Nas últimas semanas, uma das listas que mais tem sofrido alterações na classificação de seus ocupantes é a de pessoas mais ricas do mundo.
Essa lista é praticamente atualizada todo dia por conta das oscilações nos preços das ações, que por sua vez compõem boa parte do patrimônio dessas pessoas. Atualmente, as três pessoas mais ricas do mundo são Jeff Bezos (fundador da Amazon), Elon Musk (da Tesla e SpaceX) e Bernard Arnault, atual presidente e diretor executivo da LVMH, uma das maiores empresas de artigos de luxo do mundo.
Fonte: Forbes
No entanto, você sabe quem foi a pessoa mais rica na história contemporânea se considerarmos a correção de valores com o tempo? A resposta é John D. Rockfeller, empresário norte-americano, pioneiro e magnata da indústria do óleo nos Estados Unidos nos séculos XIX e XX.
Fonte: The Rockefeller Archive Center
No ápice de sua trajetória, Rockfeller foi considerado um dos empreendedores mais bem-sucedidos de todos os tempos. Sua fortuna, segundo a CNN Money, chegou a alcançar o equivalente a 1,53% do PIB dos Estados Unidos na época, o que, de acordo com essa métrica, coloca o magnata como o indivíduo que mais concentrou riqueza na modernidade, já que isso atualmente seria equivalente a pouco mais de US$ 327,8 bilhões!
Uma de suas frases mais icônicas depois do sucesso no ramo era:
“O melhor negócio é uma petroleira bem administrada; o segundo é uma petroleira mal administrada.”
Se Rockfeller estivesse vivo e conhecesse as empresas no Brasil, ele provavelmente concordaria que adaptássemos a sua frase para a nossa realidade apenas mudando o setor:
“No Brasil, o melhor negócio é um banco bem administrado; o segundo é um banco mal administrado.”
Isso porque a média da rentabilidade dos bancos brasileiros apresenta rentabilidade superior à média global. Mas como podemos aferir se isso é verdade? Através de métricas que quantificam a rentabilidade de uma empresa ou banco – em especial, neste relatório, vamos falar do ROE.
Agora, explicando melhor a frase de Rockfeller que adaptamos, o setor bancário brasileiro tem um índice de rentabilidade tão forte, quando comparado com seus pares, que basicamente até mesmo um banco com gestão ineficiente seria capaz de gerar lucro.
Obviamente, quando conciliamos uma gestão eficiente de custos e uma boa estratégia de mercado, esses pontos fortes da rentabilidade do setor são inflacionados – e as nossas recomendações são apenas de bancos que contam com uma gestão eficiente.
Um desses índices que medem a rentabilidade do negócio é o ROE, ou return on equity – em português, retorno sobre patrimônio líquido. Quando comparado com outros países, os bancos brasileiros se mostram resilientes quando o assunto é rentabilidade.
Vamos mostrar como a rentabilidade do setor se alterou ao longo dos últimos meses e anos e, a partir da análise do ROE, por que de fato os bancos são um ótimo negócio do Brasil – o setor hoje representa 7,5% de toda a nossa carteira, divididos entre Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3). Além disso, apresentamos os resultados dos dois bancos referentes ao segundo trimestre de 2021, que reforçam nossas recomendações.
ROE: um indicador de rentabilidade
O ROE é um indicador importante quando vamos analisar empresas e segmentos específicos. De forma resumida, o seu papel é mostrar o retorno sobre o capital do acionista, e uma das formas de calculá-lo é a seguinte:
ROE = Lucro líquido/Capital acionista
O lucro líquido e o capital do acionista podem ser encontrados nos documentos divulgados todos os trimestres pelas empresas da Bolsa e são referentes a um determinado período. Por exemplo, se você quiser calcular o ROE de certa empresa no 1T21, deve utilizar o lucro líquido e o capital do acionista apurados nesse período.
Rentabilidade do setor bancário brasileiro
Quando comparamos os dados entre a rentabilidade dos bancos do mundo com os brasileiros, fica claro o porquê parafraseamos Rockfeller. Veja a seguir a evolução da rentabilidade do setor bancário nacional quando comparado com o global:
Repare que o ROE dos bancos no Brasil é igual ou superior ao das instituições no resto do mundo desde 2012. Mas por que isso acontece?
Um dos motivos para que os bancos brasileiros se mostrem tão rentáveis (com ROE superior à média global) e competitivos (ROE estável) é a concentração de poder em um pequeno número de bancos que atuam no Brasil.
Os cinco maiores bancos do país hoje são: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. Segundo o último Relatório de Economia Bancária do Banco Central, eles concentram mais de 75% de todos os ativos do Sistema Financeiro Nacional, carteira de crédito e operações de crédito.
A baixa competitividade no ramo, causada em partes pela alta concentração em tão poucas instituições, cria um cenário propício para que os grandes bancos continuem prosperando com bons indicadores de rentabilidade. É um cenário que os livros de economia chamam de oligopólio, ou seja, uma grande concentração de poder na mão de poucos participantes.
Esse é um dos motivos pelos quais gostamos do setor e temos exposição a dois dos cinco maiores bancos do Brasil, o Itaú Unibanco (ITUB4) e o Banco do Brasil (BBAS3). As duas instituições apresentaram resultados consideráveis no 2T21, mantendo a qualidade de suas carteiras de crédito.
Vamos agora analisar os resultados de cada um deles em relação ao período citado.
Resultados de Itaú Unibanco e Banco do Brasil no 2T21: melhores que o esperado
Itaú Unibanco (ITUB4)
No dia 2 de agosto, o Itaú Unibanco divulgou seu resultado referente ao segundo trimestre de 2021.
Destaques: (i) lucro líquido de R$ 6,5 bilhões, crescimento de 2,3% na comparação trimestral e de 56% frente ao 2T20; (ii) ROE (retorno sobre patrimônio líquido) de 18,9%, aumento de 0,4 ponto percentual frente ao 1T21; (iii) menores despesas com provisões; (iv) maior receita com intermediação financeira; e (v) revisão do guidance.
A margem financeira gerencial do banco apresentou crescimento de 0,8% frente ao 1T21 e de 5,7% na comparação com o 2T20, em função da melhora da margem financeira com clientes.
Esta, por sua vez, foi impulsionada pelo crescimento consistente do crédito, um melhor mix de produtos (maior representatividade de produtos como cheque especial, crédito pessoal e cartão de crédito) e mais dias corridos no período, embora tenham sido parcialmente compensados por spreads menores para hipotecas e financiamento de automóveis.
Em relação à carteira de crédito, a carteira de pessoas físicas cresceu 7,1% no trimestre. No 2T21, o banco manteve o patamar em seu maior nível histórico de produção no crédito imobiliário. Com isso, a carteira apresentou um crescimento de 12,8%.
Também merecem destaque os crescimentos em: (i) cartão de crédito, em decorrência da recuperação da atividade econômica e mudança estratégica na oferta dos produtos; (ii) financiamento de veículos, associado ao aumento da demanda, principalmente em usados; e (iii) crédito consignado, especificamente na carteira do INSS, associado ao aumento da margem consignável devido a mudanças regulatórias.
A carteira de pessoas jurídicas teve redução de 2,4% no trimestre, em razão da migração da demanda de crédito para produtos de mercado de capitais. Em 12 meses, o crescimento foi de 9,3%, com movimentos importantes em veículos (como consequência do aumento da demanda dos clientes, crédito rural e capital de giro), por conta da concessão das linhas de crédito do Pronampe e do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).
Já o índice de inadimplência acima de 90 dias (NPL 90) ficou estável em relação ao trimestre anterior, mostrando que a qualidade do crédito foi mantida sob controle. No Brasil, o índice do segmento de pessoas físicas apresentou queda, atingindo o menor patamar desde a fusão entre Itaú e Unibanco. A redução no indicador de grandes empresas alcançou o menor patamar desde 2012, sendo que tais efeitos foram compensados pelo aumento no segmento de micro, pequenas e médias empresas, relacionado ao fim da carência de contratos que foram flexibilizados nos períodos antecedentes.
Fonte: Itaú Unibanco
Como resultado, o índice de cobertura do banco caiu para 283% (no 1T21, era de 298%). Além disso, a geração de inadimplência (NPL creation) caiu de 0,9% para 0,6% no 2T21.
Fonte: Itaú Unibanco
Fonte: Itaú Unibanco
Em relação às receitas de prestação de serviços, a instituição apresentou crescimento de 4,4% em relação ao último trimestre e 18,9% frente ao mesmo período de 2020, em função de maiores receitas com cartões, operações de corretagem e administração de fundos. Essa tendência positiva foi parcialmente compensada pelo desempenho de seguros mais fraco do que o esperado (queda de 8,5% no trimestre e queda de 10,9% ante 2T20) por conta de índices de sinistros maiores, que afetaram o setor de seguros.
Em relação às despesas não decorrentes de juros, estas tiveram aumento de 0,9% no trimestre, explicadas por: (i) maiores despesas de pessoal devido, sazonalmente, ao maior volume de férias no primeiro trimestre e em função do aumento da despesa com participação nos resultados; (ii) maiores despesas de provisão, impactadas pela maior concentração de processos trabalhistas; e (iii) maiores despesas operacionais relacionadas ao aumento nas despesas com comissões de cartões de crédito, devido ao maior volume transacionado. Esse aumento foi parcialmente compensado pela redução em despesas administrativas, principalmente marketing e serviços de terceiros.
O lucro líquido recorrente do Itaú Unibanco foi de R$ 6,5 bilhões, crescimento de 2,3% frente ao 1T21 e de 55,6% ante o 2T20, levando o retorno sobre patrimônio líquido a sair de 18,5% para 18,9%. Essa expansão também se deve a menores provisões, com a maior geração de receita, embora as despesas não decorrentes de juros tenham sido um pouco maiores.
Fonte: Itaú Unibanco
Revisão de guidance
Guidance é um guia feito pelas empresas com informações sobre as perspectivas e previsões dos seus negócios e é divulgado para o mercado.
Normalmente, as empresas que divulgam guidance possuem equipes de especialistas multidisciplinares que analisam dados e reúnem informações das áreas mais importantes do negócio, trazendo uma visão interna sobre as previsões do negócio para o período que se inicia.
Essas análises envolvem indicadores importantes como receita, lucro e indicadores financeiros. Não são todas as empresas que divulgam o guidance, já que não é uma obrigação do mercado, mas é um documento que está se tornando cada vez mais comum no Brasil.
O Itaú revisou seu guidance para 2021 da seguinte forma: crescimento da carteira de crédito entre 8,5% e 11,5% (antes era entre 5,5% e 9,5%), margem financeira com o mercado (NII) para um valor entre R$ 6,5 bilhões e R$ 8 bilhões (antes era entre R$ 4,9 bi e R$ 6,4 bi), e custo do crédito entre R$ 19 bilhões e R$ 22 bilhões (antes era entre R$ 21,3 bi e R$ 24,3 bi).
O crescimento das demais métricas foram mantidas: margem financeira com clientes entre 2,5% e 6,5%, comissões e seguros entre 2,5% e 6,5%, despesas não decorrentes de juros entre -2,0% e 2,0% e imposto efetivo entre 34,5% e 36,5%.
Fonte: Itaú Unibanco
Banco do Brasil (BBAS3)
No dia 4 de agosto, o Banco do Brasil divulgou seu resultado referente ao segundo trimestre de 2021.
Destaques: (i) provisões menores do que o esperado; (ii) melhores receitas com tarifas; (iii) expansão e melhora da qualidade da carteira de crédito; (iv) segundo lucro recorde consecutivo, ao atingir R$ 5 bilhões; e (v) revisão do guidance de 2021 para cima.
A Margem Financeira Bruta totalizou R$ 14,4 bilhões no 2T21, variação de -1,2% no trimestre e de 0,6% na comparação com 2T20. Na visão trimestral, a variação negativa é explicada pelo aumento de 38,5% na despesa financeira de captação (comercial), parcialmente compensada pelo desempenho positivo dos demais componentes da margem financeira (4,8% da receita financeira com operações de crédito e 4,6% do resultado de tesouraria). Fora isso, o ROE do 2T21 do banco apresentou crescimento de 2,5 pontos percentuais quando comparado com o resultado do mesmo período de 2020, atingindo a marca no 2T21 de 14,4%.
A PCLD (Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa, indicador que mostra o valor que uma empresa pode perder com créditos não quitados) ampliada, composta pela despesa de PCLD líquida da recuperação de crédito, descontos concedidos e imparidade, totalizou R$ 2,9 bilhões no 2T21. No semestre, a PCLD ampliada foi de R$ 5,4 bilhões, redução de 52,1% na comparação com o 1S20. Para o risco de crédito, o BB realizou ao longo de 2020 antecipações prudenciais de provisões, totalizando R$ 8,1 bilhões, montante que tem se mostrado suficiente para a cobertura adequada do risco de crédito da carteira até o momento. Além disso, o banco apresentou aumento no trimestre de recuperação de crédito, registrando o maior patamar histórico para um segundo trimestre.
As receitas de prestação de serviços somaram R$ 7,2 bilhões no 2T21, aumento de 4,8% na comparação com 1T21, com destaque para o desempenho de administração de fundos (+7,9%), operações de crédito e garantias (+24,4%), renda do mercado de capitais (+83,9%) e consórcios (+11,1%), que mais do que compensaram a redução das receitas com conta-corrente (-5,8%).
Para as despesas administrativas, registrou R$ 7,9 bilhões, aumento de 1,6% em relação ao trimestre anterior. O crescimento foi influenciado principalmente pela alta de 5,4% nas outras despesas administrativas devido a novos projetos de comunicação e ao repasse anual para a Fundação BB, com o objetivo de fomentar projetos sociais. As despesas de pessoal registraram redução de 0,6%, influenciadas pelo desligamento de funcionários, no escopo do Programa de Adequação de Quadros (PAQ) e do Programa de Desligamento Extraordinário (PDE), e pelas economias geradas pelo novo Programa de Cargos e Salários e do Programa Performa, dentre outras medidas de eficiência.
Despesas administrativas (R$ milhões)
Fonte: Banco do Brasil
Em junho de 2021, o Índice de Basileia (IB) foi de 19,65% e o índice de capital nível I, de 16,73%, sendo 13,49% de capital principal.
Índice de Basileia (%)
Fonte: Banco do Brasil
A carteira de crédito ampliada (que inclui, além da Carteira Interna, Títulos de Valores Mobiliários privados e garantias), totalizou R$ 766,5 bilhões, crescimento de 1,1% na comparação com 1T21, com destaque para as operações com o varejo e com o agronegócio.
Na comparação com o 2T20 (elevação de 6,1%), destaque para o crescimento do segmento de pessoa física (+10,3%) e de MPME – micro, pequenas e médias empresas – (+24,8%), além do aumento de 9,7% de agronegócios.
Fonte: Banco do Brasil
Aliado a esse crescimento, a qualidade do crédito também apresentou melhoras, com o índice de inadimplência INAD+90d (relação entre as operações vencidas há mais de 90 dias e o saldo da carteira de crédito classificada) apresentando redução frente ao último mês de março, atingindo 1,86% em 2T21.
O Banco do Brasil mantém cobertura compatível com o perfil de risco de sua carteira. O índice de cobertura saiu de 328,2% no 1T21 para 325,9% no 2T21, seguindo em nível elevado se comparado ao mesmo período do ano passado.
Fonte: Banco do Brasil
O banco também atualizou seu guidance estimado para o fim de 2021 para margem financeira e provisões para perdas com empréstimos. No ponto médio, o crescimento da margem financeira foi cortado de 4,5% para 2%, enquanto as provisões para perdas com empréstimos (líquidas de recuperações) foram reduzidas de R$ 15,5 bilhões para R$ 14,0 bilhões. O BB agora espera que o lucro líquido em 2021 atinja entre R$ 17 bilhões e R$ 20 bilhões, acima da estimativa anterior (entre R$ 16 bi e R$ 19 bi).
Fonte: Banco do Brasil
Conclusão
O ROE é um dos indicadores importantes quando o assunto é rentabilidade de um negócio. Quando aliado com outros dados, como os resultados do trimestre e perspectivas para o setor, é possível analisar de forma completa o cenário em que a empresa está inserida e o grau de eficiência em que está performando quando comparada com seus pares.
O setor bancário, assim como toda a economia global, passou por um dos momentos mais desafiadores da economia no ano de 2020. No entanto, os bancos brasileiros demonstraram resiliência e rentabilidade igual ou superior em comparação aos seus pares globais.
Inclusive, nossas duas recomendações do setor, Itaú Unibanco e Banco do Brasil, mostraram crescimento no quesito rentabilidade quando comparada na base anual e se mantêm acima da média nacional, utilizando os últimos dados divulgados pelo Banco Central.
O Itaú Unibanco apresentou um resultado sólido e com consistência na recuperação, além de melhor qualidade e de ter realizado uma revisão positiva do guidance para 2021.
Já o Banco do Brasil, apesar do resultado mais forte do que o esperado, mostrou um crescimento da carteira de crédito ainda tímido, enquanto os spreads diminuíram. A receita de prestação de serviço apresentou crescimento mais consistente, ao mesmo tempo que a empresa vem efetuando cortes de despesas administrativas.
Fora isso, com a gradativa retomada econômica, entendemos que as perspectivas de crescimento da carteira de crédito e, consequentemente, da receita proveniente de juros, tendem a apresentar crescimento mais significativo nos próximos trimestres.
Reiteramos a nossa recomendação de compra para Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3).
Abraços,
Filipe Colus e Guilherme Cadonhotto