Fonte: Arezzo
Olá, queridas e queridos assinantes da série Spiti One!
No relatório de hoje, apresentamos a tese de investimentos da Arezzo, uma empresa referência no segmento de calçados e bolsas, e que nos últimos anos começou a entrar numa nova fase, complementando o portfólio ao adicionar também o segmento de vestuário.
Nesse novo momento, a companhia está em um movimento de expansão dos negócios, tanto pela forma de fusões e aquisições (M&As) quanto na expansão geográfica, reforçando sua presença em todo território nacional e fortalecendo sua posição no exterior, principalmente nos Estados Unidos.
Vamos repassar o modelo de negócios?
Arezzo (ARZZ3): a casa das marcas
Fonte: Arezzo
Se tem uma coisa que eu, Aline, e minha mãe gostamos, definitivamente é comprar sapatos e bolsas. Toda vez que a gente precisa passar no shopping, uma das paradas obrigatórias é na Arezzo, pelo menos para dar aquela monitorada nas novidades ou repor alguns sapatos que já estão mais desgastados.
Mas o que pouca gente sabe é que a Arezzo hoje é uma empresa plural, que agrega muito mais do que apenas a marca de sapatos de mesmo nome. Se você tiver a oportunidade de passar por algum shopping perto da sua casa, vai notar que existem outras marcas que hoje também estão sob o guarda-chuva da marca: Schutz, Anacapri, Alexandre Birman e, mais recentemente, a Reserva.
Esses são só alguns exemplos das várias marcas que a companhia agrega hoje em seu portfólio, que está cada vez mais abrangente.
Mas quem é a Arezzo?
A Arezzo é uma das líderes no setor varejista de calçados, acessórios femininos, vestuários masculino e feminino no Brasil, possuindo 15 marcas reconhecidas nacionalmente em seu portfólio e caracterizando-se como uma “house of leading brands”:
- Arezzo;
- Schutz;
- Anacapri;
- Alexandre Birman;
- Fiever;
- Alme;
- Reserva;
- Reserva Go;
- Reserva Mini;
- Oficina Reseva;
- Ink;
- BAW Clothing®;
- My Shoes;
- Carol Bassi;
- Vans® (no final de 2019, a empresa passou a ser a distribuidora exclusiva da marca no Brasil);
- Troc; e
- ZZ Mall.
As marcas são comercializadas por meio de 783 franquias nacionais e internacionais e 167 lojas próprias, sendo cinco nos Estados Unidos, além de estarem presentes em cerca de 5.755 pontos de venda multimarcas no Brasil (números até junho de 2022).
Fonte: Arezzo
Setor de calçados e vestuário
Segundo o relatório setorial da indústria de calçados do Brasil de 2022, elaborado pela Abicalçados, o setor está entre os mais atingidos pela pandemia da Covid-19, com as vendas no varejo mundial registrando queda de 19% em 2020, e a retomada aos níveis pré-pandemia projetada apenas a partir de 2025.
Segundo o relatório, analisando as informações de produção, exportações, importações e consumo aparente, medidos em pares, houve redução em todas as categorias em 2020. A pandemia influenciou a confiança dos consumidores e fez com que agissem de forma mais cautelosa, além do aumento do desemprego e baixos níveis de investimento empresarial, que são fatores importantes e contribuem para contextualizar o cenário.
Fonte: Abicalçados
Ainda segundo o relatório, o ano de 2021 marcou a retomada da economia global com crescimento estimado de 5,9%, e, portanto, apresentando recuperação em relação ao ano anterior, quando registrou queda de 3,1%. Essa recuperação pós-recessão é a mais robusta em 80 anos. Entretanto, destaca-se que a recuperação se deu de modo desigual, com ritmo mais acelerado em economias emergentes, com realce para os países asiáticos, como a China (+8,1%) e a Índia (+9%). Na América Latina e Caribe, o crescimento foi de 6,8%, com as principais economias da região com desempenho menos dinâmico, o Brasil com variação positiva de 4,6%, e o México, de 5,3%.
Em 2021, as exportações mundiais totalizaram US$ 22,1 trilhões, caracterizando um crescimento de 27% versus 2020. Esse resultado contrasta com o movimento observado em 2020, quando o valor das exportações recuou 7,4% em relação ao ano anterior. Contudo, cabem algumas observações acerca do comércio internacional e sua adaptação a partir das interrupções nas cadeias de oferta e demanda, principalmente em 2020, e sua gradual reorganização em 2021.
Ainda segundo o relatório, três elementos que envolvem aumento de custos e atrasos logísticos a partir de 2020 foram destaques: (i) transporte marítimo desestruturado; (ii) elevação dos custos de frete; e (iii) aumento dos custos de matérias-primas.
Falando especificamente sobre Brasil, a produção de calçados estava em trajetória estável desde 2019, mesmo com a demanda interna mais desaquecida. Em 2020, houve uma queda expressiva na produção de calçados, de 18,4%, totalizando 734 milhões de pares, já que a indústria calçadista foi fortemente impactada pela pandemia. Por outro lado, no ano de 2021, a produção de calçados registrou crescimento de 9,8%, totalizando 806,3 milhões de pares. Apesar do aumento na produção observado no último ano, o resultado não foi suficiente para retomar os níveis produtivos pré-pandemia, ou seja, o total produzido em 2021 foi 10,3% menor do que o observado em 2019.
Para o ano de 2022, a previsão otimista indica produção de 828,1 milhões de pares (+2,7%), enquanto o cenário pessimista sinaliza 820,8 milhões de pares (+1,80%), dinâmica superior à observada nos últimos cinco anos. Contudo, comparando as previsões de 2022 com o cenário pré-pandemia (2019), caso o cenário otimista se concretize, a produção de calçados, em termos de pares, seguirá 7,9% inferior a 2019, e, no caso do cenário pessimista, será 8,7% menor.
Fonte: Abicalçados
Para 2022, segundo a associação, as expectativas de crescimento da produção e exportações brasileiras de calçados consideram as atividades econômicas do Brasil e dos Estados Unidos e o movimento da taxa de câmbio no Brasil, além da tendência de crescimento do setor. Os impactos esperados pelas empresas para 2022, a elevação dos custos e a falta de insumos continuam sendo os principais vetores de impacto na indústria calçadista.
Para 2022, 32% das empresas elencaram a elevação dos custos dos insumos como principal impacto negativo sobre o setor. Por sua vez, a dificuldade de contratação de trabalhadores e a indisponibilidade destes passam a ser o terceiro e quarto principais vetores para os respondentes.
Em 2021, os mesmos impactos foram classificados na quinta e sexta posições do ranking, respectivamente. Para 2022, 72% das empresas respondentes esperam sofrer o impacto em diferentes graus quanto à dificuldade de contratação de trabalhadores. Além disso, a redução da demanda e a dificuldade de acesso a crédito perderam posição no ranking de percepção de impactos em 2022 em comparação ao ano anterior.
Enquanto isso, a elevação do custo dos fretes internacional e nacional permaneceu nas mesmas posições na comparação. Por fim, ressalta-se que, ao se tratar de expectativas para o ano vigente, elas podem sofrer alterações ao longo do ano, conforme evolução da guerra na Ucrânia e dos seus impactos na demanda internacional, na elevação dos custos dos insumos/matérias-primas e no aumento do custo do frete internacional.
Fonte: Abicalçados
Como a macroeconomia afeta o varejo
A indústria de varejo é sensível a variações no poder de compra dos consumidores, ou seja, nas condições macroeconômicas que o país está vivendo.
Nesse sentido, o PIB, que nos anos de 2019, 2020 e 2021 apresentou variação de 1,2% e -3,9% e 4,6%, respectivamente, e a taxa média anual de desemprego, que registrou taxas de 11,1% e 14,2% e 11,1%, respectivamente, já refletia uma perspectiva econômica desafiadora no país antes da pandemia.
Outro dado extremamente sensível é a inflação. É possível perceber o seu impacto principalmente nas despesas das companhias, como salários, contratos de aluguéis e matérias de consumo, que, em sua maioria, são reajustados anualmente com índices atrelados ao IPCA ou IGP-M. A inflação (IPCA) apresentou variação de 4,31%, 4,52% e 10,06%, nos anos de 2019, 2020 e 2021, respectivamente.
O comportamento de compra do consumidor é outra variável importante a ser observada. As empresas estão constantemente avaliando quais são as demandas de seus clientes e quais tendências podem refletir em possíveis mudanças de comportamento de compra. Por isso, as companhias do setor realizam de forma recorrente pesquisas de tendências, inovações e satisfação com consumidores e potenciais consumidores também para entender em quais pontos podem melhorar na oferta de produtos e o serviço que prestam.
A sazonalidade é importante fator também. A indústria da moda é sensível às estações do ano e às tendências da moda. As companhias estão sujeitas à sazonalidade, com trimestres bem distintos, principalmente o quarto trimestre do ano. Os maiores faturamentos do varejo e e-commerce ocorrem nos meses de maio, junho, novembro e dezembro, impactados pelo Dia das Mães, Dia dos Namorados, Black Friday e Natal, respectivamente.
Outro fator que influencia a sazonalidade são as trocas de coleções de janeiro e julho. Outro ponto relevante são as liquidações, que geram um aumento nas vendas, porém podem trazer uma diminuição na margem bruta, uma vez que as empresas comercializam produtos com descontos em relação aos preços praticados logo após o lançamento das coleções. Dessa forma, os resultados das operações variam de acordo com o trimestre, dependendo do volume de vendas no período de promoção.
E, pra finalizar, o clima é outra variável-chave. O varejo de moda é suscetível às condições climáticas, especialmente durante os meses de inverno. Por exemplo, durante a estação mais fria, períodos prolongados de temperaturas mais altas podem deixar uma parte do estoque incompatível com tais condições inesperadas. Assim, períodos de clima alterado podem levar as empresas a comercializarem o excesso de estoques com descontos de preços, reduzindo assim as margens.
Perspectivas e valuation
O cenário macroeconômico desafiador dos últimos anos, com o início da pandemia e suas consequências econômicas, como a alta das taxas de inflação e de juros, serviu para demonstrar a resiliência e capacidade de repasse de preços das marcas que compõe o grupo Arezzo. No ano de 2021, a empresa atingiu uma receita líquida de R$ 2,9 bilhões, crescimentos de 84% versus 2020 e 74% versus 2019 (período pré-pandemia).
Tal desempenho tem sido pautado na estratégia de expansão de sua atuação no segmento de vestuário, em especial o feminino, no crescimento de suas operações no mercado internacional, nas vendas via e-commerce e multicanais, e na abertura de lojas próprias.
Com as aquisições das marcas Reserva e Carol Bassi, e com o lançamento da linha de vestuário da Schutz, a companhia tem conseguido expandir seu mercado endereçável de maneira relevante. Desde de que foi adquirida, a Reserva expandiu seu portfólio para o público feminino e recentemente lançou a Simples Reserva, uma submarca de vestuário casual para os públicos feminino, masculino e infantil, com portfólio complementar ao oferecido pela marca, e que possui um ticket médio inferior, com faixa de preço intermediária entre a Reserva e a Hering.
Já a marca Carol Bassi lançou o seu e-commerce no último mês de agosto e, até o fim deste ano, planeja realizar a abertura de três novas lojas. Considerando todas as marcas, a companhia tem como meta abrir cerca de 70 a 90 lojas em 2022, de forma a impulsionar o seu crescimento orgânico e aumentar sua exposição geográfica no país.
Outro pilar de crescimento se refere a possíveis novos licenciamentos (como da marca Vans, em que a empresa é a distribuidora exclusiva no Brasil) e M&As, visto que a Arezzo está desalavancada, com uma posição de caixa líquido (saldo em caixa maior do que suas dívidas), de cerca de R$ 360 milhões.
Em termos de valuation, projetamos que a companhia encerre o ano de 2022, com receita líquida de R$ 3,9 bilhões (+34,3% versus 2021), em 2023, alcance R$ 4,6 bilhões (+17,3%), e que, em 2024, atinja R$ 5,4 bilhões (+16,3%). Em termos de Ebitda, projetamos R$ 772 milhões para 2022 (+35%), R$ 789 milhões para 2023 (+2%) e R$ 951 milhões em 2024 (+21%).
Apesar de já ter subido cerca de 25% no ano, vemos Arezzo como um dos players mais bem posicionados no setor varejista, com marcas fortes e premium e com forte potencial de crescimento, tendo em vista suas iniciativas de expansão e sua estrutura de capital robusta.
Na análise relativa, a companhia negocia a um EV/Ebitda atraente para 2023, em 13,5x, em linha com a sua média histórica.
Dessa forma, reiteramos nossa recomendação de compra para ARZZ3, com preço-alvo de R$ 122.
Abraços,
Aline Tavares e Ana Luiza Erthal