Quando estudante do ensino fundamental, eu, Fê, adorava Física e seus diversos tópicos, tanto que me formei em dois cursos superiores na área de exatas. Um dos exercícios que mais gostava de aplicar aos alunos quando dava monitoria eram aqueles relacionados à óptica geométrica, que envolviam espelhos – especificamente, com retrovisores de carros.
Esses exercícios envolviam os espelhos convexos, cuja parte reflexiva fica na superfície de uma esfera e são usados para “prolongar” o campo de visão. Eles nos ajudam a ver objetos que estão mais distantes e, no caso dos retrovisores, aumentam nosso campo de visão enquanto dirigimos. E muitas vezes usamos esses espelhos sem nem reparar.
E, se fôssemos olhar o ano de 2021 por um retrovisor, precisaríamos que este fosse um espelho convexo, para dar conta de mostrar tanta coisa que aconteceu, principalmente nos âmbitos fiscal e político.
Assim, motivado pelos meus anos de monitoria, neste relatório vamos olhar o retrovisor de 2021 e fazer um apanhado dos principais acontecimentos que impactaram nossa carteira Renda Total, bem como trazer a rentabilidade anual dela (que superou o Ibovespa e o índice de FIIs, o Ifix) e analisar a nossa taxa de dividendos anuais, que hoje está em 8,71% ao ano.
Sem mais delongas, com vocês, o ano de 2021!
Inflação: a palavra do ano
Os resultados de inflação começaram 2021 acima do esperado logo na primeira divulgação e perduraram ao longo do ano. O primeiro dado divulgado em janeiro, o IPCA referente a dezembro de 2020, mostrou uma variação de 1,35%, quando o mercado esperava uma alta de 1,21%.
IPCA em 2021
Fonte: IBGE
A alta do índice que calcula a variação de preços, junto com uma contínua subida do dólar, fez com que o mercado postergasse a preocupação com a inflação mais alta no ano de 2021, e isso forçou a antecipação de uma alta de juros projetada pelo Banco Central (BC) já no primeiro semestre de 2021.
Fonte: Broadcast
No último relatório trimestral de inflação (RTI), divulgado neste mês pelo Banco Central, a abertura dos indicadores de inflação mostra que a origem desta é majoritariamente advinda dos bens administrados:
Contribuições para variações trimestrais do IPCA-15
Fontes: IBGE e BCB
O preço dos bens administrados são produtos e serviços com reajustes definidos por contratos ou regulados pelo setor público, ou seja, a evolução dos seus custos não é determinada pela lei da oferta e da demanda. Combustíveis, energia elétrica e planos de saúde são alguns exemplos relevantes.
Por exemplo, os preços da gasolina e do diesel nas refinarias brasileiras são definidos pela Petrobras e têm impacto no preço final. Já a bandeira tarifária na conta de energia é determinada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Alguns fatores neste ano impactaram duramente essas duas frentes, tanto o preço combustíveis quanto o da energia elétrica:
Contribuições para variações trimestrais em administrados do IPCA-15
Fontes: IBGE e BCB
A crise dos preços do petróleo e da energia assolou o mundo, fazendo com que o barril do petróleo tipo Brent disparasse frente aos seus valores históricos por conta de uma demanda reprimida depois de 2020. Além disso, as ondas posteriores relacionadas ao novo coronavírus continuaram a manter o receio das atividades industrial e da economia.
Com isso, o barril, que fechou 2020 em US$ 51,31, chegou a atingir seu preço máximo no ano em novembro de 2021, quando foi cotado a US$ 86/barril:
Fonte: Broadcast
Ao passo que no exterior a crise energética relacionada ao petróleo inflacionou até os mais consolidados mercados, como o europeu, que, no agregado de 12 meses em novembro está com uma inflação de 4,9% (a maior dos últimos dez anos), o contexto da crise hídrica no país provocou a tempestade perfeita para completar o cenário inflacionário do Brasil:
Inflação acumulada na zona do euro – Agregado em 12 meses (em rosa)
Fonte: EuroStat
No cenário nacional, tivemos um complicador adicional. A maior seca registrada em 91 anos prejudicou os níveis de reservatórios, levando-os aos níveis mais baixos desde 2001. Por conta dessa estiagem intensa, as termoelétricas foram acionadas, o que adicionou custo na produção energética. Como resultado, isso elevou as tarifas de energias e até gerou a criação de uma nova bandeira tarifária, nomeada “escassez hídrica”, o que pressionou as taxas de inflação.
Fonte: G1 e ONS
Para conter o avanço da inflação corrente, o BC adotou uma postura mais dura na política monetária. Uma consequência direta foi o aumento da taxa Selic ao longo de 2021, em um processo iniciado em março (que elevou a Selic de 2% a.a para 9,25% a.a.) e com outro acréscimo previsto já na primeira reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária, em fevereiro de 2022.
Fonte: Banco Central do Brasil
Política: um ano turbulento
Política é um assunto que está sempre em voga em nossas análises, e em 2021 marcou forte presença por aqui. Os principais eventos que rondaram o tema foram as aprovações de medidas políticas, o auxílio emergencial e o teto de gastos.
O atraso com aprovações importantes já fez com que o orçamento do ano de 2021 aumentasse as incertezas fiscais logo de início.
Fontes: Estadão e Valor Investe
O imbróglio se arrastou por meses e foi resolvido apenas depois de muito atrito entre os poderes políticos. Aliás, a tensão entre os poderes foi se intensificando com o passar dos meses.
As contas públicas foram as principais manchetes em julho, quando foi adicionada no orçamento a obrigatoriedade do pagamento de mais de R$ 86 bilhões em precatórios aos estados do Brasil. Isso gerou mais tensão na agenda econômica, que já estava apertada ao longo do ano.
E foi em outubro que tivemos a maior elevação dos juros e do risco percebido, o CDS (Credit Default Swap), e de uma forma brusca. Isso aconteceu porque nesse mês foi aprovada uma adição à PEC dos Precatórios, uma nova fórmula de correção do valor do teto de gastos, que passou a ser corrigido pela inflação marcada no período do mês de janeiro até dezembro.
Outro acontecimento que colocou em xeque a credibilidade fiscal do país foi o aumento do valor do Auxílio Brasil (programa social que substituiu o Bolsa Família e o auxílio emergencial) para R$ 400 e do número de beneficiados para 17 milhões de pessoas (previsão).
A limitação do pagamento dos precatórios e a mudança da correção do teto adicionaram ao orçamento R$ 84 bilhões, segundo previsão do governo. Esse valor, que vai acomodar os gastos com o Auxílio Brasil, não estava previsto no estudo anterior e marca mais um malabarismo fiscal para que as contas fechem.
Essas mudanças no texto, que minaram a credibilidade das contas públicas do atual governo, causaram uma debandada da equipe do Ministério da Economia.
Os secretários do Orçamento e do Tesouro pediram demissão de seus cargos, já que uma flexibilização da regra do teto de gastos deveria passar pelos seus respectivos avais.
Além disso, a votação da PEC dos Precatórios foi adiada semana após semana, aumentando as incertezas sobre o tamanho do aumento dos gastos. A PEC foi finalmente votada e aprovada no fim de novembro, mas essa demora gerou altos custos para a agenda política, tanto que a reforma tributária, outro ponto de debates intensos do atual governo, ficou para 2022.
Assunto que motivou este relatório na nossa série, a reforma tributária também foi motivo de uma queda pontual de nossos ativos, principalmente os fundos imobiliários. De forma resumida, acreditamos que, no longo prazo, a equiparação do pagamento de impostos que a reforma tributária trará vai superar os custos adicionais em impostos no curto prazo com a criação de alíquotas sobre dividendos.
Novo coronavírus: vacinação e estabilização
Assim como em 2020, a pandemia do novo coronavírus continuou a aparecer nas manchetes sem descanso neste ano. Com um início do processo de vacinação conturbado no Brasil, por conta das dificuldades quanto à distribuição da cadeia de suprimentos e logística de um país de dimensão continental, ainda vimos os números de casos aumentarem nos primeiros meses de 2021 até finalmente iniciar um processo de queda no fim do primeiro semestre:
Fonte: Ministério da Saúde. Elaboração: XP Investimentos
No entanto, após o início da vacinação, o Brasil tem conseguido manter em baixos níveis e estáveis os números de novos casos, óbitos, índice de internações em leitos de UTI, ao passo que reduz o distanciamento social. Inclusive, o número de pessoas completamente imunizadas já chega a 67,3%:
Utilização de leitos hospitalar UTI – Brasil (%)
Fonte: Ministério da Saúde. Elaboração: XP Investimentos
Impactos na carteira Renda Total: risco-Brasil na renda variável e dividendos
Existem algumas formas de analisar certos acontecimentos, como o receio sobre uma certa variante ou as incertezas de novas medidas políticas em métricas, para aferir os riscos do país. As duas métricas mais comuns com que trabalhamos ao longo do ano foram o EMBI+Br e a nossa curva de juros.
O índice EMBI, que significa Emergin Markets Bond Index – ou, em português, índice de títulos de mercados emergentes – mede a taxa média de títulos de crédito emitidos dentro de um país. No caso do Brasil, mede qual é essa taxa para os títulos de crédito emitidos dentro do país.
Quando esse índice sobe, significa que o país está em situação de incerteza maior, e o risco de que esses títulos comecem a dar “calote”, conhecido no mercado como default, está subindo.
Já a curva de juros agrega as perspectivas de juros futuros em um determinado dia, ou seja, a cada dia ela se altera. Se a curva de juros está subindo, significa que o mercado está precificando um aumento nos juros. Isso pode indicar uma piora na confiança do país, principalmente nos juros de longo prazo.E, antes de mostrar como foi a performance anual da nossa carteira, veja como o EMBI+Br variou ao longo do ano:
Fonte: IPEA Data
Os dados da inflação ao longo do ano, as notícias polêmicas envolvendo medidas que faltaram com rigor fiscal e o lento andamento na agenda política foram, na nossa visão, o material que inflamou o risco-Brasil ao longo de 2021 – especialmente a mudança da regra do teto de gastos em outubro, a adição de R$ 86 bilhões de precatórios no orçamento de 2022 feita em julho e a sua resolução com a PEC dos Precatórios apenas no fim deste ano.Pode-se, inclusive, notar uma redução na relação risco-país no fim do gráfico, que coincide justamente com a aprovação da PEC. Vejamos agora o reflexo disso na curva de juros ao longo do ano:
Fonte: Broadcast | Elaborado por Spiti
Nos piores momentos, como em novembro, a curva de juros chegou a atingir, nas datas de vencimentos (chamados de vértices), mais de 12% a.a. Após a aprovação da PEC dos Precatórios nota-se uma clara redução das incertezas com uma queda dos juros no último mês.
No entanto, quando analisamos o balanço anual, vemos um claro aumento nas perspectivas de juros futuros, fruto do agregado dos acontecimentos do ano que trouxemos ao longo deste relatório.
O mercado de renda variável sente o impacto do aumento de juros futuros diretamente, já que um aumento da perspectiva de risco tem influência na credibilidade e na taxa de remuneração dos títulos públicos de longo prazo. Até mesmo o mercado de fundos imobiliários, que tem um histórico de menor volatilidade, apresentou em novembro uma performance negativa ao longo de quase todo o mês.
Veja como foi a performance do mercado de Bolsa e do Ifix ao longo do ano. A carteira Renda Total fechou o ano acima dos índices da Bolsa e dos FIIs (Ibovespa e Ifix), perdendo apenas para o CDI:
Fonte: Quantum | Elaborado por Spiti
Fonte: Quantum | Elaborado por Spiti
Importante lembrar que, ao longo do ano, fizemos algumas movimentações importantes: mantivemos nossa posição no setor de shoppings até o fim do ano, que culminou na retirada do MALL11, e marcamos presença constante em fundos de papel.
Tomamos a decisão de não alterar nosso percentual de Bolsa enquanto aumentamos nosso percentual de fundos imobiliários. Inclusive, a estratégia em manter a nossa alocação ao longo do ano em FIIs de recebíveis foi decisiva na resiliência do nosso portfólio de FIIs, enquanto conseguimos capturar bons dividendos.
Os nossos títulos públicos também sofreram ao longo do ano, principalmente por serem títulos de longo prazo – os títulos públicos com maior risco de mercado. Associado com a elevação das perspectivas de juros futuros, os títulos também tiveram performance negativa:
Fonte: Quantum | Elaborado por Spiti
Apesar disso, conseguimos equiparar com os índices de mercado, superamos o Ibovespa e o Ifix e, além disso, temos um diferencial a nosso favor: o pagamento de dividendos, que se encontra em 8,71% ao ano.
Conclusão
Quem tem investimentos de risco no Brasil sabe que todo ano vai se deparar com algum desafio, referente à política, questões fiscais e/ou atividade econômica. A nossa estratégia de aumentar o percentual de FIIs ao longo de 2021 se mostrou importante num ano desafiador para a economia, em que a resiliência dos fundos de papel se provou importante para gerar rendimentos, assegurar um menor risco e superar os principais índices do mercado no ano.
Os desafios deste ano foram grandes: desde a inflação, que assolou todo o mundo, as crises energéticas global e nacional, as ondas do novo coronavírus e a nossa velha e conhecida política nacional, que tem características próprias.
O ano em que vamos entrar também não será fácil. Porém, como já mostramos diversas vezes em relatórios passados, nos momentos de grandes incertezas o melhor a se fazer é manter o costume de investir em bons ativos a fim de não pagar pela falta de paciência.
Desejamos a você um feliz 2022, cheio de saúde, paz e bons rendimentos!
Um abraço,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto