Tales não é um nome estranho para nós brasileiros, certo?
Mas o Tales a qual me refiro no título deste relatório nasceu quase 600 anos antes de Cristo.
Tales de Mileto – esta, cidade em que nasceu e que hoje corresponde a Turquia –, era um filósofo, matemático, engenheiro, homem de negócios e astrônomo. Belo currículo, não?
É dele o primeiro relato documentado de que temos notícias, sobre eletricidade.
Esfregando âmbar em tiras de couro, o primeiro material tinha a capacidade de atrair pequenos objetos a si, como algumas folhas. Essa força de atração foi gerada pelo magnetismo gerado pelo contato dos dois materiais, que nada mais é do que a transferência dos elétrons de um material para o outro.
Âmbar em grego é elektron, que acabou dando nome à partícula que origina a maior parte dos fenômenos elétricos, ou seja, ele mesmo, o elétron.
Mal imaginaria Tales – ou talvez tivesse até imaginado, dada sua sabedoria de filósofo –, que quase três mil anos depois gigantes instituições comercializariam aquela pequena força criada entre o simples contato e fricção de dois materiais. Claro, em seu processo mais robusto tecnológico.
O setor de energia elétrica é um dos favoritos quando o tema é dividendo, e eu vou te explicar o porquê. Antes preciso te dizer que esse setor é dividido em três segmentos: das geradoras, das transmissoras e das distribuidoras.
As geradoras têm a responsabilidade de produzir a energia elétrica e injetá-la na rede de transporte, ou seja, em linhas que vão levá-las às cidades e regiões onde serão consumidas. Elas podem ser termoelétricas, quando se utilizam do calor para gerar energia elétrica, ou hidrelétricas, que é o mecanismo de geração de energia elétrica pela força e pressão da água.
No Brasil aproximadamente 70% da geração de energia elétrica vem das usinas hidrelétricas.
As transmissoras têm a responsabilidade de literalmente transportar grandes quantidades de energia produzidas pelas grandes usinas, as geradoras. A interrupção de uma linha de transmissão pode afetar cidades inteiras e boa parte de alguns estados. São mais de 100 mil quilômetros de linhas de transmissão espalhadas pelo Brasil, e elas podem ligar as geradoras diretamente com grandes consumidores, como polos industriais ou, como é mais comum, às empresas distribuidoras.
As distribuidoras recebem a grande carga de energia elétrica das transmissoras e a distribuem para pequenos consumidores, como você e eu. Mas, convenhamos, depois do home office, eu passei a virar um consumidor médio de energia elétrica. Televisão, três telas de computador, videogame, caixa de som, enfim... Sei que aumentou muito o meu consumo, mas isso não vem ao caso. Continuemos.
Fonte: Brasil Escola
Ficou difícil de entender? Vou dar um exemplo.
Pense nas geradoras como a fábrica da Coca-Cola. Elas são responsáveis por produzir o refrigerante, somente isso. Depois, passam a bola para as transmissoras, que podemos pensar como se fossem os caminhões de transporte. Eles se encarregam de transportae a Coca-Cola da fábrica até o centro de distribuição das distribuidoras, que podemos pensar como sendo os supermercados, os quais disponibilizam esse refrigerante individualmente para os consumidores.
Agora ficou mais claro, não?
Dentro dos três segmentos, você possui empresas que operam isoladamente em cada um deles e outras que operam nos três processos da cadeia, como é o caso da Eletrobras – ela gera, transmite e distribui a energia elétrica.
Mas, em contrapartida, você possui empresas como a Taesa (Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A.), cuja atividade principal é a transmissão de energia elétrica pelo Brasil inteiro.
Ela opera aproximadamente 14 mil quilômetros de linhas de transmissão de energia, e isso em 18 estados brasileiros.
A operação de uma linha de transmissão funciona com a concessão de determinados trechos de áreas sobre o comando da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para que a empresa possa construir as linhas de transmissão e cobrar pela realização desse serviço.
Segmento resiliente
O setor elétrico, assim como outros como o de saneamento e telecomunicação, possui receitas bem constantes. Isso acontece porque a demanda por esses serviços é menos impactada em momentos de crise.
Por exemplo: você deixou de falar ao telefone por conta da crise causada pelo novo coronavírus? Ou passou a beber água e tomar banho com menor frequência? Ou, ainda, começou a economizar energia elétrica depois do início da crise?
Olha, eu sei que pode ter pessoas que realmente passaram por situações tão desagradáveis do ponto de vista financeiro, que precisaram até tomar algumas medidas como as que citei acima, mas, no geral, mesmo que sua renda tenha caído, você não cortou despesas com suas necessidades básicas. E isso é que faz com que a receita desses setores seja tão estável.
Pode ser que você pense: “Mas, Gui, no ápice da pandemia, o governo declarou a suspensão da cobrança das tarifas de energia elétrica, ou seja, o setor foi afetado, não?”.
Essa é uma boa constatação, mas precisamos lembrar que o setor elétrico é regulado pela Aneel e, mesmo em casos isolados como o que vimos agora – que ,sim, afetam o resultado de curto prazo da empresa –, sempre existe a chance de que a agência reguladora (no caso, a Anel) compense essas perdas no futuro, com reajustes maiores, por exemplo.
Essa sensibilidade é necessária, pois trata-se de um serviço essencial para a população; portanto, em casos de extrema necessidade, a empresa sofre algumas consequências negativas, mas, por outro lado, esses efeitos não podem ser duradouros, visto que a “quebra” de empresas desse setor pode afetar a estabilidade do setor energético brasileiro, afetando a vida de milhares de pessoas em diferentes cidades e estados.
E por que gostamos tanto de Taesa?
Escrevo “gostamos” porque essa visão parte da área da nossa equipe de Bolsa, comendada pela Aline Tavares. O meu trabalho é encaixar essa visão dentro do cenário macroeconômico que tenho em mente.
A Taesa tem ao todo quase 14 mil quilômetros de linhas de transmissão por meio de 39 concessões. No mapa abaixo, você pode verificar onde estão localizadas as linhas de transmissão da empresa:
Fonte: Taesa
Receita previsível
Os milhares de quilômetros em linhas de transmissão garantem à Taesa uma receita previsível, e isso se dá pelo fato de que ela tem contrato com o governo atrelado à disponibilidade das suas instalações, e não à energia efetivamente transmitida. Isso faz com que, em momentos de queda na demanda por energia, a receita dela permaneça estável, sem grandes oscilações. Isso porque a disponibilidade da energia já foi acertada em contrato na concessão do trecho de transmissão.
A remuneração por contrato é chamada de RAP, mas não é nenhum estilo de música, não. Esse RAP significa Receita Anual Permitida.
Na tabela abaixo, podemos ver de onde vem a maior parte da receita da empresa, analisando os tipos de concessões a que ela tem direito:
Fonte: Taesa
A Taesa tem 68% da sua RAP – ou, simplificando, da sua receita – advinda da categoria 2 de concessões. O principal destaque para essa categoria é que a remuneração do contrato será corrigida pela taxa do IGP-M, o mesmo índice que corrige o preço dos aluguéis no Brasil.
O IGP-M acumula uma alta de quase 18% nos últimos 12 meses, portanto, podemos esperar reajustes positivos para a maior parte de sua receita nos próximos meses.
Todos os fatores que mostramos anteriormente fazem com que a Taesa apresente um ROE (Returno On Equity) anual constantemente acima de 20%. Caso não saiba, ROE, em português, significa retorno sobre o patrimônio líquido. Ele nos diz basicamente quanto de retorno a empresa consegue entregar em cima do próprio patrimônio.
Isso significa que, para cada R$ 100 investidos na empresa, ela tem a capacidade de devolver, através de lucro, mais do que R$ 20 em um ano.
Agora, duas perguntas que você deve estar se fazendo:
Taesa é uma boa pagadora de dividendos e tem potencial de continuar sendo?
Tem potencial de valorização no preço de suas ações?
Vamos responder à primeira pergunta:
A Taesa é conhecida como uma excelente pagadora de dividendos
Nos últimos anos, a Taesa realizou ótimas distribuições de dividendos a seus acionistas, com um payout de 90%. O payout mostra qual percentual do lucro líquido foi distribuído como dividendos para os acionistas. Você pode observar o histórico de pagamento no gráfico abaixo:
Na figura acima, podemos verificar que o payout sempre se mantém em níveis bem próximos a 90%, ou seja, a Taesa distribui quase todo o seu lucro em forma de dividendos, e, como a receita é bem estável, podemos concluir que os dividendos também o são de certa maneira.
Para afirmar isso, vamos olhar o dividend yield ou, em português claro, a taxa de dividendo.
Esse indicador nos mostra qual é o valor do dividendo em relação ao preço da ação. Ou seja, a cada R$ 100 investidos numa empresa, quanto em média eu recebi no ano como dividendo? Um dividend yield de 10% mostraria que a cada R$ 100 em ações da Taesa eu teria recebido R$ 10 em dividendos no ano.
Dá uma olhada no dividend yield dos últimos anos da Taesa:
Fonte: Taesa
Podemos notar que a Taesa mantém uma média muito boa de taxa de dividendo para os seus acionistas. Mas, antes de verificarmos o seu potencial de valorização, uma dúvida pode surgir na sua cabeça:
O nível de endividamento da empresa não pode atrapalhar o seu funcionamento?
Nos últimos anos, o nível de endividamento da Taesa subiu bem; hoje o índice dívida líquida (DL)/Ebitda está em 3.
O índice DL/Ebitda mostra qual é o tamanho da dívida da empresa frente aos lucros antes da cobrança de juros e impostos.
Dá uma olhada nas características da dívida da Taesa e no comportamento desta ao longo dos anos:
Fonte: Taesa
Apesar de o endividamento ter crescido bem nos últimos dois anos, dois fatores nos fazem ficar mais tranquilos quanto a isso.
O primeiro é que a maior parte da dívida (86%) é de longo prazo, com vencimento a partir do ano de 2026, e o segundo é que 80% da dívida está atrelada ao índice de preços do IPCA, quando a maior parte da receita está atrelada ao IGP-M.
Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula alta pouco superior a 3%, enquanto o IGP-M, como já vimos, chegou a variar quase 18%.
Sendo assim, não me preocupo com o nível de endividamento nesse momento e continuo vendo grande potencial de um bom ativo gerador de dividendo para a nossa carteira.
Potencial valorização?
Segundo a nossa incrível área de análise de ações da Spiti, a Taesa trabalha com um potencial de valorização de 22% dos níveis atuais de preço, considerando crescimento da receita líquida para os próximos anos assim, como um crescimento do lucro para os anos subsequentes. Isso sem considerar a remuneração dos dividendos, ou seja, se o cenário se confirmar junto com o pagamento de dividendos, você poderá observar um retorno superior a 26% no seu patrimônio investido em Taesa.
Já em um cenário pessimista, a ação poderia apresentar queda de 12% em seu preço.
Portanto, assim como Itaú Unibanco (ITUB4), a ação da Taesa (TAEE11) também apresenta assimetria positiva para quem investe no ativo, ou seja, o espaço para ganhos, segundo a nossa visão, é maior do que o espaço para perdas.
Abaixo você encontra a tabela de premissas utilizadas por nossa equipe de análise de ações para estimar o preço-alvo de R$ 34,20 para a ação da TAEE11.
Fonte: Spiti
Conclusão
A Taesa, portanto, apresenta as características necessárias para entrar em nossa carteira. Possui uma boa perspectiva de pagamento de dividendos e também apresenta um bom potencial de valorização.
Quando olhamos o preço da ação ao longo de 2020, podemos ver que, desde o ápice da crise do novo coronavírus, a ação subiu pouco mais de 15% contra uma alta de mais de 50% do Ibovespa, o que também nos dá maior confiança na inclusão da TAEE11 (ticker de negociação do papel na Bolsa) em nossa carteira de recomendados.
Sendo assim, acreditamos que uma exposição de 5% em TAEE11 em nossa carteira de dividendos da série Renda Total faça sentido para o momento atual.
Abraços,