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No relatório de hoje, comentamos os resultados do quarto trimestre de 2022 de Ambipar (AMBP3), Sinqia (SQIA3) e Simpar (SIMH3).
Vamos a eles?
Ambipar (AMBP3): foguete não tem ré!
Fonte: RI Ambipar
DESTAQUES: (i) crescimento da receita líquida em 97,8% relação a 2021; (ii) aumento na margem Ebitda em 2,1 p.p. do 4T21 para 4T22; (iii) devido ao aumento da dívida líquida e da taxa básica de juros, o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 179,4 milhões no 4T22 (aumento de 231% em relação ao 4T21); e (iv) lucro líquido de 2022 foi de R$ 108,7 milhões no ano, queda de 35,7% em relação ao ano anterior.
RESULTADOS: quando colocamos Ambipar na carteira, a nossa perspectiva era de que o crescimento da receita, devido às aquisições que haviam sido feitas, levariam a uma receita líquida de R$ 1,95 bilhão em 2021 e R$ 2,8 bilhões em 2022.
Isso tudo parecia bem promissor, mas a Ambipar conseguiu ir além. A empresa reportou uma receita líquida de R$ 1,92 bilhão em 2021 e R$ 3,79 bilhões em 2022.
Ao longo de 2022, foram nove aquisições: cinco no Brasil, três no Canadá e uma nos Estados Unidos.
A companhia vem fazendo um ótimo trabalho e está entregando um grande crescimento nos seus dois principais segmentos, que são: Environment e Response.
Environment
A Ambipar Environment atua em cinco áreas: gestão e valorização de resíduos, economia circular, consultoria e compliance ESG, descarbonização e logística hazmat. Eles oferecem soluções para gerenciar, reaproveitar, reciclar e descartar de forma segura diferentes tipos de resíduos, além de serviços de consultoria e treinamento em sustentabilidade e conformidade regulatória. Eles também fornecem soluções para a redução e compensação de emissões de gases do efeito estufa e transporte seguro de materiais perigosos.
Desde 2018, a receita bruta desse segmento tem crescido com um CAGR (taxa de crescimento anual composta, na sigla em inglês) de 75%. Esse crescimento se deve, em parte, a um aumento orgânico no número de contratos firmados pela empresa com seus clientes. No entanto, ela também tem aproveitado oportunidades de crescimento inorgânico por meio de aquisições de outras companhias do setor, o que tem se mostrado um ponto forte para ela.
Fonte: DFP
No 4T22, os custos totais da Ambipar Environment ficaram em R$ 348,0 milhões, e o mais animador é que esses custos aumentaram proporcionalmente em relação à receita. Isso é ótimo, porque mostra que a empresa está conseguindo manter suas despesas sob controle e equilibrar o orçamento.
Fonte: DFP
No último trimestre, a empresa conseguiu manter a rentabilidade dos contratos de gestão e valorização de resíduos, além de estar amadurecendo a unidade de negócios de economia circular. Mesmo com uma leve queda na receita do 3T22 para o 4T22, o Ebitda subiu, o que é uma boa notícia. Desde o quarto trimestre de 2021, as margens estão voltando aos níveis históricos do segmento, antes da aquisição das operações na América Latina no terceiro trimestre do mesmo ano, quando tivemos a menor margem da série.
Response
Nesse segmento, a empresa oferece seis serviços principais: resposta a emergências, combate a incêndios, soluções de apoio portuário, serviços de atendimento médico, atendimento a demandas industriais e soluções ambientais.
Eles incluem gerenciamento de crises, combate a incêndios florestais e industriais, transporte de pessoas e materiais, serviços médicos, limpeza e manutenção industrial, e reabilitação ambiental.
O crescimento do segmento de Response é bem parecido com o de Environment. A receita bruta do Response cresce desde 2018 com um CAGR de 76%. No 4T22, a receita bruta da empresa cresceu significativamente em relação ao mesmo período do ano anterior e do trimestre anterior. O destaque foi a América do Norte, seguida por Brasil, Europa e América Latina. A aquisição da Witt O'Brien's (WOB) ao final de 2022 contribuiu para o forte crescimento orgânico e inorgânico.
Fonte: DFP
A margem Ebitda teve uma queda por causa da inclusão dos números da WOB, que tem uma margem menor, e também pelo aumento de serviços industriais na América do Norte. Mesmo assim, a empresa conseguiu manter a estabilidade da margem graças a uma estrutura corporativa eficiente, que ajudou a diluir as despesas enquanto a receita crescia. Apesar de a WOB ter contribuído menos para a margem, outras áreas compensaram com margens maiores.
Fonte: DFP
Apesar de ter feito muitas aquisições num curto período de tempo, os resultados mostram que a empresa conseguiu se organizar e manter a ordem. Isso demonstra que ela soube lidar com os desafios de integrar diferentes empresas e equipes, adotando medidas eficazes para garantir a eficiência e eficácia de suas operações.
Essa habilidade em gerenciar o processo de aquisição e integração de outras empresas é fundamental para o sucesso a longo prazo e a criação de valor no mercado.
Os resultados indicam que a empresa está no caminho certo para alcançar seus objetivos estratégicos e garantir a sustentabilidade no longo prazo, o que é positivo para investidores, clientes e stakeholders.
Dito isso, podemos explicar as alterações que foram feitas no nosso modelo.
Projeções
O primeiro ponto é em relação ao cenário macroeconômico. Um cenário desafiador nos levou a um ano marcado por alta de juros que impactam diretamente no custo de capital da companhia. Afinal de contas, com a taxa Selic em 13,75% ao ano, a nossa projeção da curva de juros se eleva bastante.
O segundo ponto que analisamos é sobre o crescimento da receita líquida da Ambipar. Nas previsões anteriores, a empresa tinha um crescimento projetado de 27% em 2023 e 35% em 2024. Mas agora, fomos um pouco mais além e projetamos até 2032.
O cenário atual da Ambipar é bem animador: a empresa cresceu quase 100% na receita líquida de 2021 para 2022 e tem quase R$ 3 bilhões no caixa que pode ser usado para novas aquisições.
Então, nossa previsão é que a Ambipar vai crescer 35% da receita líquida em 2023 e depois vai reduzir esse crescimento gradualmente ano a ano, até chegar em um nível compatível com o PIB + inflação.
Fonte: DFPs | Elaboração: Spiti
Ao avaliarmos a margem Ebit da Ambipar, percebemos que a média dos últimos anos é de 18,5%. No entanto, acreditamos que a empresa é capaz de melhorar ainda mais sua eficiência operacional ao longo do tempo, chegando a uma margem Ebit de 20% em 2032. Para chegar a essa projeção, utilizamos uma taxa de crescimento linear que parte de 18,5% em 2023 e atinge a marca de 20% em 2032.
Esse é um indicador importante, pois evidencia a capacidade da empresa de gerar lucro operacional com suas atividades principais, desconsiderando os efeitos de juros e impostos. À medida que a empresa se torna mais eficiente, ela pode reduzir seus custos e otimizar sua utilização de recursos, elevando assim sua rentabilidade e competitividade no mercado.
Fonte: DFPs | Elaboração: Spiti
Através dessas novas premissas, chegamos a um preço-alvo de R$ 38,49 por ação de AMBP3, ou seja, upside potencial de 79,4%.
Nossas projeções para a Ambipar foram bem pé no chão. Agora, vamos aguardar o próximo trimestre para acompanhar o desempenho da empresa e ver se ela consegue nos surpreender positivamente mais uma vez.
Depois de fazer todos os ajustes no modelo mudamos o preço-alvo de R$ 38,49 e preço-teto de R$ 31,06.
Sinqia (SQIA3): dez anos de Bolsa e de recordes
Fonte: Money Times
DESTAQUES: (i) receita líquida recorde no 4T22, ao somar R$ 166,3 milhões, aumento de 59,1% no comparativo anual; (ii) lucro bruto somou R$ 72,6 milhões, alta de 97,5% versus 4T21, com margem bruta de 43,7% (+8,5 p.p. vs 4T21); (iii) Ebitda ajustado somou R$ 41,5 milhões, alta de 90,1% em relação ao 4T21; e (iv) lucro líquido ajustado de R$ 48 milhões no ano, aumento de 37,8% na comparação com 2021.
RESULTADO: comemorando dez anos desde seu IPO, a Sinqia apresentou mais um resultado recorde, ao atingir um faturamento recorrente anual (ARR) no segmento de software de R$ 520,8 milhões, aumento de 64,8% no comparativo anual, com destaque para o crescimento orgânico de 25,3%, impulsionado pelo bom desempenho da unidade de Fundos e pelo ajuste de 15,5% referente à inflação e volumetria no acumulado do período.
A receita líquida foi recorde no 4T22, ao somar R$ 166,3 milhões, alta de 59,1% ante o 4T21. No ano, a receita líquida foi de R$ 616,5 milhões, aumento de 74,8% em relação a 2021, sendo que o segmento de Software apresentou crescimento de 89,5%, e o de Serviços reportou aumento de 22,2%, representando 15% da receita líquida.
A receita recorrente foi de R$ 136,2 milhões no 4T22, crescimento de 51,3% ante o 4T21, representando 81,9% da receita total nesse período, menos 4,3 p.p. no mesmo ínterim do ano anterior. No ano, a receita recorrente somou R$ 509,4 milhões, aumento de 61% em relação a 2021, representando assim 82,6% da receita ante 89,6%. Essa diminuição no percentual sobre a receita foi em decorrência do maior volume de receitas de implantação e customização.
O lucro bruto foi recorde ao alcançar R$ 72,7 milhões, 97,5% acima do número do mesmo trimestre do ano anterior. A margem bruta, por sua vez, ficou em 43,7%, aumento de 8,5 p.p. ante 4T21, refletindo as aquisições realizadas nos últimos períodos, as quais possuem margens superiores à média orgânica da companhia.
O Ebitda ajustado somou R$ 41,5 milhões, alta de 90,1% ante o 4T21, com margem Ebitda ajustada de 24,9%, aumento de 4,1 p.p. A melhora de rentabilidade na comparação anual se deve, além das aquisições realizadas nos últimos trimestres, aos ganhos de escala obtidos no período.
No ano, o Ebitda ajustado totalizou R$ 157,6 milhões, superior em 123,4% ao resultado de 2021, com margem Ebitda ajustada de 25,6%, incremento de 5,6 p.p.
O lucro líquido foi de R$ 2,7 milhões no 4T22, redução de 76,7% na comparação com o 4T21, explicado principalmente pela expansão das despesas financeiras no período, dado o aumento das taxas de juros sobre a dívida da empresa. Quando excluídos itens extraordinários e a amortização dos intangíveis gerados a partir das aquisições, o lucro líquido teria atingido R$ 9,1 milhões, redução de 43,9% na comparação com o trimestre anterior. No ano, o lucro líquido foi de R$ 16,8 milhões, 16,8% inferior ao de 2021. O lucro líquido ajustado por sua vez foi de R$ 46,2 milhões, 32,7% superior ao de 2021.
NOSSA VISÃO: a Sinqia reportou mais um trimestre de resultado resiliente, mostrando que a empresa tem conseguido crescer suas receitas de maneira orgânica e inorgânica, potencializando o cross sell de vendas, dada a ampliação do seu portfólio de produtos com as aquisições realizadas nos últimos trimestres.
Além disso, a empresa está com uma alavancagem financeira confortável e um caixa robusto de R$ 189,7 milhões, mirando novas possibilidades de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês) para ampliar seu portfólio de produtos e serviços.
Apesar das boas perspectivas da companhia, precisamos confirmar se o preço atual da ação faz sentido. Por isso, colocamos a empresa no nosso cronograma de revisão e, posteriormente, elaboraremos um relatório com o nosso parecer. Por ora, recomendamos manter SQIA3.
Simpar (SIMH3): o monstro ainda está na jaula!
Fonte: RI Simpar
DESTAQUES: (i) receita bruta de R$ 26,8 bilhões em 2022, crescimento de 74% ante 2021; (ii) Ebitda de R$ 7 bilhões em 2022, crescimento de 67% na comparação ano após ano; (iii) capex líquido de R$ 13,5 bilhões, 53% maior do que em 2021; e (iv) redução do lucro líquido em 29% na comparação ano após ano, que totalizou R$ 941 milhões.
RESULTADO: o resultado de Simpar nada mais é que a soma das suas controladas, sejam elas de capital aberto (Movida, Vamos e JSL), sejam de capital fechado (Automob, CS Infra, CS Brasil e BBC). Assim, se o resultado vem forte nas controladas, ele vai vir forte também na controladora.
E foi isso que aconteceu. A receita bruta de JSL cresceu 25%, a de Movida, 79%, e a de Vamos, 76%. Além disso, o grupo criou uma das maiores redes de concessionárias do Brasil, a Automob. Essa empresa, sozinha, deve atingir uma receita líquida de R$ 5,5 bilhões em 2023, o que representa 8x mais do que a Original (antiga concessionária do grupo) faturou em 2021.
Porém, o lucro líquido caiu 29%. Os dois principais motivos dessa queda são: normalização de preços dos carros novos (Movida) e aumento das despesas financeiras. Com a estabilização nos preços dos carros, as margens de Seminovos da Movida começaram a voltar para os patamares baixos de sempre, e isso afetou o lucro líquido da empresa.
Somado a isso, a despesa financeira da Simpar, que, em 2021, foi de R$ 1,9 bilhão, em 2022, atingiu R$ 5,3 bilhões. É um baita aumento, mas já era esperado. Com uma dívida bruta de quase R$ 40 bilhões, na grande maioria atrelada ao CDI, uma taxa Selic que chegou a 13,75% ao ano no fim de 2022 inevitavelmente aumentaria a despesa da empresa com juros. Logo, a menor margem da venda de seminovos e o aumento da Selic ante 2021 (cuja taxa média ficou por volta de 5%) resultaram num lucro líquido bem menor em 2022. Mas existe um número bem importante para a Simpar nesse momento em que ela está expandindo forte a operação: o Ebitda.
EBITDA: no que pese nem sempre funcionar como uma boa aproximação do fluxo de caixa livre da empresa, no caso de Simpar, é muito importante olhar para o Ebitda, pois é ele que rege a alavancagem da empresa.
As decisões da gestão geralmente passam por quanto de Ebitda uma aquisição ou um investimento vai gerar, de modo que no cálculo da sua relação com a dívida, os covenants das debêntures continuem sendo respeitados. Por isso, o aumento de 67% no Ebitda ano após ano foi muito bem-vindo. Para fins de apuração dos covenants, a empresa segue com uma dívida líquida/Ebitda de 3,5x, cujo máximo é 4x. Sem contar que o índice Ebitda-A/despesa financeira líquida está em 3,2x, cujo mínimo é de 2x. Além disso, o caixa é suficiente para pagar todas as amortizações previstas da dívida até 2025.
NOSSA VISÃO: o ano de 2022 para qualquer empresa alavancada se mostrou bem desafiador, já que o custo de se ter dívida subiu muito, afetando o lucro bem incisivamente. A palavra de ordem para essas empresas é sobreviver enquanto não acontece uma virada do ciclo. Na nossa visão, as controladas da Simpar têm uma geração de caixa operacional robusta, que dá conta de pagar os juros da dívida (mesmo que ele seja todo utilizado para isso).
É o ideal? Não. É sempre melhor que a empresa tenha mais folga e consiga cobrir o pagamento dos juros em pelo menos 2x o seu lucro operacional. Mas a Simpar, enquanto grupo, mostrou em 2022 que está conseguindo navegar por essas águas revoltas, frutos desse cenário macroeconômico mundial conturbado. A despesa com a dívida aumentou, mas a geração de caixa operacional aumentou junto. E assim a gestão vai controlando a alavancagem da empresa.
É claro que uma piora nesse cenário macroeconômico vai impactar fortemente a empresa, mas ainda assim ela tem uma válvula de escape, já que consegue desalavancar na marra, se for preciso, vendendo ativos, que são razoavelmente líquidos: caminhões e carros.
No entanto, a gente acredita que um cenário pior do que o atual seja improvável de acontecer e o atual patamar de juros (que anda funcionando como uma jaula para os resultados da empresa) seja o pico. Pelo menos, existem vários indicadores disso, como queda acentuada no preço do petróleo nos últimos 12 meses e menor patamar de preço de commodities em geral, que devem aliviar os índices de inflação.
REAJUSTES DE PREÇO-TETO E PREÇO-ALVO: a tese de investimento em Simpar é robusta, mas, desde o final de 2020 pra cá, o Brasil e o mundo como um todo vÊm num movimento de aperto fiscal e aumento da taxa básica de juros. Esse movimento, por si só, aumenta o custo de capital da empresa, que é nossa famosa taxa de desconto ou WACC.
O WACC é um assunto bastante discutido dentro da teoria do valuation. Não, ele não é uma taxa fixa que independe da empresa. Se alguém lhe disser isso, essa pessoa está totalmente errada. Na realidade, o cálculo do WACC é relativamente simples e depende da estrutura de capital da empresa, assim como dos custos de capital dos acionistas e dos detentores de títulos de dívida da Simpar.
No nosso modelo de valuation, a gente usa vários WACCs, um para cada ano da projeção, cuja base de formação parte do CDI. Ou seja, o aumento da Selic, que aumenta o CDI, eleva os WACCs. No caso da Simpar, por exemplo, aumentou o custo de capital fazendo com que todos os WACCs que usamos ficassem acima de 17,3%.
Por si só, isso não significa muita coisa. Mas, em casos que essa taxa sobe, o valor encontrado para as ações cai, mas fica embutido um retorno médio anual maior. Caso a taxa caia, o valor da ação sobe, mas o retorno embutido fica menor.
Enfim, não há para onde fugir: o retorno vai acabar entrando em cena, seja pelo upside (valor encontrado maior que a cotação), seja pelo custo de capital. Dito isso, como adequamos o valuation da empresa a um modelo de DCF (fluxo de caixa descontado), resolvemos, por bem, reajustar os preços. Assim, o preço-teto da ação será de R$ 9,85. Já o preço-alvo será de R$ 11,30.
Dessa forma, reiteramos nossa recomendação de compra para SIMH3.
Abraços,
Leandro Siqueira