Antes de entrarmos na recomendação, uma explicação rápida: Quando você aplica em uma debênture incentivada, está emprestando dinheiro para alguma companhia fazer investimentos em infraestrutura. Dado que essa frente tem relevância para o país, esses papéis são isentos de Imposto de Renda.
A Lei 12.431, de 2011, diz que os benefícios das debêntures também valem quando elas são compradas por um fundo, desde que o gestor obedeça aos percentuais mínimos de concentração no papel (livre nos primeiros seis meses, de 67% até dois anos e de 85% a partir de então).
Recomendado: Kinea Infra (KDIF11)
1. Por que o Kinea Infra, e não outro fundo de debêntures?
Casamento entre ativo e passivo: o número de fundos de debêntures incentivadas se multiplicou nos últimos anos, com várias gestoras criando suas próprias versões. A maior parte delas padece, entretanto, de um risco sério: o descasamento entre ativo e passivo.
Ainda que as debêntures isentas tenham cada vez mais liquidez, elas em geral são títulos com vencimento em de sete a dez anos. A maior parte desses fundos, por sua vez, promete pagamento de resgate em 30 a 60 dias. Em um momento de muitos resgates, o gestor vai conseguir vender com facilidade esses papéis pra honrar com sua obrigação?
Tenho dito que esse é um risco há algum tempo, e ele se provou verdadeiro nos últimos meses, quando esses papéis sofreram com o ajuste para cima nos juros esperados pelo mercado. Como as debêntures pagam uma taxa prefixada mais a variação da inflação, elas sofrem uma dinâmica parecida com a das NTN-Bs: perdem valor em momentos como este (e isso é muito importante você saber: esses papéis somam risco de crédito e de mercado!).
Resultado: muitos investidores pediram resgates dos fundos. Muitos querendo vender e poucos querendo comprar com velocidade, você já sabe: os preços foram derrubados e houve prejuízos pra esse tipo de produto.
Daí vem a primeira vantagem do fundo da Kinea: depois do período de captação de recursos, as entradas e saídas são feitas por meio de negociação em Bolsa. Ou seja, a cota muda de mão, mas o gestor não é obrigado a vender os papéis. Ele não precisa realizar um prejuízo em momentos de estresse como os demais. A estrutura foi feita exatamente com este objetivo: evitar o descasamento entre ativo e passivo.
Qualidade da gestão: o ponto acima é decisivo para a recomendação, mas não suficiente. Quando o assunto é crédito, a cautela deve ser redobrada. E aí entra a qualidade da Kinea. Como um braço independente do Itaú, a casa é conservadora na seleção: um caso de inadimplência na carteira traria risco de imagem relevante para o grupo.
O gestor do fundo, Aymar Almeida, tem mais 20 anos de experiência em gestão e trabalha na Kinea desde a sua criação, em 2007. Já foi gestor da Franklin Templeton e da BankBoston Asset Management. Ele é engenheiro pela Universidade de São Paulo (USP) e tem MBA pela Universidade de Michigan.
As conversas com Aymar mostram seu conhecimento profundo do mercado de crédito, sua experiência com o dia a dia das companhias (graças a uma experiência também em renda variável) e sua preocupação com o risco dos papéis.
Proteção contra um eventual fim da isenção: vez ou outra pipocam notícias sobre o término da isenção de Imposto de Renda para as debêntures de infraestrutura. Especialistas nesse mercado acreditam que, caso isso aconteça, o estoque seja preservado, ou seja, mantenha a isenção. Apenas as novas emissões vão pagar IR. É também essa a aposta de Aymar.
Pelo sim, pelo não, a Kinea aproveita seu poder de barganha, graças à negociação de grandes volumes de papéis, para proteger alguns deles de uma eventual perda de isenção.
Para cerca de metade dos papéis no portfólio, segundo Aymar, existe uma cláusula que define que, caso a isenção do estoque caia por uma mudança na legislação, a empresa emissora é obrigada a aumentar o prêmio para que o investidor ganhe exatamente o mesmo que levaria se houvesse a isenção (o que o mercado chama de "fazer gross-up", ou seja, embutir os impostos).
O cenário em que a isenção cai e o estoque é preservado é, na verdade, uma oportunidade de ganhos relevantes para esse tipo de fundo na visão de Aymar. As debêntures isentas vão se tornar raridade. "Nosso estoque vira ouro", disse o gestor pra mim.
Ou seja, o fundo da Kinea é uma forma de se expor a essa possibilidade de ganho de forma conservadora, já que ele está mais protegido do que os demais do mercado de um risco bastante esdrúxulo, da queda da isenção para papéis já emitidos.
Só para deixar você mais bem informado sobre o tema, acima dos rumores de mercado: o projeto de lei em discussão no momento mantém a isenção dos papéis atuais e cria outro tipo de isenção para atrair também os fundos de pensão como investidores. Hoje a ausência de imposto não brilha aos olhos de seus gestores porque os fundos de pensão já são isentos por natureza em seus investimentos.
A proposta é criar um título em que a isenção seja aplicada na companhia emissora, a fim de que os fundos de pensão também possam se aproveitar dela. Para Aymar, se essa proposta for adiante, ela em nada afeta os papéis em portfólio e cria mais uma opção a ser comprada no caixa do fundo (os 15% que não são obrigatoriamente destinados às debêntures isentas).
Prêmio relevante: como estamos falando de risco de crédito, devemos comparar os papéis que recheiam o fundo da Kinea com os títulos públicos indexados à inflação de prazo equivalente. Só vale a pena investir no fundo se ele render uma boa gordura acima dos papéis soberanos.
É o que vemos no momento. O retorno do portfólio está em por volta de IPCA + 7,81%. Descontada a taxa de administração do fundo, de 1,13%, o retorno fica em por volta de IPCA + 6,68% – bom lembrar, isento de imposto.
O retorno representa um spread acima do IMA-B - índice de referencia para o fundo - de mais ou menos 1,76% no fechamento de outubro/2022. Ou seja, o gestor consegue gerar um prêmio significativo sobre o seu benchmark.
Soma-se a isso o fato de que a equipe da Kinea foi bastante cautelosa em seus investimentos nos últimos meses, enquanto boa parte do mercado topava taxas espremidas. Agora, ela vai a mercado com dinheiro em caixa quando os demais estão desesperados para vender.
Últimos detalhes...
Até pouco tempo atrás, para colocar de pé e oferecer um fundo de infra listado em Bolsa, as gestoras só tinham a opção de estruturar o produto como um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), o que obrigatoriamente tornava a aplicação restrita a investidores qualificados, que declaram ter mais de R$ 1 milhão em investimentos financeiros.
A regulamentação em 2019 pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dos Fundos Incentivados de Investimento em Infraestrutura, conhecidos como FI-Infra, e o aval no ano passado da B3 para listar esses fundos em Bolsa, acabaram com as amarras e tornaram o produto acessível ao público geral.
Hoje, os fundos de infraestrutura listados já podem, na largada, se estruturar como um FI-Infra e ser oferecidos ao público do varejo. No caso do KDIF11, como era mais antigo, o gestor teve de chamar uma assembleia de cotistas para aprovar a alteração do regulamento e transformá-lo em um FI-Infra. A virada de dele aconteceu no dia 17 de novembro de 2021.
O fundo aproveitou ainda a mesma assembleia para alterar a periodicidade do pagamento de dividendos de semestral para mensal.
Como um produto com característica de renda, os gestores optaram pela mudança para oferecer mais um atrativo para a pessoa física. O KDIF11 têm uma carteira diversificada e madura de ativos que, segundo o gestor, permitem organizar os fluxos de pagamento de juros das debêntures de infra – que têm periodicidade semestral –, de modo que haja caixa suficiente para a distribuição mensal dos dividendos.
Além de adotar a periodicidade mensal, o KDIF11 ainda se comprometeu a distribuir, além dos juros, a variação do IPCA. Só pra ficar claro: as debêntures de infra costumam pagar apenas juros semestrais, enquanto a variação do IPCA vai sendo acumulada ao longo do tempo e só é embolsada pelo detentor do ativo na amortização ou venda.
Por último: você não vai encontrar o Kinea Infra na lista de fundos da sua corretora, dado que ele é listado em Bolsa. Pense nele como um fundo imobiliário: é preciso digitar o ticker em seu home broker. Nesse caso, é só procurar por KDIF11.
Ainda que a dinâmica seja semelhante, o fundo de debêntures isentas tem duas vantagens sobre o fundo imobiliário: carrega isenção sobre o ganho de capital (para o FII, ela só vale para a distribuição de rendimentos) e também sobre a parcela não alocada em debêntures de infraestrutura (o fundo imobiliário só não paga IR na fatia em que investe em ativos imobiliários).
Um abraço,
Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier e Vinicius Yoshida