Ovo mexido, pão integral, café preto e mamão: esse é o meu café da manhã padrão todos os dias, do qual nunca abro mão.
Apesar disso, esse é um hábito que adquiri já adulto. Quando criança, meu prato favorito para o desjejum era a miga espanhola.
E a pessoa sempre disposta a preparar era a minha avó, Dona Maria, na época com seus 80 e poucos anos de sangue fervoroso espanhol correndo nas veias e um amor incondicional pelos netos – claro que o amor maior era por este que vos fala, que morava junto com ela.
A miga é um prato simples que, segundo minha avó, seus pais faziam em tempo de poucos recursos financeiros em casa, pois leva apenas fubá, azeite, sal e alho no preparo. Apesar de serem os mesmos ingredientes do preparo de uma polenta, a diferença está na quantidade de cada um e o modo de cozinhar.
Dona Maria ficava cerca de 30 minutos acompanhando de perto o preparo do prato. Isso porque, apesar de simples, exigia um acompanhamento constante e quase sempre um ajuste: um pouco mais de fubá, sal ou água se algo desandasse no meio do caminho.
Anos depois, trouxe para a carteira da série Renda Total o mesmo cuidado que minha avó tinha na elaboração do meu prato favorito, e eu vou te mostrar o porquê. A partir disso, vou mostrar que alguns ajustes serão necessários para obter mais sabor na nossa carteira.
Mão na massa!
As semelhanças entre a miga e a carteira de Renda Total
Parece até bobo fazer tal comparação, mas ela se encaixa perfeitamente no que queremos passar para você hoje.
A carteira Renda Total leva basicamente quatro “ingredientes” (assim como a miga): caixa (Tesouro Selic), fundos imobiliários, ações e títulos de renda fixa com juros constantes.
Além disso, tal qual a Dona Maria fazia, é importantíssimo que acompanhemos a evolução desses ingredientes no preparo do todo – no caso, da carteira integral – para ver se vamos precisar ajustar a quantidade de algum deles até que tudo saia como queremos.
Sendo assim, para fazer esse balanceamento, precisamos inicialmente verificar o desempenho da carteira para entender o andamento do nosso “prato” ao longo de 2021:
Fonte: Spiti
O ano até aqui tem se mostrado extremamente desafiador para a carteira da série. Apesar do desempenho positivo a partir de março, o retorno foi apenas suficiente para cobrir a desvalorização apresentada nos dois primeiros meses do ano.
Antes de tomar qualquer decisão precipitada e dizer que a carteira no geral está mal-formulada, vamos avaliar o desempenho com um pouco mais de profundidade, a fim de entender quais foram os ativos responsáveis pela valorização positiva e aqueles detratores da performance até aqui.
No gráfico abaixo, conseguimos detalhar quais grupos (ou ingredientes) foram os responsáveis pelo acúmulo do retorno em 2021 até o fim de maio:
Fonte: Spiti
Considerando apenas a valorização dos ativos, ou seja, sem levar em conta os dividendos recebidos em sua carteira, podemos notar que a classe de ações foi a responsável pelo impacto positivo. Ela supera até mesmo o desempenho positivo do Ibovespa no ano. Se a carteira de ações estivesse alocada no Ibovespa, o desempenho da classe de ações acumularia no ano um retorno de 1,80%.
No gráfico abaixo, você pode verificar o desempenho trazido por cada um dos ativos:
Fonte: Spiti
Destaque para as nossas recomendações mais antigas, Vale (VALE3) e Taesa (TAEE11), e, completando o pódio, a última recomendação de ação feita na série, Banco do Brasil (BBAS3).
A classe de fundos imobiliários, responsáveis pela queda de 1% na nossa carteira em 2021, segue em linha com o desempenho do principal índice de FIIs do Brasil, o Ifix, que acumula uma queda de quase 2% no ano.
A fatia com piores resultados da carteira até então é a de títulos públicos, com um desempenho negativo de quase 1,80% para a nossa carteira, enquanto o principal benchmark da renda fixa, o CDI, acumula uma alta de 0,96%.
Desempenho desde o início da carteira
Se pararmos a análise agora, podemos concluir que a classe de renda fixa é a principal vilã da nossa carteira. Mas vamos olhar o desempenho acumulado até aqui em um horizonte mais longo de tempo:
Fonte: Spiti
Em uma visão mais ampla, podemos perceber que o desempenho favorável da carteira advém em grande parte do desempenho das ações boas pagadoras de dividendos, em linha com a performance positiva da Bolsa desde o início da série, em outubro de 2020.
Mesmo os fundos imobiliários e os ativos de renda fixa, em uma amostragem mais abrangente, estão trazendo retorno positivo para a carteira, que acumula alta de mais de 7% desde o início.
Com essas informações, a pergunta que fazemos é: vale a pena manter o percentual atual de fundos imobiliários e títulos de renda fixa, mesmo que eles venham apresentando performance inferior às ações? Ou seja, é válido ajustar a nossa receita agora?
Para responder a essa pergunta, devemos olhar para a perspectiva futura dos ativos, e não para o desempenho passado.
Fundos imobiliários
Como já falamos em oportunidades anteriores, os fundos imobiliários apresentam uma performance correlacionada com o Ibovespa em outros períodos, mas, neste momento de recuperação (últimos três meses), o Ifix tem ficado para trás do principal índice de ações no Brasil. Acreditamos que esse desempenho positivo virá com um pouco de defasagem, explicada pela baixa taxa de dividend yield dos FIIs até então.
Esse dividend yield deve se recuperar de maneira sustentável com um avanço significativo da parcela da população vacinada no país, o que permitirá que comércios, shoppings, prédios comerciais, faculdades e escolas voltem a abrir normalmente e retomem parte de suas receitas, e, consequentemente, paguem dividendos para os seus cotistas.
Além disso, o prêmio pago pelos fundos imobiliários é comparado aos rendimentos pagos pelos ativos de prazo mais longo indexados à inflação no Brasil, ou seja, os títulos IPCA+ (NTN-Bs).
Se observarmos o histórico das taxas pagas pelos fundos imobiliários com relação à taxa dos títulos públicos indexados à inflação, veremos que, mesmo com a recente queda da diferença, o prêmio pago pelos FIIs em relação aos títulos públicos ainda é elevado, o que nos dá um conforto ainda maior na hora de investir nessa classe de ativos.
Fonte: Relatório Gerencial BCFF11
Títulos públicos
Os títulos públicos disponíveis que pagam juros semestrais para investidores comuns são aqueles presentes na plataforma do Tesouro Direto, ou seja, os ativos de longo prazo.
Os títulos de longo prazo apresentam uma relação forte com nossa perspectiva fiscal. Quando ela vai bem, as finanças do país apresentam uma melhora, e esses ativos tendem a apresentar uma valorização relevante; já quando esse cenário piora, eles tendem a se desvalorizar.
Do início deste ano até agora, a perspectiva fiscal brasileira apresentou uma piora relevante, a expectativa dos gastos para o ano segue aumentando e no próximo ano teremos eleição presidencial.
Vale lembrar que ano de eleição não é um período conhecido por ser tranquilo para os ativos de risco. Afinal, diversas incertezas rondam a cabeça dos investidores: quem será o ministro da Economia? Quem será o presidente do Banco Central? Qual será a política econômica defendida por um possível novo governo? E por aí vai.
Com um nível elevado de incerteza, investidores fogem de ativos de risco, daí vem a sua desvalorização.
Com a eleição presidencial de 2022 entrando cada vez mais nos assuntos do dia a dia dos investidores, acredito que dificilmente veremos alguma coisa acontecer nos próximos 12 meses que de fato cause impactos nos investimentos. Exemplos?
A primeira coisa seria uma contenção de gastos por parte do governo, que seguraria as rédeas do nosso fiscal; a segunda, uma projeção mais clara e definida da eleição desde já; e a terceira, enxergar alguma candidatura de peso que defenda desde já o controle de gastos.
Dado esse cenário, até o fim de 2022 o potencial de ganhos para os ativos IPCA+ de longo prazo fica mais limitado, e a surpresa positiva pode vir de uma aceleração inesperada da atividade, algo que aconteceu no primeiro trimestre de 2021, mas que não acreditamos que tenha continuidade nos próximos períodos.
Dito isso, o percentual recomendado em ativos IPCA+ de prazo mais longo pode começar a ser reduzido nas próximas semanas, em detrimento de outro ingrediente que achamos que vai dar mais sabor e equilíbrio à nossa carteira.
Conclusão
Depois de toda essa análise, você deve estar se perguntando: qual ingrediente vamos adicionar à nossa receita da carteira Renda Total? E qual vamos cortar?
Com um prêmio histórico alto com relação aos ativos indexados à inflação e um desempenho pífio em 2021, mesmo com o Ibovespa batendo recordes históricos, acreditamos que haja espaço para reduzir nossa exposição em ativos indexados à inflação de longo prazo em nossa carteira e ir em parte para fundos imobiliários.
Isso significa que zeraremos a exposição em ativos IPCA+ de longo prazo?
Não. Apenas que rebalancearemos a nossa receita. Afinal, assim como é essencial ter todos os ingredientes para fazer uma boa miga espanhola, vamos necessitar de todas as classes de ativos presentes na nossa carteira.
Essas alterações deverão ocorrer nas próximas semanas, em movimentos pequenos, sem mudanças bruscas no percentual total da carteira. Queremos obter o melhor resultado possível, da mesma forma que a Dona Maria, com um ajuste aqui, outro ali, sempre conseguia a miga perfeita.
Abraços,
Gui Cadonhotto e Filipe Colus