Trouxemos o relatório mensal em um formato diferente. Antes de revisarmos os destaques de agosto, anunciamos uma alteração na Carteira de Valorização: recomendamos a venda de Fleury (FLRY3), que deixa a carteira.
Recomendação de Venda da Fleury (FLRY3) + Relatório Mensal de Agosto de 2025
Escrito por Vanessa Naissinger, Varos Brasil em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
Na carteira de até R$ 50 mil, a venda será acompanhada da compra de Bradesco (BBDC4). Nas demais, o peso da ação retirada foi redistribuído igualmente entre as posições, resultando em 2,50% para cada uma.
Cenário macro. Relatamos os principais acontecimentos econômicos e políticos no Brasil e nos EUA que influenciaram o desempenho da renda variável no período.
Análise das ações. Apresentamos a visão do nosso time sobre os papéis que mais se destacaram na carteira, com comentários sobre seus desempenhos e perspectivas.
Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
Recomendação de Venda da Fleury (FLRY3)
A ação do Grupo Fleury atingiu nosso preço-alvo de R$ 16,05 na sexta-feira (19/09), chegando a R$ 16,19 no pico do dia. No fechamento, recuou para R$ 16,00. Diante da pequena diferença em relação ao alvo, optamos por retirar o papel da carteira de valorização.
Ela entrou na composição da carteira em 20/02/2024 e, desde então, apresentou uma valorização de 13,72%. Por outro lado, os dividendos recebidos no período (R$ 1,91, considerando o valor já provisionado a ser recebido em 03/10) impulsionaram ainda mais nosso retorno total no ativo, que totalizou 27,29%. Isso equivale a um retorno mensal de 1,26% e 16,40% ao ano. Nesse mesmo tempo, o Ibovespa rendeu 12,43%.
O papel entrou na carteira com um objetivo estratégico: oferecer potencial de valorização aliado à segurança. Apesar de o setor de saúde ser historicamente volátil no Brasil, o Grupo Fleury atua em um segmento mais estável, a medicina diagnóstica, com demanda resiliente e forte presença no mercado premium.
Por um bom tempo, a ação andou de lado, refletindo a cautela do mercado com problemas antigos de aquisições e integrações mal feitas, apesar de a empresa apresentar melhora na alocação de capital. Nos últimos dois meses, o preço deu um salto com a possibilidade de fusão com a rede D’Or, assunto que já comentamos em relatórios anteriores, e que animou os investidores.
Vale comentar que, na época em que incluímos o ativo na carteira, nosso preço-alvo estimava uma valorização ainda maior. Com o aumento da taxa de juros e o impacto disso no custo de capital de ativos em geral, o preço justo foi reduzido.
Mesmo assim, a ação cumpriu bem seu papel na carteira, oferecendo menos volatilidade em momentos de euforia do mercado e, ao mesmo tempo, trazendo valorização e pagando dividendos aos investidores.
Continuamos vendo o Fleury como uma boa empresa, com espaço para crescer. Nossa saída é motivada exclusivamente por preço: na cotação atual, o potencial de valorização não chama atenção, as seguimos de olho em qualquer movimento interessante.
Portanto, recomendamos a VENDA de FLRY3.
E como ficam as ações recomendadas?
A ação do Grupo Fleury fazia parte de todas as faixas da carteira de valorização. Para a faixa 1, com a saída dela, entra no lugar a ação do Bradesco (BBDC4). Nas demais faixas, nenhum outro ativo será adicionado nesse momento, e a alocação será dividida entre os seis papéis restantes, conforme imagem abaixo.
Você, que está na faixa 1, pode estar se perguntando: a recomendação de Bradesco não vai gerar uma concentração no setor bancário, dado que já temos Banco do Brasil?
A resposta é, não.
O Bradesco e o Banco do Brasil são grandes bancos, mas têm perfis de risco diferentes. O Banco do Brasil empresta muito mais para o governo e para o agronegócio. Em junho de 2025, por exemplo, a parte do agro somava cerca de R$ 406 bilhões e a do governo, R$ 75 bilhões. Como boa parte desses empréstimos tem garantia do Tesouro, o banco precisa reservar menos capital para se proteger de calotes. Isso faz com que o risco do BB seja diferente do de bancos privados, como o Bradesco.
O Bradesco tem um perfil diferente: está mais exposto ao varejo, pequenas e médias empresas e cartões. Esse segmento de cartões é muito relevante — no 2º trimestre de 2025, gerou R$ 4,5 bilhões em receitas, sendo que 63% disso veio de clientes de alta renda. Além disso, o banco é forte no mercado de capitais e quase metade do seu lucro vem da área de seguros, previdência e capitalização. Essa diversificação dá mais equilíbrio à operação do Bradesco.
No Banco do Brasil, a área de seguros aparece mais como serviço, por meio de comissões e distribuição, junto com administração de fundos e consórcios. Essas frentes já representam 56,8% das receitas de serviços do banco. Isso faz com que o BB dependa menos do mercado de capitais e tenha uma receita mais baseada em tarifas e comissões, aproveitando sua forte presença e alcance junto aos clientes.
Em resumo, apesar de atuarem no mesmo setor, os dois bancos têm perfis bem diferentes. O Banco do Brasil conta com garantias públicas que reduzem seu risco e tem uma boa base de receitas com serviços. Já o Bradesco assume mais risco ligado ao consumo e às pequenas e médias empresas, mas compensa com a força dos cartões e dos seguros.
Essas diferenças são importantes quando se avalia o risco e o valor das ações de cada um. Justamente por isso, seguimos confortáveis em manter a recomendação para os dois papéis, sem ver um risco extra nesse posicionamento.
A seguir, voltamos à “programação normal” e vemos o que aconteceu no mês de agosto.
Agosto de 2025
Macro
No mês de agosto, o ambiente internacional voltou a favorecer os ativos de risco, impulsionado pela sinalização do Fed de que pode iniciar o ciclo de cortes de juros já em setembro e pelo alívio das pressões inflacionárias nos Estados Unidos. A postura mais “dovish” do Fed aumentou o apetite global por mercados emergentes, ao mesmo tempo em que a fraqueza do dólar ampliou os fluxos para bolsas da América Latina. Além disso, no Brasil, o mercado teve um bom desempenho sustentado também por resultados corporativos positivos e pela surpresa com a deflação medida pelo IPCA-15.
Em agosto, o governo norte-americano decidiu intensificar sua postura protecionista. A administração Trump elevou a tarifa média de importação para 18,3%, o maior patamar desde 1934. Paralelamente, firmou acordos pontuais com Japão e União Europeia, mas por outro lado, colocou uma mira de todo tamanho no Brasil.
No fim de julho, Washington anunciou tarifas de 50% sobre determinados produtos brasileiros. Apesar do barulho, o impacto direto sobre a economia nacional tende a ser limitado. Isso se explica, principalmente, pela nossa baixa exposição comercial aos EUA e pela predominância de commodities na pauta de exportações, produtos que têm demanda global consistente e pouca substituição imediata.
Ainda assim, as medidas contribuíram para ampliar a incerteza no comércio internacional e elevaram os riscos de retaliações diplomáticas. O cenário ficou mais tenso, mas o Brasil conseguiu amortecer parte do choque. A adaptação veio via redirecionamento de exportações e concessão de exceções tarifárias, o que funcionou como um colchão de proteção num momento de instabilidade.
Enquanto isso, outro foco de tensão se desenhava em Washington. As rusgas entre Trump e o Fed (Banco Central dos EUA) ganharam novo capítulo, com o presidente criticando os juros elevados e até sugerindo substituir Jerome Powell no comando do banco central americano. Esse embate institucional adicionou mais uma camada de volatilidade aos mercados financeiros.
Apesar da tensão gerada pelas novas tarifas, a inflação nos Estados Unidos seguiu sob controle. Em julho, o índice de preços ao consumidor (CPI) subiu apenas 0,2%, exatamente o que o mercado projetava. O número reforça um ponto importante: a inflação vem desacelerando com força desde os picos alarmantes de 2022.
Ao mesmo tempo, os sinais de arrefecimento da atividade econômica ficaram mais evidentes. O crescimento do PIB e os dados de emprego perderam força, indicando que o motor da economia americana está girando em ritmo mais lento.
Diante desse novo cenário, o Fed adotou uma postura mais cautelosa. E o ponto alto veio no tradicional simpósio de Jackson Hole, no fim de agosto. Lá, Jerome Powell, presidente do Fed, sinalizou pela primeira vez a possibilidade de cortes na taxa de juros num futuro próximo.
Foi o suficiente para acender os radares dos investidores.
Com essa guinada mais “dovish”, aumentaram as apostas de que um primeiro corte pode acontecer já em setembro e que outros dois ou três podem vir até o fim do ano. O mercado, que andava tenso, respirou aliviado. Afinal, juros mais baixos nos EUA costumam aquecer o apetite por risco e favorecer ativos ao redor do mundo.
O segundo trimestre trouxe boas notícias do front corporativo nos Estados Unidos. Os balanços vieram sólidos, especialmente entre as gigantes de tecnologia, impulsionados por dois fatores-chave: uma leve desvalorização do dólar e ganhos de produtividade relevantes.
Aliás, o dólar teve um comportamento curioso ao longo de agosto. Conforme o chamado “excepcionalismo” da economia americana (ideia de que os EUA estariam imunes às turbulências globais) foi perdendo tração, a moeda também foi perdendo força. E isso acabou jogando a favor das moedas de países emergentes, como o real brasileiro e o peso mexicano.
Com o dólar mais comportado, inflação sob controle e uma crescente expectativa de alívio monetário nos EUA, o apetite por risco ganhou fôlego no cenário global. O reflexo disso? Mais fluxo para ativos emergentes.
Um bom exemplo foi o desempenho da bolsa brasileira. O índice MSCI Brasil avançou 6,28% no mês, impulsionado pelo maior interesse dos investidores estrangeiros em ações locais.
E por falar em Brasil, por aqui o cenário segue apresentando melhoras. Julho trouxe um respiro nos preços. O IPCA subiu apenas 0,26%, um resultado abaixo do esperado pelo mercado e um sinal claro de desaceleração inflacionária. A prévia de agosto, medida pelo IPCA-15, reforçou essa tendência ao registrar uma deflação de -0,14%, a primeira variação negativa desde 2023.
Mas nem tudo são flores.
Apesar da boa surpresa nos dados mensais, o acumulado em 12 meses ainda roda acima da meta de 3% (com intervalo de tolerância de 1,5 p.p.). Ou seja, o cenário ainda exige cautela. E foi exatamente isso que o Banco Central fez.
Na última reunião do Copom, a Selic foi mantida em 15% ao ano. A ata do encontro foi clara: mesmo com a inflação cedendo, a política monetária seguirá contracionista por mais tempo. Em outras palavras, o BC quer ver as expectativas de inflação para 2025 e 2026 bem ancoradas antes de considerar cortes mais agressivos.
Basicamente, enquanto os índices mostram alívio, o comitê não quer correr o risco de soltar as rédeas cedo demais. O foco segue sendo a convergência sustentável para a meta e, até lá, o tom conservador deve continuar dando o ritmo.
A economia brasileira continuou avançando no segundo trimestre de 2025, mas o ritmo perdeu fôlego. O PIB cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior, uma desaceleração relevante frente ao 1,3% registrado nos primeiros três meses do ano. O motivo disso foram os juros elevados, que seguem freando setores mais sensíveis ao crédito.
Ainda assim, o nível de atividade atingiu um novo recorde histórico. E esse resultado veio puxado, principalmente, por dois pilares: o setor de serviços, com alta de 0,6%, e a indústria, que cresceu 0,5%. Esses avanços ajudaram a compensar a leve retração da agropecuária no período.
No consumo das famílias, a resiliência segue firme: avanço de 0,5%, mesmo com o aperto monetário. Já os investimentos, como era de se esperar, sofreram. A formação bruta de capital fixo caiu 2,2%, reflexo direto do custo elevado do crédito.
No campo externo, a balança comercial manteve sua trajetória positiva. Agosto fechou com superávit de US$ 7,1 bilhões, número acima do esperado, embora cerca de 6% abaixo do registrado no mesmo mês do ano passado. Ainda assim, o desempenho reforça a competitividade do Brasil no cenário internacional e sustentou parte da confiança dos investidores locais.
Do lado fiscal, porém, o mercado mantém um olhar atento sobre a implementação do novo arcabouço e, sobretudo, sobre a capacidade do governo de controlar os gastos para atingir a meta de resultado primário. Essa incerteza, combinada com as tensões comerciais com os EUA, acabou limitando um maior fluxo de capital estrangeiro para o país em agosto.
Tudo isso contribuiu para uma boa performance do mercado em agosto. O Ibovespa subiu 6,33%. Entre os principais impulsionadores estão os balanços do segundo trimestre, que vieram acima do esperado para empresas de peso relevante no índice (bancos, commodities, varejo), o superávit comercial robusto e até a deflação mensal, que pegou muitos de surpresa.
No câmbio, o real também teve um mês favorável. O dólar PTAX recuou 3,16%, refletindo tanto a entrada de recursos quanto o efeito dos juros domésticos ainda elevados, que seguem atraindo operações de carry trade e sustentando o fluxo cambial em equilíbrio.
Mas, quando olhamos para o comportamento dos estrangeiros, o entusiasmo é mais contido.
Apesar do bom desempenho da bolsa, o fluxo externo na B3 foi praticamente neutro: uma saída líquida modesta de R$ 19 milhões. No acumulado de 2025, no entanto, o saldo ainda é positivo em cerca de R$ 20,6 bilhões, o que mostra que, mesmo com os ruídos fiscais, tensões comerciais e incertezas políticas, o investidor internacional ainda vê valor no Brasil.
Destaques da carteira
Agora, falaremos de alguns ativos em particular. Nesta seção, vamos focar nos assuntos mais importantes, que repercutiram em alguns ativos das nossas carteiras no mês.
Bradesco (BBDC4)
Ao longo de agosto, as ações do Bradesco (BBDC4) avançaram 6,6%, tornando-se um dos destaques positivos da nossa carteira. A valorização ocorreu sem a presença de fatos relevantes ou comunicados oficiais ao mercado, sugerindo que o movimento tenha sido impulsionado por uma melhora na percepção dos investidores sobre o processo de recuperação do banco — além da assimetria de valuation, que continua bastante atrativa.
A companhia vem executando com firmeza seu plano de transformação operacional, e os resultados mais recentes apontam ganhos de eficiência que começam a se materializar com maior rapidez do que o esperado. A combinação entre racionalização de estruturas, avanço da digitalização e controle disciplinado de despesas tem acelerado a alavancagem operacional.
No acumulado do 1º semestre de 2025, as despesas administrativas recuaram 2,7%, mesmo com efeitos contábeis pontuais como a consolidação da Cielo e do Banco John Deere. Como reflexo, o índice de eficiência caiu para 51,2%, reforçando a tendência de melhora gradual na produtividade do grupo.
Na originação de crédito, o banco tem adotado uma postura seletiva e conservadora, privilegiando linhas com garantias reais e clientes de maior renda — como o consignado, o crédito rural colateralizado e operações com recebíveis. Essa abordagem tem mantido a inadimplência estável em 4,1% e sustentado um índice de cobertura elevado, hoje em 177,8%.
A administração também revisou para cima duas linhas do guidance:
● A Receita com Prestação de Serviços, cuja projeção de crescimento passou de 4%-8% para 5%-9%;
● O Resultado de Seguros, Previdência e Capitalização, ajustado para um crescimento entre 9% e 13% no ano.
As revisões reforçam a confiança da gestão na consistência do plano de turnaround e na recuperação gradual da rentabilidade do banco.
Aos poucos, o Bradesco volta a ganhar tração — com alavancagem operacional mais acelerada do que até mesmo os cenários mais otimistas previam. Continuamos atualizando nossas premissas de valuation à medida que os resultados se consolidam, e mantemos nossa recomendação de COMPRA para BBDC4, com preço-alvo de R$ 18,32 e TIR estimada de 17,8%.
Lojas Quero-Quero (LJQQ3)
No mês de agosto a ação de Lojas Quero-Quero saiu de R$ 2,42 para R$ 2,62, registrando uma alta de 6,2%.
No case, não houve grandes novidades. Como já falamos em outros relatórios, a empresa está segurando as pontas enquanto a curva de juros segue em níveis elevados. Há sinais de que a situação está apertando. A empresa não está mais conseguindo segurar o repasse dos juros na operação financeira mas, a princípio, nada alarmante. Dito isso, seguimos com a recomendação de COMPRA para LJQQ3.
Kepler Weber (KEPL3)
As ações da Kepler Weber foram destaque na carteira no mês de agosto, avançando mais de 15,6%. A empresa havia anunciado o pagamento de proventos no dia 7 de agosto, sendo R$ 0,11 por ação como dividendos intermediários e de R$ 0,03 por ação como juros sobre capital próprio. Tiveram direito aos proventos os acionistas de KEPL3 na data-base de 11 de agosto de 2025. O pagamento foi efetuado em 8 de setembro de 2025.
Além disso, no dia 27 de agosto, a companhia aprovou um novo programa de recompra de ações, autorizando a aquisição de até 2,1 milhões de ações ordinárias, equivalentes a 1,21% do total em circulação. Programas de recompra geralmente sinalizam que a gestão enxerga suas ações como subavaliadas, reforçando o sentimento positivo do mercado.
A Kepler também aumentou sua participação na subsidiária Procer, focada em soluções digitais para armazenagem de grãos. A aquisição de 8,9 mil ações da companhia saiu por R$ 5,7 milhões, o que não configurou investimento relevante.
Vale lembrar que, apesar do resultado do 2T25 não ter sido dos melhores, a companhia havia destacado pontos positivos em sua operação. A carteira de pedidos (backlog), por exemplo, cresceu 13,8% em relação ao ano anterior, e o primeiro semestre de 2025 registrou o maior volume de embarques em dez anos. Ou seja, mesmo enfrentando margens pressionadas no curto prazo, a Kepler Weber vem sustentando um nível robusto de vendas e expandindo sua base de clientes, preparando terreno para uma recuperação nos resultados futuros. Esse contraste entre resultados atuais modestos e perspectivas comerciais em expansão também pode ter ajudado a alimentar a tese de que a ação poderia estar subprecificada.
Assim, mantemos nossa recomendação de COMPRA para KEPL3 com preço-alvo de R$ 9,37 e TIR de 19,7%.
Banco do Brasil (BBAS3)
Ao longo de agosto, as ações do Banco do Brasil (BBAS3) avançaram +8,6%, basicamente revertendo a queda do fim de julho — movimento que, como discutimos em relatório anterior, foi motivado pelo balancete mensal publicado no BC, que acendeu dúvidas sobre a trajetória de lucro no curto prazo. A divulgação do 2T25 em agosto não mudou materialmente esse pano de fundo; ainda assim, o papel manteve suporte, aparentemente ancorado por fluxo do investidor pessoa física, na leitura de que “o pior já ficou para trás”.
Nossa visão é mais cautelosa. Estamos concluindo um relatório extenso — com quantificação de riscos — para decidir entre a manutenção ou retirada do papel da nossa carteira. Alguns achados preliminares: (i) agro segue como ponto crucial (estágio 3 e prorrogadas crescendo mais que a carteira regular), (ii) PF com indicadores principais (30–89d, new NPL) ainda pressionados; (iii) capital: capital principal por volta de ~11% sustentado por dois apoios que se encerrarão nos próximos anos (IHCD com devoluções anuais e o fim do ajuste da Res. 5.199/2024), impondo maior retenção de lucro e limitando o uso do benefício fiscal oriundo da distribuição de JCP.
Mais recentemente, boatos e notícias sobre a “Lei Magnitsky” trouxeram um grau adicional de volatilidade às ações do banco.
Segundo reportagens citando fontes em Washington, o governo dos EUA estuda um pacote de medidas que pode incluir sanções ao Banco do Brasil, dentro de uma ofensiva mais ampla que envolve tarifas comerciais. A justificativa seria a suposta emissão de um cartão Elo para o ministro Alexandre de Moraes após o bloqueio de cartões internacionais por instituições estrangeiras. Em nota, o BB reiterou a conformidade com as leis brasileiras e internacionais. As mesmas matérias destacam que o cenário é fluido e as decisões cabem à Casa Branca.
Em paralelo, apuração da Bloomberg/InfoMoney relata que o BB montou planos de contingência: consultoria jurídica nos EUA, avaliação de desvio de parte das liquidações em dólar para outras praças e interação com autoridades, enquanto bancos no Brasil dizem ter recebido cartas-padrão da OFAC (Agência de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA) perguntando sobre procedimentos de cumprimento da Magnitsky. O pano de fundo é uma tensão regulatória: decisões recentes no Brasil exigem homologação local de ordens estrangeiras, deixando as instituições “no meio do fogo cruzado” entre cumprir a legislação americana e acatar determinações domésticas.
O elemento factual já consumado é que, em 30 de julho de 2025, os EUA sancionaram Alexandre de Moraes sob a Global Magnitsky, o que implica congelamento de ativos sob jurisdição americana e proibição de negócios com qualquer pessoa ou empresa no país (“US persons”). A partir daí, aumentou a atenção regulatória sobre contrapartes brasileiras potencialmente relacionadas a alvos sancionados, uma vez que esse regime pode ter alcance extraterritorial sempre que houver uso do sistema financeiro dos EUA — por exemplo, liquidações em dólar ou bancos correspondentes.
Para calibrarmos os riscos, há precedentes internacionais relevantes. Em 2014, o BNP Paribas aceitou multa de US$ 8,9 bilhões e restrições operacionais por violações de sanções americanas. Em 2019, o Standard Chartered fechou acordo de ~US$ 1,1 bilhão com autoridades dos EUA e do Reino Unido por violações similares. Esses casos ilustram que, mesmo sem bloqueio integral a um banco, penalidades financeiras e operacionais podem ser significativas quando há descumprimento de sanções.
Nos casos BNP Paribas (2014) e Standard Chartered (2019), as penalidades decorreram de violação de sanções e falhas de compliance com jurisdições e entidades já listadas como alvo do governo americano (Sudão, Irã, Cuba, Síria, Mianmar), inclusive com menções explícitas a apoio a terrorismo e abusos de direitos humanos. Na ocasião, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) qualificou a conduta do BNP como abrir “as portas do sistema financeiro dos EUA” a países/entidades envolvidos em atos de terrorismo e outras atrocidades.
No Banco do Brasil, a conversa é de outra natureza: o gatilho atual vem da designação Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, ato com claro contexto político-diplomático, e não de evidências de financiamento ao terrorismo ou evasão histórica de sanções pelo banco.
Nossa leitura de momento é que existe uma probabilidade não nula de sanções ao Banco do Brasil. À luz do histórico de atuação das autoridades americanas em casos com bancos, o desfecho mais plausível — se houver medida — seria uma multa (não um bloqueio operacional), em montante inferior ao aplicado ao Standard Chartered. Tomando como hipótese uma multa de R$ 6 bilhões, o impacto seria relevante no resultado de curto prazo e poderia exigir alguma reposição de capital regulatório, mas, em termos de valuation, representaria ~5% do valor de mercado do banco.
Em outras palavras: é um choque material, porém administrável — longe da magnitude que parte do mercado têm sugerido.
AZZAS 2154 (AZZA3)
No dia 07/08/2025, o AZZAS 2154 soltou um fato relevante comunicando uma alteração na diretoria. Rafael Sachete deixou o cargo de Diretor Financeiro, Corporativo e de Relações com Investidores da Companhia para assumir a posição de CEO da BU Shoes & Bags. Em seu lugar, entrou Eric Alencar, que já foi CFO do Aché Laboratórios Farmacêuticos, do Grupo Oncoclínicas e da Cyrela. Além disso, ele também atuou como conselheiro e diretor vice-presidente e finanças de relações com investidores no Grupo Carrefour. Ele é formado em Engenharia Robótica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e possui MBA pela The Wharton School, University of Pennsylvania.
Esse movimento deu início a algumas alterações na gestão da empresa.
Pouco depois, Roberto Jatahy deixou a liderança da BU de Vestuário Feminino. O grupo unificou as unidades Masculino e Feminino e colocou Ruy Kameyama como CEO da nova unidade. Nisso, Jatahy voltou às suas origens como desenvolvedor de marcas. A partir da mudança, ele assumiu o cargo de Chief of Brands Officer (CBO).
Ruy Kameyama já era conselheiro no Grupo Soma e tem 16 anos de experiência acumulada no BR Malls, onde foi COO e CFO.
As mudanças não pararam por aí. No dia 03/09/2025, anunciaram mais uma mudança. Thiago Hering, herdeiro da empresa que leva seu sobrenome, está deixando o grupo, marcando o fim da família à frente da empresa. Quem assumirá a posição será Gustavo Fonseca, que era COO do Grupo Soma.
Nesse movimento, ainda contrataram a consultoria Heartman House para atuar no fortalecimento e aceleração das iniciativas voltadas ao crescimento da marca Hering. Tudo isso é parte de uma série de mudanças organizacionais no AZZAS 2154. Agora vamos ver como isso se refletirá nos próximos resultados. A recomendação segue como COMPRA.
Sanepar (SAPR11)
O gatilho que nos levou ao investimento em Sanepar se concretizou em setembro, agora com efeito em caixa. Como já destacamos em relatórios anteriores, o montante havia sido registrado contabilmente no 1T25 e, neste mês, os R$ 4.048,9 milhões, líquidos de honorários advocatícios e Imposto de Renda, foram efetivamente recebidos pela companhia.
No Fato Relevante divulgado, a administração reforçou que ainda aguarda a decisão da Agepar a respeito do percentual do precatório que precisará ser compartilhado com a população. Essa definição é, hoje, o principal fator a influenciar o desempenho da ação no curto prazo.
Pela regra em vigor, a empresa poderia reter 25% do valor, mas a agência tem autonomia para deliberar sobre um percentual diferente, o que abre espaço para uma fatia maior permanecer com a companhia. Mesmo no cenário conservador de 25%, o montante líquido corresponde a aproximadamente 10% do valor de mercado atual da Sanepar, ou seja, um reforço bastante importante.
Esse adicional de caixa traz uma flexibilidade relevante para a companhia. Uma parte pode ser destinada à distribuição de dividendos extraordinários, o que seria positivo para o acionista no curto prazo, mas também existe a alternativa de aplicar os recursos diretamente no plano de investimentos já anunciado. Nesse caso, a empresa consegue acelerar projetos de expansão e modernização da rede, ao mesmo tempo em que preserva o caixa gerado pelas operações para outras finalidades. Na prática, isso significa que mesmo optando por investir, a companhia mantém uma folga financeira que pode resultar em pagamentos de dividendos adicionais nas próximas distribuições.
Vale destacar também que, mesmo com o montante sendo distribuído, a Sanepar mantém uma posição financeira confortável para a execução dos investimentos. A empresa segue com geração de caixa sólida e previsível, endividamento sob controle e boa capacidade de captar novos financiamentos a custos atrativos.
Seguimos confiantes na tese de Sanepar, com recomendação de MANTER e preço justo avaliado em R$ 37,48 A TIR esperada é de 17%.
Conclusão
No fim das contas, o cenário mostra que, mesmo com desafios lá fora e alguns pontos de atenção aqui dentro, a economia brasileira vem mostrando capacidade de adaptação e resiliência. A combinação de inflação mais controlada, bons resultados das empresas e maior interesse por mercados emergentes tem jogado a favor do Brasil. O momento ainda pede cautela, mas também traz oportunidades para quem souber aproveitar o equilíbrio entre riscos e perspectivas de crescimento.
Abraços,
Time VAROS
Sobre os analistas
Vanessa Naissinger
Analista de Investimentos
Formada em Administração pela Universidade Feevale, Vanessa iniciou sua carreira no time de experiência do cliente da XP Inc. e atualmente é analista de ações CNPI na VAROS Research, especializada em empresas dos setores de energia elétrica e saneamento básico.
Varos Brasil
Varos
Varos é uma casa de análise credenciada pela APIMEC, e liderada pelo Leandro Siqueira, especialista em ações e Valuation.