde que o “problema” se tornou público, títulos de dívida foram remarcados para incorporar o risco de calote e chegaram a ser precificados a 10% de seu valor de face – é como se uma nota de R$ 100 passasse a valer R$ 10. Já as ações da companhia acumulam queda superior a 90% na Bolsa.
Muita coisa ainda precisa ser esclarecida e muita água vai rolar, principalmente depois de a empresa ter entrado em recuperação judicial com dívidas declaradas de R$ 43 bilhões e mais de 16,3 mil credores de classes distintas.
Mas nada deve tirar o gosto amargo que o caso deixou na boca de investidores, especialmente profissionais, não só por conta da gravidade do fato em si, mas pela forma como ele foi revelado, sem detalhe algum, e por quem: um CEO de saída do cargo que assumira havia apenas nove dias.
Antes de tratar do caso, vale adiantar que os efeitos colaterais para os fundos recomendados na série se concentram nos portfólios de crédito, principalmente Augme, Capitânia, Icatu e SPX. Nos multimercados também tinham títulos de dívida da varejista nos seus livros de crédito, é o caso do SPX Nimitz, assim como o fundo long biased SPX Falcon.
Mas as perdas estão contidas, como mostraremos ao longo deste relatório, devido à baixa exposição aos papéis da Americanas e à diversificação das carteiras. Lidar com calote faz parte da vida do gestor de crédito profissional, mas são esses controles de risco que protegem o investimento quando há evento de inadimplência.
No crédito, não custa lembrar, o principal risco é o de uma empresa ou banco não pagar a dívida – não à toa, os papéis privados oferecem taxas de retorno melhores que os títulos públicos. E é por isso que defendemos o investimento nessa classe de ativo apenas por meio de fundos, geridos por especialistas, e com prazos de resgates maiores, que protegem o próprio cotista do risco de o gestor ter de vender os ativos às pressas e com descontos relevantes para lidar com eventuais ondas de saques.
Voltando ao caso da Americanas, conforme constatamos nas conversas com os gestores, era muito difícil os livros de crédito não terem exposição à empresa, uma vez que a relação entre risco e retorno dos títulos da companhia era bastante atrativa. Com vencimento em 2033, as debêntures (LAMEA7) emitidas pela companhia em julho de 2022, por exemplo, saíram com taxa de retorno equivalente a 2,75% ao ano além do CDI, hoje na casa de 13,65%.
Apesar da cautela com o setor de varejo, a alocação em crédito da Americanas fazia todo o sentido, na avaliação da SPX. Além da taxa atrativa e de ser um ativo com uma boa liquidez, ou seja, fácil de negociar no mercado secundário, a probabilidade de haver um “evento de crédito” era considerado baixo, até por conta dos acionistas de referência (o famoso trio da 3G Capital, formado por Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles), destacou Rodrigo Godinho, responsável pela área de relações com investidores da gestora.
“A gente poderia desenhar mil cenários para a Americanas, mas em nenhum deles a empresa daria um default”, disse Bruno Coelho, sócio e diretor de relações institucionais da Augme, outra gestora especialista em crédito com um longo histórico de sucesso.
Já nos fundos de renda variável da nossa seleção, o caso pouco teve impacto. Isso porque, já há algum tempo, os gestores têm preferido ficar fora das ações de empresas de varejo, devido a uma combinação ruim de fatores como inflação pressionada, juro alto, demanda mais fraca, forte dependência de crédito, margens apertadas, entre outros.
Neste relatório, detalhamos tudo o que se sabe até agora sobre o caso Americanas e apresentamos um levantamento com os fundos mais afetados da nossa seleção e a visão de alguns dos gestores recomendados.
Com os ativos da varejista já marcados a preços de empresa em recuperação judicial, não se espera grandes perdas nos fundos daqui pra frente. O grosso dos ajustes já aconteceu!
Por dentro do caso
Tudo começou na noite do dia 11 de janeiro com a divulgação de um fato relevante em que a Americanas informava que tinham sido “detectadas inconsistências em lançamentos contábeis redutores da conta fornecedores realizados em exercícios anteriores, incluindo o exercício de 2022”, em valores “da dimensão de R$ 20 bilhões” – praticamente o dobro do que a empresa valia em Bolsa antes de o problema ser trazido a público –, segundo “análise preliminar”.
Se você não entendeu, tranquilize-se, ninguém entendeu! E isso foi muito criticado no mercado. Quem é que joga uma bomba dessa com uma estimativa de valor sujeita a “confirmações e ajustes decorrentes da conclusão dos trabalhos de apuração e dos trabalhos a serem realizados pelos auditores independentes”, sem dar detalhes ou esclarecer o impacto disso para os resultados da companhia? E ainda finaliza com a informação de que a descoberta do problema havia levado à renúncia do CEO, Sérgio Rial, e do diretor de RI, André Covre, recém-empossados.
O comunicado é tão obscuro que deixou a sensação de que a inconsistência era, na verdade, uma fraude de alguns bons anos! Não à toa, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já tinha sete processos em andamento contra a varejista, entre eles um para apurar denúncia recebida da Associação Brasileira de Investidores (Abradin) e outros para analisar a conduta dos acionistas de referência. A xerife do mercado informou ainda que criou uma força-tarefa com a Polícia Federal e o Ministério Público para ajudar na investigação. Também criou um atalho em seu site para reunir denúncias sobre a empresa.
Na manhã do dia seguinte à divulgação do fato relevante, o imbróglio seguiu com uma reunião tumultuada com um grupo de analistas e investidores no auditório do BTG, um dos principais credores da companhia, com transmissão restrita pelo Zoom e milhares de pessoas tentando participar. A conferência chegou a ser transmitida pelo YouTube, mas o sinal foi cortado. Depois, o já ex-CEO, Sergio Rial, gravou um vídeo sobre o caso, disponível no site de Relações com Investidores (RI) da Americanas, que acabou deixando o mercado ainda mais ressabiado.
Que inconsistência é essa?
Os R$ 20 bilhões de inconsistência é uma estimativa do volume de lançamentos feitos no balanço da empresa de forma equivocada. Resumidamente, a Americanas financiava seus fornecedores por meio de bancos parceiros. Nesse tipo de operação, conhecida como “risco sacado”, o fornecedor recebe o dinheiro da venda de mercadoria do banco e, com isso, o comprador passa a dever à instituição financeira.
Para as varejistas que trabalham com vendas parceladas, é uma forma de ganhar prazo para quitar as compras. A contrapartida é o pagamento de juros aos bancos, o que caracterizaria a dívida como financeira, e não operacional. E é aí que está o xis da questão. Se é dívida financeira, há um entendimento de que ela não deveria ser lançada na conta de fornecedores, como a Americanas indicou que vinha fazendo.
Mas essa é uma zona cinzenta da contabilidade, uma “liberalidade de interpretação”, como definiu Rial durante a reunião com investidores, apesar de uma orientação de 2016 da CVM para que as varejistas abandonassem essa prática contábil.
Outro problema é que os R$ 20 bilhões tampouco estão na conta de fornecedores, segundo o balanço da Americanas do terceiro trimestre, o que leva a mais um questionamento: cadê essa diferença?
Uma das possíveis explicações, segundo o próprio Rial, é que os juros pagos nessas operações de risco sacado, que deveriam ter sido contabilizados como despesa financeira, foram lançados numa “conta redutora” na linha de passivos com fornecedores.
Essa prática, como escreveu em artigo Fernando Torres, editor-executivo do jornal Valor, é “algo tão inusitado e sem propósito que contadores experientes relutam em admitir essa hipótese”. Segundo destacou no texto, enquanto a classificação de uma operação de risco sacado pode, sim, ser objeto de controvérsia, se passivo operacional ou financeiro, o registro de juros pagos como uma conta redutora do passivo com fornecedores é visto como uma evidência clara de fraude contábil.
Sem contabilizar os juros pagos aos bancos como despesas financeiras, os lucros reportados nos últimos anos pela Americanas foram inflados, jogando para cima os dividendos distribuídos aos acionistas, assim como a remuneração variável dos executivos.
E aí?
Com a divulgação do problema, o mercado esperava que a companhia já apresentasse os ajustes nos balanços e demonstrativos de resultados de exercícios passados. No fato relevante, ela disse que ainda estava apurando o caso para confirmar os dados, mas que o efeito para o caixa seria “imaterial”, uma vez que tudo tinha sido pago. O impacto se daria na estrutura de capital, com redução do patrimônio líquido e aumento expressivo do endividamento da empresa.
Pelas contas da XP, com os ajustes, o índice de alavancagem financeira, que mede a relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização), saltaria de 1,7x para 8x, patamar que coloca em xeque a confiança na capacidade de pagamento de qualquer companhia.
Mais que isso, o aumento do indicador para esses níveis poderia levar ao estouro dos chamados covenants, obrigações que uma empresa se compromete a cumprir para manter as linhas de crédito em dia, assim como evitar a renegociação com credores ou até a execução antecipada das dívidas. Por isso, só uma capitalização bilionária poderia salvar a Americanas.
No comunicado, a Americanas informou que os acionistas de referência estariam dispostos a apoiar a companhia financeiramente. Desde que o rombo foi revelado, contudo, a empresa ficou no meio de uma verdadeira queda de braços entre acionistas e bancos credores, especialmente quanto ao tamanho do aporte. Segundo o que foi noticiado na imprensa, enquanto os primeiros teriam concordado em colocar entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões, os segundos defendiam uma capitalização de pelo menos R$ 10 bilhões para o negócio continuar funcionando.
Para chegar ao valor que os bancos credores queriam, o Rothschild, instituição contratada pela Americanas para intermediar as negociações, teria sugerido a eles a conversão de suas dívidas em ações, alternativa refutada veementemente.
Sem acordo, e para “evitar iminente dano irreparável” de R$ 40 bilhões por meio de eventuais cobranças dos credores, ainda na noite de 13 de janeiro, a Americanas recorreu à Justiça e obteve junto à 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro uma tutela de urgência cautelar contra o vencimento antecipado de dívidas e a possibilidade de bloqueio, sequestro ou penhora de bens da companhia, assim como o adiamento de qualquer pagamento de dívida.
Foi uma forma de a empresa antecipar os efeitos de um eventual pedido de recuperação judicial (RJ), com validade de 30 dias, para ganhar tempo enquanto buscava alternativas e negociava com seus credores. Seis dias depois, com a deterioração rápida do caixa, a companhia não viu saída a não ser formalizar o pedido de RJ, declarando uma dívida de R$ 43 bilhões. No mesmo dia, em poucas horas, a Justiça do Rio acatou o pedido.
A RJ “congela” toda cobrança de dívida por 180 dias, prazo que pode ser prorrogado. Com o pedido aprovado, a empresa ganhou 60 dias para apresentar um plano de recuperação e 150 dias para convocar uma assembleia de credores para aprová-lo.
Nos autos do processo, a Americanas criticou a atitude de alguns credores, dizendo que, “sem pensar nos impactos para a coletividade, tomaram medidas precipitadas que culminaram no perigoso esvaziamento do caixa da companhia e, consequentemente, inviabilizaram a sua operação a curto prazo e uma solução negocial coletiva sem o remédio recuperacional”, noticiou o Valor.
Na véspera da RJ, o BTG tinha conseguido uma liminar favorável ao bloqueio de R$ 1,2 bilhão de recursos da companhia, após ter seu primeiro pedido negado no fim de semana. Outros bancos também entraram na Justiça com a mesma demanda, mas sem sucesso.
O BTG é um dos que acusam a Americanas de fraude. No recurso apresentado à Justiça contra a cautelar, o banco atacou os acionistas de referência da empresa e contestou a iniciativa de suspender o pagamento de dívidas. “É o fraudador pedindo às barras da Justiça proteção ‘contra’ a sua própria fraude”, declarou o BTG.
Gestores de fundos e detentores de debêntures vêm se organizando em grupos para entrar com ação coletiva contra a Americanas.
Os nossos fundos
Assim que a Americanas divulgou o fato relevante, a primeira coisa que fizemos foi levantar os fundos recomendados em nossas carteiras que tinham exposição à empresa, tanto em títulos de dívida como ações.
Partimos do mapeamento das carteiras. Entretanto, nos deparamos com uma limitação: os últimos dados eram de setembro de 2022 – os gestores ativos têm a prerrogativa de divulgar a carteira com defasagem.
Ainda assim, usamos as informações juntamente com o desempenho das cotas nos dias que se seguiram à revelação das “inconsistências” para questionar os gestores.
Na classe de renda variável, chegamos à conclusão de que o impacto de Americanas foi praticamente nulo, porque a esmagadora maioria dos fundos não investia nas ações da varejista.
Como mencionamos no início do relatório, o maior impacto para os fundos veio das perdas com títulos de dívida, tanto debêntures no mercado local como “bonds” no exterior, e de operações vinculadas a recebíveis com risco Americanas.
Na tabela abaixo, mostramos o desempenho dia a dia pós-evento dos fundos Augme 180, Augme 45, Capitânia Radar 90, Capitânia Premium 45, SPX Seahawk, Icatu Vanguarda RF Inflação CP e Valora Guardian, na classe de renda fixa. Dentre os Multimercados, o SPX Nimitz; entre os long biased, o SPX Falcon.
Fontes: Quantum Axis e Spiti
Da lista mencionada, apenas os fundos da Augme, o SPX Seahawk e o da Icatu ficaram abaixo do CDI em 12 meses até o dia 23 de janeiro, mas com uma diferença muito pequena. Ou seja, apesar da magnitude do evento e dos dias de cota negativa, o impacto para os fundos foi bem controlado.
O que falam os gestores
A Augme foi a que mais sofreu com a confusão da Americanas dentre as nossas recomendações. Isso porque a gestora tinha a maior exposição aos papéis da varejista. Antes de o problema vir à tona, Americanas representava 3,16% da carteira do Augme 180 e 2,60% do 45.
Segundo contou Coelho, o investimento foi uma oportunidade que surgiu no segundo semestre do ano passado. Naquele momento, o objetivo era otimizar o caixa dos fundos, que tinham experimentado uma captação forte, até que as incertezas acerca das eleições e das medidas a serem tomadas pelo novo governo se dissipassem.
A gestora buscava operações que entregassem um retorno adequado e, principalmente, fossem de curto prazo. Até por conta disso, diferentemente de outros fundos de crédito da indústria, na Augme a exposição à Americanas não era via debêntures.
Na visão da casa, as debêntures mais curtas não ofereciam taxas suficientemente atrativas (pagavam CDI mais 1%). E os títulos de longo prazo, além de muito longos, tinham pouco prêmio e não apresentavam covenants financeiros – uma proteção para os credores.
O fundo, na verdade, adquiriu um CDB vinculado, emitido por um banco, no qual o risco era o de a Americanas não pagar seu fornecedor. Para a gestora, apesar do devedor final ser o mesmo, comparativamente, esse tipo de operação tinha uma melhor relação entre risco e retorno. Além da remuneração atrativa, de CDI mais 2% – o equivalente a cerca de 16% –, o prazo do título era inferior a seis meses, com vencimento no início de abril de 2023.
Na avaliação da Augme, o passivo de curtíssimo prazo e o caixa da companhia (quase R$ 9 bilhões em setembro de 2022) deram conforto para fazer a alocação no tamanho que foi feito. “O risco de crédito era muito baixo para o prazo contratado e uma fraude contábil nos moldes das reportadas pela Cia nem sequer havia sido cogitada”, destacou a gestora em carta.
E, pra deixar claro, o movimento não foi uma aposta de longo prazo na empresa. Para a equipe de gestão, inclusive, o setor de varejo não oferecia nem oferece boas perspectivas no longo prazo. As varejistas, além de sofrerem com o ambiente de juros altos, têm uma alavancagem alta, são intensivas em capital e entregam margens pequenas.
Na Capitânia, a exposição dos fundos ao crédito da varejista era de 0,93% no Premium e 0,55% no Radar. A gestora, como várias outras do mercado, tinha debêntures da Americanas (LAMEA7). Na visão da equipe, apesar de a empresa atuar num setor extremamente difícil, que é o varejo, o título oferecia um spread razoável, dado o risco de crédito da companhia (CDI mais quase 3%). Por isso, valia a pena investir no papel.
“A relação risco-retorno do papel era muito atrativa para alguém deixar passar”, ressaltou Christopher Smith, um dos gestores dos fundos da Capitânia. Segundo ele, muita gestora tinha exposição à empresa e perdeu dinheiro. “Foi um cisne negro, pegou muita gente de surpresa”, disse, em alusão ao termo usado para eventos inesperados, raros e de grandes proporções.
Na visão de Smith, ninguém esperava inconsistências contábeis na companhia de tamanha magnitude, tampouco que o problema viesse à tona da forma como foi, com um fato relevante mal escrito, sem clareza, e pelas mãos de um CEO demissionário e que estava no cargo havia apenas nove dias.
A SPX também foi pega de surpresa pelo evento Americanas. A estratégia dedicada ao crédito foi a que mais sofreu. Contudo, vale mencionar que os multimercados e o long biased da casa também foram impactados, uma vez que tinham exposição a títulos de dívida da companhia, mas em menor medida.
O investimento nos fundos foi feito tanto via debêntures no mercado local quanto em bonds no exterior. Ambos os ativos tinham taxas bastantes atrativas no momento da alocação, segundo a gestora, mas a decisão de se expor a um ou outro levou em conta o mandato de cada produto.
O Seahawk, nosso fundo de crédito recomendado, só tinha debêntures, porque não tem permissão para montar posições fora. Como já mencionamos, ele foi o fundo da casa mais afetado pelo evento, uma vez que tinha a maior exposição à Americanas: aproximadamente 2% da carteira. Já nos multimercados e no long biased, que têm mais flexibilidade para operar, a exposição era via bonds no exterior.
A marcação do prejuízo
Desde a divulgação do fato relevante, as perdas acumuladas entre 12 e 23 de janeiro nos fundos da Augme chegam a 2,76% no 180 e a 2,26% no 45. O grosso da marcação ocorreu em dois dias específicos.
Logo no dia seguinte ao anúncio das inconsistências contábeis e da renúncia do CEO (13 de janeiro), o CDB vinculado foi marcado pelo administrador dos fundos a 50% do valor de face, usando como referência o preço com que as debêntures da Americanas foram negociadas no mercado secundário.
Já a segunda queda ocorreu dia 16 de janeiro. Diante dos desdobramentos do caso, entre eles a medida cautelar que concedeu proteção à Americanas contra ação de credores pelo período de 30 dias, o administrador decidiu marcar a posição para 30% do valor original do título, em linha novamente com os negócios realizados no fim daquele dia e com os preços divulgados pela Anbima, a entidade que representa as instituições participantes do mercado.
Vale ressaltar que, por conta de todas as incertezas que cercam o caso, a Augme fechou os fundos para novas captações logo após o primeiro impacto na cota. O objetivo é evitar favorecer cotistas novos numa eventual recuperação do crédito.
Na Capitânia, a perda acumulada nos últimos oito dias até 23/1/2023 foi de 0,7% no Premium e de 1,29% no Radar. A marcação das debêntures seguiu o mesmo script: foi a 50% do valor de face no dia 13, a fim de refletir o preço das negociações que aconteceram no mercado secundário, e a 25% no dia 14, após a Americanas ter entrado com a medida cautelar.
Na visão da gestora, a decisão do administrador de marcar o ativo ao preço de 25% do valor de face, mesmo antes da confirmação da RJ, foi adequada, por refletir a expectativa de recuperação do valor do investimento nesse tipo de situações. Na sexta (20), entretanto, os títulos chegaram a ser negociados com mais desconto, a 10% do valor de face.
Na SPX, o prejuízo no Seahawk chega a 1,22%. No multimercado Nimitz, carro-chefe da gestora, as perdas foram imperceptíveis, especialmente porque a posição era irrelevante. Pra você ter uma ideia, nos dias em que houve a marcação para baixo dos papéis, as cotas do fundo se valorizaram.
Já no caso do long biased SPX Falcon, com a reprecificação dos bonds da Americanas, até houve desvalorização das cotas. No entanto, como a posição era relativamente pequena e não fazia parte do principal escopo do fundo, o impacto foi pequeno e deve, muito provavelmente, “desaparecer” ao longo dos próximos dias.
O Valora Guardian também foi afetado pelo caso Americanas. A perda, entretanto, foi muito contida: menos 0,1% em apenas um dia. Segundo a gestora, o fundo tinha uma exposição de 0,43% na varejista – única posição no setor –, por meio de um dos FIDCs da carteira, que podiam investir em debêntures. Se considerado o período acumulado de oito dias, o retorno do fundo é positivo, de 0,13%.
Já o Icatu Vanguarda, que tinha exposição de 1,43% em debêntures da Americanas, acumula perda de 1,08% entre 12 e 23 de janeiro. A queda poderia ter sido maior, mas acabou sendo minimizada por ganhos com operações de risco de mercado e outros ativos de créditos.
Os cenários na mesa
Pela magnitude do problema, ainda é muito cedo para se ter uma ideia do desfecho do caso. Tanto que, desde que o problema eclodiu, todo dia tem alguma atualização.
No entanto, a possibilidade de uma resolução menos dolorosa, com uma recuperação razoável do que foi perdido, ficou mais longe, segundo as gestoras. Após a Americanas entrar com o pedido de recuperação judicial na quinta-feira (19), o cenário se deteriorou bastante.
A pior saída – com uma recuperação pequena das perdas – parece ser a mais provável neste momento, tanto que as gestoras já se preparam para o pior. A grande dúvida diz respeito à conduta dos acionistas de referência e se o aporte de capital, tão aguardado pelo mercado, vai acontecer (e se será suficiente).
Como ouvimos em uma de nossas conversas, existe uma diferença em poder pagar e querer pagar...
Na Augme, por exemplo, o administrador e a gestora já decidiram marcar o título a zero após a entrada em recuperação judicial, numa conduta bastante conservadora.
Sabe-se que um processo de RJ leva tempo. Além disso, não há garantia alguma de que os acionistas vão colocar dinheiro para salvar a empresa. Por outro lado, ao trabalhar com perda total, tudo que a gestora conseguir recuperar será refletido na cota como um ganho para os cotistas.
A Capitânia também já se prepara para o pior cenário, tanto que o seu administrador marcou a debênture a 10% do seu valor original. Partindo dos milhares de cenários possíveis e avaliando o balanço da companhia hoje, apesar de considerar correta a precificação atual, a gestora acredita ser possível recuperar mais do que está no preço.
No cenário base da casa, em que o aporte de capital acontece e é suficiente, a estimativa é de recuperar pelo menos 25% do valor de face do título original. Mas, é claro, como ainda existem muitas dúvidas sobre o futuro da empresa e o papel dos acionistas de referência para solucionar o problema – se eles vão aportar capital ou não –, qualquer afirmação agora é meramente especulação.
Conclusão
Pelo relato que ouvimos dos gestores e apresentamos neste relatório, o evento Americanas não estava em nenhum dos cenários traçados. Ele machucou, mas nem de longe causou uma destruição do patrimônio dos cotistas.
O que evitou perdas mais relevantes foi o tamanho relativamente pequeno das posições, além da diversificação das carteiras, evidenciando a grande vantagem de investir em crédito por meio de fundos geridos por profissionais.
O caso, que já é conhecido como um dos maiores escândalos corporativos do mercado brasileiro, também deixa uma lição para os desavisados: crédito tem risco, apesar de a trajetória aparentar calmaria.
Ficamos por aqui!
Como destacamos nas palavras de Arturo Profili no início deste relatório, ao investir em fundos de crédito, temos que estar preparados para emoções creditícias.
Tudo vai bem até que, em um belo dia, pode ir tudo por água abaixo. Investidores iniciantes podem estar preparados para tolerar um solavanco em seus fundos de ações, mas muitos não esperam algum tipo de susto em seus fundos de crédito.
Imagine, então, quem investiu em um fundo de reserva de emergência que tinha grande exposição a Americanas? Um baita susto, para dizer o mínimo.
Por mais que doa no bolso uma cota negativa, eventos como esse trazem consigo ensinamentos importantes sobre como o crédito funciona.
Delegar a gestão de crédito para bons gestores nos parece uma boa ideia, pois as carteiras costumam ser altamente diversificadas de modo que, em um evento como esse, que foi um dos maiores escândalos de nosso mercado, fundos que tivessem exposição tenham sofrido de maneira moderada com perdas recuperáveis.
Além disso, prazos de resgate mais alongados dão aos gestores experientes tempo para lidar com o problema e evitar transferências de riqueza entre os cotistas que saem antes e os que ficam.
Crédito não deve ser investido para o curtíssimo prazo. Tem riscos ocultos que vez ou outra aparecem, mesmo quando tudo parece ir bem.
Do ponto de vista das ações, a visão cautelosa de nossos gestores parece ter funcionado, uma vez que o setor de varejo já era apontado como um setor “perigoso” em um cenário de inflação e juros altos. Mais um ponto para a gestão ativa de qualidade.
Continuaremos monitorando os próximos capítulos dessa novela para manter todos vocês informados, mas, por agora, acreditamos que tudo esteja sob controle e, novamente, as perdas são recuperáveis.
Se tiver alguma dúvida ou sugestão, é só enviar e-mail para spitione@invistaspiti.com.br
Um grande abraço,
Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier e Vinícius Kenjiro