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Acabou de acontecer a maior atualização de todo o mercado cripto deste ano.
Depois de dois anos e meio, agora é possível que investidores que colocaram seus ETH em staking saquem seus ativos da Beacon Chain.
Por um lado, é de fato uma funcionalidade bastante importante porque aumenta a confiança na rede e dá flexibilidade para quem investe, que, a partir de agora, poderá sacar seus ativos quando for necessário.
Por outro, grande parte dos investidores acreditavam que essa possibilidade de saques aumentaria abruptamente a oferta do ativo no mercado, pois cerca de 15,6% dos ETH poderiam voltar a entrar em circulação, o que consequentemente impactaria nos preços.
Será que essa possibilidade de saque em massa é real para justificar esse medo? E quais são as consequências dessa atualização até o momento?
Beacon Chain
Caso você não esteja por dentro da mudança do Proof-of-Work (PoW) para Proof-of-Staking (PoS) da rede da Ethereum, vamos fazer uma breve revisão sobre isso.
A Beacon Chain foi a cadeia responsável pela origem do PoS da rede da Ethereum. Ela começou a coletar ETH em novembro de 2020, e, em setembro de 2022, fez a fusão (The Merge) com a cadeia principal da Ethereum.
Uma das maiores vantagens do PoS certamente é o menor consumo de energia – cerca de 99% a menos. Mas os desenvolvedores aproveitaram a atualização para melhorar outras características, como mudanças na cobrança das taxas, que passaram a retirar parte dos ativos de circulação (burn) e também reduziram bastante a emissão de novos ativos (pagamento dos validadores), que caiu em torno de 88%.
Com menor emissão de ativos, e parte deles sendo queimados, agora a rede da Ethereum, que tem como característica produção infinita de ativos, consegue artificialmente até mesmo diminuir o número de ativos de circulação. Isso acontece quando a rede passa a ser bem utilizada, momento em que há grande queima de ativos.
Número de ativos desde o The Merge
Fonte: UltraSound.Money
Desde que a mudança aconteceu, houve uma queda de quase 88 mil ETH em circulação, já que, na maior parte do tempo, foram queimadas mais moedas do que se produziu.
No gráfico acima, pode parecer bastante, mas, por enquanto, não é uma quantia tão significativa, apenas uma redução de 0,125% do total de ativos. Só que, considerando que a demanda pela rede tende a aumentar com o tempo, no futuro devemos ter grandes quantidades de queimas. Por enquanto, só o fato de não aumentar o número de ativos em circulação certamente já é um ponto bem favorável para o ativo.
Além dessa ferramenta que aumenta a escassez do ativo, também devemos considerar aqueles que foram colocados em staking na Beacon Chain. Isso porque, desde quando ela foi criada, em novembro de 2020, ativos que eram colocados em staking não podiam ser sacados de volta, pois ficavam presos na rede. Quem depositou por volta de 2020 nem ao menos tinha uma expectativa de quando poderia sacá-los. As previsões de quando os saques começariam a ser liberados ficaram mais precisas somente no ano passado.
Agora, esse cenário pode estar se invertendo. Com a nova atualização, existe a possibilidade de todos os ativos em staking (aproximadamente 15,6% dos ETH) voltarem à circulação, aumentarem repentinamente a oferta e, por tabela, impactarem os preços. E esse é o grande medo do mercado.
Mas será que isso realmente é possível?
Shanghai Capella (Shapella): o que é a atualização
Tecnicamente falando, a atualização altera algumas formas de execução da Ethereum (Shanghai) e no modelo de consenso (Capella). Por isso, a etapa de atualização ficou apelidada de Shapella.
Em outras palavras, foi adicionada a possibilidade de investidores que colocaram seus ativos em staking poderem retirar seus ativos da rede e também de solicitar o saque automático das recompensas.
Essa mudança foi implantada na última quarta-feira (12), e podemos dizer que ainda está em andamento.
Blocos da rede da Ethereum
Fonte: Beaconchain.in
Na imagem acima, temos alguns blocos marcados em vermelho, o que indica que estão falhando na operação. Isso ocorre, pois todos os validadores precisam atualizar seus softwares e se adaptarem. Os validadores que não o fizeram falham no processo. No primeiro dia, já tínhamos cerca de 98% de eficiência.
Porém, ao contrário do que muitos influenciadores e a mídia estão falando, esse saque não vai ser repentino, porque foram impostas algumas condições, como o limite de apenas 16 saques por bloco (total de 115.200 por dia), e também existe um número máximo de ativos que serão liberados para saque por dia.
Além disso, conforme o número de validadores da rede diminui, o máximo permitido de saídas de validadores por dia também cai, como mostra o gráfico abaixo.
Máximo de saída por dia dependendo do número de validadores
Fonte: Ethereum
Atualmente, estamos na faixa de 524 mil a 590 mil validadores, por isso, o número máximo de ETH que podem ser sacados por dia é de 58 mil ETH. Considerando o volume diário, é um número relativamente pequeno, já que, no momento, temos cerca de 17,26 milhões de ETH em staking.
Dados do staking de ETH
Fonte: Token.Unlocks
Devido a esse limite de saque por dia, temos cerca de 1,1 milhão de ativos (US$ 2,3 bilhões) pendentes esperando na fila para serem sacados, referentes a 463 mil investidores.
A fila de fato está cheia, mas repare que, mesmo se os 1,1 milhão de ativos fossem resgatados imediatamente, isso representaria apenas 6,37% do total de ativos em staking. Além disso, atualmente, já temos mais de 120 milhões de ETH em circulação, ou seja, seriam menos de 1% do total de ativos. Por isso, acredito que, mesmo no pior dos casos, isso não seria capaz de influenciar muito o valor do ativo.
Além disso, existem dois tipos de saldos para saques: dos ativos que foram depositados (Principal) e o rendimento do staking (Reward). Estima-se que cerca de 1 milhão de ETH tenham sido pagos como recompensa, ou seja, basicamente podemos considerar que só estas estão sendo retiradas, e não o depósito principal, dado confirmado pelo gráfico abaixo.
Saques solicitados do Principal de Reward
Fonte: Token.Unlocks
Como podemos ver, os saques estão ocorrendo, porém, em sua grande maioria, são dos rendimentos (gráfico em laranja, Reward), enquanto o saque dos ativos depositados (gráfico em amarelo, Principal) seguem bem baixos.
Também podemos ver o padrão de saques (praticamente só de rendimentos) se repetir nas barras futuras, que representam a fila deles. Além disso, é possível observar como o volume de saques também está caindo com o passar do tempo.
Por que os investidores não sacam os ativos?
Além do fator limitante da rede, também temos outros fatores extremamente relevantes que desmotivam as pessoas a pegarem de volta seus ativos.
Imagine a pessoa que deixou seus ETH em staking entre 2020 e 2021 totalmente sem expectativa de quando poderia recuperar seus ativos. Você acha que esses investidores têm confiança no projeto? Eu diria, com certeza, que confiam cegamente.
Além disso, com todo o histórico de atraso na entrega das atualizações da rede da Ethereum, você acha que esses investidores iniciais estão preocupados com o curto prazo? Com certeza, não.
Portanto, o primeiro motivo de os ETH não estarem sendo sacados é pelo fato de esses investidores pensarem no longuíssimo prazo. Uma prova disso é que grande parte desses investidores compraram seu ETH a preços abaixo de US$ 2 mil.
Faixa de preço dos ETH colocados em staking
Fonte: Nansen.ai
Por um lado, esses investidores antigos poderiam querer embolsar algum lucro, já que atualmente temos o ETH em US$ 2.100. Por outro lado, o mercado está em baixa, o que daria um lucro relativamente pequeno, por isso, não seria interessante vender o ativo agora. Já a outra metade dos investidores está no zero a zero ou no prejuízo, o que também inviabiliza vender seus ativos agora.
Outro fator não é referente aos saques, mas, sim, aos depósitos, que aumentaram depois da atualização. Isso acontece porque agora a rede ficou mais atrativa para quem queria participar do staking, mas tinha medo de seus ativos ficarem presos por tempo indeterminado. Agora, esse medo praticamente não existe mais, e tal bloqueio de ativos só deve ocorrer novamente se alguém encontrar alguma falha na atualização.
Depósitos versus saques
Fonte: Nansen.ai
Em um primeiro momento, aparentemente, temos muito mais saída de ETH (barras laranjas) do que entradas (verdes). Mesmo assim, podemos dizer que as saídas não estão tão altas. Antes da atualização, tínhamos cerca de 15,6% dos ETH em staking, e até o dia 16 de abril, quatro dias depois da atualização, caiu apenas para 15%.
O ritmo de saque foi levemente amenizado pelo fato de as entradas terem aumentado bastante, compensando boa parte dos ativos que foram sacados. Como comentei, a confiança no projeto cresceu e gerou mais flexibilidade, atraindo mais investidores.
Por isso, o medo de os ETH serem despejados não está se confirmando, pelo contrário, o ETH se apreciou mais de 10% depois do sucesso da atualização e está conseguindo se manter acima dos US$ 2 mil.
Comparativo entre preços, validadores e saques de ETH
Fonte: Tokens.Unlocks
Vale lembrar que toda atualização tem seu risco, e o mercado estava extremamente cauteloso com esse próximo passo da Ethereum. Só neste ano, o ETH ficou 20% abaixo em relação ao desempenho do BTC, mas agora está correndo atrás do prejuízo.
Próximos passos
A expectativa do rendimento proporcionado pelo staking tende a diminuir conforme se aumenta o número de ETH depositados na rede. Isso porque, caso um alto volume tenha saído da rede, um rendimento maior tende a atrair novos investidores. Além disso, o número de ETH produzido é constante, e quanto mais investidores, mais ETH precisam ser distribuídos proporcionalmente.
Estimativa de retorno por validador
Fonte: Glassnode
Atualmente, o rendimento está entre 4,2% e 5%, a depender do jeito que foi colocado. Com o aumento da confiança na rede com o passar do tempo, já é capaz de, nas próximas semanas, os depósitos superarem os saques.
Na próxima etapa, nomeada de The Surge, vão ser implantadas as blockchain fragmentadas, que podemos definir como uma divisão da blockchain principal em 64 menores. Essa estratégia colabora para que novos nodes, com computadores menos potentes, participem da rede e aumentem a sua descentralização.
Mesmo com a sua saída da rede, ETH segue sendo de longe o ativo com maior capitalização em staking, com US$ 36,6 bilhões, e deve continuar na liderança por muito tempo, já que, mesmo que 100% de ADA ou SOL seja colocada em staking, não conseguirá alcançar o valor financeiro já depositado na Ethereum.
Ranking de staking
Fonte: StakingRewards
Levando em consideração o percentual de ativos em staking, hoje, os 15% da rede da Ethereum são relativamente baixos – outro motivo que mostra que ETH tem margem para aumentar o número de ativos colocados em staking.
Conclusão
O principal cuidado que devemos ter nesse momento é que toda atualização tem seu risco. No caso da Ethereum, ela possui uma rede de teste, a Goerli, na qual a funcionalidade foi testada por cerca de três meses antes de ser aplicada na rede principal. Por isso, esse risco certamente diminui bastante, mas claro que ele ainda existe.
Já o risco de despejo dos ativos sacados é mínimo, pois foram implantadas limitações de saques. Mesmo assim, a estimativa por enquanto é que somente pouco mais de 1% dos 15,6% sejam efetivamente retirados.
Porém, isso não significa que serão vendidos, já que também podem ser utilizados para investir em DeFi (finanças descentralizadas) ou até mesmo aproveitar o período de baixa dos NFTs (tokens não fungíveis).
No curto prazo, até podemos ter algum aumento na volatilidade, mas dentro de um mês, o cenário deve se estabilizar, e os depósitos já devem quase se igualar aos saques, devido ao aumento da confiança no projeto e maior flexibilidade para os investidores.
Forte abraço,
Thales