Um relato sobre os acontecimentos no cenário político e econômico do Brasil e dos EUA, que deram o direcionamento para a renda variável brasileira.
Relatório Mensal de abril de 2025
Escrito por Vanessa Naissinger em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
A visão do nosso time sobre as ações que tiveram algum destaque em nossa carteira.
Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
Macro
No mês de abril, os mercados globais seguiram voláteis, muito influenciados pelas incertezas em relação aos próximos passos da política comercial dos EUA. No Brasil, apesar de uma leve piora na percepção fiscal, o fluxo positivo de capital externo e a resiliência de setores domésticos sustentaram o bom desempenho da Bolsa.
O clima nos mercados globais foi marcado por uma forte volatilidade e um aumento expressivo na aversão ao risco. Esse cenário se deu diante das políticas comerciais dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump — um personagem que, mais uma vez, reacendeu tensões com o resto do mundo.
No dia 2 de abril, o presidente Trump anunciou a aplicação de tarifas “recíprocas” sobre importações de mais de 60 países — incluindo aliados históricos dos EUA. As alíquotas começaram em 10%, mas chegaram a 25% em setores estratégicos, como o automotivo. O pacote, rapidamente apelidado de “tarifaço”, acendeu o alerta nos mercados.
O resultado? Uma reação em cadeia.
No dia seguinte ao anúncio, os principais índices acionários globais entraram em queda, com os investidores temendo que o encarecimento das importações aumentasse a inflação nos EUA e provocasse uma desaceleração do comércio internacional.
Com isso, voltamos ao clássico movimento de “fuga para a segurança”: ativos considerados seguros dispararam, como o ouro, — que chegou a ser cotado próximo de US$ 3.500 por onça troy (equivalente a 31,1034768 gramas), um patamar histórico.
Enquanto isso, os mercados de ações sentiram o baque. Nos EUA, o S&P 500 devolveu os ganhos acumulados no início do ano e terminou abril com uma queda de 0,76%, após já ter recuado 5,75% em março. Na Europa e nos mercados emergentes, o padrão se repetiu: as bolsas recuaram e o fluxo de capital estrangeiro se inverteu, marcando um mês de saídas expressivas.
Nesse ambiente de incertezas, o Federal Reserve optou por cautela. Após interromper o ciclo de cortes de juros em março, para reavaliar o comportamento da inflação e da atividade econômica, o FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto) decidiu manter a taxa básica de juros na faixa entre 4,25% e 4,50%.
No dia 16, o presidente do Fed, Jerome Powell, reforçou a mensagem: a instituição seguirá em compasso de espera. Segundo ele, o momento exige paciência e uma leitura mais clara dos indicadores econômicos, antes de qualquer novo movimento nos juros.
Powell foi direto ao ponto: as novas tarifas comerciais implementadas pelo governo Trump colocam o Federal Reserve diante de um dilema clássico de política monetária.
De um lado, ao taxar produtos importados, essas medidas aumentam os preços no varejo americano, pressionando ainda mais uma inflação que já se encontra acima da meta. De outro, o encarecimento dos insumos e a perda de competitividade podem desacelerar a economia, enfraquecendo o crescimento e afetando o mercado de trabalho.
Diante desse impasse, a decisão do FED foi preservar a taxa de juros inalterada no curto prazo. A ideia é ganhar tempo para avaliar os próximos passos com mais visibilidade.
E, de fato, os dados econômicos divulgados em abril só reforçam esse cenário complexo.
O PIB dos Estados Unidos no primeiro trimestre apresentou uma contração anualizada de 0,3%. Parte dessa queda está ligada a um comportamento atípico das empresas americanas no início do ano. Temendo o avanço do chamado “tarifaço”, muitas delas anteciparam importações, o que inflou artificialmente os investimentos e os estoques.
O efeito colateral disso já é conhecido; passada essa frente de compras, a demanda interna tende a arrefecer nos trimestres seguintes.
Na frente inflacionária, os números também preocupam. O índice PCE teve alta de 2,6% ao ano em março (no núcleo), levemente abaixo dos 3% registrados em fevereiro, mas ainda acima da meta de 2%.
Além disso, as expectativas de inflação de curto prazo, por parte dos consumidores, dispararam para o maior nível desde 1981, refletindo o receio de que os novos impostos sobre importados acabem sendo repassados integralmente aos consumidores finais. No mercado de trabalho, apesar do ambiente desafiador, os sinais são mistos. Foram gerados 228 mil postos formais em março, superando as projeções iniciais. Por outro lado, a taxa de desemprego teve leve alta, passando de 4,1% para 4,2%. Essa combinação sugere que, embora ainda haja fôlego no mercado, o ritmo de contratações está desacelerando — um cenário compatível com a projeção do próprio Powell, que prevê um afastamento gradual do pleno emprego ao longo do ano, como efeito indireto dos choques comerciais.
Um ponto positivo é que, na segunda metade de abril, o sentimento global teve alguma melhora, após ajustes nas medidas comerciais. Após críticas generalizadas, o governo dos Estados Unidos passou a recalibrar parte de suas medidas. Em 8 de abril, foram anunciadas flexibilizações nas tarifas aplicadas às montadoras estrangeiras. Poucos dias depois, a Casa Branca suspendeu por 90 dias a aplicação de tarifas adicionais para países aliados, mantendo, de imediato, apenas as sanções voltadas à China.
Esses ajustes foram bem recebidos pelos mercados e contribuíram para reduzir a volatilidade nas semanas finais de abril.
Com a perspectiva de retomada das negociações, é possível haver avanço em acordos bilaterais; investidores voltaram gradualmente a assumir posições de risco, especialmente, em mercados que haviam sido penalizados de forma exagerada.
Houve, inclusive, uma realocação global de recursos. Parte do capital que havia deixado a Bolsa americana foi direcionada para ativos na Europa, na Ásia e em países emergentes — entre eles, Brasil e México —, vistos como descontados diante do novo cenário.
Esse movimento de cautela seletiva foi acompanhado por revisões nas projeções de crescimento. Tanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto a agência Fitch cortaram suas estimativas: esta última, inclusive, passou a projetar um crescimento global de apenas 1,9% para 2025, com a inflação dos EUA atingindo 4,3% no ano. Esses números ajudaram a consolidar o diagnóstico de que o cenário global, embora ainda resiliente em alguns segmentos, inspira prudência.
Assim, abril ficou marcado por um ambiente externo volátil, com a política monetária em compasso de espera nos principais bancos centrais e mercados altamente sensíveis a notícias e rumores. As oscilações foram intensas, guiadas pelas expectativas em torno do comércio internacional e pelas preocupações com o risco de recessão dos EUA.
Esse pano de fundo internacional também repercutiu diretamente no Brasil. No início do mês, a aversão ao risco global levou à retirada de capital estrangeiro da Bolsa brasileira. Entretanto, à medida que o temor sistêmico foi substituído por uma leitura mais diferenciada, o Brasil passou a ser visto com outros olhos.
Com uma economia mais fechada e forte presença no setor de commodities agrícolas — que podem se beneficiar do reposicionamento das compras chinesas —, o país passou a ser citado por gestores como um possível “ganhador” do conflito tarifário.
Os preços descontados de ativos brasileiros, ao fim de 2024, também contribuíram: com múltiplos considerados atrativos, investidores globais voltaram a olhar com interesse para a B3.
Esse fluxo de saída e o posterior retorno parcial ajudam a explicar o comportamento do IBOVESPA ao longo de abril.
No cenário macro brasileiro, a conjuntura macroeconômica, em abril de 2025, apresentou melhora gradual, apesar dos riscos fiscais, da inflação acima da meta e da influência do quadro externo.
No campo da política monetária, o Banco Central manteve uma comunicação conservadora, destacando que a inflação ainda exige vigilância. Mas também sinalizou que os próximos ajustes de juros podem ser menores, se houver confirmação de desaceleração inflacionária.
A prévia da inflação de abril de 2025, medida pelo IPCA-15 e divulgada pelo IBGE, trouxe um alívio, ainda que modesto, no compasso dos preços. A alta registrada foi de 0,43% em relação a março, desacelerando frente ao avanço de 0,64% observado em fevereiro. No acumulado de 12 meses, o índice atingiu 5,49%, mantendo-se acima do teto da meta oficial de inflação (3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo).
Os vilões da vez foram dois grupos bem conhecidos do consumidor: Alimentação e Bebidas (+1,14%, contribuindo com 0,25 p.p.) e Saúde e Cuidados Pessoais (+0,96%, com impacto de 0,13 p.p.). Juntos, esses dois segmentos foram responsáveis por 88% da inflação do mês.
Em resumo, a inflação segue pressionada no acumulado do ano, mas o movimento mensal dá sinais de que o ritmo pode estar, aos poucos, perdendo força.
A autoridade monetária deixou claro que os juros devem permanecer em patamar elevado por um período prolongado, possivelmente estendendo o ciclo contracionista até o fim do ano e postergando cortes para 2026.
Essa postura firme, considerada necessária para trazer a inflação para a meta, tem efeitos mistos: por um lado, suporta a credibilidade da política econômica e mantém o real relativamente valorizado; por outro, encarece o crédito e modera a atividade econômica.
Ainda assim, a comunicação do BC foi recebida como um sinal positivo pelo mercado de capitais, pois a estabilização dos juros próximos do pico reduz a incerteza para empresas e investidores.
O Boletim Focus do início de abril, por exemplo, projetou a Selic em 15%, no fim de 2025, e IPCA em torno de 5,6%, mantendo juros reais muito elevados – ou seja, espera-se que o BC segure a taxa no nível alto atual por vários trimestres, o que tem atraído fluxos para renda fixa e mantido o diferencial de juros a favor do Brasil.
Na política fiscal, abril expôs tanto esforços de ajuste quanto desafios de longo prazo. O Governo Federal enviou ao Congresso o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, no qual alertou para o risco de colapso fiscal em 2027, caso medidas não sejam adotadas.
Mesmo após os cortes de gastos aprovados em 2024, as projeções oficiais mostram despesas obrigatórias crescendo de R$ 2,29 trilhões, em 2026, para R$ 2,53 trilhões, em 2027, e quase R$ 3 trilhões, em 2029. O governo fixou na LDO a meta de um pequeno superávit primário de 0,25% do PIB (podendo chegar a 0,5% se possível) em 2026; mas a mensagem foi clara: sem reformas adicionais, faltará dinheiro para honrar despesas em 2027.
Essa admissão reforçou a percepção de risco fiscal estrutural, preocupando investidores. Adicionalmente, observou-se continuação de políticas de estímulo parafiscal, como crédito de bancos públicos e incentivos para sustentar a demanda, o que alguns analistas acreditam que pode pressionar ainda mais a dívida pública.
Em suma, a credibilidade fiscal brasileira segue em foco: embora o país venha cumprindo metas de curto prazo, as incertezas sobre a trajetória da dívida e do déficit nos próximos anos permanecem. Esse fator doméstico ajudou a moderar o apetite dos estrangeiros pela Bolsa em abril.
Diante de um cenário de atividade surpreendendo positivamente, a inflação ainda alta, mas tendendo à queda e juros estáveis no pico, o mercado financeiro local teve desempenho expressivo em abril.
O IBOVESPA, principal índice acionário brasileiro, estendeu a recuperação iniciada em março. Após disparar +6,08% em março, o índice acumulou alta de 3,69% em abril, fechando o mês próximo de 135 mil pontos. Houve uma sequência de sete pregões seguidos de valorização até 28 de abril, impulsionando o IBOVESPA dos ~128 mil pontos em meados do mês para cerca de 136 mil pontos no pico. Com isso, a Bolsa praticamente anulou as perdas que sofreu no final do ano passado e fechou abril com alta de 12,3%.
Destaques da carteira
Agora, falaremos de alguns ativos em particular. Nesta seção, vamos focar nos assuntos mais importantes, que repercutiram em alguns ativos das nossas carteiras, no mês de abril.
Bradesco (BBDC4)
Em abril, as ações preferenciais do Bradesco (BBDC4) subiram 10,48%, tornando-se um dos maiores destaques da nossa carteira no mês. Com esse desempenho, o papel acumula alta de 24,86%, em 2025, refletindo um movimento de reprecificação - que, na nossa visão, já começa a capturar os sinais mais consistentes de recuperação estrutural do banco.
Embora o mês tenha sido relativamente silencioso, em termos de fatos relevantes ou novos comunicados por parte da companhia, acreditamos que essa valorização pode ser explicada por três fatores principais: continuidade da virada operacional (turnaround), força dos resultados do 4T24 (que foram ainda melhores no 1T25) e do guidance para 2025, além de um cenário macro mais favorável aos grandes bancos no atual ciclo de juros.
Do lado dos investidores, parece claro que parte do mercado institucional esteja revisitando suas posições no Bradesco — agora, com mais otimismo. Depois de um longo período de desconfiança, a percepção é de que o banco caminha com mais firmeza rumo à normalização da rentabilidade. Mesmo após a alta recente, a nossa visão é que o preço de tela ainda não reflete totalmente o potencial de geração de resultados da companhia - especialmente considerando que, em 2025, o ROE deve se aproximar de 14% e o Dividend Yield pode atingir 10%.
Além disso, os números do 4T24 continuaram reverberando positivamente em abril. O banco entregou crescimento forte da margem financeira líquida, queda da inadimplência e avanço em áreas-chave, como seguros, crédito colateralizado e capitalização. A gestão também tem se mostrado alinhada, com o CEO Marcelo Noronha reafirmando o compromisso com a reestruturação até 2028 e sinalizando ganhos de eficiência e digitalização ao longo do caminho.
Por fim, o cenário macroeconômico ajudou. A queda da taxa de juros de longo prazo, que passou de cerca de 15% no início do ano para 14,5% em maio, favorecendo o apetite por ações — especialmente, em Papeis com bom potencial de retorno e ainda negociados a múltiplos deprimidos, como o BBDC4.
Em resumo, a alta de abril reforça nossa visão de que o pessimismo com o Bradesco começa a ficar para trás. A ação ainda negocia com desconto frente aos pares, mesmo com os indicadores de rentabilidade em clara recuperação. Seguimos com a recomendação de COMPRA, com preço-justo de R$ 17,66 e TIR estimada de 18,9%. A assimetria permanece!
Sanepar (SAPR11)
A Sanepar foi um dos destaques da carteira no mês de abril, com as ações SAPR11 acumulando uma alta de 1,55%. O desempenho foi positivo, mesmo com a definição do reajuste tarifário da 3ª Revisão Tarifária Periódica (RTP) pela Agepar vindo abaixo do que o mercado esperava. O reajuste aprovado foi de 3,7753% para o ciclo 2025-2028, com vigência a partir de 17 de maio de 2025, enquanto nossa estimativa era de algo em torno de 5,6%, caso o plano de investimentos da própria empresa tivesse sido considerado na íntegra. A Agepar levou em conta um volume de investimentos de cerca de R$ 6,8 bilhões, enquanto o guidance da Sanepar projeta R$ 9,3 bilhões para o período. Mesmo assim, as ações mostraram força e fecharam o mês em alta.
A valorização foi acontecendo de forma consistente ao longo de abril. Em nossa visão, isso ocorreu porque o mercado começou a enxergar de forma mais clara o valor do precatório dentro da empresa. A Sanepar divulgou um fato relevante informando que foi aprovado o registro contábil da receita ligada a esse precatório. Apesar de ainda não haver uma data certa para o recebimento dos recursos, nem uma decisão da Agepar sobre um possível compartilhamento de parte do valor com os usuários, o registro já impactou positivamente os resultados da companhia no primeiro trimestre.
Esse reconhecimento aumentou o lucro líquido (falamos em detalhes sobre o resultado por aqui) e pode abrir espaço para uma distribuição extraordinária de dividendos. A expectativa de um reforço nos resultados e a possibilidade de um retorno extra para os acionistas acabaram ajudando no bom desempenho das ações no mês.
Para completar, ao final do mês, a Sanepar anunciou a data de pagamento dos Juros sobre Capital Próprio (JCP) referentes ao 1º e ao 2º semestres de 2024, programado para o dia 26 de junho de 2025. O JCP do 1S24 teve como data de corte o dia 1º de julho de 2024, enquanto o do 2S24 considerou os investidores com posição em 2 de janeiro de 2025.
Taurus (TASA4)
A Taurus recebeu, em 22 de abril, a visita da comitiva da Military Industry Corporation (MIC), da Arábia Saudita. A MIC fabrica armamentos (fuzis H&K e AK e submetralhadora H&K), munições diversas (do calibre 5,56mm `as munições de morteiro e artilharia), bombas de uso geral, veículos blindados e caminhões militares, desenvolvendo o arsenal militar da Arábia Saudita, por meio de transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento.
A visita se enquadra no contexto das tratativas entre a Taurus e a Arábia Saudita para a realização da joint venture no país, com a SCOPA Military Industries. Entretanto, segundo a LRCA Defense Consulting, devido à tensa situação geopolítica no Oriente Médio e as dificuldades da Arábia para continuar a fabricação de armas de origem europeia, especula-se que o país tenha certa urgência em substituir e padronizar o armamento leve de suas forças armadas, o que poderia levar à necessidade de importações imediatas, já que a produção de armas da Taurus no país, caso seja concretizada, demandaria certo tempo até ser operacionalizada.
Kepler Weber (KEPL3)
A Kepler reportou seus resultados referentes ao 1T25 no dia 29 de abril.
Assim como no trimestre passado, o cenário desafiador é composto por três fatores críticos: quebra de safra, queda nos preços da soja e elevação das taxas de juros, impactando os clientes da companhia. Nesse contexto, a Kepler teve uma Receita Líquida de R$ 357,2 milhões, 6,1% menor do que a do 1T24.
A Receita Líquida aumentou em Negócios Internacionais, com crescimento de 5,3%, e em Reposição e Serviços, em 28,6%. O segmento de Fazendas manteve estabilidade e o de Agroindústrias apresentou uma leve redução de 4,9% - ambos mais expostos à sensibilidade do crédito. Já o de Portos e o de Terminais registraram retração de 77,2%, considerando a natureza cíclica dos projetos de maior porte e longa execução.
A redução dos preços de venda, reflexo principalmente da retração nos preços praticados no mercado atual (que se mostra mais competitivo), foi a principal detratora das margens da empresa. A Margem Bruta atingiu 23,8% (8,3 p.p. vs 1T24), enquanto a Margem EBIT foi de 12,1% (-9,1 p.p.) e a Margem Líquida de 7,2% (-6,6 p.p.).
O segundo trimestre ainda deve ser desafiador; porém, para o segundo semestre, a empresa espera uma retomada de rentabilidade, dada a expectativa de safra recorde e pela recuperação da renda do produtor.
Há ainda outras novidades positivas. A Kepler firmou seu maior contrato dos últimos cinco anos para uma usina de etanol de milho, sobre a qual anunciará mais detalhes neste mês. A Procer fez uma parceria para ampliar seu acesso a soluções financeiras com a XP. Agora, ela passará a disponibilizar a seus clientes ferramentas de proteção de preço (hedge), como travas de soja futura, câmbio e outros instrumentos financeiros, além de seguros, consórcios e linhas de crédito. Além disso, a empresa espera saltar seu faturamento na Argentina de R$ 5 milhões, em 2024, para mais de R$ 20 milhões, em 2025.
Banco BMG (BMGB4)
Ao longo de abril, o Banco BMG (BMGB4) adquiriu os 40% remanescentes da BMG Seguradora, pertencentes à Phoenix One Participações, passando a deter 100% do capital social da companhia. A transação, realizada por R$ 63,9 milhões, reforça o compromisso do banco com a vertical de seguros, ampliando seu controle sobre uma operação rentável.
Com base no balanço, o valor total implícito da seguradora foi de R$ 127,3 milhões, o que representa um ágio de 25,5% sobre o valor contábil. Ainda assim, o negócio se mostra atrativo: a seguradora reportou um lucro líquido de R$ 79,9 milhões, em 2024 - o que implica em um múltiplo P/L de apenas 2x. Dado o preço pago e a geração de resultado, é razoável esperar que a operação contribua positivamente para o ROE do BMG nos próximos trimestres.
A aquisição está alinhada à estratégia do banco de fortalecer sua atuação em seguros no varejo, com foco em inclusão securitária e sinergia com a oferta de crédito. A conclusão está sujeita à aprovação da SUSEP e do CADE.
Em paralelo, a agência Moody’s elevou a perspectiva do rating do banco de negativa para estável, mantendo a nota em B1. A revisão reflete a melhoria na rentabilidade e o avanço no reposicionamento estratégico, iniciado em 2023, com foco em produtos de menor risco e maior eficiência operacional.
SLC Agrícola (SLCE3)
Em abril, a SLC Agrícola (SCLE3) anunciou ao mercado a aprovação do pagamento de dividendos referentes ao exercício de 2024, conforme deliberação tomada na Assembleia, realizada em 29 de abril. O montante total a ser distribuído será de R$ 241 milhões, o equivalente a 50% do lucro líquido ajustado da controladora, com valor por ação ordinária de R$ 0,54632738, desconsiderando as ações em tesouraria.
Os dividendos tiveram como data-base o dia 5 de maio, sendo que, a partir de 6 de maio, as ações passaram a ser negociadas como “ex-dividendos”. O pagamento ocorreu em 15 de maio de 2025, com os valores sendo creditados diretamente nas contas correntes dos acionistas com cadastro atualizado junto ao Itaú Corretora de Valores. Para aqueles com dados bancários incompletos ou desatualizados, os dividendos serão liberados após a regularização do cadastro.
A decisão de distribuir metade do lucro líquido ajustado em dividendos reafirma o compromisso da companhia com a remuneração ao acionista, mantendo uma política consistente, mesmo em um cenário de elevado investimento, como evidenciado pelas aquisições relevantes realizadas em março. O pagamento também reforça a solidez financeira da empresa, permitindo retorno de capital aos investidores sem comprometer sua capacidade de crescimento.
Banco do Brasil (BBAS3)
O Banco do Brasil (BBAS3) divulgou um lucro líquido de R$ 7,4 bilhões no primeiro trimestre de 2025, uma queda de 20% em relação ao mesmo período de 2024, frustrando o mercado e causando uma queda de cerca de 13% nas ações no dia seguinte.
O primeiro motivo por trás do resultado fraco foi uma mudança contábil importante com a adoção da nova norma (resolução 4966), que tornou o modelo de provisão mais preventivo: agora, os bancos precisam calcular o risco de calote no momento da concessão do crédito, e não mais apenas quando o cliente começa a atrasar.
Isso exigiu mais provisões tanto para novos empréstimos quanto para os antigos, pressionando o resultado. A consequência foi a redução do ativo e do patrimônio líquido do banco, afetando também o índice de Basileia, o que limita a capacidade de concessão de crédito.
O segundo e principal motivo foi o aumento da inadimplência. O índice de NPL (empréstimos que não estão sendo pagos) subiu de 3,3% para 3,9%, puxado especialmente pelo agronegócio, onde a inadimplência passou de 2,45% para 3,04%. Isso elevou a necessidade de provisões para calotes futuros (PDD), que cresceram quase 20% e atingiram R$ 10,2 bilhões.
O Banco do Brasil é o principal impulsionador do agronegócio brasileiro. Sem entrar em muitos detalhes, a maior parte dos recursos públicos destinados ao financiamento do setor chega até os produtores por meio desse banco.
Essa posição sempre foi uma vantagem competitiva para o Banco do Brasil, especialmente porque o agronegócio historicamente apresenta uma inadimplência muito baixa.
Mas o ano de 2024 foi difícil para o agronegócio: o clima adverso, a queda nos preços das commodities e os juros altos aumentaram a inadimplência dos produtores, especialmente entre os pequenos, que são a maioria na carteira do Banco do Brasil.
A inadimplência no setor quase dobrou em 2024, passando de 1,19% para 2,45%. Mesmo assim, o lucro do banco não sofreu tanto impacto, pois ele utilizou uma reserva já constituída, chamada “índice de cobertura”. No entanto, essa reserva caiu significativamente ao longo do ano, de 198% para 134,5%.
No primeiro trimestre de 2025, a inadimplência no agronegócio continuou aumentando. Como o Banco do Brasil já tinha utilizado a reserva de proteção, precisou fazer novas provisões de uma vez só — o que impactou negativamente o lucro.
Sobre o governo, até o momento, ele não é responsável direto pelo prejuízo no setor. O Banco do Brasil sempre foi o principal canal de crédito para o agronegócio, independentemente da administração.
No entanto, há um alerta: o banco tem sido um dos maiores emissores de empréstimos na nova modalidade de consignado privado, que ainda carece de regras claras sobre garantias em caso de inadimplência. Isso pode representar um risco de aumento da inadimplência no futuro.
Agora vem a pergunta mais importante: ainda vale a pena comprar Banco do Brasil?
Atualizamos o modelo considerando um cenário extremamente pessimista, com margens muito baixas e retorno quase suficiente apenas para cobrir o custo de capital. Mesmo assim, o valor da ação chegaria a cerca de R$ 30,12, indicando um potencial de alta de 17,4% em relação ao preço atual.
Mais relevante que o potencial de valorização é a taxa interna de retorno (TIR), que está em 20,2% ao ano. Ou seja, mesmo nesse cenário pessimista, quem comprar a ação agora pode esperar um retorno médio anual bastante atrativo para um banco considerado seguro como o BB. Nesse sentido, mantemos a nossa recomendação de COMPRA para BBAS3.
Conclusão
Apesar dos ventos contrários no cenário internacional e da persistente incerteza fiscal no Brasil, abril mostrou que há espaço para otimismo, ainda que cauteloso. A reação dos mercados à mudanças nas medidas comerciais dos EUA, além da força da economia brasileira, mostraram que, mesmo com tanta incerteza no ar, sempre surgem boas chances para quem segue firme e pensando no longo prazo.
A valorização consistente do IBOVESPA e o retorno gradual do investidor estrangeiro demonstram confiança na capacidade de adaptação da economia brasileira. Os sinais de desaceleração da inflação e a estabilidade da política monetária criam um ambiente mais previsível, favorecendo o planejamento e o investimento.
Seguimos atentos aos riscos, mas o mês reforçou uma lição importante: quem tem paciência, disciplina e foco no longo prazo, costuma sair na frente.
Antes de encerrar o relatório, gostaríamos de fazer uma sugestão, não deixe de acompanhar nossos posts na comunidade do Circle, lá conseguimos ser ágeis nas explicações sobre os movimentos do mercado (link).
Abraços,
Time VAROS.
Sobre os analistas
Vanessa Naissinger
Analista de Investimentos
Formada em Administração pela Universidade Feevale, Vanessa iniciou sua carreira no time de experiência do cliente da XP Inc. e atualmente é analista de ações CNPI na VAROS Research, especializada em empresas dos setores de energia elétrica e saneamento básico.