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Quando o Brasil aperta, o dólar amortece.

Escrito por Felipe Arrais em INTERNACIONAL

10 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • O retrato do que mudou em 2026: do recorde de abril à correção atual, com o dólar fazendo o caminho inverso.

  • A evidência de que a proteção é estrutural, e não sorte: a correlação entre dólar e Ibovespa foi negativa em 96% do tempo desde 1999.

  • O comportamento de cada lado da carteira em onze episódios de tensão, incluindo os dois em que a fatia internacional atrapalhou.

  • A simulação que mostra o que acontece com retorno, volatilidade e Sharpe conforme se adiciona dólar a uma carteira brasileira.

  • Por que esperar o dólar cair para aportar não funcionou, com o teste de 22 anos de história.

Em 14 de abril deste ano o Ibovespa fechou aos 198.657 pontos, o maior nível de sua história. Menos de um mês depois, em 8 de maio, o dólar tocou R$ 4,89, o mais barato em dois anos. O Brasil era a bola da vez, o capital estrangeiro entrava, e o noticiário falava em reprecificação estrutural.

Em 12 de agosto o Ibovespa estava em 167.491 pontos, cerca de 16% abaixo daquele topo, e o dólar voltou para a casa dos R$ 5,20. O que mudou nas empresas brasileiras nesses quatro meses? Praticamente nada. O que mudou foi o preço que o mercado exige para carregar risco brasileiro, com a eleição de outubro se aproximando e a discussão fiscal sem desfecho.

Antes de seguir, um ajuste de expectativa que consideramos importante. Apesar da sensação ruim, o Ibovespa ainda acumula alta de quase 5,0% em 2026 (até o fechamento do dia 19/08), e o dólar ainda está quase 6% mais barato do que no fim de 2025. Portanto, não estamos falando de um ano desastroso para a bolsa nem de um ano de dólar caro. Estamos diante de uma correção de quatro meses depois de um topo histórico. O gráfico abaixo apresenta a trajetória do Ibovespa no ano até o dia 12/08 e apresenta o dólar em eixo invertido.

Gráfico 1. Ibovespa e dólar entre 02/01/2026 e 12/08/2026. A escala do dólar está invertida: quando a linha laranja sobe, o dólar está mais barato. Fonte: Bloomberg. Elaboração Finclass.

O gráfico já entrega o argumento central deste relatório. As duas parecem caminhar juntas. Levando em conta que o eixo do dólar está invertido, entendemos que, em média, quando um dos índices está caindo, ou outro tende a subir. E esse é um dos principais motivos pelos quais a fatia internacional dolarizada existe na nossa carteira recomendada.

1.    Entenda o que você está comprando: o ativo lá fora e a moeda são coisas diferentes

Sei que para muitos de nossos assinantes essa questão já está muito bem compreendida, no entanto, a Finclass é um organismo vivo e chegam novas pessoas até nossa comunidade todos os dias. Vale a pena relembrar a dinâmica de preços que acontece em ativos cotados em outras moedas.

Quando um assinante brasileiro compra um ativo internacional, ele compra duas coisas ao mesmo tempo, e elas se comportam de maneira independente. A primeira é o ativo em si, uma cesta de ações globais ou de títulos de renda fixa (bonds), Reits, etc., que sobe e desce conforme o mercado lá fora. A segunda é a moeda, que sobe e desce conforme o risco percebido do Brasil.

O Joesley Day é a demonstração mais limpa que encontramos nos dados. Em 18 de maio de 2017, num único pregão, o Ibovespa caiu 8,8% e o IMA-B 5+, que reúne os títulos públicos indexados à inflação de prazo mais longo, caiu 9,7%. No mesmo dia, o dólar subiu 7,4%. Neste mesmo dia, uma carteira internacional formada por ações, renda fixa e um pouco de ouro, quando observada em moeda local (como um estrangeiro avaliaria o retorno) teria caído 0,3%. A queda foi apenas uma coincidência, afinal os ativos estrangeiros nada seriam afetados por um fenômeno exclusivamente brasileiro como o Joesley Day, mas o ponto importante é que a mesma carteira, avaliada em reais, ou seja, levando em conta a alta do dólar, teria subido 7%.

1.1 O ativo lá fora não fez nada para suavizar a queda. A moeda fez tudo. Essa é a essência da proteção, e é importante que fique clara, porque ela também explica os limites dela.

O gráfico abaixo mostra que na maior parte das vezes, quando as coisas pioram aqui no Brasil, é o dólar que costuma fazer o elemento de defesa. Podemos notar que quase sempre a barrinha laranja (retorno em reais) é maior do que a barrinha cinza (retorno em dólares, como um estrangeiro enxergaria o investimento).

Gráfico 2. A mesma carteira internacional medida nas duas moedas, nos onze episódios analisados entre 2002 e 2026. Fonte: Bloomberg e ANBIMA. Elaboração Finclass.

2.    Isso é sorte ou é estrutural?

Se um episódio isolado pode não ser suficiente para provar nada, medimos a correlação móvel de 252 dias úteis, ou seja, aproximadamente um ano de pregões, entre a variação do dólar e a dos principais ativos de risco brasileiros. O Ibovespa entra desde 1999, o IMA-B 5+, desde 2004, e o IFIX, desde 2012, conforme a disponibilidade de cada série.

O resultado é consistente. A correlação entre o dólar e o Ibovespa foi negativa em 96% do período desde 1999, com média de -0,49 e leitura atual de -0,61. Com o IMA-B 5+, a correlação foi negativa em 97% do tempo. Não é um fenômeno de momento, é uma característica do mercado brasileiro.

Gráfico 3. Correlação móvel de 252 dias úteis entre a variação diária do dólar e a dos ativos brasileiros. Ibovespa desde 15/01/1999, IMA-B 5+ desde 17/09/2004 e IFIX desde 05/01/2012, todos até 12/08/2026. Fonte: Bloomberg e ANBIMA. Elaboração Finclass.

Podemos entender, portanto, que o dólar apresenta correlação negativa com ativos de risco no Brasil. E, vale ressaltar que a correlação é uma medida de direção, e não de intensidade. Se dois ativos sempre caem ou sobem juntos, podem ter correlação de 1 mesmo que andem em intensidades diferentes.

2.1 O comportamento nos dias difíceis

Há outra forma de olhar o mesmo fenômeno, talvez mais intuitiva. No gráfico a seguir separamos todos os pregões desde 1999 e destacamos aqueles em que o Ibovespa apresentou uma queda mais intensa, de cerca de 2%. Isso porque quedas pequenas em renda variável são comuns e nem sempre fruto de um fator de risco mais generalizado que seja capaz de espantar o mercado e expulsar capital de nosso país.

Podemos notar que a maior parte das bolinhas laranja se encontra no quadrante superior à esquerda, que significa alta do dólar.

Gráfico 4. Cada ponto é um pregão entre 15/01/1999 e 12/08/2026. Em laranja, os dias em que o Ibovespa caiu mais de 2%. Fonte: Bloomberg. Elaboração Finclass.

Desde a adoção do câmbio flutuante, em janeiro de 1999, o Ibovespa teve 599 pregões com queda superior a 2%. Nesses dias, o dólar subiu em 87% das vezes, com alta média de 1,12%.

3.    O que a história mostra, inclusive quando não nos favorece

Reunimos onze episódios de tensão dos últimos vinte e quatro anos. Alguns têm origem doméstica, outros vieram de fora. Em todos, medimos o comportamento do mercado acionário brasileiro, representado pelo Ibovespa, e o da carteira internacional, tanto em dólar quanto em reais.

A carteira internacional usada aqui é a versão educacional que adotamos para este estudo e que já explicamos anteriormente: 15% em ouro e os 85% restantes divididos entre ações globais e renda fixa global, na proporção de 60 para 40. Todos medidos por índices de mercado, e não por veículos específicos, justamente para permitir uma janela histórica longa.

 

Gráfico 5. Retorno acumulado na janela de cada episódio, entre abril de 2002 e agosto de 2026. Em destaque na tabela, os dois casos em que a fatia internacional atrapalhou. Fonte: Bloomberg e ANBIMA. Elaboração Finclass.

3.1 As três lições do gráfico

Primeira: em choques domésticos, a proteção é grande. Na recessão e crise fiscal entre 2014 e 2016, o Ibovespa perdeu 39% enquanto a carteira internacional em reais ganhou 69%. Repare que, em dólar, essa mesma carteira perdeu 6% no período. Todo o ganho veio da moeda. Quando o problema é específico do Brasil, investidores apostam em alternativas fora daqui para “fugir do problema”, e nesse sentido o dólar tende a se apreciar fortemente.

Segunda: em choques globais, a proteção é parcial. Quando o vetor causador da crise é um choque global importante, os ativos internacionais tendem a sofrer também, de forma que o elemento de defesa para os brasileiros seja apenas o dólar. Na crise de 2008 a carteira internacional caiu 30% em dólar, e ainda assim entregou apenas 4% de perda ao investidor brasileiro, contra 60% de queda do Ibovespa. Na Covid, o mesmo padrão: 18% de perda em dólar viraram 1% de ganho em reais, com o Ibovespa perdendo 47%. É amortecimento, não é imunidade. Quem esperar que a fatia internacional suba toda vez que a bolsa brasileira cair vai se decepcionar em algum momento.

Terceira: existem períodos em que ela atrapalha. Da mesma maneira que podemos ter choques de origem doméstica, podemos ter motores de crescimento. Em 2022, o Ibovespa subiu 6% enquanto a carteira internacional perdeu 17% em reais, castigada pelo forte aumento de juros nos EUA, movimento que o Brasil já havia antecipado um ano antes, fazendo com que tivéssemos sofrido menos que o mundo em 2022. Já em 2018, um ano de risco eleitoral agudo, o desfecho foi real forte e bolsa em alta, e a fatia internacional ficou para trás. Diversificação significa, por definição, que sempre haverá uma parte da carteira indo pior que a outra. Se todas as peças subissem juntas ou caíssem juntas, significaria que não há diversificação verdadeira.

4.    O erro mais caro: esperar o momento “certo” de comprar dólar

Chegamos ao ponto que mais motivou este relatório. Toda vez que o dólar sobe, recebemos a mesma mensagem na comunidade: vou parar de aportar na fatia internacional e espero o câmbio melhorar para voltar a comprar.

Ou até mesmo em casos de dólar em queda, em que investidores ficam esperando cair ainda mais para, aí, sim, começar os investimentos.

É claro que sempre é mais vantajoso comprarmos algo pelo menor preço possível, agora, será que ficar tentando especular com o câmbio vai ajudar ou atrapalhar o seu retorno de longo prazo?

O problema dessa abordagem mais tática é que ela trata o dólar como se fosse o ativo, quando ele é apenas a porta de entrada. E, principalmente, ela pressupõe que o patamar atual do câmbio diz algo sobre o retorno futuro.

Para testar isso, separamos todos os meses desde o fim de 2004 em dois grupos: aqueles em que o dólar estava acima da própria média dos doze meses anteriores, o que qualquer investidor chamaria de dólar caro, e aqueles em que estava abaixo, o dólar barato. Em seguida medimos quanto a carteira internacional rendeu, em reais, nos anos seguintes a cada um desses momentos.

Gráfico 8. Retorno anualizado mediano da carteira internacional em reais, conforme o patamar do dólar no momento da compra. Observações mensais entre 31/12/2004 e 12/08/2026. Fonte: Bloomberg e ANBIMA. Elaboração Finclass.

O resultado é o oposto da intuição. Quem comprou com o dólar acima da média de doze meses obteve retorno mediano de 14,4% ao ano nos doze meses seguintes, contra 7,2% de quem comprou com o dólar barato. Em janelas de três e cinco anos a vantagem diminui, mas continua do mesmo lado.

Uma ressalva estatística antes de seguir: as janelas medidas se sobrepõem, porque cada mês inicia uma nova observação de doze meses. Testando apenas janelas independentes, sobram 21 observações, e a diferença fica ainda maior, 19,3% contra 7,8%. A direção se confirma, mas com amostra pequena.

Não estamos dizendo que dólar caro é bom momento de compra, e seria irresponsável transformar isso em regra. A explicação mais provável é que o dólar sobe justamente quando o risco brasileiro aumenta, e esses são os momentos em que ter parte do patrimônio fora do país mais vale a pena. O que os dados dizem com clareza é que o patamar do câmbio não serviu como sinal de compra.

4.1 E se você tivesse acertado todas as vezes?

Fizemos o teste definitivo. Simulamos três investidores aportando R$ 1.000 por mês na fatia internacional, desde janeiro de 2004 até hoje, totalizando R$ 271.000 investidos.

·        O primeiro aportou todo mês, sem olhar o câmbio.

·        O segundo só aportou quando o dólar estava abaixo da média de doze meses, deixando o dinheiro no CDI enquanto esperava.

·        O terceiro é um personagem impossível: ele tem previsão perfeita e concentra os doze aportes de cada ano no mês em que o dólar fechar mais barato. Ou, seja, um único aporte por ano no final do melhor mês de cotação do dólar.

Gráfico 9. Evolução do patrimônio dos três investidores entre janeiro de 2004 e julho de 2026, 271 meses completos. As três linhas praticamente se sobrepõem. Fonte: Bloomberg e ANBIMA. Elaboração Finclass.

Quem aportou todo mês, sem pensar no câmbio, terminou com R$ 1.540.236. Quem esperou o dólar ficar barato terminou com R$ 1.539.108, ou seja, praticamente o mesmo valor, depois de vinte e dois anos monitorando o câmbio. E o investidor com previsão perfeita, que acertou o fundo do dólar em cada um dos vinte e dois anos, terminou com R$ 1.633.466, cerca de 6% a mais.

Vale reler esse número. Vinte e dois anos de acerto absoluto, sem errar uma única vez, valeram 6%. É esse o tamanho do prêmio que o assinante persegue quando adia o aporte. E ele o persegue com risco de errar, enquanto o custo de ficar de fora do ativo é imediato e certo.

Apenas a título de curiosidade, também fizemos o exercício considerando que o investidor “vidente” faz um aporte por mês sempre no dia de dólar mais barato naquele mês, ao invés de um aporte concentrado por ano, e a diferença seria ainda menor, um valor acumulado de R$ 1.569.102, ou 1,9% a mais do que comprar sempre sem se preocupar.

Toda vez que o movimento do câmbio te afligir e te gerar uma reação de querer especular em relação ao preço do câmbio, se lembre desde gráfico e pense se realmente vale a pena a preocupação.

Ficamos por aqui...

Momentos como o atual são desconfortáveis, e não adianta fingir o contrário. Ver a bolsa devolver quatro meses de alta, o juro longo pressionado e o noticiário eleitoral dominando as manchetes gera vontade de fazer alguma coisa. Normalmente, a melhor coisa a fazer é seguir o plano.

A fatia internacional da nossa carteira não está ali para render mais que a bolsa brasileira em todo ano. Ela está ali porque o investidor brasileiro tem praticamente tudo concentrado em um único país, uma única moeda e um único ciclo político. Quando esse país aperta, é bom ter alguma coisa que não dependa dele.

Os dados deste relatório mostram que esse arranjo funcionou de maneira consistente ao longo de mais de duas décadas, com proteção grande em choques domésticos, proteção parcial em choques globais e, sim, alguns períodos em que ficou para trás. Nada disso é novidade para quem entende o que é diversificação.

E se você parou de aportar esperando o dólar melhorar, esperamos ter mostrado, com número, e não com opinião, que essa espera tem custado mais do que parece. Nossa recomendação segue em 20% da carteira alocados no exterior, e continuamos entendendo que a melhor decisão é aportar dentro dos percentuais sugeridos, com regularidade, independentemente de onde o câmbio ou os preços dos ativos internacionais estejam no dia.

Seguiremos acompanhando de perto o desenrolar do ano eleitoral e da discussão fiscal, e traremos atualizações sempre que houver algo relevante para a sua carteira.

Compareça às nossas lives semanais todas às sextas-feiras, ao meio-dia, para discutir conosco suas dúvidas. Use e abuse da comunidade no Circle; nós analistas sempre estamos de olho no que rola por lá.

Um grande abraço,

Felipe Arrais

Ativos aprovados:

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Analista de Investimentos

Felipe Arrais é analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e investimentos globais. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Hoje, é sócio do Grupo Primo.