Relatórios

Revisão da tese de investimentos do Banco Daycoval

Escrito por Eduardo Perez em RENDA FIXA

8 min de leitura

Olá, pessoal, 

Desde a minha chegada em janeiro deste ano, recebemos perguntas de assinantes preocupados com o cenário de caos do crédito bancário no Brasil por conta do Banco Master e seus amigos. 

Junto dessa dúvida vinha uma subsequente, em relação à saúde financeira do Banco Daycoval, que está entre as recomendações de renda fixa antes tocadas pelo Gui Cadanhotto e que segue sendo recomendado como opção de emissor de CDB pós-fixado com liquidez diária. 

Vamos reanalisar a tese de investimentos e mostrar para você o motivo do Daycoval estar passeando tranquilamente em meio a uma tempestade perfeita para boa parte dos bancos. 

Sobre o Banco Daycoval

Fonte: site Daycoval - RI (dados de 2025) 

O Daycoval começou as operações em meados de 1968 como Daycoval Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, justamente em uma época difícil na história do nosso país.  

Mesmo assim, nascia a Valco Corretora de Valores logo em 1970, e em 1989 o Daycoval recebia permissão para ser um banco múltiplo.

Na década de 90, após o período de hiperinflação no país, o grupo Daycoval expandiu os serviços para câmbio e, mesmo com receios de mercado na crise de liquidez de 2004, o grupo seguiu expandindo suas atividades, inclusive com a criação da Daycoval Asset Management e início das operações de crédito consignado para pessoas físicas. 

Em 2008 o Daycoval se mudava do bairro da Santa Cecília, em São Paulo, para a Avenida Paulista e ainda realizou a abertura de capital, resultando em R$ 936,4 milhões em aportes de novos investidores. 

Hoje em dia o Daycoval continua em expansão, focado principalmente em empresas PME (de pequeno e médio porte) oferecendo soluções de crédito, mas também com destaque para as operações de crédito consignado, consideradas de baixo risco, crédito de aquisição de veículos e câmbio, 

E foi o seu comprovado conhecimento em como trabalhar bem neste nicho do crédito de empresas de pequeno e médio porte que fez o Daycoval se destacar e expandir negócios em tantos momentos tensos no Brasil, ou seja, eles conseguem extrair margens superiores em ambientes de alta complexidade onde os bancões não conseguem ter agilidade e as fintechs ainda não conseguem adaptar a escalabilidade. 

Fonte: site Daycoval - RI 

Carteira de Crédito no detalhe 

Eu gosto de olhar a composição da carteira de crédito dos bancos analisados para que a gente tenha em mente que os bancos não são todos iguais.  

No caso do Daycoval, aproximadamente 31% da carteira é de empréstimos e financiamentos do segmento de empresas, seguidos de 20% de compra de direitos creditórios de empresas também e em terceiro lugar temos 20% em crédito consignado.

Vamos aprofundar melhor essa carteira analisando os 2 segmentos, de empresas e varejo (pessoa física):

1. Segmento Empresas

É o principal negócio do Daycoval, focado no atendimento a clientes corporativos (PMEs e Large Corporate). Em 2025, este segmento totalizou R$ 52,8 bilhões

●       Empréstimos e Financiamentos: Inclui operações de capital de giro e linhas destinadas a investimentos produtivos. O banco também opera linhas de repasse do BNDES e FINAME;

●       Compra de Direitos Creditórios: Trata-se da aquisição de recebíveis, onde o banco antecipa recursos para as empresas com base em suas vendas a prazo;

●       Arrendamento Mercantil (Leasing): Financiamento de máquinas, equipamentos e veículos para empresas através da modalidade de leasing financeiro ou operacional;

●       Câmbio (ACC/ACE): Operações que apoiam empresas importadoras e exportadoras por meio de adiantamentos sobre contratos de câmbio;

●       Garantias Financeiras Prestadas: Prestação de avais e fianças bancárias para garantir obrigações de seus clientes junto a terceiros;

●       Títulos Privados: Investimentos em instrumentos de dívida corporativa, como debêntures e Cédulas de Produto Rural (CPR), que o banco mantêm como exposição de crédito.

2. Segmento Varejo

Focado em pessoas físicas, o varejo é uma alavanca estratégica de crescimento e rentabilidade ajustada ao risco. Em 2025, o total da carteira foi de R$ 22 bilhões.

●       Crédito Consignado: O produto mais relevante deste segmento, voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas do INSS, com desconto direto em folha de pagamento. Essa modalidade podemos considerar como de baixíssimo risco de crédito já que as chances do calote acontecer são extremamente baixas.

●       Cartão Consignado: Modalidade de cartão de crédito onde o pagamento mínimo é descontado da folha. Em 2025, esta carteira foi fortalecida pela aquisição do portfólio do Banco Santander.

●       Financiamento de Veículos: Financiamento para a aquisição de automóveis leves e pesados (caminhões), apresentando crescimento acelerado em 2025 (44,9%). Aqui podemos considerar que há um grande impacto do ciclo de juros, porém mesmo em um cenário mais adverso, o banco conseguiu ter ótimos resultados.

●       Financiamento Imobiliário (Home Equity): Operações de crédito com garantia real de imóveis, focadas no produto de "home equity", onde o cliente utiliza o imóvel como garantia para obter juros menores. Aqui o risco é consideravelmente baixo levando em conta que há uma garantia real.

Reparem que, assim como um portfólio de investimento pode ter posições mais arriscadas em troca de maior rentabilidade com a presença de ações negociadas na bolsa, o risco total pode ser reduzido com uma posição mais conservadora de aplicações pós-fixadas com baixo risco de crédito, seja com um Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária. 

E o Daycoval faz algo similar a isso: já que os empréstimos de empresas podem ter um risco maior, os empréstimos consignados estabilizam o risco total da carteira de crédito por conta da sua baixa inadimplência. 

Histórico de Resultados 

(em MM R$)

AnoAtivo TotalPassivoPLLucro LíquidoROEROA
2019R$ 34.845,0R$ 31.149,8R$ 3.695,2R$ 1.020,228,8%2,9%
2020R$ 49.159,8R$ 44.733,9R$ 4.425,9R$ 1.182,628,6%2,9%
2021R$ 61.931,6R$ 56.950,3R$ 4.981,3R$ 1.414,228,3%2,6%
2022R$ 69.704,9R$ 63.966,4R$ 5.738,5R$ 1.102,920,3%1,7%
2023R$ 77.097,6R$ 70.961,2R$ 6.136,4R$ 1.101,918,2%1,5%
2024R$ 90.925,5R$ 83.852,1R$ 7.073,4R$ 1.689,325,0%1,9%
2025R$ 100.569,8R$ 93.494,5R$ 7.075,3R$ 1.796,623,5%2,1%

Fonte: Finclass e dados de RI

ROE = Return Over Equity/Retorno sobre o Patrimônio Líquido

ROA = Return Over Asset/Retorno sobre Ativos 

Fonte: economia.uol

Para efeitos de comparação, conseguimos estimar o ROA médio do setor financeiro no Brasil em entre 2024 e 2025 através do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central divulgado em 12/11/2025, que informava que os maiores bancos do país (categorizados como S1 e S2) tinham a relação entre [SG1] capital entre 9% e 11% dos ativos totais, então podemos deduzir que a alavancagem aproximada seria de 10 a 11 vezes. 

Com essa informação podemos considerar que o ROA do bancões está em um espaço entre 1,2% e 1,5%. 

Então além do Daycoval conseguir entregar consistentemente um ROE acima dos 15% da média do setor em 2024, ainda opera com um ROA mais interessante. 

Lojas Americanas: mais um desafio superado 

Repare que através dos últimos 6 anos os números na tabela anterior mostram um ritmo de crescimento muito bacana, porém o lucro líquido de 2022 teve um recuo, resultado de um cliente considerado “Large Corporate” que iniciou o processo de recuperação judicial. 

Fonte: economia.uol

O cliente? Lojas Americanas. 

Carlito Dayan, CEO do Daycoval, postou em seu perfil no LinkedIn o seguinte texto: O valor líquido de impostos total é menos de 4% do Patrimônio de Referência.

Este caso específico pelo seu tamanho já foi provisionado em mais de 50% no balanço do ano passado. E mesmo assim o Daycoval vai mostrar um resultado recorde e uma rentabilidade acima de 25%. Sejamos claros: se não fosse o evento o resultado seria melhor, e fica sim um gosto amargo na boca. É isso que importa, o resto é novela de sites e jornais já que estão envolvidos os 3 homens mais ricos do Brasil.

Nós não vamos espernear, brigar em público, acusar e nos revoltar.

A nossa resposta a essa fraude será MAIS TRABALHO.

Vamos fazer o que sempre fizemos sem olhar pra trás, com mais afinco, mais experiência, mais raça e vontade. Não foi a primeira vez e não será a última. ” Repare que ele poderia ter dito “Apesar do evento de crédito, tivemos um resultado ótimo e estamos satisfeitos!” Mas ele escolheu o caminho de reafirmar a filosofia que trouxe o Daycoval até onde ele está hoje após tantos desafios: “Mais trabalho”.   

E isso se prova com os anos que sucederam essa crise. Crescimento sustentável e rentável. 

Banco perfeito não existe 

Então o Daycoval é o banco dos sonhos?  

Nenhum risco escondido?

Nenhum ponto de atenção? 

Bem, banco perfeito não existe. Então vamos ver de perto os pontos que chamam atenção e que precisam ser acompanhados de perto a cada divulgação de resultado do Daycoval. 

1. Como sua carteira está em franca expansão com foco em empresas, qualquer mudança no perfil dessas operações pesando mais em operações [SG2] demasiadamente arriscadas, a futura projeção de provisão para perdas pode aumentar e com isso o resultado do banco reduz. 

2. A própria agência classificadora de risco Moody’s destacou em seu relatório sobre o Daycoval que uma piora desses empréstimos levando o ROA abaixo de 1,2% seria um indicador de piora da qualidade dessa carteira.  

Já a Fitch destacou que um rebaixamento da classificação do Daycoval poderia acontecer caso o índice de resultado operacional sobre ativos ponderados pelo risco ficasse abaixo de 1,25%, com o CET1 abaixo de 11% de forma contínua. A Fitch não especifica quanto tempo ela considera como “forma contínua”, mas em 2025 o Daycoval teve um índice CET1 de 9,6%. 

O CET1 (Common Equity Tier 1) é tratado nas demonstrações do Daycoval com o nome “Capital Principal” e poderia ser resumido como uma classificação mais conservadora do colchão de liquidez do patrimônio líquido. 

Alguns itens ficam de fora dessa conta, como créditos tributários, ativos intangíveis, investimentos em empresas não controladas e ajustes de avaliação patrimonial negativos. 

Contudo, a diretoria compensou essa pressão no capital principal reforçando o Capital de Nível 1 total (via emissão de dívida subordinada perpétua - as Letras Financeiras), mantendo o índice de Basileia acima dos limites mínimos do Banco Central.  

Fonte: site Daycoval - RI 

Eu não recomendo que você baseie sua escolha puramente em notas de ratings, mas quando uma nota dessas sofre um rebaixamento muito drástico ou uma série de rebaixamentos seguidos, os investidores institucionais costumam vender mais a mercado os ativos desse emissor e param de comprar, podendo levar a uma redução da liquidez de curto prazo do banco já que as captações reduzem. 

3. Existe o risco regulatório do governo fixar um teto de juros máximos permitidos para empréstimos consignados que, em tese deveria proteger os tomadores de crédito de taxas abusivas, porém, caso esse teto fosse abaixo do custo necessário para manter a operação minimamente rentável, os bancos deixariam de ofertar consignados e focariam em outras vertentes. 

Eu particularmente não acredito que isso tem grandes chances de acontecer, pois a população que mais precisa dos consignados sairia afetada e no Brasil o lobby do setor financeiro tem conseguido fazer as pressões necessárias para derrubar projetos como a tributação de produtos de renda fixa até então isentos de IR para pessoa física.

Daycoval aprovado 

O Banco Daycoval continua como um emissor de CDBs aprovado pela Finclass; agora, vamos ver as condições. Sondamos as plataformas BTG, Inter, XP, C6 e do próprio Daycoval e constatamos que a oferta do CDB 3 anos com liquidez diária e uma taxa de 104% do CDI ainda é altamente atrativa. 

Esse CDB está disponível apenas na plataforma do Daycoval com essa identificação de “Campanha de Liquidez Diária”:

 

 

Resumo da ópera: o Daycoval é, sim, um banco confiável, rentável e atrativo do ponto de vista dos investidores de renda fixa, mesmo em um cenário de estresse do mercado bancário com a liquidação extrajudicial de outros bancos.

À medida que realizarmos a cobertura de novos bancos, vamos atualizar vocês.

 

Um abraço!

Sobre os analistas

Eduardo Perez

Especialista em Renda Fixa

Eduardo Perez é analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, construiu sua trajetória no mercado financeiro passando por diferentes áreas, desde o atendimento ao cliente na Easynvest até o research de renda fixa e análise macroeconômica no Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Posteriormente, atuou na mesa de operações de renda fixa, integrando a equipe de gestão do book proprietário. Acredita que o mercado de capitais brasileiro ainda tem um amplo espaço para crescimento e amadurecimento, especialmente do ponto de vista do investidor pessoa física, e vê a educação financeira como o principal caminho para transformar esse potencial em decisões de investimento mais conscientes e eficientes.