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A questão de oferta e demanda é um conceito central na economia, que descreve como os preços e a quantidade de bens e serviços são determinados pelo equilíbrio entre a quantidade que os produtores estão dispostos a oferecer e a quantidade que os consumidores estão dispostos a comprar.
Quando um produto ou serviço é muito desejado, com boas qualidades, baixo risco e margem ampla, isso atrai a atenção de empresas que desejam explorar essas oportunidades.
Podemos trazer alguns exemplos sobre essas dinâmicas:
- No setor de refrigerantes, Coca-Cola e PepsiCo dominam o mercado devido à alta demanda por seus produtos. No entanto, com o surgimento de novas empresas, como Red Bull e Monster Energy, a oferta de bebidas energéticas aumentou, e estas conseguiram conquistar uma fatia do mercado.
- No mercado de tecnologia, Microsoft e Apple dominam, mas empresas como Google e Amazon conseguiram encontrar nichos específicos e se tornaram líderes nesses segmentos. Isso ocorre porque as qualidades de seus produtos, como a eficiência dos mecanismos de busca e a conveniência do comércio eletrônico, atraíram uma alta demanda dos consumidores.
- No setor de varejo, Walmart lidera, mas enfrenta a crescente concorrência de empresas de comércio eletrônico, como a já citada Amazon. A demanda por compras online está aumentando, e essas companhias estão se expandindo para atender a essa procura, oferecendo produtos de qualidade, baixo risco e ampla margem.
- No setor de entretenimento, a Disney tem sido líder há décadas, mas a ascensão de empresas de streaming, como a Netflix, tem desafiado essa posição. Esses novos nomes estão atendendo à crescente demanda por conteúdo original e acesso fácil e rápido a programas, o que os torna atraentes para os consumidores.
No Brasil, o setor de transmissão de energia também tem atraído grandes players da indústria, como a Engie e a EDP, devido à alta atratividade, fluxo de caixa recorrente e previsibilidade após arrematar os leilões de transmissão. Essas empresas estão aproveitando a demanda por energia e a oferta de projetos de infraestrutura para expandir seus negócios e conquistar uma fatia do mercado.
Em resumo, quando um produto ou serviço possui boas qualidades, baixo risco e margem ampla, a demanda por ele aumenta, e isso atrai empresas que desejam explorar essas oportunidades. À medida que a oferta aumenta para atender à procura, a concorrência entre companhias em setores específicos também cresce.
Competição no segmento de transmissão de energia
Desde 2016, o número médio de participantes por leilão de linhas de transmissão de energia aumentou de 1,7 para 8. Isso significa que mais empresas estão competindo pelas mesmas linhas de transmissão, e isso tem impactado os preços e a rentabilidade das companhias do setor.
Com mais empresas disputando os contratos, elas precisam oferecer preços mais baixos para garantir sua fatia do mercado. Isso despertou o interesse daquelas que antes focavam em outros ramos, como a EDP e a Engie, que passaram a investir também no mercado de transmissão.
Um indicador importante para analisar essa situação é o deságio médio por contrato, que mostra a diferença entre o preço máximo que as empresas estão dispostas a pagar em um leilão de concessão de linhas de transmissão e o preço final do leilão. Quanto maior o deságio, maior é a diferença entre os preços máximo e final, indicando que as empresas estão pagando menos pelas concessões.
Entre 2009 e 2016, o deságio médio de contrato era de cerca de 20%. No entanto, entre 2017 e 2021, esse valor subiu para 49%. Isso significa que, em média, as empresas estão pagando um desconto de 49% no preço máximo ofertado nos leilões, comparado a 20% anteriormente. Essa elevação de deságio pode ser atribuída ao crescimento da concorrência no setor, que praticamente quadruplicou.
Em termos mais simples, o aumento da competição resultou em uma redução do valor recebido por linha de contrato e, consequentemente, na rentabilidade das linhas de transmissão. Como as participantes dos leilões estão reduzindo seus preços para garantir os contratos, a receita do projeto diminui, enquanto os custos de instalação e investimentos permanecem os mesmos. Isso leva a um menor retorno total da operação e compromete a margem das empresas.
Então, quais os pontos nos levam a manter Taesa (TAEE11) na carteira?
Por que manter a Taesa em carteira, mesmo com o aumento da competição no mercado de transmissão de energia elétrica?
Há alguns fatores importantes a serem considerados ao avaliar essa questão.
Primeiramente, vale destacar as perspectivas de crescimento e investimentos no setor. O Plano Decenal de Energia (PDE), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima investimentos de cerca de R$ 100 bilhões em linhas de transmissão até 2030.
Esses investimentos tornam o setor atraente para as empresas, já que é fortemente regulado, conta com contratos de longo prazo (30 anos) e possui baixo nível de inadimplência em comparação a outros segmentos. Além disso, as receitas são reajustadas anualmente pelo IPCA, o que oferece um certo grau de proteção contra a inflação.
A expansão da rede de transmissão também é essencial para o desenvolvimento de fontes renováveis de energia no Brasil. A energia eólica hoje já representa terceira maior fonte de energia levando em consideração capacidade instalada no Brasil. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrica (ONS), 13,03% da capacidade instalada de geração de energia no Brasil é de fonte eólica, ficando atrás da térmica (21,71%) e hidrelétrica (60,22%).
Como mostraremos, o país possui um enorme potencial nesse setor, e a construção de novas linhas de transmissão é fundamental para garantir que a energia gerada por essas fontes chegue aos centros de consumo.
Fluxo de Energia Elétrica - BEN 2022 / ano base 2021
Fonte: Balanço Energético Nacional (2022)
O Brasil possui um grande potencial de expansão na energia eólica, sendo historicamente caracterizado por uma matriz energética com forte presença de renováveis, principalmente a hidroelétrica.
Em 2001, o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro indicou um potencial instalável de 143 GW (Gigawatt) para todo o país, e estudos mais recentes reforçam esse enorme potencial eólico onshore a ser explorado no horizonte de estudo do PNE 2050 – em vermelho, na figura a seguir. A título de comparação, segundo nota técnica 04/18 da EPE, a capacidade instalada de hidrelétricas em 2015 no Brasil é de 89 GW, o que mostra o grande potencial dessa fonte energética ainda a ser explorado.
Potencial eólico dos Atlas Estaduais
Fonte: EPE (2018)
Importante reforçar que a energia eólica tem sido uma das fontes renováveis que mais crescem no mundo e no Brasil, motivada por discussões sobre mudanças climáticas e a necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa e outros poluentes.
Capacidade instalada de geração elétrica
Fonte: EPE (2018)
No entanto, existem desafios em relação ao aumento da capacidade de geração de energia eólica, como questões logísticas, em especial o transporte de grandes pás e turbinas, que podem ser maiores do que a própria London Eye, uma das maiores rodas gigantes do mundo, localizada em Londres, capital da Inglaterra.
Fontes: Dailymail e EPE
Além disso, há de se considerar a própria necessidade de investimentos em infraestrutura de transmissão de energia, uma vez que os maiores potenciais estão no litoral e interior do Nordeste e no extremo Sul do país, onde encontramos as melhores localizações para implantação de parques eólicos (conjuntos de aerogeradores, equivalentes às usinas):
Mapa de ventos do Brasil
Fonte: Nota Técnica PR 04/18 – Potencial dos Recursos Energéticos no Horizonte 2050 – EPE
A Taesa, que tem presença no Nordeste e já atua com transmissão de energia na região, pode se beneficiar desse cenário. Com a estimativa de R$ 100 bilhões de investimento pela PDE e EPE, é esperado que a maior parte dos empreendimentos seja direcionada às regiões Nordeste e Sudeste.
A expansão das geradoras de energia eólica pode ter uma influência positiva na TIR (taxa interna de retorno) de futuros projetos de transmissão e no aumento potencial de receita para empresas desse segmento, como a Taesa, uma vez que será necessário fazer investimentos significativos para escoar a energia produzida, o que pode levar a geração de novos leilões com taxas mais atraentes do que a atual.
Assim, a Taesa pode aproveitar as oportunidades geradas pelo crescimento da energia eólica no Brasil, ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios logísticos e de infraestrutura que vêm com essa expansão. Seus conhecimentos e presença no Nordeste colocam a empresa em uma posição favorável para se beneficiar do aumento do investimento e do desenvolvimento permanente dessa fonte de energia renovável.
Outros pontos importantes
Apesar do aumento na competição desse mercado e do fato que a TIR dos projetos atuais esteja próxima de zero, as ações da Taesa apresentam um ágio inferior a 9% em relação ao valor justo calculado pela equipe de ações da Spiti, mesmo diante desse cenário adverso.
Isso significa que, ainda que as condições permaneçam desfavoráveis, a Taesa pode ser vista como uma opção interessante para investidores, sem estar muito acima do seu valor justo estimado.
Vale lembrar que esse valor justo considera as dificuldades enfrentadas pelo setor e um cenário bem conservador, no qual não haveria nenhuma alteração no aumento de rentabilidade de projetos, projetando alta competitividade, limite de leilões e rentabilidade restrita de novas linhas de transmissão.
No entanto, é possível que esse cenário mude, tendo em vista o grande potencial energético a ser desenvolvido até 2030. Dessa forma, vemos que, em um cenário bem conservador em relação à ação, temos um ágio de menos de 9%, com possibilidade de destravar valor, tendo em vista os pontos positivos de desenvolvimento do setor.
Com a liberação de novos projetos e a crescente necessidade de novas linhas de transmissão, o valor justo da empresa pode aumentar. Além disso, ao manter a Taesa em carteira, investimos em um dos setores com maior recorrência no pagamento de dividendos, que tende a se beneficiar do aumento da energia gerada no país.
Outro aspecto importante a considerar é a concentração dos negócios. Empresas como a Engie, por exemplo, atualmente buscam expandir sua presença no setor de transmissão, mas o core dessas outras companhias vai além disso, tocando em todas as pontas do negócio, desde a geração de energia até a transmissão.
Já a Taesa atua apenas em transmissão, e não nos outros braços do setor, limitando os possíveis riscos, e focamos no setor que apesar da grande regulação tem baixa inadimplência e receitas corrigidas anualmente por índices de inflação.
Portanto, mesmo com o aumento da competição no mercado de transmissão de energia elétrica, ainda há espaço para crescimento e oportunidades para as empresas do setor. Investir em empresas como a Taesa é uma forma de aproveitar essas oportunidades.
Conclusão
O mercado de transmissão de energia enfrenta crescente competição, impactando preços e rentabilidade das empresas. Essas mudanças são percebidas pelo aumento do deságio médio por contrato e redução do valor recebido por linha de contrato. As companhias do setor precisam se adaptar e encontrar formas de manter rentabilidade e competitividade.
Entretanto, ao considerar o potencial futuro no setor de energia e a capacidade de pagamento de dividendos da Taesa, vemos razões convincentes para reiterar a recomendação de COMPRA para suas ações (TAEE11) e mantê-la em nossa carteira. Embora as margens dos projetos de transmissão possam sofrer no curto prazo, não vemos nenhum gatilho que nos leve a querer aumentar ou reduzir nossa exposição além dos 5% atuais.
Ao avaliar o fluxo de caixa recorrente e estável da empresa, bem como seu histórico de pagamento de dividendos, continuamos a enxergar a Taesa com bons olhos. O valor justo médio da Bloomberg, que leva em conta o último resultado do 4T22, é de R$ 34,68 por ação, e o potencial pagamento de dividendos para 2023 é estimado em 10,68% pelo mercado – e isso apenas reforça nossa recomendação.
Além disso, em 2022, a Taesa entregou um total de quase R$ 1,7 bilhão para seus acionistas, o equivalente a R$ 4,85 por unidade ou um dividend yield de 14,0% ao final do ano. Desde que entrou em nossa carteira, a empresa proporcionou um retorno considerando dividendos de 65,58%.
Sendo assim, resumindo os principais pontos que nos levam a manter a recomendação de compra sem alterar o percentual e os possíveis riscos do investimento são:
- Perspectivas de crescimento e investimentos no setor de transmissão de energia, baseadas no Plano Decenal de Energia (PDE), que estima investimentos de R$ 100 bilhões até 2030.
- Necessidade de expansão da rede de transmissão para apoiar o desenvolvimento de fontes renováveis de energia no Brasil, potencialmente beneficiando a Taesa e outras empresas do setor.
- Preço em linha com estimado pelo mercado, hoje estimados em R$ 34,68 e ágio de menos de 9% em relação ao valor justo, calculado pela equipe da série O Melhor da Bolsa, levando em consideração as condições adversas atuais para as empresas de transmissão.
- Potencial de pagamento de dividendos, atrativo para uma carteira voltada para renda.
- Restrição da exposição ao setor elétrico em apenas transmissão de energia, que tem histórico de baixa inadimplência, receita de acordo com disponibilidade dos ativos e reajustadas anualmente pelo IPCA.
- Possível benefício da Taesa com o crescimento da energia eólica no Brasil, graças à sua presença e conhecimento no Nordeste.
- Histórico de pagamento de dividendos e fluxo de caixa recorrente e estável da Taesa, estimado para 2023 no valor de 10,68% ao ano.
Diante desses fatos, argumentamos que a Taesa é uma opção atraente para manter em nossa carteira, devido ao seu desempenho, ao potencial de pagamento de dividendos e ao fluxo de caixa recorrente e estável do setor. Acreditamos que a empresa continuará a oferecer retornos sólidos e dividendos significativos no futuro.
Dessa forma, manteremos nossa recomendação de COMPRA para TAEE11, que hoje corresponde a 5% da carteira Renda Total.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto