Milhões de brasileiros investem em renda fixa e em ações, e, recentemente, essa cifra chegou também aos fundos imobiliários.
Mas poucos, pouquíssimos brasileiros mesmo, tiveram a oportunidade de adquirir ações e títulos de renda fixa norte-americanos nos níveis de preços e de taxas que observamos recentemente.
Para isso, há duas explicações.
A primeira é que o número de pessoas que investem uma parte do seu dinheiro em ativos internacionais ainda é baixo atualmente – imagine então dez ou vinte anos atrás...
A tecnologia e a queda das fronteiras em relação ao dinheiro ajudaram a melhorar o primeiro aspecto levantado.
Fonte: Shutterstock
Hoje, temos listados mais de mil BDRs, os Brazilian Depositary Receipts, certificados de depósito emitidos e negociados no Brasil que representam algum ativo listado em Bolsas de outros países.
Para você ter ideia do quanto o mercado internacional passará a se tornar relevante para você que investe, temos aproximadamente 400 ações listadas em Bolsa e aproximadamente 470 fundos imobiliários no país, o que significa que você tem à disposição mais ativos internacionais como opção de investimento do que ações e fundos imobiliários no Brasil somados.
A segunda é que que os níveis de taxas e de preços registrados ao longo dos últimos dois anos nos EUA são raros, principalmente quando olhamos os dados históricos.
E o atual estágio de taxa registrado nos títulos públicos norte-americanos só foi possível de ser observado devido ao nível relevante da inflação nos Estados unidos, que atingiu o patamar mais alto dos últimos 40 anos.
Veja no gráfico abaixo o CPI (Consumer Price Index ou índice de preços ao consumidor dos EUA) nesse período:
Fonte: Investing
Esse nível de taxa fez com que os juros de curto prazo nos EUA, conhecidos como Fed Funds Rate, chegassem ao patamar mais alto desde a crise de 2007/2008:
Fonte: Investing
Juros de curto prazo também impulsionam os de médio e longo prazos, que observaram uma elevação relevante nos últimos anos.
Observe no gráfico abaixo o nível de taxa dos títulos públicos norte-americanos que vencem em dez anos:
Fonte: Investing
O nível de taxa que esse tipo de ativo atingiu atualmente só foi observado em 2007, ou seja, mais de 15 anos atrás.
No meu ponto de vista, fica difícil argumentar que não há uma boa oportunidade na renda fixa norte-americana, sendo que os juros estão nas máximas dos últimos 15 anos.
As pessoas que defendem que o momento ainda não é oportuno para a renda fixa norte-americana alegam que a inflação ainda persistirá por um período relevante, e que isso fará com que os Estados Unidos possam, inclusive, revisar sua meta de inflação para cima.
Um movimento nesse sentido pode jogar a taxa de juros estrutural dos EUA para cima, retirando o que chamamos de “upside” dos títulos de renda fixa norte-americanos.
É o nosso cenário?
Não.
Mas essa oportunidade se reflete na mesma intensidade nas ações norte-americanas?
Parece que não.
Os múltiplos, que são indicadores que visam comparar o preço da ação com os resultados das empresas, ainda estão relativamente “esticados”, ou seja, em patamares que historicamente não indicaram resultados extremamente atrativos para os investidores.
Não sou só eu que noto essa atratividade maior na renda fixa do que em ações:
Fonte: Estadão
Manchetes como essa são comuns, ressaltando a visão de grandes bancos e instituições financeiras que ainda enxergam uma possível “pernada” de baixa para as ações nos Estados Unidos.
Apesar de pensar que isso pode de fato acontecer, eu sou da linha de pensamento que “o ótimo é inimigo do bom.”
Quando você busca o ponto de entrada perfeito em ações, pode acabar perdendo não somente o ótimo, mas também o bom e o regular, e ficando apenas com o ruim.
A cabeça do investidor pessoa física não deveria ser guiada pela orientação de quem pensa como investidor institucional.
Mas o que tudo isso tem a ver com o que quero trazer aqui?
O fato inegável é que sua carteira precisa se tornar cada vez mais “globalizada”, ou seja, ter uma participação crescente em ativos internacionais.
Conforme você for se acostumando com isso e com mais informações e conhecimento sobre as oportunidades que surgem lá fora, maior vai ser a demanda por um ativo seguro, que esteja alocado em dólares e “trabalhando” de alguma maneira pelo aumento de seu patrimônio enquanto não encontra um destino melhor.
Por isso, hoje atendo a uma demanda de alguns de vocês para um ativo que funcione como um caixa ou reserva de oportunidade nos EUA.
Reserva de oportunidade ou caixa internacional
É importante lembrar que a reserva de oportunidade, também conhecida como caixa, é um dinheiro que fica apartado da sua reserva de emergência.
O caixa é uma fatia que compõe a sua carteira de investimento e deve ficar alocado em ativos de baixa volatilidade e alta liquidez, para que você consiga aproveitar oportunidades naqueles de alta volatilidade quando estes apresentarem bons pontos de entrada.
O exemplo mais clássico é o dinheiro que está investido Tesouro Selic e que é utilizado para adquirir ações em momentos de pânico do mercado.
Exemplos da importância desse caixa no Brasil não faltam nos últimos anos:
- Ao final de 2022, após o resultado das eleições e a apresentação da PEC da transição, observamos quedas relevantes nos preços dos ativos no país.
- Em 2020, com a crise trazida pela pandemia, observamos uma queda de quase 50% no Ibovespa, índice formado pelas ações mais negociadas no país.
- Dois anos antes, tivemos a greve dos caminhoneiros, que afetou todo o país e os mercados por mais de um mês.
- Em 2016, tivemos o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
Se continuarmos esse exercício, não pararemos tão cedo com os exemplos.
O ponto é: oportunidades sempre aparecem e é bom estar pronto ou pronta para quando elas aparecerem. E a melhor maneira de fazer isso no mercado financeiro é ter um caixa.
Mas essas oportunidades também aparecem no mercado norte-americano?
Vamos analisar os últimos cinco anos (desde maio de 2018) e pontuar momentos em que o S&P 500, o principal índice da bolsa norte-americana, apresentou quedas relevantes de preço.
Primeira janela (de dezembro/2021 a outubro/2022): -24,82%
Fonte: Google Finance
Segunda janela (de fevereiro/2020 a março/2020): -31,81%
Fonte: Google Finance
Terceira janela (de setembro/2018 a dezembro/2018): -17,51%
Fonte: Google Finance
Apesar de apresentar um número aparentemente menor de fortes correções, a Bolsa norte-americana não está salva desses “sustos”, que, se bem aproveitados, podem se tornar excelentes oportunidades.
O investimento ideal para sua reserva de oportunidade: SGOV
Para aproveitar essas oportunidades, o seu dinheiro precisa ficar alocado no que chamamos de “Selic norte-americana”, a Fed Funds Rate.
Acontece que há um “probleminha” nesse aspecto.
Os títulos públicos de países desenvolvidos são quase em sua totalidade prefixados, e não pós-fixados.
O motivo para isso, de maneira simples e resumida, é que ter um percentual grande de títulos pós-fixados na sua dívida reduz demais o potencial da sua política monetária, o que nenhum país quer. Logo, se é possível evitar emitir esse tipo de título, os países assim o fazem.
Como então expor o nosso dinheiro à taxa de juros de curto prazo nos EUA se os títulos são prefixados?
Títulos prefixados de curtíssimo prazo, de até três meses. Isso faz com que seja possível uma única alteração de juros nesse meio-tempo e que a oscilação de preço com marcação a mercado nesses títulos seja ínfima.
A taxa desses ativos vai ser muito próxima à Fed Fund Rate (a taxa de juros norte-americana), o que cumpre bem os requisitos para se tornar uma opção para uma reserva de oportunidade nos EUA.
Como fazer esses investimentos?
Adquirir títulos públicos norte-americanos que venceriam nos próximos meses seria algo minimamente trabalhoso. Afinal, você precisaria recomprar os ativos a todo momento em que eles vencem.
Para resolver esse “problema”, nós vamos mais uma vez de ETF.
O ETF é um fundo passivo que tem uma composição pré-definida, e eu selecionei um ativo que é composto única e exclusivamente por títulos públicos norte-americanos que vencem em um período de zero a três meses.
O escolhido: SGOV
Como já mencionado acima, o SGOV é um ETF, e dos grandes, diga-se.
Hoje o seu valor de mercado soma nada menos do que US$ 10 BILHÕES – isso mesmo, de dólares, um patrimônio relevante.
A sua negociação diária chega a US$ 1,4 milhão, o que possibilita a entrada e saída desse ativo sem grandes problemas.
Cada cota, ou seja, cada pedaço desse fundo custa US$ 100 e é negociado na NYSE, a Bolsa de Valores de Nova York.
Importante mencionar que, pelo fato de tais títulos possuírem um prazo curto de vencimento, a rentabilidade dele vai ser sempre muito próxima à taxa de juros de curto prazo nos EUA, que hoje está próxima de 5% ao ano.
Você pode pensar que 5% ao ano em dólar não é uma rentabilidade muito boa. Mas veja no gráfico abaixo a performance de um ativo que paga dólar + 5% ao ano frente aos principais benchmarks do mercado brasileiro:
Fonte: Quantum
Em primeiro lugar disparado da lista, temos o índice de dólar + 5% ao ano, com uma rentabilidade acumulada desde 2011 de 448%.
Em segundo lugar, com uma rentabilidade acumulada de “apenas” 289,26%, está o IMA-B, o índice dos títulos públicos indexados à inflação.
É a melhor opção de investimento para sua carteira? Não, mas quero mostrar que é muito competitivo, e lembre-se de que estamos falando de um ativo para funcionar como sua reserva de oportunidade ou caixa.
Característica importante: juros mensais
Nos EUA, os ETFs pagam juros, o que ainda não acontece no Brasil.
No caso, o SGOV paga juro mensal, ou seja, se você aplicar US$ 100 e a rentabilidade no mês for de US$ 100,40, vão cair US$ 0,40, descontado o imposto sobre o lucro na sua conta internacional.
“Poxa, Gui. Eu, que estou no Brasil, não tenho conta lá fora. Consigo acessar esse ativo por aqui?”
O acesso via BDR é pelo ativo BSGO39.
Eu falei no início do relatório que hoje temos milhares de BDRs, ou seja, ativos negociados em Bolsa brasileira que replicam o movimento dos ativos internacionais, e o caso do BSGO39 é mais um deles, sendo a maneira mais fácil de se expor ao movimento do SGOV.
Ressalvas e conclusão
Não estamos incluindo na carteira recomendada o SGOV, mas, sim, colocando como uma sugestão para reserva de oportunidade para ativos internacionais.
Muitos de vocês nos pedem essa sugestão há um bom tempo, e resolvi procurar a melhor opção para o seu dinheiro que está lá fora.
Se estamos falando de um ativo para funcionar como caixa para oportunidades internacionais, esse dinheiro necessariamente precisa ficar alocado em plataformas no exterior. Dessa forma, quando a oportunidade surgir, seu dinheiro já vai estar na plataforma correta para adquiri-lo.
Ter a reserva de oportunidade em dólar em BDR não faz muito sentido por conta de dois fatores:
- Apesar de replicar o movimento do ativo internacional (SGOV), o BDR tem uma liquidez muito menor, o que pode te prejudicar em um momento de tentativa de saída muito rápida para outra oportunidade.
- Se você não quer abrir conta em uma plataforma internacional, você pode simplesmente optar por deixar seu dinheiro em Tesouro Selic, rendendo os atuais 13,75% ao ano, o que já é uma bela taxa.
Por último, mas não menos importante, lembre-se de que a declaração de Imposto de Renda de investimentos internacionais, mesmo através de BDRs, é um pouco mais burocrática, dado o pagamento dos dividendos mensais.
Para tirar todas as suas dúvidas quanto a esse tópico, sugiro ler nosso relatório completo sobre tributação de BDRs.
O fato é que, atendendo a pedidos, temos uma opção de ativo para reserva de oportunidade em dólar.
Abraços,
Gui Cadonhotto