Relatórios

Teoria e prática: as diferenças entre as análises do mercado e o que tem acontecido com a taxa de juros mediante ao novo arcabouço fiscal

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Fillipe Colus, Felipe Arrais em AÇÕES

6 min de leitura

Fonte: Shutterstock

Olá, assinantes do Spiti One!

Há basicamente três fontes de informação para quem busca entender o que está acontecendo com a economia brasileira, a política e os mercados: acadêmicos, participantes do próprio mercado e jornalistas.

Acontece que poucas pessoas entendem que a profundidade e o propósito da informação gerada por cada um deles é diferente.

Quando lemos um artigo acadêmico ou uma coluna elaborada com base em um estudo de um/a economista sobre alguma característica de nossa economia, precisamos entender uma coisa: essas informações provavelmente foram muito bem trabalhadas e detalhadas. Uma pessoa (em vários casos, um grupo delas) dedicou horas e horas na elaboração desse estudo, porém, com o aprofundamento de cada aspecto e dado dessa pesquisa, ele pode muitas vezes ficar defasado frente à enxurrada de novas informações que são divulgadas todos os dias.

Existe a fonte que eu, Gui Cadonhotto, chamo de “mercado”, ou seja, os principais portais de notícias, assim como redes sociais e seus grupos formados por participantes do mercado financeiro. A ideia dessa fonte de informação é literalmente informar, ou seja, repassar tais fatos sem necessariamente entender o que está acontecendo. Qualquer detalhe importa.

Por último, existem os jornalistas. Conversam com políticos, participantes do mercado e economistas visando trazer algum bom insight sobre um tema de alta relevância no momento.

Todas as vezes que estou lendo alguma notícia, penso bem sobre qual a fonte dessa informação, isso porque, dependendo de onde ela veio, tem um objetivo diferente.

Um acadêmico normalmente visa trazer contribuição relevante para algum problema enfrentado pelo país ou por parte da população. De alguma maneira, é claro, esse problema pode afetar alguns ativos brasileiros, mas é importante lembrar que esse não é o foco dessa pessoa.

E por que eu trouxe essa análise inicial? Porque, neste relatório, vou mostrar que diferentes segmentos têm mostrado pontos de vista distintos em relação ao futuro da economia nacional, e o que você precisa de fato observar, diante de tanta informação, na hora de monitorar seus investimentos.

Ainda que seja fundamental entender os rumos do Brasil, nosso foco aqui serão os ativos.

O arcabouço fiscal na visão de diferentes segmentos

Vamos olhar brevemente para a questão do arcabouço fiscal no país.

É um tema amplo que, apesar de abordar o equilíbrio das contas públicas do Brasil, vai impactar nossa inflação, taxa de juros, dados de emprego e por aí vai. Ou seja, tende a afetar a economia brasileira e a vida das pessoas. Logo, ele passa a ser objeto de discussão e estudo de muitos estudiosos ao redor do país.

Acontece que o arcabouço também trará impactos para os ativos brasileiros, como juros, câmbio, Bolsa, fundos imobiliários e tudo mais.

É importante, porém, salientar uma coisa: acadêmicos se restringem ao impacto e ao benefício que isso trará para o país e para a sociedade segundo seus estudos e pontos de vista.

E por que é essencial ressaltar esse ponto?

Dependendo do objetivo de cada fonte de informação, a percepção pode ser muito diferente sobre o mesmo tema.

Veja a opinião sobre a nova proposta de arcabouço fiscal de dois dos maiores economistas do país: Fabio Giambiagi, especialista em finanças públicas e atualmente faz parte Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), e Marcos Lisboa, doutor em Economia, presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica:

Fonte: O Globo

Fonte: Investe News

Você pode até tentar relativizar, mas é difícil negar que a percepção de dois dos nossos maiores economistas em atividade é negativa frente à proposta de arcabouço fiscal que nos foi apresentada.

Dito isso, muitas pessoas têm nos perguntado:

“Então, o Brasil vai passar por mais um período desafiador para os nossos ativos?”

Não necessariamente.

É aí que entra o objetivo de cada segmento.

O economista acadêmico tem um objetivo claro: resolver um problema de nossa economia e melhorar a vida das pessoas, e normalmente essa visão é acompanhada de uma perspectiva de médio e longo prazos.

O economista diz se é bom ou ruim e se de fato aquela atitude irá resolver seu problema de maneira definitiva.

Mas existe uma outra visão sobre esse mesmo tema?

Sim, a visão do mercado.

Os participantes do mercado procuram encontrar as razões e causas para que a medida em questão possa iniciar um ciclo mais positivo ou negativo para os investimentos. Geralmente, o foco não é de prazo tão longo quanto o analisado por economistas acadêmicos.

Os participantes de mercado querem entender se, no caso atual, a proposta de arcabouço fiscal vai ser suficientemente boa para que os juros possam cair nos próximos meses, iniciando um ciclo positivo para os ativos brasileiros, e assim se posicionar melhor a fim de capturar elevações relevantes no preço de títulos públicos, ações, fundos imobiliários, entre outros.

Essas pessoas sabem que provavelmente essa proposta de arcabouço fiscal não é perfeita? Sim, mas poucas de fato esperavam algo nesse sentido.

Há quem diga que pensar somente em como a proposta pode impactar os ativos brasileiros é mesquinho, mas eu discordo completamente.

Participantes do mercado são empregados, e assim como qualquer pessoa nessa posição, estão trabalhando.

Foram contratados por seus clientes ou empregadores por um motivo: entregar o melhor resultado possível para o recurso poupado, e é justamente isso que buscam fazer.

Logo, a avaliação dessas pessoas tem como foco muito mais o impacto do arcabouço nos ativos, se a proposta veio melhor do que se esperava, se ela será suficiente para abrir espaço para queda de juros, entre outros pontos relevantes.

Dito isso, veja a opinião de economistas que trabalham em gestoras de investimento e em assets e as diferenças em relação aos acadêmicos:

Fonte: O Globo

Fonte: O Globo

Não há como negar que a percepção do mercado é bem mais positiva que a visão de acadêmicos sobre a proposta de arcabouço fiscal, e ressalto novamente o motivo: os participantes do mercado dão um peso maior ao que vai acontecer nos próximos dois ou três anos, enquanto o acadêmico busca soluções para resolver um problema de longo prazo.

Mas e as notícias geradas por jornalistas e divulgadas nos veículos de imprensa?

O objetivo do jornalismo é informar, coletar, analisar e repassar a informação.

Mas é importante entender que veículos de comunicação por vezes possuem sua própria opinião e que, de certo modo, estas podem ser enviesadas.

A taxa de juros na “vida real”

Mas por que falamos tanto sobre as diferentes fontes de informação e, principalmente, sobre a percepção do mercado sobre a proposta de arcabouço fiscal até o momento?

Se observarmos atentamente as manchetes nos principais veículos de comunicação do Brasil, o saldo com certeza é negativo, ou seja, a percepção parece ruim em relação ao arcabouço fiscal apresentado e com as discussões presentes até o momento.

Acontece que, enquanto essa percepção negativa se espalha e se solidifica, isso aqui está acontecendo com os juros de longo prazo no Brasil:

Fonte: Broadcast

Os juros de 10 anos no Brasil saíram do patamar de 13,70% ao ano, o patamar mais alto dos últimos anos, para 12,30% a.a. – e isso em poucas semanas.

É uma queda relevante de taxa de juros futuros, movimento que foi acompanhado também pelas taxas dos títulos indexados à inflação no país:

Fonte: Tesouro Direto

As taxas do título público Tesouro IPCA+ 2045 estão no patamar mais baixo desde dezembro do ano passado, mesmo quando as notícias em relação à nossa estabilidade fiscal parecem estar cada vez piores.

E por que isso acontece?

Os preços dos ativos no Brasil estão se movimentando conforme a expectativa do próximo ciclo positivo do país, ou seja, de acordo com o cenário de corte de juros que se aproxima, e não em relação à expectativa de o Brasil resolver de uma vez por todas os seus problemas fiscais.

E é importante frisar isso, já que muitas pessoas (e talvez você seja uma delas) estejam se deixando levar pelo pessimismo demonstrado em muitas manchetes de jornais, mas o importante é entender o que de fato vem acontecendo.

O mercado esperava uma proposta de arcabouço fiscal mais flexível do que a apresentada recentemente por membros do governo federal. Sim, esses participantes acreditavam que o cenário de estabilização da dívida pública brasileira ficasse ainda mais distante do que ele parece estar hoje.

Além disso, estamos colhendo surpresas muito bem-vindas em nossa inflação. O IPCA acumula nos últimos 12 meses uma variação de 4,16%, patamar mais baixo desde outubro de 2020.

Fonte: Investing

Esses dois fatores aumentam consideravelmente a chance de observarmos nos próximos meses o início do ciclo de corte de juros, que só ainda não está mais tangível pela expectativa de inflação ainda pressionada para os próximos meses e anos.

Podemos observar isso no gráfico abaixo, que mostra a expectativa de inflação do mercado para os próximos meses:

Fonte: Bloomberg e Banco Central Brasileiro

No primeiro círculo vermelho (junho de 2020), a inflação esperada para os 12 meses seguintes era de 2,50%. Já no segundo (final de 2022), o índice de preços esperado para os 12 meses à frente era de 6,50%.

Hoje, depois de todo o alvoroço com o arcabouço fiscal, a expectativa de inflação para os próximos 12 meses é de 5,30%, destacado no círculo azul no quadro acima.

Conclusão

Acreditamos que um ciclo de corte de juros está próximo e deve ter início ainda em 2023, ainda que alguns segmentos, como a mídia especializada, apontem para um cenário econômico cada vez pior.

Lembre-se de que seu dinheiro deve estar “atento” ao que deve ser o próximo ciclo dos ativos no Brasil, e não se os problemas do nosso país serão resolvidos de uma vez por todas. Deixe essa discussão para os economistas.

Abraços,

Gui Cadonhotto e Filipe Colus

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.