Banco ABC Brasil (ABCB4): o crescimento é a especialidade da casa
No dia 9 de novembro, o Banco ABC Brasil divulgou seu resultado referente ao terceiro trimestre de 2023.
DESTAQUES: (i) lucro líquido de R$ 228,2 milhões, crescimento de 4,6% vs. 3T22; (ii) retorno sobre o patrimônio líquido (ROAE) de 16,5%, crescimento de 1,41 pontos percentuais em relação ao 2T2; (iii) carteira de crédito expandida atingiu a marca de R$ 43,7 bilhões, 5,2% maior que a apresentada no 3T22; (iv) margem financeira gerencial de R$ 591 milhões, crescimento de 9,9% em relação ao 3T22.
RESULTADO: a cada resultado do ABCB, uma surpresa positiva. Não é novidade que nos últimos anos o banco tem tentado diversificar a receita investindo em novas iniciativas, além de aumentar a carteira de crédito através dos clientes classificados como Middle (faturamento entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões). No papel, o plano era lindo, mas precisava ser posto à prova. Em que pese o fato de ainda haver bastante espaço para crescimento, a realidade está se mostrando tão bela quanto a teoria. No 3T23, o ABC Brasil obteve lucro líquido de R$ 228,2 milhões, o maior valor trimestral da história do banco.
Para entendermos como o ABCB obteve resultado tão expressivo, precisamos começar analisando as receitas. A margem financeira foi de R$ 591 milhões, crescimento de 8,6% em relação ao 2T23 e de 9,9% em relação ao 3T23. Esse avanço da margem financeira se deu graças ao aumento da margem com clientes e da margem com o mercado.
A margem com clientes tem se mostrado bastante sensível ao aumento da carteira de crédito do segmento Middle. É um efeito de ação e reação. A carteira Middle cresce, a margem com clientes aumenta. No 3T23, o crescimento da carteira de crédito expandida foi de 0,8% vs. 2T23 e de 5,2% se comparada ao 3T22. Quando olhamos apenas para o crédito destinado ao segmento Middle, o crescimento no trimestre sobe para 4,5%.
Por outro lado, o crescimento do segmento Middle gera o colateral do aumento das despesas com provisão de crédito para liquidação duvidosa. Essas despesas totalizaram R$ 87,3 milhões no 3T23, crescimento de 58,6% no trimestre e 23,4% no ano. É um crescimento alto, mas que deve se estabilizar e, portanto, não nos preocupa tanto.
A próxima linha a ser analisada é a receita com serviços prestados. No 3T23, essas receitas totalizaram R$ 116,7 milhões, crescimento de 47,1% em relação ao 2T23 e queda de 4,2% em relação ao 3T22. Muito dessa queda anual se deve à receita do Banco de Investimentos. Acontece que este ano foi muito ruim para as emissões de títulos de dívidas e aberturas de capital. Com menos demanda, a receita do Banco de Investimentos desabou no primeiro semestre de 2023. No terceiro trimestre até houve uma retomada das receitas, mas ainda abaixo do que foi obtido no ano anterior.
Passando para as despesas, notamos crescimento, mas bastante controlado. No 3T23, as despesas com pessoal e administrativas, somadas, ficaram em R$ 175,3 milhões. Esse valor representa crescimento de 3,5% no trimestre e de 15,1% no ano. Para crescer receita é natural que o banco tenha que crescer despesa. O que temos que ficar atentos é se há alavancagem operacional, ou seja, se o banco consegue crescer as receitas em ritmo mais acelerado do que as despesas. Quando projetamos o valuation do ABCB, consideramos o ganho com a alavancagem operacional nos próximos dez anos. Ainda não vemos motivos para pensar diferente.
Essas receitas e despesas levaram o ABC Brasil a um lucro líquido recorrente de R$ 228,2 milhões no 3T23. Esse resultado é 13% maior que o do 2T23 e 4,6% maior que o do 3T22. Como dissemos, é o maior lucro líquido trimestral na história do banco. Com isso, o retorno sobre o patrimônio anualizado (ROAE) fechou o 3T23 em 16,5%. Desconsiderando eventos de crédito isolados, esse é o sétimo trimestre consecutivo de aumento do ROAE.
NOSSA VISÃO: nossa visão em relação às ações de ABCB4 segue parecida, embora a cada novo resultado a nossa confiança aumente. O banco tem uma operação redonda, além de possuir bastante margem para crescimento. A tendência é que a cada novo trimestre o resultado melhore, levando ao aumento do ROAE.
A partir do resultado apresentado e das novas perspectivas de crescimento, atualizamos o nosso modelo de valuation para ABCB4. Diante disso, continuamos com a nossa recomendação de COMPRA para ABCB4, porém alteramos nosso preço-alvo para R$ 42,66 e o preço-teto para R$ 33,43. A TIR projetada para o investimento é de 20,3% ao ano.
Taurus (TASA4): chegamos ao ponto mais baixo do ciclo?
No dia 7 de novembro, a Taurus divulgou seu resultado referente ao terceiro trimestre de 2023.
DESTAQUES: (i) receita líquida de R$ 439,3 milhões, -6,6% vs 2T23; (ii) margem bruta de 37,5% (+0,9 p.p. vs 2T23); (iii) margem Ebitda de 16,1% (-1,3 p.p. vs 2T23); (iv) lucro líquido de R$ 26 milhões (-46,8% vs 2T23).
RESULTADO: antes de começarmos a falar do resultado da Taurus propriamente dito, precisamos recapitular alguns acontecimentos. Durante o período da pandemia, considerando aqui os anos de 2020, 2021 e 2022, o mercado de armas teve um boom de vendas. No Brasil especialmente as vendas surpreenderam por conta da eleição, já que os clientes sabiam que existia o risco de não conseguirem comprar em 2023, o que acabou se concretizando.
Para se ter ideia, a receita líquida da Taurus chegou a aumentar 86% de 2019 para 2020 e quase 50% de 2020 para 2021, atingindo seu pico de receita em R$ 2,7 bilhões. Ao longo de 2022 o patamar de receita se manteve ainda alto, mas reduziu em 7,3% frente a 2021. Em 2023 essa tendência de diminuição segue acontecendo, agora com o mercado voltando ao seu nível “normal”, ainda que se mantendo em patamar superior ao do pré-pandemia. Por conta disso, vamos citar em algumas linhas de resultado não só o comparativo com o trimestre de 2022 ou o 2T23, mas também o agregado em relação ao período de 2019.
A receita líquida da Taurus foi de R$ 439,3 milhões no trimestre, uma redução de 31,4% vs 3T22. Já olhando para os 9M23, a receita foi de R$ 1,4 bilhão, aumento de 87,4% vs 9M19.
Os EUA representaram 82,7% da receita, com R$ 336,4 milhões, redução de 11,5% ante o 3T22. O terceiro trimestre no país tende a ter menor movimento, com os clientes aguardando o final do ano, quando ocorrem as promoções de Black Friday e de Natal, além do início do período de caça. O ponto de atenção, entretanto, é que a empresa informou que os distribuidores estão tentando aumentar o giro do estoque como forma de proteção do custo financeiro por conta da inflação. Agora os distribuidores estão com estoque de aproximadamente um mês, quando historicamente eles possuem estoque para três a cinco meses.
O Brasil representou 9,9% da receita, com faturamento de R$ 40,4 milhões (-80,6% vs 3T22). O mercado doméstico continuou afetado pela mudança do governo e das regras relacionadas à aquisição e posse de armas. Apesar do novo decreto sobre armas de fogo, previsto para março, ter sido publicado em 21 de julho, ainda existem dúvidas a serem esclarecidas, pois foi definido o limite máximo de energia permitido, mas não uma tabela de calibres. Por isso, as vendas pra CACs (caçadores, atiradores e colecionadores) continuam praticamente interrompidas.
A linha de Outros Países representou 7,4% da receita, com R$ 29,9 milhões (+60,8% vs 3T22). No trimestre, a empresa fez vendas para Guatemala, Filipinas e Honduras. Vale lembrar que essa linha é mais volátil, sendo baseada em licitações internacionais que envolvem um ciclo de venda mais longo com aprovação de orçamento, apresentação, negociação, envio de amostras, testes, revisões, aprovações, entre outras etapas.
A receita líquida reduzida impactou o lucro bruto, que totalizou R$ 274,7 milhões, redução de 20,6% vs 3T22. Com a menor diluição de custos fixos, a margem bruta da companhia foi de 37,2%, redução de 8,4 p.p. No entanto, comparado ao desempenho dos 9M19, antes do início da pandemia, o lucro bruto mostra aumento de 100,2% e alta de 2,4 p.p. em sua margem.
A menor diluição de custos fixos também impactou as despesas operacionais, que foram de 23,5% como percentual da receita líquida, um aumento de 4,6 p.p. vs 3T22. Todos esses fatores levaram a margem Ebitda da empresa a ser reduzida ao patamar de 16,1%, queda de 12,3 p.p. ante o 3T22. Entretanto, comparando com os 9M19, a margem Ebitda teve um leve aumento, saindo de 15,8% em 2019 para 16% nos 9M23.
O resultado financeiro, por sua vez, apresentou uma despesa líquida de R$ 22,3 milhões, ante despesa de R$ 20,6 milhões no 3T22. Com isso, o lucro líquido da companhia foi de R$ 26 milhões no 3T23, ante lucro de R$ 103 milhões no 3T22. No acumulado até setembro de 2023, o lucro líquido foi de R$ 110,3 milhões, com redução de 72,4% ante os 9M22, mas um aumento de 417,8% comparado ao resultado obtido nos 9M19.
NOSSA VISÃO: a demanda no mercado brasileiro segue reduzida até que as questões jurídicas e os processos de autorização para a compra de armas estejam normalizados. Os canais de distribuição seguem desabastecidos, o que representa uma oportunidade para a empresa quando o mercado retornar. Vale ressaltar também que a Taurus está desenvolvendo um novo calibre .38, com energia dentro do limite máximo permitido, visando ocupar o espaço deixado pelo calibre 9mm, que passou a ser de uso restrito.
Já nos EUA, como mencionamos, o mercado tradicionalmente apresenta uma sazonalidade positiva no quarto trimestre, considerando Black Friday, Natal e início da temporada de caças.
Na Índia, a Taurus já conseguiu desenvolver 100% das peças com fornecedores locais para fabricação de revólveres e pistolas voltadas ao mercado civil. A empresa está para receber nos próximos dias a última licença necessária para a operação e estima começar a produzir no país ainda em 2023. Ainda no país asiático, segue em andamento a maior licitação já realizada no mundo de fuzis, com 425 mil unidades, do Ministério de Defesa da Índia. Entretanto, a entrega de amostras das armas para testes e avaliações, prevista para a primeira quinzena de outubro de 2023, foi postergada para janeiro de 2024.
É importante ainda lembrar que, no final de julho, a Taurus divulgou um memorando de entendimentos com uma das maiores empresas de defesa da Árabia Saudita, a Scopa, para a formação de uma joint venture no país. A Arábia Saudita possui o quinto maior orçamento de defesa no mundo e tem um programa relevante de desenvolvimento no segmento visando à produção local. Agora, Taurus e Scopa têm 12 meses para concluir os estudos para criação da JV e de seu plano de negócios.
Ao longo desse tempo, a Scopa atuará como distribuidora da Taurus para explorar oportunidades de negócios para as Forças Policiais e Militares na região do Conselho de Cooperação do Golfo, que, além da Arábia Saudita, conta com Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã.
Hoje a empresa está num ponto ruim do ciclo, mas a perspectiva à frente é positiva. A operação da Taurus continua rodando de forma eficiente, conseguindo até subir a margem bruta contra o 2T23 (+ 0,9 p.p. chegando a 37,5%), muito superior à das suas concorrentes listadas — Smith com 26,6% e a Ruger 20,5%. A questão agora é o ponto de mercado, onde costumam surgir as oportunidades, inclusive. Considerando o cenário de mercado historicamente positivo para o quarto trimestre do ano e as eleições nos EUA em 2024, além da possibilidade de início das operações na Índia ainda em 2023, mantemos nossa recomendação de COMPRA para TASA4 com preço-alvo de R$ 20,24, preço-teto de R$ 16,20 e TIR de 19,6%.
Abraços,
Leandro Siqueira