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Recomendação de adição de dólar: um seguro para a carteira Renda Total

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

9 min de leitura

Apólice de seguro é o tipo de aquisição que fazemos pensando em nunca ter que usar, seja de carro, de saúde, seja de imóvel. Ele serve como uma proteção para o caso de uma eventual surpresa ruim, e é acionado para atuar de forma a contornar as consequências desse evento.

Eu, Fê, nunca sofri um acidente de carro, mas pago o seguro do veículo dos meus pais sem pensar duas vezes, não porque eu espero sofrer um, mas, se acontecer algo, quero estar resguardado.

Mas, não vou mentir, quando comecei a dirigir, eu não pagava seguro do carro, uma vez que o utilizava apenas vez ou outra para dar uma volta no quarteirão ou no máximo ir ao supermercado. Porém, com o passar do tempo, fui tomando mais responsabilidades com o veículo, usando-o corriqueiramente quando visito minha família.

Portanto, ao passo que minha percepção de risco foi aumentando, senti a necessidade de ter esse respaldo. Hoje eu ainda preciso do seguro, mas, como cada vez menos tenho visitado minha família, já penso em deixar de lado essa proteção.

O gráfico a seguir resume a minha história utilizando o carro da família e adquirindo o seguro. Hoje estou no ponto verde: ainda pago seguro, mas estou prestes a não renová-lo, pois não vejo mais necessidade.

E por que esse assunto está sendo abordado aqui?

Pois vamos adicionar pela primeira vez na série Renda Total, em ambas carteiras, original e alternativa, uma parcela de proteção, já que entendemos que a nossa carteira pode se beneficiar de um ativo descorrelacionado com os demais.

“Mas, Fê, o que você quer dizer com isso?”

De forma sucinta, por mais diversificada que seja nossa carteira, os nossos ativos vão variar igualmente em um certo nível em alguns momentos.

O índice que nos mostra o quanto um ativo vai variar em relação a outro é chamado de correlação, e, para deixar o conceito mais claro, trazemos um exemplo prático, que mostra como as ações dos maiores bancos da Bolsa brasileira oscilaram desde a abertura de seu capital:

Fonte: Quantum. Elaborado por Spiti

Veja que eles oscilaram de forma muito parecida, certo? Isso acontece, pois são ativos com características semelhantes (mesmo setor, por exemplo) e expostos a riscos similares, ou seja, correlacionados.

A correlação é algo que pode ser calculado ao se comparar ativos, em um índice que pode ir de 1 (perfeitamente positiva) até -1 (perfeitamente negativa). O resultado mostra o quanto correlacionadas são as suas oscilações diárias.

No caso citado, os dados estão dispostos na tabela a seguir:

Fonte: Comdinheiro

Como nosso exemplo mostra, os ativos têm uma correlação muito próxima de 1, ou seja, vão variar diariamente de forma muito parecida, como observamos graficamente.

Assim, pensando em otimizar a nossa relação entre risco e retorno, vamos utilizar a estratégia de adicionar dólar na nossa carteira, que é naturalmente descorrelacionado dos ativos brasileiros que compõem toda nossa carteira.

Como o dólar vai nos ajudar?

As notícias internacionais continuam afetando o mercado e ditando a aversão ao risco, principalmente para os países em desenvolvimento. Porém, estamos entrando em um período crítico pré-eleitoral, e cada vez mais o risco eleitoral será captado por esse radar. Nossa carteira é praticamente toda formada por ativos nacionais, o que de certa forma concentra nossos riscos.

O período de eleições presidenciais, época em que estamos prestes a entrar, ocorre a cada quatro anos e pode trazer oscilação para os mercados locais. E aqui não estamos fazendo nenhum juízo de valor perante nenhum tipo de resultado ou chapa política.

Para angariar votos e ganhar a eleição, candidatos à presidência precisam ser populares perante a população, e para conseguirem isso eles podem optar por prometer fazer mais que o governo atual. Normalmente, isso se traduz na promessa de novos projetos, novos investimentos, novos gastos. Já o atual governante pode começar atuar com uma política fiscal mais frouxa, liberando gastos que outrora seriam barrados como estratégia para aumentar sua popularidade.

De forma objetiva, isso significa mais gastos para o atual governo e possíveis novos gastos futuros com as promessas dos candidatos. Por consequência, isso pode estressar as contas públicas e a diligência fiscal do país, colocando em risco a frágil confiança que mercado tem no arcabouço fiscal do país. Isso pode refletir tanto em uma elevação das taxas de juros de longo prazo como também em uma elevação das perspectivas de inflação de curto prazo, e é desse cenário de deterioração fiscal que o dólar vai nos proteger, caso ele venha se concretizar.

Atualmente, ambas as carteiras da série Renda Total possuem ativos com risco de mercado e queremos descorrelacioná-los, e o dólar é uma ótima opção para fazer isso.

Quando analisamos historicamente uma carteira diversificada de geração de renda (tal qual a nossa) em épocas pré-eleitorais, vimos que existe o efeito benéfico do risco quando adicionamos dólar. Com esse movimento, queremos otimizar nossa relação risco vs retorno.

Aqui, é importante frisar que recomendamos a compra de dólar como um mecanismo de proteção para a nossa carteira, e não porque achamos que é um momento de entrada na moeda. Estamos utilizando a sua descorrelação com nossos ativos para reduzir potenciais riscos e a volatilidade total da carteira, com base em possíveis riscos das eleições. Sendo assim, ele atuará como um seguro. E, assim como um seguro, não vamos comprar pensando em usá-lo, mas apenas para nos proteger!

Para ilustrar isso, veja a seguir uma tabela de correlação entre os índices que representam nossos ativos:

Fonte: Comdinheiro

Como podemos observar, os indicadores possuem correlação positiva entre si, sendo a maior aquela entre ativos prefixados e indexados à inflação (0,86), e a menor a relação entre o Ifix, índice dos fundos imobiliários, e os ativos indexados à inflação (0,33).

E, mesmo que não seja uma relação perfeitamente linear (-1), a correlação do dólar com os índices brasileiros é negativa, o que mostra que existe uma correlação inversamente proporcional entre eles. Ou seja, se os ativos brasileiros caem, o dólar tende a subir, e vice-versa. Por isso que a moeda dos Estados Unidos atua como proteção para nossa carteira.

Hoje, a volatilidade da carteira da série está em 9,40% ao ano, enquanto a da carteira alternativa é de 7,06% a.a. A título de comparação, a volatilidade histórica do Ibovespa é de 25% a.a., a do Ifix, de 8,41% a.a., e a da taxa de câmbio, de 14,5% a.a.

Parece contraintuitivo adicionar risco na nossa carteira para diminuir a volatilidade. Mas, quando analisamos um portfólio similar em épocas eleitorais, vemos que tal movimento é benéfico. Resta entender qual é o percentual ideal para o momento.

Sobre o percentual escolhido

Para estudarmos qual o percentual ideal em nossa carteira, fizemos uma análise histórica dos mesmos indicadores e, com base no gráfico a seguir, entendemos que não é necessária uma exposição muito grande à moeda norte-americana para obter essa proteção com a descorrelação dos ativos:

 Retorno (% a.a)ReduçãoVolatilidade (% a.a) Redução
0% de dólar            8,7%-            9,9% -
7,5% de dólar            8,7%-0,25%            9,4%-4,95%

Fonte: Spiti

Ao adicionar 7,5% de dólar na carteira, tivemos uma redução de 4,95% da volatilidade (0,5% de redução nominal), ao passo que houve uma queda de 0,25% do retorno anual (0,02% de redução nominal).

Como nossa carteira está bem diversificada (temos 31 ativos atualmente), consideramos 7,5% uma exposição grande para uma única fatia.

Com isso em mente, fizemos um estudo mais profundo e segmentado dos períodos eleitorais no país para identificar a exposição ideal e otimizar a carteira, tendo como base a chamada Teoria de Markowitz, mas adicionando o dólar nos períodos das eleições presidenciais de 2014 e 2018 em um portfólio semelhante.

A Teoria de Markowitz, também conhecida como teoria moderna de portfólio, é um modelo de cálculo de risco que leva em conta a correlação dos ativos em uma carteira. A teoria foi criada por Harry Markowitz e recebeu, em 1990, o prêmio Nobel de Economia. O ponto central da teoria se baseia em três fatores:

  • Diversificação dos ativos, que tem como um de seus objetivos reduzir o risco da carteira
  • Volatilidade do mercado, que oscila periodicamente e é um fator imprevisível
  • Otimização do retorno dado um nível de risco (volatilidade da carteira)

A teoria mostra que, quando diversificamos aplicações em ativos que possuem riscos segregados, logo, descorrelacionados, as chances de sucesso de uma carteira é significantemente maior.

O resultado nos mostrou uma redução média de 3% para a volatilidade nos dois períodos eleitorais e, olhando para o retorno médio, no período de 2018 houve uma redução, ao passo que em 2014 houve uma elevação do retorno médio.

Em ambos os períodos, o seguro atuou como esperado e reduziu o risco total da carteira, mas em 2014 a carteira simulada teve um benefício extra com a elevação do retorno médio por possuir dólar.

Porém, como mencionamos, a ideia de adicionar essa exposição cambial é para nos proteger, e não para buscar ganhos de capital em si. Isso acontecerá apenas se precisarmos realmente utilizar o nosso seguro.

Sendo assim, para o momento atual, recomendamos a adição de 2,5% de dólar na carteira. A partir disso, vamos verificar como ela se comportará nos próximos meses e avaliar a necessidade de outras movimentações a fim de reduzir volatilidade.

No entanto, com base nos dados históricos, na nossa visão esse montante já será o suficiente para conter a variação dos nossos ativos.

Qual a melhor forma de adquirir dólar?

Como queremos apenas nos expor à moeda norte-americana a fim de proteger nossa carteira, a melhor forma de fazer isso é de maneira indireta, ou seja, via fundos. Para isso, vamos recomendar a utilização de fundos cambiais, que são fundos que investem seus recursos em moedas estrangeiras.

Os fundos que você pode utilizar para tal finalidade são os mesmos recomendados pela Luciana Seabra, CEO da Spiti e que está à frente da equipe de análise de fundos, e pelo Felipe Arrais, especialista em investimentos globais.

Você não precisa utilizar todos eles, obviamente. Trouxemos estas opções para você escolher aquele que estiver disponível em sua corretora.

O que você precisa saber sobre o fundoTREND DÓLAR FI CAMBIAL
Classificação AnbimaCambial
CNPJ31.132.386/0001-19
Público-AlvoInvestidores em geral
Aplicação Inicial (Mínimo que você precisa investir)R$ 100
Taxa ao ano0,50%
Resgate em1 dia útil
TributaçãoSegue a tabela regressiva (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias, 15% acima de 720 dias).
Onde EncontrarRico e XP
O que você precisa saber sobre o fundoBTG PACTUAL DIGITAL DÓLAR FI CAMBIAL
Classificação AnbimaCambial
CNPJ33.144.687/0001-98
Público-AlvoInvestidores em geral
Aplicação Inicial (Mínimo que você precisa investir)R$ 500
Taxas ao ano0,15%
Resgate em1 dia útil
TributaçãoSegue a tabela regressiva (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias, 15% acima de 720 dias).
Onde EncontrarBTG Pactual Digital
O que você precisa saber sobre o fundoVITREO DÓLAR FI CAMBIAL
Classificação AnbimaCambial
CNPJ33.952.939/0001-05
Público-AlvoInvestidores em geral
Aplicação Inicial (Mínimo que você precisa investir)R$ 100
Taxa de Administração0,05%
Resgate em1 dia útil
TributaçãoSegue a tabela regressiva (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias, 15% acima de 720 dias).
Onde EncontrarVitreo

De onde retirar essa fatia?

Para alocar 2,5% de dólar na carteira, recomendamos a retirada desse montante da fatia dos ativos prefixados de longo prazo. Isso se dá pelo fato de que serão eles que mais sentirão uma elevação das perspectivas das taxas de juros futuros, que podem ocorrer com uma elevação dos juros de acordo com o tom dos discursos de campanha eleitoral que devem se intensificar a partir de agora.

Isso porque, em períodos eleitorais, o que mais assusta investidores e investidoras é a preocupação fiscal. Como mencionamos, candidatos focam em medidas populistas que tendem a aumentar os gastos públicos, o que joga a perspectiva fiscal do país para um patamar pior. O curso natural de pensamento é que investidores se questionem se o Brasil vai se endividar ainda mais.

Dívida mais alta leva a uma expectativa de inflação na mesma direção e, consequentemente, os juros também.

A partir dessa análise, tínhamos duas opções: reduzir nossa participação na parcela de ativos atrelados à inflação ou na de prefixados, que sofreria com uma elevação dos juros.

Acontece que os títulos públicos IPCA+ são impactados negativamente pela expectativa de juros maiores e de forma positiva pela expectativa de mais inflação. Ou seja, existe um “amortecedor” nos títulos indexados à inflação que não os deixa variar tanto quanto os prefixados, e assim acabam por aliviar o impacto negativo em seu preço.

O gráfico a seguir mostra as taxas de um ativo prefixado e de um indexado à inflação de longo prazo com duração (vencimento) similar:

Fonte: Broadcast. Elaborado por Spiti

Veja que a expectativa de inflação aumentou com o passar do tempo, e a taxa dos prefixados seguiu o mesmo caminho, mas de forma muito mais incisiva que a taxa do título IPCA+.

Vale lembrar que a taxa é inversamente proporcional ao preço de um título público. Então, quanto mais ela se eleva, menor o preço do ativo em questão. Assim, nesse período, o título prefixado se desvalorizou.

Conclusão

Com o risco trazido pelos discursos das campanhas eleitorais nos próximos meses, decidimos adicionar uma medida de proteção à nossa carteira, que será feita por meio do dólar. Ao descorrelacionar os nossos ativos, nos protegemos e otimizamos a relação risco vs retorno da carteira.

Para adicionar 2,5 % em moeda norte-americana, vamos retirar o mesmo montante da nossa fatia de ativos prefixados de longo prazo, uma vez que estes estão mais desprotegidos contra uma possível elevação das perspectivas de juros de longo prazo e da inflação quando comparados com ativos indexados à inflação.

Lembro mais uma vez que essa adição de dólar à carteira é com foco na proteção de nossos ativos, e não para buscar ganhos de capital direto. Caso isso aconteça, será como a ativação do nosso seguro, algo que não queremos, porém é uma possibilidade real.

Esperamos que, em um momento futuro, com a redução dos riscos fiscais do país e passada a eleição, não precisemos mais da nossa parcela de proteção, e só aí então decidiremos por retirar o nosso seguro.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.