Decidimos retirar a ação Taurus (TASA4) da carteira. Ela estava presente apenas na Carteira de Renda.
Recomendação de venda de TASA4: A "Trumpestade" em direção a Taurus
Escrito por Vanessa Naissinger, Varos Brasil em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
A retirada foi motivada pelo risco de tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros. Como a Taurus tem forte dependência do mercado americano, seu principal destino desde 1968, a possível taxação pode comprometer seu modelo de negócios. Além disso, destacamos outros pontos relevantes que complementam a ideia.
Com a saída de Taurus, a ação BMG passa a representar 2% da carteira de Renda. As demais ações ficam com 4% cada, conforme mostra a tabela no fim do relatório.
Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
1 - A cronologia das tarifas
No dia 2 de abril, o presidente Donald Trump havia anunciado um pacote de tarifas de exportação direcionadas a diversos países, com o objetivo de reequilibrar a balança comercial dos EUA.
Trump alegou que muitos parceiros comerciais tinham vantagens tarifárias indevidas, prejudicando indústrias e empregos nos EUA. Diante disso, ele divulgou uma lista classificando diferentes nações com tarifas adicionais que variavam entre 10% e 50%, considerando critérios como déficit comercial, barreiras tarifárias e não tarifárias impostas pelos parceiros, além de questões políticas consideradas relevantes pelo governo americano.
Nesse contexto, o Brasil, que mais importa do que exporta para os EUA, havia se “dado bem”, recebendo uma tarifa inicial de “apenas” 10%.
Ou seja, dos males, o menor.
Entre idas e vindas de mudanças de tarifas e prazos com diversos países, o Brasil passou ileso até 9 de julho. Nessa data, porém, Trump enviou uma carta ao presidente Lula anunciando que iria impor uma tarifa de 50% sobre qualquer produto brasileiro a partir de 1 de agosto.
As motivações por trás disso foram o processo judicial no STF contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, classificado por Trump como perseguição política e uma “caça às bruxas”, além da interferência do STF contra empresas de tecnologia americanas, alegando que a corte emitiu “centenas de ordens sigilosas e ilegais de censura” que obrigaram plataformas norte‑americanas a remover conteúdo sob multas milionárias ou risco de banimento.
Trump ainda declarou que a relação comercial com o Brasil sempre foi “muito injusta” e “longe de ser recíproca”, mencionando barreiras tarifárias e não tarifárias brasileiras que, segundo ele, prejudicam os EUA. Até o Pix entrou na história, com o presidente americano sugerindo que, ao favorecer uma infraestrutura doméstica, o Brasil prejudicou concorrentes estrangeiros, configurando uma barreira comercial digital.
No dia 14 de julho, o governo brasileiro anunciou a criação do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, com o objetivo de ouvir as demandas dos setores empresariais afetados e preparar medidas de retaliação ou defesa.
Nos dias 15 e 16, o comitê realizou reuniões sucessivas com representantes do agronegócio e da indústria. Os principais pleitos apresentados pelos empresários foram que o governo solicite aos EUA um adiamento de no mínimo 90 dias para entrada em vigor da tarifa de 50%, como período de transição, já que os 15 dias entre o anúncio (09/07) e a data‐alvo (01/08) inviabilizam ajustes logísticos e renegociação de contratos.
Ainda no dia 15, o Office of the United States Trade Representative - USTR iniciou uma investigação contra o Brasil focando em práticas consideradas “injustas ou discriminatórias” que “oneram ou restringem o comércio americano”.
Um dos objetivos da investigação é criar uma base jurídica para manter ou até ampliar tarifas, blindando a ação contra processos judiciais nos EUA. Ela também abre a porta para contramedidas setoriais, ou seja, diferente da “tarifa básica” de 50%, será possível aplicar sobretaxas específicas ou quotas por produto.
Talvez o principal impacto da investigação, porém, é que o USTR tem até 12 meses para concluir se as práticas brasileiras são “injustificáveis” e recomendar medidas. O arrastar desse processo adiciona assim um “risco recorrente” para nós investidores: cada documento solicitado pelo USTR vira gatilho de volatilidade para empresas expostas aos EUA.
Já no dia 17, Trump divulgou mais uma carta, dessa vez endereçada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, reiterando seu apoio pessoal. Nela, Trump afirmou ter visto o “terrível tratamento” que Bolsonaro estaria recebendo de um sistema judiciário que ele julga injusto, e voltou a pedir que o julgamento por tentativa de golpe de Estado fosse interrompido imediatamente.
A “resposta” brasileira à carta veio no dia seguinte, quando o ministro do STF, Alexandre de Moraes, impôs a Bolsonaro o uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares, como parte das investigações sobre possível obstrução de justiça pelo ex-presidente. Ele ficou proibido de deixar Brasília sem autorização, de usar redes sociais e de contatar outros investigados ou autoridades estrangeiras.
Com esse aumento de tensão, o IBOVESPA caiu 1,86% no dia 18, fechando abaixo dos 134 mil, seu menor nível em quase 3 meses.
Como o cenário está conturbado e notícias saem a todo momento, é provável que quando você estiver lendo esse relatório mais novidades tenham surgido. Entretanto, essa introdução já é mais do que o suficiente para entender o racional que iremos apresentar a seguir.
2 - E a Taurus nessa história?
Ao longo de 2023 e 2024, a Taurus vendeu cerca de 83% das suas armas para os Estados Unidos.
No período da pandemia, com o boom de vendas que o mercado brasileiro viveu, esse percentual foi reduzido para perto de 73%. O ponto mais baixo foi em 2022, quando as vendas aos EUA representaram apenas 63%. Isso aconteceu porque as vendas no Brasil aumentaram fortemente devido às eleições presidenciais, em antecipação à possibilidade de maior restrição a vendas de armas no país com o governo Lula assumindo. Esse foi um cenário parecido em 2014, com as eleições presidenciais entre Dilma e Aécio. Ou seja, dá para entender que o percentual dos EUA só é reduzido em cenários atípicos.
O fato é que os EUA são o maior mercado consumidor de armas do mundo. Não há outro substituto. A Taurus baseou seu modelo de negócio em atender os EUA desde muito cedo: a empresa foi fundada em 1939 e as primeiras exportações para os EUA aconteceram em 1968.
Apesar do maior mercado ser os EUA, a maior parte da fabricação da empresa está no Brasil, já que a empresa possui menor custo de produção por aqui. Em 2023 e 2024 cerca de 75% das armas vendidas pela empresa foram fabricadas no Brasil.
A Taurus possui 3 fábricas de armas.
· A primeira fica no Brasil, localizada em São Leopoldo - RS. Ela produz todos os tipos de armas e tem capacidade para cerca de 1,7 milhão de armas/ano.
· A segunda fica nos EUA, localizada em Bainbridge - Geórgia e tem capacidade para cerca de 800 mil armas/ano. A produção no país, entretanto, é focada em um modelo de revólver e um de pistola.
· A última e mais nova fica na Índia. Essa unidade surgiu de uma joint venture entre a Taurus (com 49% de participação) e a Jindal (51%), a maior fabricante de aço da Índia. A operação dessa fábrica começou em 2024 e tem capacidade prevista de 250 mil armas/ano. Ela ainda está em fase de ramp up, ou seja, em processo de aumento gradual de produção e de lançamento de produtos.
Caso a tarifa de 50% persista, a empresa não descarta uma realocação para os Estados Unidos. Isso foi comentado pelo CEO da empresa, Salésio Nuhs, no dia 18 de julho, após um encontro com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Salésio disse que “estamos falando não de uma taxa de 50%, mas sim de praticamente um embargo comercial” e que, caso a tarifa seja mantida, a empresa estuda transferir toda sua produção do Brasil para os EUA.
O efeito da tarifa pode ser visto no ticket médio das armas da Taurus. Historicamente, ela atua com um preço de venda cerca de 40% menor do que o das suas concorrentes listadas nos EUA (Ruger e Smith & Wesson). Ou seja, com o impacto da tarifa, o diferencial de preço da companhia se esvai.
A mudança de maior parte da produção para os EUA para evitar a tarifa, embora possa ser a solução para garantir a sobrevivência da Taurus no longo prazo, implica em dois pontos na análise da empresa.
O primeiro deles, mais óbvio, é que a empresa precisará fazer investimentos para que a fábrica nos EUA aumente sua produção (já que ela tem praticamente a metade da capacidade da unidade brasileira) e para que ela abranja também todo o leque de produtos feitos no Brasil.
O investimento para isso é pesado: entre 2018 e 2020 a Taurus saltou sua produção de 5 mil armas/dia para 9 mil armas/dia, investindo cerca de R$ 200 milhões (5% da Receita). Até 2022, entretanto, esse valor subiu para perto de R$ 570 milhões (6% da Receita) com investimentos principalmente direcionados ao aumento de eficiência através de equipamentos automatizados. A capacidade da empresa se manteve, mas esse Capex permitiu que a Taurus tivesse margens melhores. Ou seja, o investimento em uma fábrica competitiva não se trata apenas de quantidade na capacidade de produção, mas também de rentabilidade. A questão é: para dobrar sua capacidade nos EUA a Taurus precisaria fazer investimentos nessa magnitude, só que agora esses R$ 570 milhões representam mais da metade do valor de mercado da companhia hoje. Para bancar esse investimento, a companhia vai precisar aumentar seu endividamento, o que trás um novo risco para a ação, ou tentar um follow-on (nova oferta de ações). Porém, com a ação desvalorizada e a incerteza sobre o mercado americano, essa opção fica muito improvável.
Aqui alguém poderia perguntar: “mas não é “só” ela fechar a fábrica do Brasil e mandar todos os equipamentos e máquinas para os EUA, então?”
Colocando no papel os custos de:
● preparação e desmontagem dos aparelhos no Brasil (envolvendo desmontagem, embalagem industrial, transporte interno no país até porto/aeroporto);
● frete internacional, seguro e manuseio no porto/aeroporto;
● tributos e custos com documentação para o despacho;
● instalação e obras civis (a fábrica dos EUA tem 60% de área disponível ainda, o que pelo menos evita a necessidade de aquisição de terrenos);
● adequações técnicas, registros e inspeções locais;
Essa brincadeira toda pode sair por volta de 30% a 60% do valor contábil dos ativos, segundo pesquisas de mercado de empresas especializadas em realocação de fábricas. A Taurus tem atualmente R$ 429 milhões em máquinas e instalações. Supondo que 20% disso já esteja nos EUA (dado que é esse o percentual de produção da empresa), a empresa tem R$ 343 milhões para movimentar do Brasil. Considerando a faixa de 30% a 60% da estimativa, ela gastaria algo entre R$ 103 e R$ 206 milhões. Um valor bem mais acessível, mas que não tira a necessidade de a companhia levantar dinheiro para realizar a transação.
Isso, porém, não é o mais relevante na análise de toda essa situação.
A Margem Bruta da Taurus foi de 32,3% no 1T25, influenciada por um não-recorrente como veremos a seguir, mas ela possui uma Margem Bruta média de 39,5% de 2018 a 2024. Um dos motivos para a empresa ter a margem nesse patamar, além dos investimentos feitos, são os menores custos de produção no Brasil, com a mão de obra representando cerca de ¼ dos Custos de Vendas e Serviços da empresa.
Com a produção voltada aos EUA, a Margem Bruta da companhia tende a se aproximar a de suas concorrentes, já que ela vai passar a funcionar com o padrão de “custo de vida” americano. O ponto aqui é que as concorrentes da Taurus têm uma margem média de 23%, o que para a Taurus seria um grande detrator de valor. A cada ano em que a companhia operar com a margem nesse patamar, seu valor justo se deterioraria cerca de 10%, podendo chegar até mesmo aos R$ 2,90 na perpetuidade (ou seja, caso ela decida se mudar para lá de vez).
Nesse ponto, pode surgir a pergunta: “mas não é só a Taurus que está sendo afetada, certo? Como fica o mercado dos EUA com as tarifas nos outros países?”
Vamos a isso agora:
3 - O mercado de armas dos Estados Unidos e os concorrentes
Segundo o último relatório do Departament of Justice dos EUA (publicado em 2025, apresentando números de 2023), cerca de 40% das armas vendidas no país são importadas.
Há uma variação relevante entre produtos: para handguns (pistolas e revólveres), quase 50% são importadas; já para rifles (fuzis e carabinas), 27% são importadas, enquanto para shotguns (espingardas), 62% são importadas.
Os países exportadores mais relevantes, com mais de 1 milhão de unidades/ano, são Turquia (com 10% de tarifa aplicada pelos EUA), Áustria (com 20%, como membro da União Europeia), e o Brasil (com 10%, podendo ir para os 50% em 1 de agosto).
Além da própria importação de armas, o mercado de armas americano pode ser impactado na medida em que as fabricantes do segmento nos Estados Unidos também dependem da importação de peças e componentes para a produção de suas armas.
O exemplo mais representativo disso é a Mec-Gar, empresa italiana reconhecida como a melhor fabricante de carregadores do mundo. Ela é a principal fornecedora para a maior parte das fabricantes norte‑americanas e de empresas de outros países que também possuem fábrica nos EUA, como Smith & Wesson, Ruger, SIG Sauer, Springfield, CZ e Beretta. Um carregador, porém, representa apenas de 3% a 6% do valor de uma pistola, o que faz o aumento de seu valor com a tarifa ser relativamente fácil de ser absorvido.
Partes mais caras como canos (entre 15% e 25% do preço da arma) e ferrolhos (entre 30% e 40%) são importadas por poucos fabricantes. A Beretta, por exemplo, também da Itália, envia canos de lá para sua fábrica no Tennessee, enquanto alguns modelos da Sig Sauer, que possui uma fábrica em New Hampshire, recebem ferrolhos da sua fábrica na Suíça. A tarifa aplicada a União Europeia, assim, também tira parte da competitividade dessas empresas com origem no exterior.
As fabricantes nascidas nos EUA, porém, têm pouquíssima dependência de importação desses componentes mais relevantes. Primeiro, porque os EUA têm domínio industrial da fabricação desse tipo de produto há tempos (o revólver foi inventado lá). Segundo, exigências militares obrigam que armas compradas pelo Department of Defense sejam de conteúdo essencialmente doméstico, o que sustenta a produção local, e o Gun Control Act restringe a importação de componentes críticos, com poucas exceções. Em terceiro, há ainda uma questão de marketing, já que parte do público valoriza produtos “Made in USA”, 100% nacionais.
O impacto nas fabricantes americanas será muito mais por conta das tarifas aplicadas a matérias-primas, como aço e alumínio, com a alíquota atual de 25%. Os custos com matérias-primas e componentes representam cerca de 40% da receita do setor de armas. Dentro desses custos, aço e alumínio representam algo entre 30% e 35%. Porém, nem todo aço e alumínio usados são importados (na verdade, é a menor parte): cerca de 77% do aço acabado nos EUA é produzido internamente, enquanto para o alumínio esse valor é de 53%.
De toda forma, como o preço dos materiais importados sobem, a produção doméstica ganha espaço também para subir o preço. Mesmo considerando isso, estimativas apontam que o efeito sobre o custo de produção das fabricantes dos EUA deve ser por volta de 3%. Ou seja, elas estão em condições muito mais favoráveis para absorver as tarifas do que as estrangeiras, com impactos que vão de 10% a (potencialmente) 50% no preço de venda.
Depois disso, você pode perguntar: “Ok, mas eu não acredito que essas tarifas vão durar por muito tempo. Eu invisto para o longo prazo. Com o que devo me preocupar?”
A resposta para isso é provavelmente a parte mais importante deste relatório. Infelizmente, a perda do principal mercado da empresa, mesmo que por pouco tempo, pode trazer um impacto relevante para a Taurus.
4 - Risco: Quando o curto prazo ofusca o longo
O maior risco de imediato para a companhia está relacionado à forma com que ela se financia. A Taurus, como empresa exportadora, tem a maioria de seus empréstimos na forma de Adiantamentos de Contrato de Câmbio - ACC, também conhecidos como “saques cambiais”.
Esse é um financiamento que funciona basicamente assim: o banco antecipa ao exportador (em reais) o valor que a empresa tem para receber por um contrato já fechado de exportação em moeda estrangeira (nesse caso, o dólar). O exportador usa esses recursos como capital de giro para fabricar e/ou transportar a mercadoria que será embarcada ao exterior. Quando a mercadoria é embarcada e o importador paga, os recursos que a empresa recebe em moeda estrangeira liquidam o financiamento.
Quando o exportador não consegue embarcar a mercadoria dentro dos prazos regulamentares do ACC, o adiantamento perde o status de “financiamento à exportação” e passa a ser tratado como um empréstimo comum em reais. A principal diferença entre os dois está no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras): o ACC tem 0% de alíquota de IOF, enquanto um empréstimo sobre operações de crédito de curto prazo tem alíquota de 0,38%. O risco, porém, não está só nessa “transformação” de ACC em um empréstimo comum, já que ela também não acontece de imediato.
O Banco Central permite prorrogações ou a vinculação do ACC a um novo embarque, mas tudo deve ocorrer dentro do intervalo máximo de 360 dias entre a contratação do câmbio e o embarque, e de 750 dias entre a contratação e a liquidação. Em hipóteses excepcionais, como em casos de recuperação judicial, o limite pode chegar a 1500 dias.
Se o exportador não regularizar nesses prazos, aí o banco pode cancelar o contrato de câmbio e exigir o reembolso imediato do principal acrescido de juros e multa de mora; da diferença cambial entre a taxa originalmente contratada e a cotação à vista na data do cancelamento, e de IOF e demais tributos que passam a incidir (como o IRRF sobre juros). Caso o exportador ainda não reembolse o banco, aí o empréstimo pode ser executado judicialmente e as garantias podem ser acionadas.
Mas o ponto mais importante para ser considerado aqui é outro. E isso vale não apenas para os casos de saques cambiais, mas para a maioria dos empréstimos: as cláusulas restritivas (também chamadas de covenants). Caso a empresa não cumpra tais cláusulas, geralmente relacionadas a índices financeiros, como determinado valor na razão entre Dívida Líquida e Ebitda, o vencimento dos empréstimos pode ser antecipado. No caso da Taurus, a empresa possui um ACC com o banco BTG que prevê o vencimento antecipado caso a razão entre a Dívida Líquida e o Ebitda seja superior a 3x.
No 1T25, esse indicador da Taurus atingiu o patamar de 2,7x (saindo de 1,8x no 4T24). Embora tenha acendido um “alarme”, o principal fator para a empresa ter chegado nesse nível foi um não-recorrente. Ela operou com restrição na fábrica nos EUA por cerca de 40 dias devido a implantação de um novo sistema de gestão (SAP) que busca justamente uma maior integração com a operação do Brasil.
Como a operação dos EUA já havia se normalizado no 2T25, e como não houve impacto do anúncio da elevação da tarifa para 50% nesse período, como cancelamento de compras (já que ela foi anunciada apenas em julho, com entrada em vigor em agosto), tudo leva a crer que esse indicador tenha reduzido novamente, voltando a um patamar mais confortável.
No entanto, caso a tarifa se mantenha a partir de 1 de agosto, ou caso ela seja reduzida, mas apenas para um nível próximo dos 20% (que Trump vem ameaçando se tornar a nova tarifa base para todos os países sem acordo com a Casa Branca), por exemplo, a competitividade da empresa nos EUA fica comprometida.
Para evitar ser impactada de imediato, até agosto a empresa deve fazer o mesmo que outras exportadoras brasileiras vêm fazendo e embarcar o máximo possível de produtos para ter “fôlego” por alguns meses. Dessa forma, o resultado do 3T25 ainda não está completamente afetado, embora possa ficar arriscado, enquanto em caso de continuidade desse cenário o 4T25 em diante já se mostra comprometido.
O resultado do 1T25 funciona como indício. Em 40 dias de restrição nos EUA, com atividades comerciais e de faturamento afetadas, a Margem Ebtida da empresa foi de 20% para 2%. Essa, porém, foi uma parada programada. Ou seja, a empresa se planejou para isso de forma que o impacto fosse o menor possível. No caso da tarifa de 50% sendo anunciada em 15 de julho para entrada em vigor em 1 de agosto, a história é diferente. Repetir um resultado parecido com esse ainda em 2025 pode fazer com que a empresa descumpra seus covenants dentro de 1 ou 2 trimestres.
Isso porque o índice Dívida Líquida/Ebitda é avaliado trimestralmente, levando em conta o Ebitda dos últimos 12 meses. Como o resultado do 1T25 foi reduzido, ele vai impactar na acumulação do Ebitda dos próximos trimestres. Mantendo a mesma proporção de Dívida Bruta e Caixa da companhia, a Margem Ebitda do 2T e do 3T não podem ser inferiores a 10% para o índice permanecer abaixo dos 3x. Porém, esse patamar reduzido no 2T e no 3T levaria a necessidade de, no 4T, a Margem Ebitda se elevar para 22% para compensar as reduções anteriores. Com o mercado dos EUA “aberto” isso é factível, já que há uma sazonalidade positiva no último trimestre com vendas de Black Friday, Natal e início da temporada de caças (no 4T24, a Margem Ebitda foi de 20%). O problema é chegar nesse resultado com as vendas afetadas. Para evitar a necessidade desses sobressaltos, a Margem Ebitda da empresa precisa ficar pelo menos em 14% em todos os trimestres.
Mas, e o que acontece quando a empresa descumpre um covenant?
Geralmente os empréstimos prevêem um “Período de Cura”: um prazo entre 15 e 60 dias para que a companhia apresente uma solução ao banco. Isso pode envolver injeção de capital dos acionistas, venda de ativos para reduzir dívida e depósito de garantias adicionais.
Se a companhia não consegue resolver nesse prazo, aí entra a negociação de um waiver (dispensa) ou uma emenda ao contrato. Para isso, os bancos costumam exigir um aumento nas taxas do empréstimo, redução do prazo do contrato e inclusão de colaterais.
Caso a negociação não avance e a empresa passe o período de cura sem solução, aí a quebra do covenant se torna um evento de inadimplência, de fato. Esse é o chamado “default”.
A partir daí o banco pode solicitar o vencimento antecipado de toda a dívida, executar garantias, suspender novos saques e iniciar a execução judicial, se necessário.
Se o vencimento antecipado da dívida comprometer a continuidade da empresa, e/ou ela não chegar a um consenso com o banco, o caminho acaba sendo a recuperação judicial (RJ).
Nesse ponto, o pagamento da dívida da empresa é suspenso por um tempo. Ela apresenta um plano de reestruturação (com novo cronograma de pagamentos, venda de ativos e entrada de investidores, por exemplo) e os credores votam nesse plano, decidindo se preferem receber de forma renegociada ou através da falência. Se eles votarem a favor, o juiz passa a fiscalizar sua execução, garantindo que a empresa cumpra o que prometeu. Caso o plano seja cumprido, a empresa sai do processo e volta a funcionar normalmente. Se ele for rejeitado ou descumprido, o que resta é a falência.
Como você pode imaginar, porém, uma empresa não precisa chegar nesse ponto para que o preço de sua ação comece a sofrer. A mera iminência do risco de descumprir os covenants já atrai um fluxo de venda para o papel. Quando ela descumpre de fato, a espiral negativa só aumenta e o ativo vira uma montanha-russa: como poucos investidores tendem a se interessar por ações nessa situação, sua liquidez costuma ser reduzida, o que as torna mais suscetíveis a manipulação.
Conclusão
O racional que fundamenta tanto as premissas para o nosso modelo de valuation da Taurus quanto a tese de investimento na empresa é o mercado dos EUA.
Com os EUA como o “ganha pão”, a companhia tinha base para sustentar seu valor justo descontado, enquanto as licitações na Índia, a joint venture na Arábia e o aumento de portfólio com aquisição na Turquia funcionavam como potenciais formas de destravar valor.
Agora, porém, com o mercado dos EUA em risco, a tese fica com um nível de incerteza extremamente elevado, podendo sofrer, inclusive, impactos relevantes de curto prazo, como vimos.
No cenário atual, com a companhia dependendo muito mais de movimentos políticos dos governos brasileiro e americano do que de suas próprias iniciativas, o nível de risco da ação foge do perfil de investimento da nossa carteira.
Levando tudo isso em conta, recomendamos a VENDA de TASA4.
Possíveis questionamentos
Agora, respondendo algumas perguntas que possam surgir depois de você, assinante, ler o relatório:
Vamos vender agora que a ação está no “fundo do poço” e já estou com XX% de prejuízo?
Vale lembrar que no fundo do poço ainda tem um alçapão. O preço da ação pode sofrer ainda mais dependendo de como o cenário se desenrolar. Supondo que a empresa passe a operar com sua produção totalmente nos EUA, como vimos, e nível de rentabilidade similar ao de suas concorrentes locais, seu valor justo vai para R$ 2,90. Ou seja, ainda há espaço para cair.
Embora o prejuízo percentual em uma ação específica afete o bolso e o emocional de todos nós, investidores, é importante analisar o contexto da carteira como um todo. É nela que o resultado realmente acontece, porque perdas podem ser compensadas por ganhos em outros papéis. Quando você distribui o capital entre empresas diferentes diversificando da forma correta, você diminui o risco específico, ou seja, de eventuais problemas que afetam apenas uma companhia (como foi o caso em Taurus) e que na maioria das vezes não pode ser previsto nem controlado. Olhando para a carteira, você passa a lidar com o risco de mercado, reduzindo oscilações extremas e aumentando a probabilidade de capturar o prêmio de longo prazo das ações.
E se o Trump cancelar a tarifa de 50% mês que vem?
Se ele cancelar, e a tarifa voltar aos 10%, a competitividade da empresa ainda se mantém. Provavelmente a empresa continuará com sua maior produção no Brasil, mas começará a aumentar de forma gradual sua fabricação nos EUA como forma de diluição de risco no longo prazo. Afinal, Trump ainda tem mais de 3 anos de governo pela frente.
Já com tarifas superiores é muito provável que a empresa passe a perder mercado, dado que sua diferença de preço para os fabricantes locais, primeira escolha do público dos EUA, perde atratividade.
De toda forma, como vimos, ainda há a investigação do USTR contra o Brasil. Ela abre a porta para contramedidas setoriais, ou seja, diferente da “tarifa básica”, será possível aplicar sobretaxas específicas ou quotas por produto. O USTR tem até 12 meses para concluir se as práticas brasileiras são “injustificáveis” e recomendar medidas. Esse processo pode adicionar assim um “risco recorrente” por 1 ano: cada movimento do USTR pode virar gatilho de volatilidade para empresas expostas aos EUA.
E como ficam as ações recomendadas?
Com todas essas mudanças, a carteira está de cara nova!
Na prática, o que houve foi a saída de Taurus sem que outra ação entrasse em seu lugar. Já as demais ações aumentaram suas posições proporcionalmente. Para facilitar, basta conferir como ficam as novas distribuições após a atualização na tabela abaixo:
Abraços,
Time VAROS.
Sobre os analistas
Vanessa Naissinger
Analista de Investimentos
Formada em Administração pela Universidade Feevale, Vanessa iniciou sua carreira no time de experiência do cliente da XP Inc. e atualmente é analista de ações CNPI na VAROS Research, especializada em empresas dos setores de energia elétrica e saneamento básico.
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Varos é uma casa de análise credenciada pela APIMEC, e liderada pelo Leandro Siqueira, especialista em ações e Valuation.