Provavelmente você se deparou, na semana passada, momento no qual a Selic subiu para 9,25% ao ano após a última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), com alguma notícia que falava como a Selic mudaria sua carteira de investimentos ou como você deveria se posicionar com essa recente mudança. Percebemos que muitos de nossos assinantes, através de nossas caixas de e-mails e lives, ficaram preocupados.
Com isso em mente, escrevemos este relatório para trazer um pouco de luz e tranquilidade sobre o tópico. Para isso, vamos começar explicando o que é e qual a função da taxa Selic. Além disso, vamos falar também quando e por que ela é alterada periodicamente.
E, por último e mais importante, vamos explicar até onde de fato a Selic afeta os investimentos e explorar outro tópico que também afeta muito os investimentos de riscos, e nem sempre é mencionado na mídia: as expectativas de juros futuros.
Sem mais delongas, vamos lá!
Selic: os grandes impactos da taxa básica de juros da economia
O termo Selic vem de Sistema Especial de Liquidação e Custódia. Esse sistema é uma infraestrutura do mercado financeiro administrada pelo Banco Central (BC), em que são negociados títulos do governo federal.
A principal função da taxa Selic é servir como referência de juros da economia. É o principal instrumento de política monetária do BC para controlar a inflação, já que tem influência sobre todas as taxas de juros do país, como empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras.
Além disso, existe a taxa Selic Meta, aquela que o Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, determina ser adequada para o momento dadas as condições atuais para assegurar a estabilidade de preços.
Fonte: Banco Central do Brasil
Assim, o BC opera no mercado de títulos públicos quando necessário para que a taxa Selic esteja em linha com as definições que o Copom define.
Quando a taxa é discutida e por que ela varia?
A cada 45 dias acontece uma reunião do Copom, que tem duração de dois dias. Após seu término, a taxa básica de juros do país é anunciada e entra em vigor no dia seguinte. Na semana passada (dias 7 e 8 de dezembro), aconteceu a reunião mais recente – a última do ano, inclusive.
Nas reuniões, é discutida para qual direção que o BC deve levar a política monetária considerando diversos fatores, dentre os mais importantes: a inflação corrente, as contas públicas, a atividade econômica no país e o cenário externo.
Em relação ao último encontro ocorrido na semana passada, o Copom decidiu por mais um aumento de 1,5% na taxa básica de juros:
Fonte: Banco Central do Brasil
Veja como a Selic Meta se comportou ao longo dos últimos 10 anos. Em seu nível mais alto, chegou a atingir mais de 14,25%, e nos menores níveis (durante a pandemia) chegou a 2%.
Fonte: Banco Central do Brasil
Já entendemos como a Selic atua a fim de controlar a quantidade de dinheiro disponível no mercado e os efeitos práticos na atividade econômica. A partir de agora, vamos explicar seus efeitos sobre os investimentos.
Efeito da escalada da taxa Selic nos investimentos
A taxa Selic afeta de forma direta a rentabilidade dos títulos indexados a ela, como os pós-fixados. Com o aumento da Selic, é comum ver um fluxo de investidores migrando para a renda fixa, tanto que, nesse último ciclo de alta da Selic, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) divulgou que fundos de investimento registraram recorde de captação líquida positiva no ano, que é a diferença entre as aplicações e os resgates, sendo que os fundos de renda fixa representaram 61% de toda a captação analisada.
Fonte: Anbima
Já os outros títulos públicos, como os prefixados e indexados à inflação, e investimentos como ações e fundos imobiliários (FIIs) são afetados majoritariamente por outros fatores, como riscos dos setores, projeções macroeconômicas, atividades econômica e um fator que vamos entrar no detalhe nesta seção: as expectativas de juros futuros e suas oscilações – veja a seguir.
Para entendermos essa dinâmica, observe a curva de juros projetada pelo mercado em dois momentos distintos: uma da semana passada, 9/12/2021, e outra do dia da aprovação da PEC dos Precatórios, em 25/11/2021:
Fonte: Broadcast
As curvas mostram duas projeções diferentes em cada um dos momentos de expectativas de juros futuros. Vale salientar que cada uma delas trata das previsões de juros para momentos futuros obtidos a partir dos valores praticados no mercado.
Como podemos notar, do dia 25 de novembro até o dia 9 de dezembro, houve uma queda significativa da perspectiva dos juros em todo o período, o que no setor financeiro é comumente traduzido como uma queda dos juros.
E quais as consequências disso?
Todos os índices de investimentos de risco do país tiveram uma performance positiva, enquanto o câmbio apresentou desempenho negativo:
Retorno acumulado – 25/11/2021 até 9/12/2021
| Ativo | Retorno |
| CDI | 0,32 % |
| Dólar | -0,83 % |
| Ibovespa | 1,70 % |
| IFIX | 4,80 % |
| IMA-B | 1,75 % |
| IMA-B 5 | 0,83 % |
| IMA-B 5+ | 2,68 % |
| IRF-M | 1,91 % |
| IRF-M 1+ | 2,46 % |
| SMLL | 1,09 % |
Fonte: Quantum
Importante ressaltar que, entre essas duas datas, tivemos dois acontecimentos importantes:
- Elevação da Selic em 1,5%;
- Redução das perspectivas de juros do mercado.
Notou que a elevação da Selic não impactou negativamente a performance do mercado? Uma elevação de 1,5% da taxa básica de juros na década passada era considerada um choque de juros. Inclusive, até nos dias de hoje continua sendo uma elevação relevante – lembremos que pouco menos de um ano atrás a taxa Selic estava em 2%.
Vale mencionar inclusive que, no dia da alteração da taxa Selic, o desempenho dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação não oscilou de forma negativa.
O que estamos querendo dizer é que uma elevação da Selic afeta a economia, sim – e muito! Ela é fundamental para o controle monetário e de preços. Porém, o fator que afeta de forma mais incisiva na performance dos investimentos de risco não é a taxa Selic em si, mas, sim, as perspectivas de juros futuros e as suas oscilações.
Então, tome cuidado caso veja notícias que afirmam que as mudanças da Selic vão afetar toda a sua carteira. Muitas vezes, o entendimento dos efeitos da elevação da Selic é limitado, ou até mesmo as manchetes são escritas de forma proposital, a fim de incitar ansiedade e preocupação em quem lê.
Quando você se deparar novamente com notícias assim, pare e lembre-se dos efeitos da Selic na economia e como seu papel é voltado para o controle da inflação, e que investimentos de risco possuem uma correlação mais forte com as perspectivas de juros futuros do que de fato com a variação da taxa Selic por si só.
Conclusão
Como vimos, a taxa Selic é a referência básica dos juros, sendo definida pelo órgão regulador monetário do país, o Banco Central, a partir do Comitê de Política Monetária (o Copom) a cada 45 dias, tomando como base os dados macroeconômicos mais relevantes do país e do mundo para fazer uma política monetária efetiva. O efeito principal da taxa é o de fazer a manutenção dos preços aos consumidores.
Essa taxa possui também outros papéis fundamentais na economia, pois dela são derivadas outras taxas do mercado financeiro, como as de empréstimos, financiamentos e rentabilidade de títulos indexados à Selic.
No entanto, é importante perceber que seu impacto nos investimentos tem um limite. Existem outros fatores que vão impactar mais, como por exemplo as expectativas de juros de longo prazo.
Essas expectativas são obtidas pela média praticada pelo mercado e variam dia a dia. Além disso, elas são apenas um dos diversos fatores que afetam os mercados financeiros e os investimentos de risco dentre vários outros, tais como os riscos setoriais e globais.
Abraços,
Gui Cadonhotto e Filipe Colus