Em tradução livre para o português: "Não julgue um livro pela capa"
Você já deve ter ouvido a expressão “não julgue um livro pela capa”. Pois bem, de forma sucinta, essa frase diz que apenas a capa não é capaz de expressar tudo que o livro tem a oferecer, muito menos sua qualidade como obra.
Em investimentos, podemos fazer uma analogia similar: não julgue um ativo pela taxa de dividendos. Olhar apenas esse valor na hora de analisar um ativo traz uma série de simplificações que pode comprometer a saúde financeira e o retorno de médio e longo prazos de uma carteira de investimento.
O ideal ao fazer escolhas em um portfólio é fazer uma análise completa, levando em consideração a exposição setorial e selecionando boas empresas com potencial de valorização no médio e longo prazos, sem deixar de lado, é claro, opções que têm um bom histórico de pagamento de dividendos.
Então, no relatório de hoje vamos trazer mais explicações sobre essa taxa tão importante para quem investe em uma carteira de renda e quais os principais pontos de atenção que se deve ter ao analisá-la.
Por fim, trazemos também as perspectivas atualizadas para o ano de 2022 em relação à taxa de dividendos (ou dividend yield, DY) das nossas ações recomendadas.
Vamos lá?
O que é dividendo?
Dividendo é uma das formas de que as empresas e fundos imobiliários se valem para distribuir lucros para seus acionistas (no caso de empresas) ou cotistas (no caso de FIIs). Importante ressaltar que as empresas também podem distribuir lucros de outras formas, como por exemplo juros sobre capital próprio (JCP) e bonificação.
Ainda que o dividendo seja fruto do lucro da operação, há pequenas diferenças em relação à origem. Um fundo imobiliário, por exemplo, depois de apurar lucro líquido, é obrigado a distribuir pelo menos 95% desse valor na forma de dividendos segundo as regras mais atuais.
Já uma empresa distribui seus dividendos apenas depois de pagar os impostos devidos e financiamentos, e reinvestir em sua estratégia de negócios. A partir dessa definição, pode distribuir o montante restante e conta com a flexibilidade de decidir quando quer fazer essa divisão e o valor a ser repassado.
Quando chega o momento de distribuir dividendos, a empresa precisa responder à seguinte pergunta: a minha operação agrega mais valor se eu adicionar mais dinheiro nela? Se a resposta for sim, ela tende a fazer investimentos mais pesados, já que deve ser uma empresa em ascensão ou consegue tirar muita rentabilidade da sua operação. Assim, ela pode optar por distribuir menos dividendos e investir mais na operação.
Já se a resposta para a pergunta for não, não faz sentido a empresa manter esse montante de lucros dentro da empresa. Sendo assim, ela tende a distribuir mais dividendos para seus acionistas.
Existe uma série de considerações a serem feitas antes de a distribuição de dividendos de determinada empresa ocorrer, e isso normalmente depende do estágio em que ela está. Companhias mais consolidadas no mercado, que possuem uma operação madura e uma estrutura sólida, conseguem distribuir dividendos de forma mais recorrente.
Então, conforme explicamos, a periodicidade do pagamento de dividendos de empresas é mais flexível e pode ocorrer a cada trimestre ou em períodos maiores. Já no caso de fundos de investimento imobiliário quem define o dia de pagamento do dividendo é a gestão do fundo e ele pode acontecer no fim ou no começo do mês, sendo assim, existe uma recorrência maior de dividendos.
Um último ponto: tanto o pagamento de dividendos de empresas quanto o de fundos imobiliários segue isenta de IR. A reforma tributária que está parada e sem andamento no Congresso visa fazer mudanças nesse ponto, mas atualmente segue como era antes da sua proposição:
- Dividendos provenientes de ações e de FIIs: isentos de Imposto de Renda
- A modalidade de distribuição através de JCP sofre taxação de 15%, retidos na fonte, antes de ela ser depositada na sua conta de investimento.
Com isso, vamos para o próximo ponto do relatório, que sempre é bom relembrar, sobre os perigos de escolher empresas ou FIIs pela taxa de dividendos.
A taxa de dividendo – ou dividend yield (DY)
A taxa de dividendo, também chamada pelo seu equivalente em inglês, dividend yield (DY), é uma taxa percentual calculada ao ano e obtida através da seguinte fórmula:
Agora, imagine dois ativos distintos: um possui uma taxa de dividendos de 8% ao ano e o outro, de 6% ao ano. Apesar da diferença de números, já pensou que ambos podem pagar a mesma quantia de dividendos, ou que mesmo o segundo pode pagar um valor maior em relação ao primeiro?
Isso se deve ao fato de que o seu preço no fechamento, o valor da cota ou da ação no último dia do período analisado, não está sendo analisado nessa comparação. Ou seja, olhar apenas a taxa de dividendos é algo danoso para uma carteira de investimentos!
Ignorar esse fato pode acarretar na escolha de um ativo que esteja perdendo valor de mercado e, como consequência, deixar passar uma boa oportunidade de investimento em outro ativo que tenha uma taxa de dividendos menor, mas que pode estar em um processo de valorização. Para que você entenda melhor isso, veja a tabela abaixo com dois ativos hipotéticos:
Fonte: Spiti
No exemplo acima, tanto o ativo A quanto o B estão pagando R$ 0,60 por cota ou ação por mês. Porém, o ativo A está com o valor de sua cota em crescimento no mercado, enquanto o valor do ativo B está diminuindo a cada mês que passa.
Mas repare também que o primeiro, apesar de manter o valor de seu dividendo em R$ 0,60 por cota ou ação, apresenta um processo de valorização bem consistente, enquanto o segundo tem uma queda no valor de sua cota ou ação, mas mantém o valor de seus dividendos.
No primeiro caso, o DY sai de 9% e vai para 7%, enquanto o segundo ativo começa com um DY de 9% que sobe até 12%.
Um investidor ou uma investidora que analise a sua carteira somente pela métrica da taxa de dividendos pode optar por manter um ativo que tende a se desvalorizar, mas ignorar outro com uma boa perspectiva de valorização.
Expectativa de dividendos das ações da carteira Renda Total para 2022
É possível obter a média da taxa de dividendos esperada pelo mercado para cada uma das ações que compõem a carteira da série Renda Total, e isso será fundamental para guiar a nossa previsão de dividendos e avaliar as recomendações durante o ano.
A taxa de dividendos esperada é mais crítica quando analisamos empresas, dado o maior número de variáveis no processo de pagamento de dividendos, conforme explicamos anteriormente. No caso de fundos imobiliários, o pagamento de dividendos tem uma maior recorrência por conta da natureza de sua operação.
Veja na tabela a seguir a média esperada de taxa de dividendos anual do mercado para a nossa seleção de ações:
| Empresa | Dividendo potencial estimado pelo mercado (2022) |
| Vale (VALE3) | 9,53% |
| B3 (B3SA3) | 5,89% |
| Minerva (BEEF3) | 4,64% |
| Taesa (TAEE11) | 7,24% |
| Itau (ITUB4) | 6,13% |
| Vivo (VIVT3) | 5,82% |
| Banco do Brasil (BBAS3) | 10,74% |
Fonte: Bloomberg
Conclusão
A escolha de ações e FIIs para compor uma carteira de renda não deve ser feita apenas com base na taxa de dividendos de cada ativo. Quando o investidor ou a investidora faz isso, retira da análise parte importante da equação, que diz respeito ao potencial de valorização ou desvalorização da empresa ou do fundo imobiliário, além do histórico e da estrutura que possui para fazer isso de forma sólida e contínua.
Para isso, existem diversas ferramentas de análise para controle e avaliação de performance, e uma delas é a taxa de dividendos média, ou seja, a previsão do pagamento de dividendos que o mercado calcula para determinado ano.
Dessa forma, neste relatório e na nossa aba de recomendações você encontra também as previsões dos pagamentos de dividendos das nossas ações selecionadas para o ano de 2022.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto