Que o setor de bancos é conhecido por ser bom pagador de dividendos, você provavelmente já sabe, e talvez já até esteja sentindo esse benefício no seu bolso.
Agora, você tem ideia do quão diferente a performance dos principais bancos do país pode ser?
Em abril de 2021, incluímos em nossa carteira Renda Total a ação do Banco do Brasil (BBAS3), que historicamente negocia a múltiplos bem inferiores aos seus pares privados.
Acontece que, naquele período, a preocupação com possível intervenção no comando do banco era crescente, o que fez com que a ação da empresa ficasse ainda mais descontada em relação aos seus pares.
Desde a nossa recomendação, o Banco do Brasil se somou ao Itaú em nossa exposição a bancos. Ambos apresentaram performance muito positiva desde então – você consegue ver isso no gráfico abaixo:
Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti
A recomendação de Banco do Brasil acumula rentabilidade de quase 100%, enquanto Itaú, mesmo abaixo, apresenta retorno de quase 40%.
É importante mencionar que o cálculo acima não considera o pagamento de dividendos, o que tornaria o retorno das recomendações ainda melhor.
Já o Ibovespa, no mesmo período, apresentou performance pífia e ficou praticamente parado.
Mas vamos além disso e analisar a performance das nossas recomendações no setor de bancos contra os outros dois grandes nomes do mercado brasileiro, Santander e Bradesco:
Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti
Com relação aos outros grandes bancos no país, a performance dos nossos recomendados se destaca ainda mais.
Desde a recomendação de Banco do Brasil, Bradesco cai 11,53%, enquanto Santander fica pouco abaixo do zero, em -0,79%. Sim, essa rentabilidade também não considera os dividendos; mesmo assim, fica evidente a performance de destaque dos dois bancos em nossa carteira.
O pagamento de dividendos tanto de Banco do Brasil quanto de Itaú também foi muito bom, como mostram as tabelas abaixo:
Banco do Brasil (BBAS3)
Fonte: playinvest.com
Itaú (IUTB4)
Fonte: playinvest.com
Com um desempenho de destaque nos últimos dois anos é natural que surjam perguntas deste tipo:
Será que ainda há espaço para o Banco do Brasil, principal destaque da nossa carteira, ainda se valorizar? Além disso, será que vai continuar pagando bons dividendos?
Para responder a essas perguntas, vamos relembrar um pouco da trajetória do Banco do Brasil e do panorama do setor bancário no país, e aqui conto com a ajuda do time de análise de ações, liderado pelo especialista da casa, Leandro Siqueira.
A história do Banco do Brasil
Reza a lenda que, certa vez, um brasileiro que morava na gringa foi desafiado a descrever nosso país em três palavras. Ele não titubeou e disse: café, futebol e Banco do Brasil. E sinceramente, aquele nobre rapaz não poderia ser mais feliz em suas palavras. Esses três elementos fazem, fizeram e, ao que tudo indica, farão parte dos principais momentos políticos e econômicos do país.
Embora eu, Leandro, seja amante de um bom café (desde que seja sem açúcar) e apreciador de um futebol bem jogado, meu fascínio mesmo é por mercado. Por isso, hoje, contarei um pouco sobre a ligação entre a história do nosso país e o Banco do Brasil, o famoso BB. E claro, como quem vive só de passado é museu, trarei a nossa discussão para os dias atuais, fazendo um overview do setor financeiro brasileiro e contando exatamente como o Banco do Brasil está inserido nele.
A fundação do BB aconteceu em 1808, a mando do príncipe regente de Portugal, Dom João VI. A ideia era utilizar da criação do Banco do Brasil para capitalizar recursos que fossem suficientes para bancar a vida de luxo da Coroa portuguesa recém-chegada ao país. Fugiram de Napoleão Bonaparte e fomos nós que pagamos o pato.
Fonte: Acervo Banco do Brasil
Obviamente que a ideia não deu certo. Aliás, até que deu, mas por pouco tempo. Em 1829, a brincadeira teve fim e o Banco do Brasil faliu, encerrando todas as suas atividades. A Coroa portuguesa voltou para o país de origem e, por aqui, amargamos os prejuízos que deixaram para trás.
Depois, em 1853, mostrando que, assim como todos os brasileiros, ele não desiste nunca, o BB renasceu. Na verdade, ele foi refundado, muito graças ao saudoso Barão de Mauá. Dessa vez, ele surgiu através da fusão dos dois principais bancos privados brasileiros na época. Logo após a fusão, o governo, em uma atitude bem brasileira, tomou o banco para si na mão grande.
A ideia por trás dessa medida era que o governo passasse a deter o monopólio da emissão de moeda no país. No começo, até que a ideia foi bem-sucedida, mas, depois, por pressão dos cafeicultores, o BB passou a conceder crédito em quantidade bastante superior às suas reservas.
Esse negócio de sair emprestando a Deus e o mundo o colocou em maus lençóis e forçou uma fusão com o Banco da República, formando o Banco da República do Brasil, em 1892, considerada a terceira formação do BB.
Mas essa nova formação não durou muito. Logo no começo do século XX, o Brasil foi tomado por uma enorme crise bancária, e o Tesouro Nacional teve que salvar o Banco da República do Brasil, concedendo, através da aprovação do Congresso, um milhão de libras esterlinas à instituição para ajudá-la. Como consequência, em 1905, o banco voltou a ser chamado de Banco do Brasil e seu controle direto passou a ser da União, que adquiriu 1/3 das ações.
E assim, deu-se início ao Banco do Brasil na forma que conhecemos hoje. Mas nem por isso a história dele ao longo do século XX foi pacata. Pelo contrário.
Por exemplo, até a criação do Banco Central, em 1964, era o BB quem exercia a função de autoridade monetária do país. Ele também teve e ainda tem uma função importantíssima para o crescimento do Brasil, principalmente do agronegócio. Para você ter ideia, já em 1936 ele possuía uma carteira de crédito agrícola e industrial. Foi o BB a primeira instituição nacional a oferecer, na década de 1980, cartão de crédito e débito ao brasileiro.
Mas nem tudo foram flores. A situação do BB voltou a ficar complicada entre 1994 e 1996, nos primeiros anos do Plano Real. Naquele período, a baixa qualidade do crédito em carteira e a súbita sobrevalorização do real causaram uma perda cambial significativa ao banco.
Fonte: Acervo PSDB
Isso fez com que, em 1996, o BB precisasse fazer um aumento de capital na ordem de R$ 8 bilhões, equivalente a mais ou menos R$ 40 bilhões nos dias atuais. É isso o que os bancos fazem quando estão com dificuldades financeiras: aumentam o capital para garantir sua solvência. A consequência dessa chamada de capital tão expressiva foi o aumento da participação do Tesouro no capital total do banco, que passou de 30% para 72,7% das ações.
Na última década, o BB se tornou notório por suas parcerias e aquisições. Em 2009, fechou uma parceria com o Banco Votorantim e passou a deter 49,9% deste. No ano seguinte, adquiriu a maior parte do capital social do Banco Patagonia, instituição financeira argentina. Depois, em 2012, constituiu uma empresa no ramo de seguros, a BB Seguridade (BBSE3), que já em 2013 realizou seu IPO na Bolsa.
Fonte: RI Banco do Brasil
Por fim, em 2019, o BB realizou uma oferta pública secundária de suas ações ordinárias que estavam mantidas em tesouraria. Nessa operação, o banco conseguiu colocar nos cofres R$ 2,8 bilhões, que foram utilizados para reforçar a liquidez e o capital principal da empresa.
Enfim, todos esses movimentos ao longo da história de alguma forma contribuíram para que, hoje, o Banco do Brasil tenha os melhores índices de capital e as melhores carteiras de crédito do país, se consolidando, na nossa visão, como um banco de extremo potencial.
Para que você entenda melhor o que estou falando, precisamos dar um salto histórico e analisar um conjunto de dados que preparamos sobre os resultados financeiros dos bancos brasileiros ao final do primeiro trimestre deste ano.
O setor financeiro atualmente
O primeiro dado diz respeito ao ativo dos bancos. O BB fechou com o segundo trimestre como o segundo maior do setor em total de ativos, em tamanho de carteira e em patrimônio líquido. Já em relação ao lucro líquido, o BB teve o maior lucro líquido do segmento no primeiro trimestre.
Sozinho, o BB possui 15% de todo o ativo dos bancos brasileiros, 16% de todo o crédito conseguido, 18% de todo o dinheiro captado e 20% de todo o lucro do setor; é algo gigantesco. O total de ativos do BB já é superior a R$ 2 trilhões. No primeiro trimestre, o lucro do BB foi superior a R$ 8 bilhões.
Fonte: Spiti
Outro ponto que nos chama a atenção é em relação ao passivo do BB. Para um banco, a maior parte do passivo é o dinheiro que ele captou e, em algum momento, terá de devolver ao cliente. Quanto mais barata for a captação, maior a margem de lucro ao emprestar esse dinheiro a um terceiro. Afinal, no fim do dia o negócio bancário se resume a captar barato e emprestar caro.
Cerca de 11% do passivo do BB é de depósitos de poupança, ou seja, uma forma barata de captação. O único banco que bate o BB nesse quesito é a Caixa, que tem 22% do seu passivo nessa modalidade. No país, de todo o dinheiro que há depositado em poupança, cerca de 21% estão depositados no Banco do Brasil.
Quando olhamos para a captação através de depósitos à vista, a forma de captação mais barata de todas, o BB também fica em segundo lugar, perdendo apenas para o Itaú. O BB é custodiante de 5% de todo o dinheiro depositado em contas correntes no Brasil. Pouco mais de 21% do passivo do banco está em depósitos à vista. Mais uma vez, ponto pro BB!
Fonte: Spiti
Se os dados apresentados até agora já não nos dessem motivos suficientes para nos mantermos confiantes com a tese, o melhor ainda estar por vir. O grande destaque do BB se dá pela sua carteira de crédito.
Basicamente, o banco segmenta sua carteira de crédito entre pessoa física, pessoa jurídica e agronegócio. No crédito à pessoa física, o BB é líder no país no empréstimo com consignação em folha, o tipo de empréstimo à pessoa física com o menor risco de inadimplência, com aproximadamente 20% de todo o empréstimo consignado no Brasil.
Por mais que pareça mera formalidade, isso mostra um grande diferencial competitivo do banco. Os empréstimos a pessoas físicas são, de longe, os mais arriscados e apresentam os maiores índices de inadimplência, principalmente em cenários de recessão. Uma forma que os bancos têm de se resguardar e aumentar a segurança do empréstimo é recolhendo as parcelas de pagamento diretamente do salário do cliente.
Por isso dizemos que o BB tem a melhor carteira pessoa física do país, porque é a instituição que mais realiza empréstimos consignados. E não é qualquer empréstimo, não. Uma boa parte da clientela do BB é formada por servidores públicos, justamente a categoria de maior estabilidade financeira e, portanto, de menor risco ao banco.
Esse perfil de clientes é mérito do governo FHC. Foi lá que o BB saiu em busca da folha salarial de prefeituras e estados. O plano deu muito certo e rende frutos até hoje.
Outro destaque da carteira do BB é em relação ao agronegócio. Dentre todas as categorias, essa é a que apresenta os menores índices de inadimplência. Emprestar ao agro é o sonho de qualquer banco. Lembra que, lá na década de 1930, ele começou a financiar o crescimento do agronegócio? Pois é, nada mudou. Metade de todo o empréstimo ao setor no país é feito pelo Banco do Brasil.
Fonte: Spiti
É pela belíssima carteira de crédito que, atualmente, 49% de todos os empréstimos do BB são classificados como AA, a melhor classificação possível para um empréstimo, ou seja, com o menor risco. Em comparação, na média do setor, apenas 30% da carteira de crédito dos bancos é classificada como AA.
Fonte: Spiti
Além da qualidade do banco, outro fator merece destaque: o preço. Na nossa última atualização do modelo de valuation, encontramos um preço-alvo de R$ 74,01 para BBAS3. Atualmente, o papel negocia próximo de R$ 49. É um upside muito significativo.
Essa precificação abaixo do valor justo pode ser vista em análises simples de indicadores. Dentre os grandes bancos brasileiros, o BB é o que apresenta o maior retorno sobre o patrimônio líquido e a menor relação entre preço e valor patrimonial. É como se o líder do campeonato fosse, por algum motivo, apontado como favorito para o rebaixamento.
E o futuro do BB parece promissor. Além de o resultado do primeiro trimestre ter sido muito bom, tornando provável que o banco ultrapasse o guidance, o BB possui ainda uma carta na manga para continuar com o forte crescimento.
Todos os bancos precisam manter um nível mínimo de capital próprio para servir como uma espécie de segurança dos empréstimos que realizam. A relação entre capital próprio e empréstimos realizados é chamada de índice de capital. Quanto maior o índice de capital de um banco, mais ele pode expandir sua carteira de crédito, já que há uma espécie de gordura do capital próprio.
Num comparativo dos grandes bancos brasileiros, o BB é o que possui o melhor índice. Isso significa que, possivelmente, é o que tem a maior margem de crescimento da carteira de crédito. Quanto maior a carteira de crédito, maior o potencial de lucro de um banco. Inclusive, na última apresentação de resultado, um dos diretores chegou a dizer que o BB já fez o pé de meia e que agora seria hora de atacar.
STF x bancos
Fonte: Shutterstock
No mês passado, foi a julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) um processo que visava decidir se os bancos deveriam ou não pagar os impostos PIS/Cofins sobre toda a receita financeira que tiveram entre 2000 e 2014. A decisão foi desfavorável ao setor. O STF decidiu que haveria, sim, a incidência de impostos sobre essa receita.
A estimativa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) é que essa decisão retire dos cofres dos bancos algo próximo a R$ 12,6 bilhões. Só que algumas instituições sofrerão mais que outras.
O Santander será o principal prejudicado, tendo de pagar R$ 4,2 bilhões em impostos retroativos. O Bradesco terá de pagar R$ 2,9 bilhões, o BTG, R$ 1,1 bilhão, e o Itaú, R$ 672 milhões. Esses valores não impactarão os respectivos resultados no trimestre, uma vez que os valores já estão provisionados.
Alguns bancos, como Banco do Brasil, Caixa, Banrisul e Safra, não serão afetados em nada, pois anteriormente já haviam aderido ao Programa de Recuperação Fiscal, o Refis. Mais um motivo para nos mostrarmos otimistas com o BB.
O fato é que, não importa por qual ótica analisemos o setor ou a história, o Banco do Brasil se mostra um banco sólido, de qualidade e negociado a um preço extremamente atrativo. Portanto, seguimos recomendando a compra de BBAS3.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto