No relatório de hoje, trazemos, com o apoio do time de ações da Spiti, as revisões da tese de investimentos de Taesa (TAEE11), além do novo preço-alvo para a empresa.
Antes de mais nada, já vamos deixar claro que a Taesa continuará fazendo parte da nossa carteira Renda Total, representando 5% dela. Junto com Itaú Unibanco (ITUB4), a transmissora foi uma das nossas primeiras recomendações na série, pois já sabíamos do poder que o setor a que pertence possui, tanto em previsibilidade de receita quanto em trazer calmaria e estabilidade em momentos de oscilação no mercado. E, em 2021, esses benefícios ficaram evidentes.
No ano passado, foi comum vermos notícias que divulgavam a situação crítica do nível dos reservatórios e da geração de energia elétrica. Porém, o segmento de transmissão passou por esse período turbulento praticamente intocado, justamente por conta da natureza de seu negócio.
Fonte: G1
Com registro da pior seca dos últimos 91 anos no Brasil, o setor elétrico passou por momentos difíceis, com os níveis de reservatórios de chegando próximo ao que chamamos de “volume morto” ou reserva técnica de água.
Essa situação, apesar de ter sido grave para o setor de geração de energia (principalmente hidrológico) e para as distribuidoras, que chegaram a aplicar a bandeira tarifária vermelha nível 2, praticamente não afetou as transmissoras.
Por possuírem contratos de concessão de 30 anos com a Receita Anual Permitida (RAP) corrigida por índices de inflação e terem seus pagamentos com base na disponibilidade da linha, independentemente do volume de energia transportado, as transmissoras não foram afetadas pela situação caótica que o setor vivenciou no ano passado.
Com previsão de dividendos estimado pelo mercado de 7,24% e um novo preço-alvo calculado pelo time de ações da Spiti no valor de R$ 40, a Taesa continuará com espaço reservado na carteira Renda Total.
Antes de partirmos para sua revisão, vamos falar um pouco da história da empresa.
Quem é a Taesa?
A Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A., como também é conhecida a Taesa, é um dos maiores grupos privados de transmissão de energia elétrica do Brasil em termos de Receita Anual Permitida (RAP).
A companhia é exclusivamente dedicada à construção, operação e manutenção de ativos de transmissão, com 11.685 km de linhas em operação e 1.965 km de linhas em construção, totalizando 13.650 km de extensão e 97 subestações.
Adicionalmente, possui ativos em operação com presença em todas as cinco regiões do país (18 estados e o Distrito Federal) e um Centro de Operação e Controle, localizado em Brasília.
Atualmente, a Taesa detém 39 concessões de transmissão: 10 concessões que compõem a empresa holding (TSN, Novatrans, ETEO, GTESA, PATESA, Munirah, NTE, STE, ATE e ATE II), 10 investidas integrais (Brasnorte, ATE III, São Gotardo, Mariana, Miracema, Janaúba, Sant’Ana, São João, São Pedro e Lagoa Nova) e 19 participações (ETAU, Transmineiras e os Grupos AIE e TBE).
Fonte: Taesa
Governança corporativa
Fontes: Taesa e Spiti
A Taesa se encontra no Nível 2 de governança corporativa da B3 e possui direitos econômicos iguais nas classes de ações: dividendos iguais para as ações preferenciais e ordinárias e tag along (mecanismo de proteção ao acionista minoritário) de 100%. Esse mecanismo significa que o acionista minoritário receberá exatamente o valor por ação recebido pelo controlador no caso de venda da empresa.
As ações da companhia são negociadas na B3 sob os códigos TAEE3 (ações ordinárias – ON), TAEE4 (ações preferenciais – PN) e TAEE11 (1 Unit = 1 ON + 2 PN).
O controle acionário da Taesa é exercido pela Cemig e ISA Brasil, havendo acordo de acionistas entre os controladores, com participação de 63% no capital votante.
A Cemig já anunciou que pretende vender a sua fatia da Taesa. Entretanto, a Cemig prefere aguardar a finalização de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa de Minas Gerais antes de seguir com o negócio.
Política de dividendos
De acordo com o Estatuto Social da companhia, acionistas têm direito a um dividendo anual não cumulativo de pelo menos 50% do lucro líquido ajustado do exercício.
A Taesa tem apresentado um histórico de pagamento de dividendos bem acima da remuneração mínima.
Perspectivas do setor elétrico brasileiro
Depois de um ano complicado como 2020, o ano de 2021 ainda trouxe alguns resquícios dos efeitos da pandemia de Covid-19 e todas as medidas que foram tomadas para seu enfrentamento.
Além disso, o país se viu diante da pior seca dos últimos 91 anos e uma das piores crises hídricas de sua história, reacendendo alertas sobre a possibilidade de “apagões” e de racionamento por parte da população.
Esse agravamento do quadro do setor elétrico demandou que algumas medidas emergenciais fossem tomadas, como: (i) acionamento das termelétricas (que possuem um custo mais alto); (ii) importação de energia de países vizinhos; (iii) vedação à suspensão do fornecimento de energia em razão de inadimplência; (iv) a operacionalização da chamada Conta-Covid (operação financeira para diluir o reajuste nas tarifas de energia do consumidor e dar liquidez às distribuidoras); (v) a instituição de programas voluntários de redução do consumo de energia elétrica; dentre outras medidas.
Consequência desse cenário mais grave foi a elevação das tarifas de energia elétrica com o acionamento das bandeiras tarifárias, que foi agravada com a desvalorização cambial (que impactou a tarifa da Itaipu Binacional) e pelos índices inflacionários brasileiros que atingiram patamares elevados.
Entretanto, o setor elétrico se manteve aquecido com vários processos de fusões e aquisições, além de ter ocorrido o início do processo de desestatização da Eletrobras (que atua no segmento de geração, transmissão e distribuição).
Além disso, o ano de 2021 contou com a realização, pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), de dois leilões de transmissão e de leilões de compra e venda de energia elétrica.
O primeiro leilão de transmissão garantiu R$ 1,3 bilhão em investimentos para a implantação e desenvolvimento de 515 km de linhas, além de subestações com capacidade de transformação de 2.600 megavolt-amperes (MVA) distribuídos em seis estados, que são os seguintes: Acre, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Rondônia, São Paulo e Tocantins.
No segundo leilão são previstos R$ 2,9 bilhões de investimentos privados e criação de 6.607 empregos diretos, com a construção e manutenção de 902 km em linhas de transmissão e de três subestações. As concessões têm prazo de 30 anos e estão localizadas em cinco estados: Amapá, Bahia, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.
O ano de 2022 deve ficar marcado como o ano de uma das maiores operações (senão a maior) de desestatização da história do setor elétrico brasileiro. Adicionalmente, o ano também pode ficar marcado pela instituição de um novo marco regulatório no setor, dado que a pauta da modernização do setor elétrico já vem sendo discutida há pelo menos uns cinco anos pelos órgãos, instituições e agentes do setor.
Existem dois projetos de lei que estão com tramitação avançada no Congresso Nacional, que propõe revisão nas regras setoriais, fundamentados, especialmente, na ampliação do acesso ao Ambiente de Contratação Livre (ACL) e tratando de temas como alterações nas regras aplicáveis aos autoprodutores de energia e novas medidas para que as concessionárias de distribuição tenham maior gestão de seu portfólio de compra de energia elétrica.
Em relação ao suprimento de energia em 2022, estudos realizados pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) indicam que em um horizonte até maio de 2022 o subsistema Sudeste/Centro-Oeste alcance 58% de armazenamento. Com a recomposição gradual dos reservatórios, que deve ocorrer até abril, a projeção é que eles cheguem ao período seco de 2022 com mais água do que havia em nesta mesma fase do atual ano. O diretor-geral do órgão destacou outras razões para o otimismo, como o aumento da capacidade energética, com a entrada de mais 10 mil megawatts de energia nova no sistema e mais linhas de transmissão, favorecendo trazer mais energia do Norte e do Nordeste para o Sudeste.
Além disso, de acordo com um plano de médio prazo elaborado pelo ONS, o sistema elétrico brasileiro demandará investimentos de R$ 23,9 bilhões em obras de transmissão de energia até 2026, sendo que R$ 16,3 bilhões deverão ser destinados a novos empreendimentos.
Fonte: ONS
Para o ciclo 2022-2026, o conjunto de obras indicado pelo ONS soma 7.951 km de novas linhas de transmissão pelo país, além de 20.046 megavolt-ampere (MVA) em capacidade de transformação adicional em subestações, que representam acréscimos de 4,3% na extensão da rede de linhas de transmissão e de 4,5% na potência nominal instalada em transformadores na rede existente.
Segundo o relatório, o planejamento prevê um aumento da capacidade de exportação de energia do Nordeste, tendo em vista o potencial da região para a geração eólica e solar. Entre 2022 e 2026, o ONS estimou que a exportação máxima do Nordeste poderá atingir 15.400 megawatts (MW) médios em 2026 ante 11.000 em 2022.
O relatório ainda projeta que a energia solar fotovoltaica centralizada (grandes usinas) terá crescimento significativo, mais que dobrando a capacidade instalada no horizonte 2021-2025, dos atuais 4,5 GW para 9,2 GW.
Para o fim de 2025, o ONS estima que a capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN) totalizará 191,3 GW. Desse total, 36 GW se referem a usinas de geração eólica e fotovoltaica – esse número pode chegar a 52,4 GW se consideradas as usinas com o Contrato de Uso do Sistema de Transmissão (CUST) assinado e pareceres de acesso válidos ou em andamento no ONS.
Fonte: ONS
Em relação à carga de energia, o ONS prevê um crescimento de 20% em 2026 ante 2020, usando o conceito de demanda máxima não coincidente – usado especificamente para estimar demandas que acontecem em horários e meses diferentes.
Perspectivas para a empresa
A Taesa mantém seu foco e atenção na entrega dos cinco empreendimentos em construção com uma RAP total de R$ 399,6 milhões (ciclo 2021-2022, considerando apenas a participação da própria companhia). Vale mencionar que ela já realizou R$ 3,4 bilhões de investimentos nos projetos greenfield, sendo R$ 2,4 bilhões somente entre 2020 e 2021.
Fonte: Taesa
Fonte: Taesa
O empreendimento da concessão Janaúba, que entrou em operação comercial no dia 1º de setembro de 2021, já apresentou impacto positivo no resultado do terceiro trimestre de 2021 (3T21). O projeto foi entregue com 5,5 meses de antecedência ao prazo limite exigido pela Aneel e uma eficiência no volume total de investimento em torno de 18% em relação ao capex Aneel, passando então a adicionar o valor de R$ 213,6 milhões de RAP para a Taesa.
Janaúba é o maior projeto greenfield entregue pela companhia até o momento, localizado entre os estados de Minas Gerais e Bahia, com extensão de 545 km de linha. Ele é responsável pelo aumento da capacidade de transmissão da interligação Nordeste-Sudeste, atendendo à necessidade de dimensionamento do Sistema Interligado Nacional de forma a escoar, sem restrições elétricas, a energia produzida nas novas usinas (eólicas e solares) da região Nordeste do país e permitir futuras expansões do sistema.
Em relação ao último leilão de transmissão realizado pela Aneel em dezembro/2021, em disputa direta com a Copel pelo lote 1 (trecho Paraná-São Paulo), a Taesa foi vencedora, ofertando uma RAP de R$ 129,9 milhões – equivalente a um deságio de 47,76% em relação ao valor máximo permitido. O investimento estimado para a construção do projeto é de R$ 1,7 bilhão, com prazo de conclusão de instalação de 60 meses.
O lote arrematado tem sinergias importantes, aproveita a estrutura de operação e manutenção existente na Taesa, além de previsões de otimizações de capex e antecipação de entrega do empreendimento, conforme habitualmente performado pela companhia. O resultado do leilão consolida o posicionamento estratégico da distribuidora como uma das maiores empresas de transmissão de energia elétrica do país e reforça seu foco nos pilares estratégicos de crescimento sustentável, geração de valor, disciplina financeira e eficiência operacional.
Segundo foi explicado pela empresa, para o planejamento estratégico que vai ser lançado em 2022, um dos principais pilares do novo plano será a expansão da carteira de ativos através da participação em mais leilões de transmissão da Aneel e de aquisições de projetos já existentes.
Conclusão
Nossa revisão do modelo de valuation de Taesa considerou o portfólio de concessões de transmissão atual e as reduções da RAP para determinados ativos conforme seus respectivos contratos. Vale ressaltar que, em nossas projeções, não consideramos os leilões previstos que devem ocorrer em 2022.
Em relação ao cenário macroeconômico, o modelo de precificação leva em conta o ciclo de elevação da taxa Selic. Veja a seguir o resultado da nossa projeção para a empresa nos próximos anos:
Fonte: Spiti
Sendo assim, reiteramos nossa posição de 5% da carteira Renda Total em Taesa e a recomendação de compra para TAEE11 com novo preço-alvo de R$ 40.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto