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Olá, queridas e queridos assinantes da série Spiti One!
No relatório de hoje, vamos falar de uma empresa da Hypera Pharma (HYPE3), nossa representante do setor de varejo farmacêutico, que neste ano já tem o desempenho módico de “apenas” (contém ironia) 57%.
Pra relembrar um pouquinho o que essa empresa faz e como ela está conseguindo sequencialmente melhorar seus resultados, preparamos o conteúdo abaixo.
Vamos lá?
Hypera Pharma (HYPE3): uma nova era
Fonte: Hypera Pharma
Eu, Aline, sou daquelas pessoas que amam uma farmácia. Ao entrar em qualquer uma das dezenas existentes na rua onde moro, pode ter certeza de que eu vou sair de lá com pelo menos uma sacolinha.
Além de comprar os itens necessários, sempre acabo dando uma olhadinha na parte de dermocosméticos e produtos para cabelo, e sempre gosto de repor aqueles medicamentos básicos da gaveta de remédio – pra dor de cabeça, cólicas e gripe são os que não podem faltar lá em casa.
E existe no Brasil uma empresa que produz uma gama extensa de vários desses produtos que se encontram na farmácia. É a Hypera Pharma, atualmente a principal indústria farmacêutica em medicamentos isentos de prescrição, a quarta maior em produtos promovidos com a comunidade médica (produtos de prescrição) e a segunda em similares e genéricos.
Vamos relembrar quem é a Hypera Pharma?
A Hypera Pharma é uma das maiores empresas farmacêuticas do país e possui uma operação de larga escala e baixo custo centralizada no maior complexo farmacêutico da América Latina, no município de Anápolis (GO).
Fundada em 2001 com o nome Hypermarcas, assumiu em 2017 a nova marca corporativa, Hypera Pharma, evidenciando o novo momento da companhia.
A empresa hoje está dividida em cinco unidades de negócios:
- Consumer Health (OTC e adoçantes): OTC (over the counter, que significa "sobre o balcão") pode ser resumido em medicamentos úteis no alívio de pequenos sintomas ou incômodos, facilmente diagnosticados pelo próprio consumidor, como dores de cabeça, gripes e resfriados, acidez estomacal, entre outros. Tais produtos são distribuídos nas farmácias (canal farma), onde ficam expostos no autosserviço. Adicionalmente, a Hypera é líder no mercado brasileiro de adoçantes, com mais de 50% de participação de mercado, segundo dados da AC Nielsen.
- Produtos de prescrição: concentra ossegmentos de medicamentos RX (composto por medicamentos de comercialização restrita, de modo que o consumidor só pode adquiri-los na farmácia mediante apresentação de receita médica) e medicamentos OTX (medicamentos isentos de prescrição médica que são normalmente recomendados pela comunidade médica).
- Dermocosméticos: produtos com característica cosmética, mas com ingredientes ativos que apresentam propriedades terapêuticas, cujo objetivo é prevenir e/ou combater o envelhecimento da pele e que, por isso, requerem a prescrição de um dermatologista. Atuam sob as marcas Mantecorp, Bioage e Simple Organic.
- Similares e genéricos: concentra a atuação da companhia nos mercados de medicamentos similares e genéricos, em que está presente com a marca Neo Química.
- Mercado institucional: em 2021, a Hypera Pharma passou a atuar também no Mercado Farmacêutico Institucional, que compreende o Sistema Público de Saúde, além de clínicas e hospitais privados. A equipe conta com profissionais experientes, e a companhia já mapeou um pipeline de inovação para lançamento de mais de 70 moléculas nos próximos anos em oncologia, especialidades e biológicos, em complemento à sua atuação por meio da joint-venture Bionovis.
Fonte: Hypera Pharma
Perspectivas para o setor
O setor de medicamentos do Brasil é totalmente correlacionado com mudanças demográficas, econômicas, além de alterações na regulamentação e leis que regem o segmento.
Historicamente, a demanda por medicamentos está relacionada às faixas etárias, que vai aumentando entre pessoas de idade mais avançada. Adicionalmente, o aumento nos níveis da renda, a melhoria das condições de vida e do sistema de saúde, os avanços nos tratamentos médicos e o maior acesso da população aos medicamentos, aliados à redução dos níveis de desemprego, levaram a um maior nível de expectativa de vida tanto de homens quanto de mulheres, especialmente nos países mais desenvolvidos.
De acordo com dados da consultoria especializada IQVIA, o mercado de varejo farmacêutico tem crescido consistentemente acima do PIB nos últimos anos e mostrado a resiliência do setor em momentos mais desafiadores para a economia brasileira.
Fonte: Hypera Pharma
Segundo dados do IBGE, o número de habitantes do Brasil acima de 60 anos de idade, que constitui a parcela da população que mais consome medicamentos, equivalia a 11% da população em 2010. Já em 2021, essa faixa etária atingiu 14,7% do total, e deve chegar a 32% em 2060, segundo estimativas do instituto de estatística.
Fonte: Hypera Pharma
O aumento do número de habitantes do Brasil com mais de 60 anos desempenhará um papel importante na economia do Brasil, especialmente no que se refere a gastos com artigos de saúde e serviços médicos, devido ao aumento da demanda por assistência médica.
Ademais, o maior consumo de medicamentos também está intimamente relacionado à renda e ao padrão de vida, apresentando maior consumo per capita em países de economia mais desenvolvida. O gasto tende a aumentar com a melhoria a condição de vida das classes mais baixas, fato que já vem ocorrendo no Brasil nos últimos anos.
Fonte: Hypera Pharma
Outro fator de crescimento do setor foi a introdução dos medicamentos genéricos, vendidos a preços mais baixos do que os de referência, que estimula a demanda dos grupos de menor renda, aumentando significativamente o tamanho do mercado consumidor. Outro ponto importante a ser notado é o vencimento de patentes, que tem impacto positivo na indústria farmacêutica à medida que, após a perda dessa propriedade, podem ser lançados medicamentos genéricos e similares, criando maior concorrência no setor.
Em relação à parte de regulação, no Brasil a automedicação responsável é uma prática considerada eficaz pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), devido aos benefícios que ela pode proporcionar à população. A renda mais limitada de inúmeros brasileiros não permite que façam consultas médicas para a correta avaliação e prescrição médica. Desse modo, os consumidores normalmente vão às farmácias ou drogarias e descrevem os seus sintomas ao farmacêutico a fim de obterem a indicação do medicamento correto a ser usado.
A automedicação responsável beneficia o sistema de saúde, já que pode reduzir as despesas ou direcioná-las aos pacientes críticos. O aumento dos níveis de automedicação está relacionado também à ineficiência do sistema público de saúde no Brasil.
Concorrentes
Em relação às empresas do setor farmacêutico, as concorrentes mais relevantes da Hypera são Sanofi, EMS, Aché, Eurofarma, Novartis e Bayer. O principal diferencial da companhia é que, ao contrário de seus pares, ela possui participação considerável em todos os segmentos do varejo farmacêutico.
Fonte: Hypera Pharma
Valuation
Com as aquisições da família de produtos Buscopan e Buscofem, do portfólio de medicamentos da Takeda, que incluem Neosaldina e Dramin, e do portfólio de medicamentos da Sanofi, com marcas como AAS, Naturetti e Cepacol, a Hypera possui atualmente cerca de 20 power brands, marcas com faturamento anual acima de R$ 100 milhões.
A empresa está presente em todos os segmentos do varejo farmacêutico, com participação de 47% no mercado de OTC, 32% no mercado de RX, 14% em genéricos e 7% em dermocosméticos.
Esse portfólio diversificado e composto por marcas reconhecidas tem possibilitado com que a empresa acelere seu crescimento de receitas através da estratégia de extensão de linhas e, dessa forma, consiga diluir suas despesas com marketing, que passaram de uma representatividade de 19,8% da receita líquida no 2T21 para 16,5% no 2T22.
Outro fator importante para a maior diluição de despesas com marketing tem sido o crescimento da empresa no mercado farmacêutico institucional brasileiro (clínicas e hospitais públicos e privados), que, no último mês de maio, segundo fontes da IQVIA, detinha um tamanho de cerca de R$ 59 bilhões, com crescimento médio de 13% ao ano.
Como exemplos da estratégia de extensão de linha, podemos citar a marca Rinosoro, que, com a introdução de novos produtos ao longo dos anos, passou de um faturamento de R$ 17 milhões em 2002 para R$ 168 milhões em 2022, e da marca Benegrip, que atualmente possui um portfólio completo para toda a “jornada da gripe”, e que passou de um faturamento de R$ 36 milhões em 2002 para R$ 375 milhões neste ano.
Fonte: Hypera
Nos últimos doze meses encerrados em junho, a empresa investiu cerca de R$ 420,8 milhões em pesquisa e desenvolvimento, montante 13% acima do aplicado no mesmo período do ano anterior. Isso tem se refletido na melhora do índice de inovação, correspondente ao percentual da receita líquida proveniente de produtos lançados nos últimos cinco anos, que encerrou o 2T22 em 27% versus 21% no 1T22. Desde 2018, a companhia já lançou mais de 400 novos produtos, com destaque para Engov After, Colflex, Vabam e Ofolato.
No último trimestre encerrado em junho, foram realizados diversos lançamentos, como os de Buscofem Hot e Epocler Todo Dia, primeiras extensões de linha das marcas Buscofem e Epocler, da Bilastina – genérico da power brand Alektos – e da marca Ammy, contraceptivo livre de estrogênio, que marcou a entrada da companhia na categoria de contraceptivos e que possui um mercado potencial de cerca de R$ 2,5 bilhões, de acordo com a IQVIA.
Dentre os próximos lançamentos que a Hypera pretende realizar ainda em 2022, destaque para o primeiro Full Spectrum CBD do mercado brasileiro, medicamento indicado para tratamentos de epilepsia, depressão, ansiedade, insônia e dores, que possui um mercado potencial de cerca de R$ 5,9 bilhões, e para o Ondif, medicamento para náusea que vai concorrer com a principal marca do mercado, a Vonau, e que possui um mercado potencial de cerca de R$ 509 milhões.
Vale relembrar que, em outubro de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) reduziu o tempo de vigência das patentes para 20 anos, alinhando o país aos padrões internacionais, e, no caso específico do setor de saúde, encerrou as patentes já concedidas que excediam esse prazo de validade. Dessa forma, a companhia conseguiu antecipar e rentabilizar melhor alguns de seus lançamentos.
Atualmente, existem 453 projetos em estudo, com potencial de dobrarem o faturamento da empresa ao longo dos próximos anos, com destaque para as áreas de cardiologia, sistema nervoso e endocrinologia. Desse montante, 19% se enquadram na categoria “me first”, que consiste na estratégia de ser a primeira farmacêutica a lançar determinado produto após a queda da patente ou de ser a primeira a quebrar uma barreira tecnológica para a produção de um medicamento.
Em nosso valuation, incorporamos os resultados referentes aos dois primeiros trimestres do ano, e com base no pipeline de lançamentos e na capacidade de execução da companhia, projetamos receita líquida de R$ 7,4 bilhões para 2022 (+25,6%), R$ 8,7 bilhões para 2023 (+18%) e R$ 10,2 bilhões em 2024 (+16%). O Ebitda para este ano ficou em R$ 2,6 bilhões (+25,2%), para 2023, em R$ 3,1 bilhões (+16,2%), e para 2024, R$ 3,6 bilhões (+20,2%).
Em termos de análise comparativa, a Hypera negocia a múltiplos descontados em relação aos seus pares, com EV/Ebitda de 11,5x versus a média de mercado, de 17,9x, e P/L de 14,7x versus a média de 25,4x.
Reiteramos nossa recomendação de compra para HYPE3, com preço-alvo de R$ 56.
Abraços,
Aline Tavares e Ana Luiza Erthal