Atualização do cenário macro. Entre altos e baixos, acabamos o ano com três cortes consecutivos nas últimas reuniões do FOMC. Grande parte motivados mais pela desaceleração do mercado de trabalho do que pela queda da inflação efetivamente. A partir de agora, provavelmente vamos ter uma pausa nos cortes e, quem sabe, no máximo, apenas mais dois cortes durante todo o ano que vem.
Retrospectiva 2025: criptoativos
Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS
Neste relatório, você encontrará:
Principais narrativas de 2025. O ano começou com um otimismo extremo desde a vitória de Trump no final de 2024. Logo em seguida, em janeiro, foram aprovados os ETFs de cripto à vista. Continuamos 2025 com a disputa entre Solana e Ethereum. E durante todo o ano, vimos o crescimento desenfreado das stablecoins e dos RWAs. Fechamos 2025 com a regulamentação do mercado no Brasil e a consolidação das Empresas de Entesouramento de BTC (DATs).
Conclusão. 2025 foi um ano desafiador e ao mesmo tempo bastante positivo. Não tanto nos preços, mas sim na evolução do mercado. O reconhecimento dos criptoativos pelo mercado financeiro institucional certamente deu um salto este ano. Os ETFs se consolidaram, as stablecoins cresceram mais do que nunca, a regulamentação evoluiu e finalmente estamos chegando a um nível de reconhecimento significativo e que pode alavancar o crescimento nos próximos anos.
A expectativa do mercado para 2025 era tanta que podemos dizer que não foi atendida. Mas somente nos preços. Claro que o preço colabora para o nosso sentimento, entretanto, não deveria ser a principal característica, pois o mercado cripto não representa sua evolução somente pelo valor dos criptoativos.
Por ser um mercado extremamente novo, muitas outras características ainda são de extrema importância para o seu desenvolvimento.
Por exemplo, a aceitação dos criptoativos no sistema financeiro global, seu reconhecimento como investimento e poder enquadrá-los no mercado financeiro a fim de torná-los mais seguros para os investidores.
O ano de 2025 foi marcado por diversas narrativas que favoreceram o crescimento dos criptoativos muito além dos preços. Nesse relatório, vamos relembrar quais foram as principais etapas evolutivas deste mercado este ano.
Cenário macro
O banco central dos Estados Unidos fechou o ano com o terceiro corte consecutivo na taxa de juros. Esse corte foi predominantemente motivado pelo enfraquecimento do mercado de trabalho americano, e não pela inflação, que seria o cenário ideal.
Considerando todo esse período dos três cortes consecutivos, certamente o movimento favoreceu bastante a bolsa americana. Porém este último corte, especificamente, veio sem muitas novidades, pois já tínhamos cerca de 90% de chance de ele acontecer conforme o site da CME e, por isso, já era um dado precificado pelo mercado.
Mas a coletiva de imprensa com o presidente do Fed surpreendeu um pouco o mercado, pois veio com um tom mais duro (hawkish), indicando que Powell pode interromper os cortes, mantendo a taxa atual nas duas primeiras reuniões de 2026. É basicamente este cenário que temos como mais provável neste momento, conforme a tabela abaixo.
Expectativa dos cortes de juros nos EUA
Fonte: CME (15/12/2025)
As chances de manutenção chegaram a subir de 70% para a casa dos 78% no dia da última reunião do FOMC, por um breve momento, mas desde então se estabilizaram na casa dos 74%.
Também é curioso observarmos na tabela acima que, por enquanto, podemos ter apenas mais dois cortes de juros no ano que vem e, conforme o gráfico de pontos abaixo, devem se estabilizar na faixa de 3,0 a 3,25 até 2027.
Fonte: CME
Por enquanto, apesar do mercado de trabalho ser o grande motivador do último corte, podemos dizer que ainda não está em uma situação preocupante, e por isso, longe do risco de uma recessão. A economia segue crescendo e a inflação está relativamente controlada
O corte tende a favorecer a renda variável, mas não foi o que vimos no mercado cripto. O BTC vem mostrando certa independência do mercado financeiro tradicional nos últimos meses.
Principais narrativas de 2025
É fato, 2025 foi um ano desafiador para o investidor cripto. Tão desafiador que pode inclusive nos decepcionar, pois conforme o ciclo do BTC, este deveria ser o terceiro ano de alta da temporada, porém, até o momento, ainda estamos no negativo. Mas também não podemos dizer que frustramos o ano por completo, pois uma alta de 34% do começo do ano até outubro é bem significativa.
Essa visão pessimista, se refere só aos preços. Digo “só” pois atualmente esse deveria ser o menor dos problemas nesse momento específico do mercado.
Isso porque, com certeza, 2025 foi um dos melhores anos da história para os criptoativos. Tivemos diversos fatores, além do preço do BTC, que demonstraram sua evolução e aumento no reconhecimento do mercado, que favoreceram o seu crescimento este ano. Vamos relembrar cada um deles neste relatório.
● Expectativa de um ano de alta
Essa temporada de alta, que iniciou em 2023, nos dava uma expectativa de que duraria até 2025. Se considerarmos do dia 1º de janeiro até outubro deste ano, de fato tivemos uma alta de aproximadamente 34%, porém, neste momento, ainda existe chances de fecharmos 2025 no negativo.
Então esse otimismo esperado do ciclo do BTC já vinha desde antes do ano começar, com a vitória de Trump nas eleições do final de 2024. Momento no qual o presidente divulgou amplamente seu apoio aos criptoativos, o que pode ter feito bastante diferença para sua vitória, já que os americanos são dos maiores investidores neste mercado.
Uma das suas promessas foi transformar os Estados Unidos na “capital cripto” do mundo. Outra, cumprida logo no início do seu mandato, foi trocar o presidente da SEC, tirando Gary Gensler, considerado um xerife, uma espécie de arqui-inimigo da indústria cripto, e o substituir rapidamente por Paul Atkins, extremamente pró-cripto. Esse anúncio já havia sido feito em dezembro de 24, e a troca foi executada em abril de 2025.
Trump também removeu dezenas de processos da SEC contra empresas cripto durante todo o ano, favorecendo o desenvolvimento de novos projetos e o teste dessa nova tecnologia. Seguindo nessa linha, também perdoou e libertou o ex-CEO da Binance, CZ, por crime de lavagem de dinheiro.
Outro movimento que fez barulho no mercado financeiro foi a sua aprovação para a criação de uma Reserva Nacional de BTC. Mas era uma promessa bem vaga. No final das contas, a reserva de fato foi aprovada, porém, por enquanto, sem um anúncio de compra de BTC. Ou seja, a reserva será construída apenas com ativos apreendidos pela justiça e que não poderão ser vendidos.
Esse movimento de Trump puxou outros estados, como Arizona, New Hampshire e Texas, que também aprovaram reservas estratégicas bem semelhantes.
Fonte: Bitcoinlaws
Assim, Trump proporcionou um ambiente regulatório mais favorável nos EUA e que até mesmo causou um efeito global, pois gerou interesse do mundo todo, virou uma referência e incentivou outros países a adotarem posturas mais liberais para não ficarem para trás na inovação financeira.
● ETF de BTC e ETH à vista
O ano de 2025 já começou com uma das notícias mais importantes do período: a aprovação dos ETFs de BTC à vista.
Essa métrica serviu como uma espécie de termômetro do mercado para identificarmos o sentimento dos investidores, principalmente dos institucionais. Ainda mais neste ano, no qual tivemos diversos conflitos políticos, o que acabou causando muita instabilidade no mercado financeiro.
No dia 11 de janeiro, foi anunciada a aprovação de 11 ETFs de BTC à vista, fato que gerou uma expectativa extrema.
Essa aprovação quebrou diversos paradigmas do mercado financeiro tradicional. Permitiu que os investidores institucionais obtivessem exposição direta aos criptoativos através de veículos de investimentos regulamentados pelo mercado tradicional, sem precisar fazer malabarismos burocráticos para custodiar os criptoativos por conta própria.
Mas o resultado, em um primeiro momento, não surpreendeu. Pelo contrário, pode até mesmo ter frustrado. Porém, a partir de abril, esse cenário mudou. Bilhões de dólares foram alocados até outubro, chegando ao pico de captação de US$ 163 bilhões — inclusive, foi quando o BTC marcou sua máxima histórica até o momento.
Gráfico de captação dos ETFs
Fonte: TheBlock
Um fato curioso é que a maior gestora do mundo, a BlackRock, que sempre foi contra os criptoativos, é quem lidera em capitalização, com cerca de US$ 125 bilhões, seguida da famosa gestora Fidelity, com cerca de US$ 25 bilhões, ou seja, apenas ⅕ da BlackRock.
Devido às burocracias exigidas para os investidores institucionais, a demanda pelos ETFs não é puxada pelo investidor comum. Claro, existem sim alguns investidores que buscam praticidade, porém, no geral, são investidores muito bem qualificados, e por isso, o fluxo de capital tornou-se um indicador-chave para o sentimento do mercado.
Outra característica que podemos levar em consideração é o volume de negociação desses dos ETFs, pois demonstra o interesse dos investidores e seu poder de absorver um valor financeiro significativo.
Volume de negociação
Fonte: TheBlock
De forma ampla, nos ETFs de BTC temos aproximadamente 1/10 do volume negociado na somatória das exchanges e nas DEX, que hoje estão na casa dos US$ 60 bilhões.
Alguns meses depois, tivemos a aprovação dos ETFs de Ethereum, que também demoraram cerca de três meses para engatarem uma captação interessante. Assim foram expandidas as possibilidades do investidor institucional em diversificar seu portfólio de criptoativos com a segunda maior moeda.
Este ano ficou claro como os ETFs contribuíram para o mercado cripto, desde a acessibilidade, colaborando para a redução da volatilidade, e atraindo investidores de mais longo prazo, pois não devem desfazer grande parte das suas posições independentemente do movimento do mercado, seja para cima ou para baixo.
● Hype da Solana
Mais para o final do ano, em novembro, também tivemos a aprovação dos ETFs de SOL à vista, mas até o momento ainda sem força. Porém, isso já era de se esperar, porque nos ETFs de BTC e ETH tivemos uma demora de aproximadamente três meses para começarem a captar de modo mais significativo. Por causa dessa aprovação tardia, no atual momento do ciclo, já pode ser tarde demais para a SOL se beneficiar disso no curtíssimo prazo.
É fato que desde o início dessa temporada de alta, em 2023, a Solana veio chamando bastante atenção do mercado cripto. Em 2024 perdeu força e deu lugar, em 2025, ao predomínio da Ethereum, conforme podemos ver no gráfico abaixo, no qual temos o preço de SOL em relação ao ETH (quantos ETH precisamos para comprar um SOL).
Essa dinâmica de preços, significa que, quando o par SOL/ETH sobe, quer dizer que se precisa de mais ETH para comprar SOL e, por isso, a Solana estaria se valorizando mais do que o ETH no período, como aconteceu em boa parte de 2023. Porém de 2024 a 2025, ambos tiveram performance bem parecida, com o preço de SOL/ETH lateralizado no período.
Gráfico SOL/ETH
Fonte: TradingView | Adaptação: Finclass
Com certeza, a Solana foi um dos principais concorrentes da Ethereum nos últimos anos, pois sua proposta de escalabilidade atraiu muitos novos projetos e, consequentemente, desenvolvedores e uma alta atividade dos usuários que buscavam rentabilidades fora da curva com duas das principais narrativas do mercado1.
● Memecoins
Um dos principais hypes que favoreceram o crescimento da Solana foram as memecoins, que basicamente são moedas temáticas e sem fundamentos.
Um projeto chamado PumpFun, que se popularizou muito, tornou possível a criação de criptos em poucos minutos. Assim, surgiram uma infinidade de criptos temáticas que aproveitam um assunto viral do momento, porém completamente sem fundamentos para justificar seus preços. Essas novas moedas atraem usuários engajados, porém inexperientes, com o sonho de ficar ricos rápido. Desde o meio do ano passado, essa foi a principal narrativa do mercado cripto conforme as barras verdes do gráfico abaixo.
Fonte: Arkinvest
Ainda não tivemos os dados fechados deste trimestre, mas acredito que o volume de negociação das memecoins seja um pouco abaixo do trimestre passado. Mas mesmo assim, ainda deve superar a narrativa das stablecoins.
As memecoins sempre existiram, como a DOGE e a PEPE, porém nos últimos anos, seus defensores argumentam que elas serviam como fenômeno cultural, um evento de entretenimento, criação de comunidades, e claro, especulação financeira.
Mas outros, como eu, não defendem essa espécie de “golpe financeiro”. Não vejo como inovação e acredito expõe os investidores inexperientes a riscos extremos, com grande potencial de perda total do capital investido. É inegável a manipulação de preços, são projetos que já nascem com prazo de validade e que acabam causando um prejuízo financeiro em 99,% dos seus investidores. E por isso, muitos investidores saíram do ecossistema da Solana frustrados.
● Airdrop
Outra estratégia que se popularizou na rede da Solana nos últimos anos foram os Airdrops.
Para quem ainda não sabe, resumidamente, muitos projetos anunciavam uma distribuição gratuita de moedas (Airdrop) para seus primeiros usuários. Ou seja, como se fosse uma estratégia de marketing de lançamento da plataforma.
Quanto mais os investidores interagiam com o projeto em seu estágio inicial, mais esses investidores ajudavam a testar suas soluções, e como uma espécie de recompensa, os projetos distribuíam moedas para esses primeiros usuários. Quanto mais interações, mais moedas eles receberiam.
Porém, como a rede da Solana é extremamente barata, muitos investidores estavam testando os projetos, o que acabou diluindo os airdrops distribuídos. Até meados de 2024, de fato havia distribuições interessantes, na casa de milhares de dólares. Porém em 2025 a popularização da estratégia pulverizou muito o prêmio, o que acabou frustrando novamente os usuários do ecossistema da Solana.
Muitas outras concorrentes da Solana e da Ethereum também entraram nessa onda, como a SEI, SUI e HYPE. Essa competição entre os projetos de Layer 1 beneficiou os usuários através do teste de novas soluções, o que proporcionou inovação e incentivou a redução de custo operacional para os investidores. Por outro lado, fragmentou a liquidez, e diminuiu a atenção do mercado em praticamente todos os projetos.
A Solana mostrou que evoluiu muito nos últimos anos, suportando de forma consistente essa forte demanda das duas narrativas, porém, seus usuários saíram mais frustrados do que satisfeitos e corre-se o risco de abandonarem o ecossistema na próxima temporada de baixa.
● Evolução da Ethereum
Enquanto a Solana passava por um momento interessante, com uma grande onda de usuários, a Ethereum seguia seu caminho tranquilamente, sem fazer muito barulho. Ela também tentou surfar a onda dos Airdrops, principalmente pelos projetos de segunda camada (Layer 2 - L2) como Base, Mantle, Zora, Starknet, entre outras, porém sem o mesmo sucesso.
A Ethereum passou por duas atualizações interessantes na rede este ano, que visam melhorar essas duas principais características destacadas da Solana, a saber, aumentar o número de transações por segundo e, ao mesmo tempo, torná-las mais baratas, ou seja, proporcionar mais escalabilidade para as L2
Após diversos atrasos, no dia 7 de maio, finalmente tivemos a execução de uma das maiores atualizações da história da rede da Ethereum, chamada Pectra. Ela proporcionou mais funcionalidades das carteiras e o aumento do limite de staking.
Assim tivemos um aprimoramento na escalabilidade, consequentemente tornando a rede mais acessível, eficiente, melhorando a experiência do usuário e ainda a tornando mais segura. Para isso, incorporaram outros tipos de transações, que podem agora podem ser por lotes, patrocinadas e com assinaturas periódicas.
Não vem ao ponto neste momento nos aprofundarmos em cada uma delas. O que nos importa é que o novo formato chamado de “blobs” permite o processamento de um maior número de dados temporários, o que possibilita mais transações, sem prejudicar o armazenamento do blockchain principal, pois diminui a quantidade de dados.
Um dos projetos que mais se beneficiou dessa mudança este ano foi a Base, que se tornou a líder nessa usabilidade, representada pelo gráfico em azul escuro abaixo.
Gráfico de número de transações nas L2
Fonte: TheBlock
De forma geral, essa funcionalidade favoreceu bastante as L2, pois houve um aprimoramento no agrupamento das transações, minimizando-se os dados necessários por operação, possibilitando a execução de um maior número de transações por bloco, o que acaba diminuindo o custo para o usuário final.
No dia 11 de novembro, teve início a atualização Fusaka. Ela visa otimizar o uso dos dados, fortalecer a resistência a ataques DoS, e implementar novas ferramentas, tanto para desenvolvedores quanto para os usuários.
É uma reformulação completa dos mecanismos de gerenciamento de dados, utilizando o modelo de amostragem ao invés de armazenamento, evoluções que impactam positivamente na precificação dos Blobs, e ainda proporcionam maior proteção.
Com ambas as atualizações este ano, o ecossistema de soluções de L2 da Ethereum com certeza amadureceu significativamente. Mas o grande projeto em destaque foi a rede da Base conforme comentado acima.
Apesar do crescimento da Solana, é indiscutível que a Ethereum se manteve como a principal plataforma para DeFi (Finanças Descentralizadas). Porém, agora, a competição entre as Layer 1 se intensificou.
Mesmo com esse incentivo às L2, ainda há dúvidas sobre sua viabilidade, pois isso dilui os usuários do ecossistema entre diversas redes, diminui a liquidez das plataformas, fragmenta operações e dificulta a vida do usuário final.
● Stablecoins
Um setor que ganhou bastante credibilidade desde o final do ano passado foi o das stablecoins. Esse crescimento expressivo do setor este ano se deu principalmente pela aprovação da Lei Anti-CBDC e pela Lei Genius, aprovadas ao mesmo tempo por Trump.
Capitalização das stablecoins
Fonte: DeFiLlama
Outro fator que também favoreceu o crescimento das stablecoins em 2025 foi o aumento da credibilidade desse tipo de ativo, seja por uma evolução da qualidade do seu lastro, melhor transparência dos projetos, maior usabilidade desses ativos como forma de pagamento, possibilidade de uso para remessas internacionais, ou uma simples exposição ao dólar.
Porém o setor ainda enfrenta muita pressão regulatória ao redor do mundo, o que é um pouco preocupante. Entretanto, hoje em dia, certamente os riscos já são bem menores, estão cada vez mais estáveis, e a exigência de um lastro de altíssima qualidade é cada vez maior.
● Ativos do mundo real (RWA - Real World Assets)
Resumidamente, podemos dizer que os RWAs são ativos do mercado financeiro tradicional que foram digitalizados.
Atualmente, a maior aplicação do modelo são os títulos do governo dos Estados Unidos e as commodities. Como este não é o foco deste relatório, sugiro que leia o relatório da ONDO, ativo que tem como foco essa aplicação e por isso nos aprofundamos bastante na análise do setor.
A tokenização de ativos do mundo real emergiu como uma das principais tendências de 2025 com o surgimento de novas aplicações que têm o potencial de conectar trilhões de dólares em ativos tradicionais com a infraestrutura blockchain. Seu crescimento foi da casa dos US$ 6 bilhões no começo do ano, e chegou a passar dos US$ 18 bilhões, ou seja, triplicou em um ano.
Valor total tokenizado
Fonte: rwa.xyz
Uma das suas vantagens, como a aplicação nos títulos do Tesouro Americano tokenizados, é a possibilidade de distribuir rendimentos automaticamente, diminuindo muito o custo operacional.
Além de títulos do governo, existem diversas outras aplicações, como ações tokenizadas, tokenização de imóveis, créditos de carbono e até obras de arte que podem ser divididas em diversos tokens possibilitando que o investidor compre apenas uma fração da obra. A aplicação visa aumentar a liquidez, reduzir custos de intermediação e democratizar acesso a classes de ativos que antes eram restritos.
Por outro lado, o setor ainda precisa enfrentar diversos desafios regulatórios e de compliance, encontrar soluções para questões jurisdicionais, desenvolver meios de proteger o investidor durante as operações e proporcionar uma integração com sistemas tradicionais mais eficientes.
Tenho uma extrema confiança de que os RWAs são uma ponte de transição entre finanças tradicionais (TradFi) e Finanças Descentralizadas (DeFi). O modelo é capaz de expandir drasticamente o mercado financeiro tradicional com novas soluções no futuro.
● Regulamentação do mercado cripto no Brasil
Com certeza, 2025 foi o ano que o Brasil mais avançou na regulamentação do mercado de criptoativos. O movimento foi liderado pelo Banco Central, que assumiu o papel da supervisão de todas as empresas de ativos digitais.
O órgão estabeleceu diversos requisitos para empresas e investidores do mercado, como requisitos de transparência, prevenção de lavagem de dinheiro, proteção do investidor, definiu os requisitos necessários para a prestação de serviço e obtenção de licença, e diversas obrigações de compliance, bem semelhantes às instituições financeiras tradicionais.
Recentemente tivemos a aprovação de três Resoluções que visam regulamentar especificamente o mercado cripto.
A Resolução 519 define a classificação de empresas que operam no mercado cripto, dividindo em: intermediária, custodiante e corretora de ativos digitais. Assim ,essas empresas passam a integrar oficialmente o sistema financeiro tradicional, proporcionando maior segurança para o investidor ao evitar golpes e trazendo maior transparência para o mercado.
A Resolução 520 estabelece regras e requisitos mínimos para a prestação de serviço de ativos virtuais, além de definir como funcionará o processo de transição dessas empresas. Determina um investimento mínimo inicial, obriga a segregação do patrimônio da prestadora de serviço do saldo dos clientes, exige a apresentação de prova de reserva e a realização de auditorias regulares.
Já a Resolução 521 enquadra os criptoativos no mercado de câmbio e define as regras para suas operações, como a necessidade de identificação das carteiras envolvidas nas transferências, e define os limites operacionais permitidos.
Com isso, aumenta o reconhecimento do mercado, porém restringe um pouco o seu crescimento devido ao nível de exigência dos critérios necessários. Ainda foi permitida a autocustódia dos investidores, apesar da necessidade de identificação das carteiras.
Podemos considerar essa uma etapa um pouco dolorosa, porém necessária para profissionalizar o setor. Essa evolução deve atrair novos investidores, porém restringir a criação de novos projetos e, com isso, diminuir a concorrência, pois favorece as empresas maiores já consolidadas do setor.
A abordagem regulatória do Brasil pode passar a ser referência para outros países, pois equilibra a inovação tecnológica com a proteção ao investidor e integração com o sistema financeiro tradicional. Caso você queira se aprofundar um pouco mais no assunto, esse também foi tema de um relatório.
● Empresas de entesouramento de BTC
Recentemente recebemos o Diego Kolling, head de estratégia de Bitcoin da Méliuz, no podcast da Finclass, Os Economistas, para falar sobre esse assunto e te garanto que foi uma conversa muito esclarecedora.
Resumidamente, o foco da Méliuz é aumentar o número de BTC por ação. Inclusive sem estratégias agressivas como alavancagem, e sim com riscos mínimos, como a emissão de novas ações já com demanda de compradores garantida.
Outra empresa que chegou com tudo na estratégia foi a OranjeBTC, que já é uma das trinta maiores empresas de capital aberto do mundo a possuírem BTC e que tem como membro do conselho o Fernando Ulrich, um dos pioneiros do mercado.
Fonte: OranjeBTC
A OranjeBTC já possui 3.720 BTCs. Porém seus dois últimos movimentos não foram de compra de BTC, e sim de recompra de ações.
Fonte: Bitcointreasuries
Isso porque o mNAV (Market Net Asset Value), que é a relação entre o preço de mercado da empresa dividido pelo valor líquido dos BTC que possuem, estava abaixo de 1. Ou seja, o valor da empresa representado pelas suas ações estava menor do que o valor dos BTCs que servem como lastro, portanto, com um desconto em relação ao valor patrimonial.
Isso significa que o mercado não vê prêmio na exposição ao mercado cripto pelas ações, por outro lado, pode ser considerado um momento de oportunidade para quem souber aproveitar essa ineficiência ou até mesmo fazer uma arbitragem entre as ações e o próprio BTC.
Essas recompras de ações da OranjeBTC já foram feitas duas vezes, uma em outubro e outra em dezembro. Com esse movimento, eles seguem a filosofia da Méliuz, de aumentar o número de BTC por ação, já que o número de papéis em circulação acaba diminuindo.
Mas claro, se o mNAV ficar superior a 1, a estratégia de comprar mais BTC será retomada, tendo como foco sempre aumentar o número de Bitcoins por ação.
Retomando a tabela acima, a Strategy, é a maior empresa a adotar essa estratégia de entesouramento de BTC no mundo, com quase 650 mil BTC, inclusive muito distante da segunda colocada, com 53 mil BTC.
Ela é uma empresa nativa de tecnologia, cujo CEO, Michael Saylor, foi o pioneiro a iniciar o investimento do caixa da empresa em BTC, processo iniciado em 2020, e vem realizando novos aportes continuamente desde então, conforme demonstrado no gráfico a seguir.
Compras de BTC da Strategy
Essas empresas que adotam essa estratégia de acumular BTC ao longo do tempo são chamadas de “Tesourarias de Ativos Digitais”, ou Digital Asset Treasuries (DATs) em inglês. O formato vem se popularizando, inclusive com outros criptoativos, como ETH e SOL.
Fonte: Arkinvest
Algumas empresas já listadas na bolsa, como Coinbase e mineradoras, experimentaram uma volatilidade significativa em suas ações depois de adotarem a estratégia, pois passam a ter forte relação com os movimentos do mercado cripto.
Porém com a possibilidade do fim da temporada de alta em breve, as empresas vêm adotando uma estratégia mais conservadora na aquisição de novos ativos, principalmente a partir de outubro. Essa desaceleração nas compras pode ser percebida no gráfico abaixo.
Fonte: DefiLlama
Esse possível interesse de investidores em acessar os criptoativos através do mercado de ações é uma nova alternativa aos ETFs e à exposição direta às criptos. Nesse modelo, o que importa sempre é aumentar o número de BTC por ação, o que de fato é extremamente interessante para o longo prazo.
O movimento é mais um sinal de maturação do mercado, pois demonstra que o risco do investimento já é bem conhecido e integra os criptoativos de forma mais profunda com o sistema financeiro tradicional.
Por outro lado, ao adotar o modelo, o investidor deve abrir mão da autocustódia, que é tão importante para o mercado cripto, e essa terceirização do armazenamento também pode trazer um risco extra para a operação.
Entusiasta Cripto
Ativos aprovados
| Ativo | Capitalização(US$ bilhões) | Código | Classe | Subclasse |
| Bitcoin | 1792,2 | BTC | Reserva de valor | |
| Ethereum | 381,1 | ETH | Layer 1Blockchains | Contratos inteligentes |
| Chainlink | 9,51 | LINK | DeFi | Oráculos |
| Ondo | 1,14 | ONDO | DeFi | RWA |
| Pendle | 0,35 | PENDLE | DeFi | Restaking |
| Lido | 0,54 | LDO | DeFi | Liquid Staking |
| Stacks | 0,51 | STX | Layer 2 | Escalabilidade do Bitcoin |
| Polygon | 1,27 | POL | Layer 2 | Escalabilidade da Ethereum |
| Near | 2,08 | NEAR | DePIn | Inteligência artificial |
| Render | 0,78 | RENDER | DePIn | Computação distribuída |
| The Graph | 0,43 | GRT | DePIn | Dados |
| Immutable X | 0,55 | IMX | NFT | Marketplace |
Fonte: Finclass 15 dezembro
Conclusão
O ano de 2025 provavelmente foi o mais desafiador de todos para o mercado cripto. Isso porque foi bem diferente dos ciclos anteriores.
Tivemos longas congestões de até sete meses, que exigiram muita paciência do investidor. Dois curtos momentos nos quais as altcoins performaram melhor do que o BTC, ou seja, não tivemos uma altseason típica, pelo menos até o momento. E por enquanto, não chegamos a uma alta eufórica, irracional, como tivemos nos ciclos anteriores.
Com isso, a volatilidade do BTC desde o início da temporada de alta, em
janeiro de 2023, se manteve nos patamares mais baixos da sua história, o que reforça a sua consolidação nos últimos anos.
O mercado financeiro tradicional e o mercado cripto estão convergindo para uma integração. Seja um reconhecimento regulatório do lado dos ativos digitais, seja pela adoção das novas soluções pelo lado das finanças tradicionais.
Possivelmente, estamos passando pela maior mudança do mercado financeiro da história. O desafio é grande no momento, entretanto, as oportunidades para quem se adaptar primeiro também são enormes. Não deixe essa chance passar.
Forte abraço,
Thales
Sobre os analistas
Thales Inada
Especialista em Criptoativos
Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.
Rodrigo Xavier
Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.